23 de jul de 2009

Turma da Mônica, jovem e consumista

Mônica e sua turma ficaram adolescentes e agradaram. É grande sucesso de vendas. Mas, continua mostrando uma sociedade que existe para poucos.

Em outubro de 2008, Mauricio de Souza completou 50 anos de carreira. Mostrou que continua talentoso e com ótimo faro para negócios. Lançou a Turma da Mônica Jovem. Renovou seu grande sucesso nacional e internacional. A primeira edição vendeu 200 mil exemplares. Os outros dois números venderam, juntos, 500 mil. A publicação ficou várias semanas entre as mais vendidas.

As razões são muitas. O estilo mangá, inspirado nos quadrinhos japoneses é uma delas. Trata-se de uma linguagem que caiu no gosto das crianças e adolescentes no mundo todo. A excelente equipe de roteiristas é outro trunfo há muitos anos. As histórias são dinâmicas, engraçadas, ligadas aos modismos do momento e em linguagem idêntica àquela falada pela maioria dos jovens.

As devidas adaptações foram feitas. E elas revelam muita coisa. Cascão agora toma banho. Sua atração pela sujeira transferiu-se para um jeitão bagunceiro e simpático. Cebolinha só troca letras quando fica nervoso. O que dá um certo charme ao homem em que ele vai se tornando. Magali continua faminta, mas segura a gula para cuidar do corpo. Mônica ainda é forte e mandona, só que sua personalidade a transformou numa líder.

Ou seja, as manias e características da turma mirim não a tornaram um bando de jovens problemáticos. Magali teria tudo para sofrer de obesidade mórbida. Cascão poderia ser o cara que não vai bem na escola e anda em más companhias. Cebolinha poderia transformar-se num jovem tímido e solitário. Mônica, uma pessoa autoritária e insuportável.

As preocupações com consumo também estão mais presentes. Nem tanto nas tramas. Passeios a lojas e shoppings até aparecem. Mas é mais sutil que isso. Continuam os episódios que mostram a luta do bem contra o mal e as confusões envolvendo situações cotidianas. A turma infantil usava sempre as mesmas roupas simples.

Já, a tribo adolescente veste roupas diferentes e bonitas em suas aventuras. Não é preciso convidar diretamente ao consumo. Basta mostrar que o padrão de beleza e dignidade que vale depende mais daquilo que se tem e não daquilo se é ou faz. Combater o mal e resolver os problemas do dia-a-dia, tudo bem. Mas com roupas de grife.

Claro que Mauricio e sua equipe não iriam retratar Mônica e seus amigos como jovens problemáticos. Não seria uma aposta feliz em termos de mercado. E o apelo ao consumo tem tudo a ver com um empreendimento que sempre soube vender sua marca. Em termos de qualidade de produção e capacidade de vendas, Maurício de Souza é o Walt Disney brasileiro.

Desde seus primeiros trabalhos em revista em quadrinhos, Mauricio soube se adequar ao mercado que nascia. Crescendo junto com a urbanização da sociedade brasileira. Acompanhando a ampliação da dimensão do consumo na sociedade. Beneficiando-se de uma expansão da indústria editorial que praticamente o tornou o único grande produtor nacional de quadrinhos. Um gênio criativo e comercial, sem dúvida.

Mas para chegar tão longe, sua obra só podia vender uma visão conformista da sociedade. O fato é que a Turma da Mônica sempre retratou uma realidade que nunca foi a da maioria das crianças e adolescentes. O bairro do Limoeiro não é rico, mas não é favela, nem periferia pobre. Quase toda a turma é formada por crianças brancas. Elas estudam em escolas bem arrumadas e contam com lazer e diversão. Vão a médicos e dentistas sem maiores dificuldades. Pra completar, Cascão, o garoto bom de bola e que não gosta de tomar banho, tem todo jeito de ser negro.

Não se trata de considerar Maurício um racista e sua equipe um bando de conservadores. No entanto, o mercado impõe condições duras para o sucesso. Não é preciso mais do que ficar no nível do senso comum para fazer o jogo dos poderosos. Muitas vezes uma certa crítica social aparece nas histórias. O problema é que isso é muito pouco em uma das sociedades mais injustas do planeta. É muito mais caridade que denúncia.

A verdade é que a turminha da Mônica tem sua parte de responsabilidade na manutenção da sociedade brasileira. Agora, ela se atualizou e o sucesso continua. Até porque as crianças e adolescentes têm cada vez mais poder nas decisões sobre o que a família consome. Infelizmente, é isso que acaba restando. Ensinar jovens e crianças a consumir, mesmo que isso lhes custe ficar cada vez mais cegos aos problemas sociais que as cercam.

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10 de jul de 2009

Jean Charles é correto, mas sua denúncia é limitada

Henrique Goldman fez um bom filme sobre a morte do jovem brasileiro, em Londres. Serve como denúncia. Mas, poderia ter deixado mais claro o papel do terrorismo de Estado e da intolerância racial.

Jean Charles é um filme bem feito. Realista, com o ritmo certo, roteiro redondo e bons atores. No elenco, destacam-se o sempre talentoso Selton Mello no papel-título e Luis Miranda, como Alex. O final do filme deixa claro quanta injustiça e covardia envolveram o caso. O que não fica tão evidente é o papel do Estado e do conservadorismo da sociedade inglesa em toda a tragédia.

O diretor optou corretamente por retratar Jean Charles tal como ele devia ser. Um jovem vindo de um país periférico, de família pobre, se virando para sobreviver em uma sociedade muito diferente da sua e pouco amigável em relação a estrangeiros. Nesse meio, Jean Charles usa todas as suas habilidades para se dar bem. É o caso da cena inicial em que ele mente descaradamente para conseguir o visto de entrada para sua prima. É o caso da traição que comete contra seu empregador e amigo. Para não falar da confusão que criou com os passaportes dos colegas de trabalho.

A seu jeito, o próprio Jean Charles explica a razão maior para isso tudo: “o sistema é bruto”. As dificuldades para chegar e se instalar em um país europeu considerado rico são enormes. Os recém-chegados são praticamente empurrados para a ilegalidade e para a utilização de expedientes pouco éticos. Ao mesmo tempo, há tolerância suficiente para que os patrões locais se aproveitem da situação e explorem a força-de-trabalho barata de pessoas com medo de ter sua condição irregular descoberta.

É a cara da globalização capitalista. A circulação de mercadorias é muito mais livre que a de seres humanos. E só fica menos complicada se as pessoas forem reduzidas a algo que deveria ser apenas parte delas: a força-de-trabalho.

E isso tudo se agravou depois dos ataques às Torres Gêmeas. Mais do que nunca, os que têm o cabelo crespo, usam turbante ou um véu, tornaram-se alvo fácil para todo tipo de ofensas. É o que mostra o filme, quando o cozinheiro italiano cospe nos sanduíches antes de servi-los a uma família com roupas muçulmanas.

Em alguns momentos, a obra de Goldman mostra toda essa brutalidade. Mas, não aborda, por exemplo, a dura escolha que, freqüentemente, se impõe a muitos imigrantes pobres que moram no chamado “Primeiro Mundo”.

Por um lado, há imigrantes que optam por permanecer entre seus semelhantes. Às vezes, há bairros inteiros em que vivem pessoas da mesma origem nacional. Formam comunidades em torno dos valores e hábitos que compartilham. Algo que aparece claramente quando os personagens do filme assistem a um programa de Raul Gil e vão a um show de Sidney Magal. Tudo isso lhes dá uma sensação de segurança e conforto. Mas, os afasta ainda mais dos nativos, de sua língua e costumes.

Por outro lado, há os que conseguem se integrar à vida social local. Começam a dominar a língua, a cultura e os hábitos do país anfitrião. Fazem amigos, conseguem empregos formais, casam, têm filhos. Mas, o preço é alto. As chances de receber ataques preconceituosos e racistas quando menos esperam são grandes. E eles podem vir de sogros, cunhados, colegas de trabalho, colegas de escola dos filhos etc. Ao mesmo tempo, também podem ser tratados como traidores pela comunidade de seus conterrâneos.

A encruzilhada entre esses dois caminhos parece estar simbolizada no nome que o personagem principal recebeu de seus pais. Menezes de família, mas Jean Charles para fazer fortuna no estrangeiro. Este aspecto o filme não abordou, apesar de dar sinais de que o personagem de Selton Mello pretendia entrar num mundo em que seu nome de batismo tivesse mais importância que seu sobrenome. O assassinato covarde no vagão do metrô acabou sendo uma demonstração bem exagerada de que conquistar algo assim é muito difícil.

Outra dimensão que mal aparece no filme é a natureza abertamente racista das operações do aparelho repressivo britânico. Somente no final, um manifestante faz essa afirmação. Mas é pouco diante da brutalidade da morte de Jean Charles.

A ausência elementos mais esclarecedores pode dar margem a interpretações que justifiquem o que aconteceu. Não em relação ao personagem principal, diretamente, mas ao que ele representa. Jean Charles era estrangeiro, nascido no “Terceiro Mundo”, malandro e ambicioso. Não era um terrorista. Dificilmente alguém diria que merecia a morte que teve. Mas, pertencia a uma parte da população cuja conduta é desaprovada por puro preconceito. E isso é o bastante para torná-la alvo fácil da violência policial. A conclusão conservadora diria que é essa parte da população que deve mudar sua forma de agir e não a polícia.

A possibilidade de que seja esta a moral da história deduzida pelo público é grande. E é alimentada pelos racismos espalhados pelo planeta. Não apenas contra estrangeiros e não brancos. Há também os preconceitos regionais, como é o caso de nordestinos no Brasil. Uma parcela da população brasileira que muitas vezes é tratada como estrangeira dentro de seu país. Somente levando em conta o clima de enorme intolerância em que vivemos, é possível apontar os limites de Jean Charles, o filme.