3 de ago de 2011

No princípio era o verbo. Agora, é Matrix

Texto de julho de 2007

O primeiro meio de comunicação dos seres humanos foi a fala. Hoje, a função tripla (triple-play) permite recebermos imagens, informações e som num único aparelho. Mas, sob a lógica capitalista, quase não falamos, só ouvimos. Não imaginamos, só assistimos.

O primeiro e mais eficiente meio de comunicação dos seres humanos foi a fala. É quando o som ganha peso simbólico na forma de palavras que a comunicação chega para ficar como patrimônio exclusivo de nossa espécie. “No princípio era o Verbo...”. Além da fala, havia somente as pinturas e esculturas. Muito som e algumas imagens.

Foram necessários cerca de 95 mil anos para que uma nova evolução acontecesse na comunicação humana. Foi o surgimento da escrita. Agora, os relatos podiam ser registrados em meio material e permanecerem fiéis a si mesmos. Sai a criatividade humana sem maiores controles que não os construídos por consenso, entra a exatidão de alguns poucos que dominavam a técnica da escrita.

Eram sacerdotes e burocratas, que passaram a registrar as tradições culturais e religiosas, os estoques de produtos, os impostos devidos, a história oficial. Tudo escrito em pedras, placas, papiros e pergaminhos. Dominar a escrita era dominar informações importantes e justificar o poder, diminuindo a necessidade de utilizar a violência.

A revolução tecnológica seguinte nas comunicações aconteceu uns 7 mil anos depois. No século 15, Gutenberg inventou a imprensa. O texto escrito já podia ser reproduzido em escala maior. Trata-se de uma técnica que já teria sido descoberta na China e no Japão, sem maiores conseqüências. É que o alemão fez sua contribuição tecnológica no lugar e momento certos. O interesse pelas ciências surgido no Renascimento precisava de uma maior difusão e troca de informações. E ficava mais fácil fazer isso através de textos impressos. Além disso, a burguesia soube usar muito bem a escrita impressa.

Em primeiro lugar, para divulgar suas idéias revolucionárias. Até a Revolução Francesa, havia apenas um jornal na França. O do rei. De julho a dezembro de 1789, surgiram 184 novos jornais em Paris. No ano seguinte, foram mais 335. Mas, a palavra impressa também foi importante para permitir o avanço na pesquisa de novos meios de produção, e, claro, para justificar ascenso da burguesia à condição de classe dominante.

O domínio da natureza através de técnicas cada vez mais complexas levou rapidamente a uma nova mudança radical nas comunicações. Desta vez, cerca de 400 anos depois da última. A captura e domesticação do som permitiram o surgimento do rádio. A fala voltava a ter importância na comunicação humana. Mas o uso do rádio para a troca de informações entre pessoas logo foi bloqueado. Ao invés disso, o rádio ficou surdo e passou a apenas falar com as pessoas.

Surgia a radiodifusão. Ferramenta fundamental para o capitalismo. Afinal, o modo de produção capitalista é o único que tem crises porque produz demais e não de menos. Manter o nível de consumo é seu grande problema. A propaganda é a alma do negócio. O rádio surge para ajudar a vender. Mas não só.

Pessoas reunidas em frente a um aparelho de rádio não conversam entre si. Todos escutam a mesma voz, o mesmo discurso, a mesma música. Como disse Marx, as idéias dominantes em uma sociedade são as idéias da classe dominante. A voz do rádio era a voz de seus donos. Compre mercadorias e receba inteiramente grátis as idéias dominantes.

Essa passividade diante de um meio de comunicação permaneceu e aumentou quando se aprendeu a usar a luz para fixar imagens e, logo depois, para colocá-las em movimento. A fotografia virou filme. Na primeira sessão comercial de cinema, os irmãos Lumiére exibiram a imagem de um trem entrando na estação de Lyon. Dizem que alguns dos presentes ficaram com medo de serem atropelados. Ficariam ainda mais assustados se o filme já contasse com uma trilha sonora. Mas o som não tardaria a chegar.

O primeiro filme sonoro é de 1927. Chaplin dizia que não haveria futuro para o cinema com som. Afinal, a universalidade dos gestos humanos presentes nos filmes mudos ultrapassava os limites das várias línguas. Mas o criador de Carlitos não contava com a força da indústria cultural ianque. Os filmes chegam a todos os lugares do mundo legendados, dublados ou simplesmente falados em inglês, que foi imposto como um moderno latim.

Menos de 100 anos depois da chegada do trem dos irmãos Lumiére, o cinema foi para dentro das casas transformado em televisão. Era o rádio e o cinema, num único aparelho, presente em quase todos os lugares do planeta. Os meios pareciam convergir. A fala, a imagem, o movimento, de um lado. Avassaladores. De outro, avassalado, o espectador. Do latim “spectátoróris”, ou seja, “contemplador, observador”, segundo o dicionário Houaiss. Mais precisamente, pessoa passiva.

Uns 40 anos atrás, aconteceu a mais recente revolução nas comunicações. Ela foi possibilitada pela microeletrônica e pela informática e permitiu criar uma base material única. É a tecnologia digital, utilizada tanto na linha de montagem das empresas automobilísticas, como na campanha publicitária para estimular o consumo de automóveis.

A digitalização permitiu a convergência da organização da informação de tal forma que informações, som e imagem podem chegar todos ao mesmo tempo através de um único aparelho. É o chamado “triple-play” ou tripla função. Enquanto isso, a palavra escrita é utilizada plenamente por cada vez menos pessoas. A maioria só domina a escrita e a leitura para tarefas muito básicas. E, tal como na época anterior à escrita, a fala e as imagens estabelecem seu predomínio.

Só que, agora, elas não são produtos de uma convivência comunitária, com suas múltiplas conversas e seus relatos coletivos. Na sociedade de massas, o verbo e a imagens vêm em pacotes prontos e fechados a sugestões. Nossos antepassados ficariam espantados com nossa submissão a nossas próprias conquistas tecnológicas. Quase não falamos, só ouvimos. Não imaginamos, só assistimos.

No outro lado disso, estariam os meios de comunicação que permaneceram interativos. São o correio eletrônico e o telefone. Por eles, duas ou mais pessoas podem trocar o conteúdo que quiserem. Claro que muito desse conteúdo é determinado pelas idéias, conceitos, hábitos, costumes, preconceitos, crenças, visões de mundo dominantes.

Mas, sempre há um espaço para uma comunicação própria, alternativa, diferente. Inadmissível, pensa o sistema. Se depender da lógica capitalista, essa relativa liberdade vai ter cada vez menos espaço. A internete, além de estar muito longe da universalização, não está a salvo de ser monopolizada. É possível, por exemplo, diferenciar o desempenho do tráfego de dados, obrigando os usuários a pagar por uma transmissão de informações mais rápida e de qualidade melhor.

Quanto ao telefone, a invasão dos celulares é esmagadora. Já se fala em metade da população mundial com esse tipo de equipamento. E o funcionamento pleno da função tripla vai tornar esses aparelhos cada vez mais receptores de conteúdos prontos. Em outras palavras, vamos ter mais dificuldade em falar uns com os outros porque estaremos assistindo programas, jogos de futebol, musicais e filmes em nossos terminais móveis.

Cada vez mais nosso tempo livre será invadido por esse bombardeio midiático. Nosso repertório vai se encolhendo e se ajustando ao que as grandes empresas de bens simbólicos produzem, para preencher ao máximo nosso campo visual e auditivo. Uma permanente pressão a favor do consumo desenfreado e do conformismo social.

No entanto, nem tudo são flores para o Capital. Toda essa tecnologia tornou mais difícil a determinação do que seja propriedade privada. Os programas de computadores já não são mais vendidos como qualquer mercadoria. Apenas têm seu uso autorizado por uma licença. Isso facilita a cópia não autorizada. A informação é um elemento estratégico na atual fase do capitalismo.

Mas, informação é um bem diferente dos outros. No momento em que é usada ela ganha valor, ao invés de perder, como acontece com as outras mercadorias. Ela escapa por entre as garras do Capital. Como disse Thomas Jefferson uma vez:
...se a natureza produziu uma coisa menos suscetível de propriedade exclusiva (...), é a ação do poder de pensar que chamamos de idéia. Aquele que recebe uma idéia de mim, recebe instrução para si sem que haja diminuição da minha, da mesma forma que quem acende um lampião no meu, recebe luz sem que a minha seja apagada.
Daí, as polêmicas em torno das patentes e, principalmente, da propriedade intelectual.

Do ponto de vista do combate à dominação, as tecnologias também se tornaram mais acessíveis. Já não é tão caro montar uma rádio ou uma tv. É certo que serão comunitárias com todas as suas limitações de alcance, sem falar na repressão pura e simples que se abate sobre elas. A internete também apresenta boas perspectivas e elas podem ser muito melhores se conseguíssemos ligar a rede de TV digital à rede mundial de computadores. A internete ficaria acessível para a maioria da população.

Na verdade, a capacidade de transmissão de informações conquistada pela humanidade pode ser um grande avanço para a interação universal dos seres humanos em toda sua diversidade. Para isso seria preciso acabar com as atuais relações sociais. Criar novas formas de convivência e seus instrumentos.

Seria preciso partir da base material alcançada pela atual tecnologia, mas adaptá-la a outros objetivos que não a apropriação privada dos produtos do trabalho humano. Enquanto isso, permanece a ameaça de nos tornarmos cada vez mais extensões de nossos terminais eletrônicos. Matrix é aqui.