3 de abr de 2018

As belas e incompletas respostas da Odisséia de Kubrick


O texto abaixo é de junho de 2004. Em 2018, quando se completam os 50 anos da obra-prima de Kubrick, vem a calhar sua republicação, principalmente por seu caráter didático. Uma qualidade que não é do texto em si, uma vez que apenas comenta criticamente o conteúdo oferecido por uma página que apresenta uma das interpretações possíveis para o filme.


Há uma ótima página na internete, que explica o filme de Stanley Kubrick: “2001: uma odisseia no espaço”. O endereço é https://www.kubrick2001.com. Mas é de difícil acesso para quem não tem conexão rápida. Assim, este texto vai resumir seu conteúdo e aproveitar para fazer uns comentários sobre a bela obra de Kubrick.

A página ilustra o filme com animações bem feitas. A primeira parte mostra o alvorecer da humanidade, na África pré-histórica. Cerca de 4 milhões de anos atrás, surge no planeta uma espécie de laje negra fincada em posição vertical no solo. É um monólito. A espécie animal que entra em contato com o estranho objeto é o “Australopithecus Afarensis”, considerado o primata mais próximo do ser humano atual.

O monólito, diz o texto da página, apresenta-se como um desafio aos macacos. Eles o tocam. As características desses animais seriam o medo, curiosidade e a coragem. Estas qualidades e não o monólito é que levariam a espécie a transformar pedaços de ossos em ferramentas. Descoberta que faria a espécie se diferenciar dos outros animais.

Da descoberta da primeira ferramenta, o filme de Kubrick passa diretamente para o ano de 2001, em que as ferramentas, agora, são espaçonaves que viajam pelas estrelas. A espécie também mudou. É o “Homo Sapiens”. Ainda segundo a versão apresentada pelo site, ele é civilizado, racional e científico. Mas está em um novo ambiente: o espaço sideral. Ali, ele perde o controle de suas ferramentas. Na cena que mostra o interior sem gravidade da espaçonave, a caneta flutua, a aeromoça precisa andar com cuidado em seus sapatos magnéticos, a comida sintética parece uma papinha de criança e até a ida ao banheiro necessita de instruções especiais para evitar acidentes desagradáveis. É a volta à infância.

Cientistas, os mais sabidos dos “sapiens”, vão à Lua para verificar a descoberta de um misterioso monólito negro, descoberto por acaso em escavações numa cratera. No momento em que se preparam para tirar uma foto do objeto, este dispara um sinal sonoro em direção a algum lugar nas proximidades de Júpiter.

Novo corte. Agora, uma espaçonave viaja em direção a Júpiter em missão aparentemente rotineira. A espaçonave é administrada pelo computador HAL-9000. Dois tripulantes humanos limitam-se a aguardar a chegada a seu destino, enquanto o resto da equipe está em estado de animação suspensa. Uma espécie de hibernação para suportar a longa viagem.

Velhos macacos inúteis

Hal, diz a apresentação, observa os colegas humanos e lhes dá as seguintes características: são entediantes e entediados. São dependentes de coisas cada vez mais artificiais. Precisam simular uma espécie de morte para viajar. São espécies no final de sua evolução. A ferramenta mais moderna do ser humano, o computador, começa a achar que não precisa mais dos velhos macacos. De repente, Hal alerta para um defeito em uma antena. Uma inspeção revela que não parece haver nada de errado com o mecanismo. Hal insiste no diagnóstico e recomenda sua substituição. Os tripulantes concordam, mas Hal descobre que pretendem desligá-lo, se continuar a apresentar problemas. O computador acredita que está vivo e pretende defender seu direito à vida.

Um dos astronautas sai para substituir a antena. O computador usa um módulo de deslocamento espacial, que está sob seu comando para matar o astronauta. O outro astronauta parte para resgatar o corpo do colega, mas é impedido de retornar à nave. No entanto, o que Hal considera ser um velho macaco usa de criatividade para voltar à nave e desligar o computador. A ferramenta utilizada para fazer isso é a velha e boa chave de fenda. “Uma ferramenta como você, Hal”, diz o texto da página. Pouco antes de desligar o computador, o astronauta descobre que a missão tinha um objetivo secreto. De conhecimento apenas de Hal. Tratava-se de descobrir o destino do sinal emitido pelo monólito a partir da cratera lunar.

O ser humano derrota a ferramenta rebelde, mas com o computador desligado, a nave já não é operacional. O astronauta está sozinho. Vai enfrentar o desconhecido e as forças sobrenaturais que o trouxeram até aqui. A bordo de um módulo espacial, o astronauta faz uma viagem por dimensões espaciais e temporais. Acaba chegando a um quarto de hotel. “O quarto é o palco de Kubrick para o último ato do filme”. Seria a quarta dimensão. Seu desafio final é sua própria morte.

Virando estrela

Envelhecido e curvado, o astronauta se dirige a uma mesa para fazer “a última ceia do homem”. Esbarra num copo que espatifa no chão. “O copo está quebrado, mas o vinho ainda está lá”, diz a apresentação. Já não há recipiente, mas o conteúdo ainda existe. Seria o mesmo em relação ao espírito e ao corpo.

“Entendeu, homem?”, pergunta o texto da página. “Sua evolução dependeu tanto de sua tecnologia que ela quase substituiu você. E no final tentou destruí-lo. E agora? Sem suas ferramentas e com seu corpo quase perecendo? O que restou de você?”. A resposta é que ele está pronto para dar o próximo passo na evolução. Os alienígenas atraíram um exemplar de nossa espécie para levá-lo a uma transição para um estágio superior. A famosa cena final mostra um feto dentro de um útero flutuando no espaço. O ser humano ultrapassa a fase da existência material e da utilização de materiais. Transformou-se em energia. É a criança estrela. Bonito, não? A página vale a visita.

No entanto, também provoca outras reflexões. Afinal, a abertura da apresentação cita uma frase do próprio diretor: “Todos são livres para especular sobre os significados filosóficos e alegóricos de ‘2001’”.

Em primeiro lugar, a teoria da evolução jamais disse que seres humanos são ancestrais diretos dos macacos. No máximo, trata-se de primos de mesma linhagem. A imagem usada pelos evolucionistas não é aquela famosa, em que uma fila começa com um chipanzé e termina com um cidadão branco e de terno. A não ser que coloquemos alguém como George W. Bush no final (ou no início?) da conhecida sequência, não há uma ligação direta entre primatas e seres humanos. A imagem mais fiel é a de uma moita. Em que os ramos crescem para vários lados e não necessariamente para cima. No entanto, podemos tratar a ligação direta feita por Kubrick como um recurso didático e estético admissível.

Ferramenta ou porrete?

Por outro lado, a explicação do site não menciona o fato de que, no filme, a descoberta do uso do osso como ferramenta deu-se mais precisamente como arma. A última sequência da primeira parte do filme mostra um bando de Australopithecus matando um inimigo usando o osso como um porrete. E a reação de Hal, matando um dos tripulantes e ameaçando o outro, dá coerência a essa visão da ferramenta como instrumento de violência. Algo compreensível para a época do filme. No final dos anos 60, havia a guerra do Vietnã e a temperatura da guerra fria estava longe de aumentar, com a ameaça sempre presente de tiroteios atômicos entre Estados Unidos e União Soviética.

Compreensível, mas sujeito a críticas. Essa imagem da diferença entre seres humanos e animais localizada na ferramenta tem pontos de contato com a concepção marxista. Tal concepção entende que o que nos diferencia dos outros habitantes vivos do planeta é o trabalho. Não o trabalho automático de abelhas ou formigas. Mas o trabalho projetado pela mente. É como diz Marx na famosa passagem de “O Capital”. Ele admite que “uma abelha, embora só possua instinto, pode superar em habilidade, vários arquitetos”. No entanto, "o que distingue, à primeira vista, o pior dos arquitetos, da mais hábil das abelhas, é que aquele constrói suas células na cabeça, antes de fazê-lo na colmeia".

O problema é que a imagem da ferramenta parece concentrar a ideia de trabalho apenas em seu aspecto utilitário. Na capacidade de fabricar coisas, e não de projetá-las. Na verdade, uma concepção adequada à forma em que a sociedade atual vive a experiência do trabalho. As pessoas cumprem tarefas que não fazem sentido porque são feitas a partir de determinações de outros e para que outros façam uso dos produtos resultantes. É como o operário que fabrica um automóvel. Não tem voz ativa na projeção e execução do trabalho e muito provavelmente não chegará a consumir o produto final.  Este, por sua vez, foi projetado por um engenheiro, que também não teve autonomia para desenhar o automóvel. Nem mesmo os donos da empresa têm total autonomia. É um mercado cada vez mais monopolizado e sob concorrência selvagem que dá a palavra final. Isso tudo não anula o fato de que o trabalho do operário é mais alienado e aborrecido do que o do engenheiro. E de que os patrões têm um enorme grau de controle sobre suas próprias vidas e a de seus trabalhadores.

Melhor que virar estrela é acabar com os parasitas

A solução para esse dilema no filme de Kubrick aparece com a tradicional receita de Arthur C. Clarke, autor do livro que inspirou o filme. Trata-se de se livrar das coisas materiais. Virar estrela. Para nós, parece mais plausível tornar a atividade humana menos aborrecida. Com cada indivíduo fazendo sua parte sabendo por que o faz. Mas para isso é preciso discutir as condições sociais em que vivemos. Elas não vão mudar apenas com melhorias tecnológicas. Ao contrário, ferramentas sofisticadas sob estruturas sociais injustas somente sofisticam a exploração e a injustiça. Não se trata de virar estrela, mas de afastar as pessoas de atividades perigosas, insalubres, tediosas. Isso seria perfeitamente possível com o atual avanço tecnológico, mas seria preciso acabar com a parasitária função dos capitalistas.

Por fim, uma questão delicada. A transição entre o animal e o ser humano ainda é um ponto complicado para os estudiosos mais sérios. Engels, por exemplo, apresentou algumas respostas em seu famoso texto “Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem”, de 1876. Nele, há a seguinte passagem:

Primeiro o trabalho, e depois dele e com ele a palavra articulada, foram os dois estímulos principais sob cuja influência o cérebro do macaco foi-se transformando gradualmente em cérebro humano - que, apesar de toda sua semelhança, supera-o consideravelmente em tamanho e em perfeição. E à medida que se desenvolvia o cérebro, desenvolviam-se também seus instrumentos mais imediatos: os órgãos dos sentidos. Da mesma maneira que o desenvolvimento gradual da linguagem está necessariamente acompanhado do correspondente aperfeiçoamento do órgão do ouvido, assim também o desenvolvimento geral do cérebro está ligado ao aperfeiçoamento de todos os órgãos dos sentidos.

Como se vê, Engels introduz a importante questão da linguagem. Da comunicação, da simbologia. Mas como um determinado animal passou a falar simbolicamente, além de simplesmente emitir um repertório limitado de sons, movimentos e cheiros? É possível estabelecer uma ligação direta entre o “desenvolvimento gradual da linguagem” e o “aperfeiçoamento de todos os órgãos dos sentidos?”.

Estas são apenas algumas das questões que provocam e vão provocar ainda muita controvérsia. Mas respostas bonitas como as que ensaiou Kubrick nos ajudam a, pelo menos, fazer as perguntas.

8 de fev de 2016

Fabricando bandidos, terroristas e oportunidades subversivas

Uma série de grande sucesso nos Estados Unidos e um documentário brasileiro mostram toda a arbitrariedade da estrutura judiciária contemporânea. Outro elemento comum aos dois países é a adoção de leis que pretendem criminalizar a pobreza e os movimentos sociais.

Making a murderer

A série “Making a murderer” (“Fabricando um assassino”), da Netflix, é o grande sucesso da temporada nos Estados Unidos. Escrito e dirigido por Laura Ricciardi e Moira Demos, o documentário conta a história de Steven Avery, acusado de ter cometido crime sexual, em 1985. Condenado com base em provas frágeis, sua sentença é anulada em 2003. Colocado em liberdade após 18 anos de prisão, ele processa a justiça de sua cidade exigindo uma indenização de U$ 36 milhões.

Mas pouco tempo depois de sua libertação, uma jovem desaparece. Buscas policiais chegam à propriedade da família de Avery e encontram restos de um cadáver, o carro da vítima e outras evidências que apontam para Steven como autor do novo crime. A série, basicamente, mostra as muitas inconsistências da acusação. Entre elas, a participação nas investigações dos mesmos policiais que Avery estava processando e claros sinais de evidências forjadas na suposta cena do crime.

Um dos aspectos que mais assusta no seriado é a impossibilidade de reverter uma decisão, uma vez que ela é tomada pelo sistema judicial. A anulação da sentença que condenou Avery em 1985 é um caso raro, mas os que trabalharam por sua condenação não tiveram sossego enquanto não o implicaram em novo crime. Outro aspecto assustador é o caráter de infabilidade quase sagrada com que os agentes da justiça e da lei são ungidos pela sociedade.

Mesmo diante de sérias falhas e procedimentos bastante questionáveis dos policiais envolvidos, era muito comum o argumento de que não se podia desmoralizá-los publicamente. Para isso colabora bastante a atuação da grande mídia, cuja necessidade de manter seu suposto caráter de portadora da verdade dos fatos a coloca ao lado dos agentes da lei - como a igualar-se a eles na condição de autoridades sobre as quais não cabem maiores questionamentos.

Além disso, a cobertura jornalística do julgamento serviu com um elemento de forte distorção contra as pretensões de inocência a que tem direito qualquer réu. Em um dado momento, por exemplo, a acusação apresenta uma testemunha cujos depoimentos são aparentemente definitivos em favor da condenação de Avery. Mais à frente, no entanto, revela-se o caráter completamente inconsistente e viciado das declarações e a defesa acaba tendo que solicitar a retirada da testemunha do julgamento e a consequente desconsideração de suas declarações pelos jurados.

Perguntado pelos jornalistas se o recuo teria sido uma vitória do réu, um dos advogados de defesa responde negativamente. Afinal, diz ele, todo o estrago feito pelos depoimentos prestados dificilmente seria sanado, em especial por sua ampla difusão na grande imprensa. As mesmas pessoas que viram nas declarações da testemunha provas irrefutáveis da culpa de Avery, teriam grandes dificuldades para entender por que, agora, elas já não seriam válidas, pois não teriam o mesmo acesso aos motivos que levaram à sua invalidação. E o que vale para o público em geral, vale para os jurados: de forma alguma estão livres das pressões da opinião pública.

A forma como Avery é tratado deixa claro que uma vez acusada, a pessoa é considerada culpada, ainda que isso não venha a ser confirmado por uma sentença. É como se o sistema judicial não pudesse admitir qualquer possibilidade de falha. O preço pago por alguns prováveis inocentes seria pequeno diante da necessidade de continuar condenando os ”verdadeiros culpados”.

O fato é que a presunção de inocência, que deveria proteger todo acusado, é esmagada por uma suposta infabilidade das decisões da justiça.

Claro que este quadro precisa ser relativizado pela condição social daqueles que se confrontam com ele. Os Avery são brancos, loiros, de olhos claros, mas nunca foram bem vistos pela comunidade local, considerados desordeiros e de hábitos “pouco cristãos”. A família pertence a uma classe média baixa, que exerce uma atividade de pouco ou nenhum prestígio social: possui um grande ferro-velho, explorado por seus próprios membros.

Os Avery não tinham dinheiro ou influência para se defender. O erro de que Steven foi vítima e o levou à prisão foi revertido por uma organização civil cujos membros utilizavam casos desse tipo para ampliar sua influência político-eleitoral. Quando foi feita a segunda acusação contra Steven, se afastaram do caso e retiraram seu nome da relação de pessoas a quem prestaram auxílio.

Os advogados contratados para defender Steven no segundo julgamento estavam entre os melhores e mais caros do país. Mas foram pagos por meio de um acordo com a justiça local. No lugar da indenização de U$ 36 milhões que estava pleiteando, Steven aceitou U$ 400 mil para pagar pelos serviços de seus novos defensores.

Foi a primeira condenação e sua inesperada reversão que deu a Steven os meios financeiros para se defender com um mínimo de chances no segundo julgamento, assessorado por advogados capazes de desmontar as teses da acusação. É muito provável que esta combinação de fatores tenha dado ao caso tanta repercussão na mídia, levando-o a transformar-se em um seriado de sucesso.

Mas independentemente do desfecho do caso Avery, dezenas, talvez centenas, de milhares de pessoas continuam a lotar o sistema carcerário estadunidense sendo inocentes ou estando submetidas a penas desproporcionalmente elevadas em relação aos crimes que cometeram. São quase todas pretas. A quase totalidade delas, pobre ou remediada.

Sem Pena

O mesmo cenário pode ser pintado para retratar a situação penal no Brasil, ainda que com tintas mais fortes. É o que mostra, por exemplo, o documentário “Sem Pena”, de 2014.

Muito longe de receber a mesma repercussão, a produção de Eugênio Puppo aborda o sistema carcerário brasileiro, principalmente por meio de sua porta de entrada. Sempre aberta para os pobres e pretos e dando passagem a estadias longas que nada devem ao Inferno descrito por Dante em “A Divina Comédia”.

No filme, os depoimentos são dados apenas por vozes, sem focalizar o rosto de seus donos, a não ser no final, durante os créditos. O primeiro a testemunhar é um rapaz que foi confundido com o agressor de uma jovem. Preso, é submetido a um reconhecimento induzido. Colocado entre homens com tipo físico completamente diferente em relação ao dele, com o rosto marcado por hematomas resultantes de murros e pancadas recebidas na fase de “interrogatório”, a vítima não teve dúvidas quanto a identificá-lo como autor das agressões. Uma vez processado, o rapaz descobre que outras acusações caem sobre ele de modo a “resolver” casos sem suspeitos e melhorar as estatísticas da polícia.

Em outro caso, uma usuária é condenada por porte de maconha. Cumprida a pena, ela é novamente procurada pela polícia que a acusa de ser fugitiva da justiça. O problema é que a vara de execução penal em que estava o processo dela não informou às outras varas do cumprimento da pena. Mas as coisas se resolveriam se a acusada concordasse em acertar sua situação informalmente, mediante uma “pequena recompensa”.

Outra voz ouvida é a de um detento, que faz a seguinte afirmação sobre as condições prisionais: “coloca um cavalo aqui pra ver o que acontece. Ele fica louco”. Ele se refere, claro, a dez ou quinze anos de prisão em celas sujas e superlotadas. Muitas vezes, o detento não tem nem mesmo uma sentença que justifique sua permanência ali. Esta é a situação de um entre quatro presos no Brasil.

Não é o caso de um policial condenado por crimes cometidos em serviço. Segundo ele, um traficante pode escapar de ser preso se pagar, por exemplo, uns 200 mil reais ao policial destacado para detê-lo. Mas em seu lugar, outra pessoa será detida, ainda que seja inocente, para que seja mantida a média estatística de “crimes resolvidos”.

Em todos os casos, libertados depois de cumprida a pena ou por não deverem nada à lei, os recém-saídos encontram a enorme dificuldade de se integrar novamente à vida social. Como no caso de Avery, uma vez acusado, condenado. Uma vez condenado, jamais perdoado.

Por fim, o testemunho de um secretário de segurança deixa tudo muito claro. Um detento custa em média R$ 1.350,00 para o estado, diz ele. Mas essa média pode cair, se aumentar a população carcerária. “Quanto mais vazios os presídios, maior a despesa. Presídio bom é presídio cheio”, conclui, sem deixar muita margem a dúvidas. Esta conta, certamente, ajuda a explicar o fato de o Brasil registrar a quarta maior população carcerária do mundo.

Legislação antiterrorista

Mas a situação pode piorar ainda mais.

Rafael Braga circulava pelo centro da cidade coletando material reciclável. Dormia nas ruas até que completasse a coleta para voltar a sua casa, no Complexo da Penha. Durante as manifestações de junho de 2013, ele foi preso e condenado a 4 anos e 8 meses de reclusão pelo crime de “porte de material explosivo”. Na realidade, ele carregava duas garrafas plásticas de produtos de limpeza, próximo a uma manifestação realizada em 20 de junho.

Depois de muita luta e mobilização envolvendo amigos, parentes e movimentos sociais, ele foi autorizado a cumprir a pena em regime aberto, em junho de 2015.

Em janeiro de 2016, no entanto, Rafael voltou a ser preso, acusado de portar drogas e associar-se ao tráfico. O Instituto de Defensores de Direitos Humanos acompanha o caso e garante que a acusação não tem qualquer fundamento.

Mas, como no caso de Avery, nos Estados Unidos, Rafael está pagando por tornar-se não somente um acusado, preto e pobre, mas protagonista de um caso em que fica clara toda a arbitrariedade do sistema judiciário.

A agravar todo esse quadro, há um projeto-de-lei de iniciativa do governo e em debate no Congresso que pretende aprovar uma legislação “antiterrorista” no País. Uma proposta que já vem sendo denunciada por várias organizações nacionais e internacionais como uma forma de legalizar a criminalização dos movimentos sociais e inviabilizar manifestações populares na base da repressão pura e simples. Se o que aconteceu com Rafael viola direitos constitucionais e liberdades fundamentais, a proposta em debate no Legislativo pretende legalizar essas violações.

O que aconteceu com Avery e milhões de outros estadunidenses pobres e, principalmente, pretos, tem muitas semelhanças com o que se passa no Brasil. Faz parte de um sistema que fabrica os “criminosos” de que precisa para justificar o investimento em gigantescas máquinas de repressão, voltadas para controlar o que antigamente costumava ser chamado de “classes perigosas”. Ou seja, aqueles que não têm lugar no sistema produtivo, a não ser em suas margens, onde vivem de migalhas.

O
jurista argentino Eugenio Zaffaroni costuma dizer que a sociedade em que vivemos só tem lugar para uns 2/3 viverem com alguma dignidade. O restante não alcançará jamais este patamar e qualquer movimento em direção à busca de uma vida mais digna deve ser contido com violência. Zaffaroni aponta na “guerra às drogas” um importante instrumento nesse sentido. Sob o pretexto de combater o tráfico, milhões são jogados nas cadeias no mundo todo.

Mas por que a sociedade em geral aceita esta lógica?

O filósofo italiano Giorgio Agamben talvez ajude a entender. Segundo ele, uma das características do tratamento dispensado pelas estruturas contemporâneas de dominação aos problemas sociais é concentrar-se em seus efeitos e não em suas causas.

Esta regra valeria para todos os domínios, da economia à ecologia, das políticas externas e militares às medidas policiais.

Desse modo, se sofremos com problemas ambientais a solução não é mudar a matriz energética do planeta. É usar tecnologias caras, complexas, perigosas e dominadas por alguns monopólios gigantes.

Se o trânsito nas grandes cidades não anda, nada de investir em transporte coletivo. Construam-se mais pontes e viadutos, abram-se mais ruas e novas faixas nas avenidas.

Na saúde pública, medidas de prevenção ficam em segundo plano. Bem à frente, vêm as caras e lucrativas tecnologias e substâncias para cuidar das doenças.

Para lidar com a crise econômica, mais recursos, que acabam por ser investidos em aventuras especulativas semelhantes às que causaram a crise de 2008.

E, finalmente, a desigualdade social deve ser assumida como natural. No lugar de combatê-la, é preciso construir mais prisões, aprovar leis mais severas, dar liberdade à polícia para agir como bem entender.

O principal motor dessa inversão maluca é a busca por lucro. Objetivo cego que pode inviabilizar de vez o metabolismo que nossa espécie mal consegue manter com o planeta e consigo mesma.

É neste contexto que os documentários sobre Avery e sobre o sistema prisional brasileiro se aproximam. É nesta situação que a abusiva legislação repressiva adotada nos Estados Unidos após o 11 de Setembro serve de modelo à “Lei Antiterrorista” em discussão no Brasil. É desse modo que à fabricação de bandidos pretende se juntar agora a produção de terroristas. Quase todos saídos dos setores socialmente mais vulneráveis ou questionadores da ordem dominante.

Nosso desafio é tornar a vulnerabilidade dos primeiros um reforço decisivo à ação contestadora dos segundos. Algo que só será possível se ficarmos atentos e prontos para transformar em oportunidades subversivas as inúmeras e enormes contradições que provoca a imposição de uma ordem ainda mais autoritária.


Referências:

AGAMBEN, Giorgio (2014) - “Por uma Teoria do Poder Destituinte”:
https://5dias.wordpress.com/2014/02/11/por-uma-teoria-do-poder-destituinte-de-giorgio-agamben/ - acesso em 31/01/16.

ZAFFARONI, Raúl Eugenio (2013) - “Cada país tem o número de presos que decide politicamente ter”:
www.brasildefato.com.br/node/14487
- acesso em 31/01/16.

11 de jan de 2015

Superman e Stalin, em defesa do capitalismo

No ano em que se completaram 50 anos da morte de Stalin, um gibi coloca do mesmo lado o ditador soviético e o super-herói que mais simboliza a ditadura “democrática” dos Estados Unidos. O que eles teriam em comum? A defesa dos mecanismos de funcionamento do capitalismo.

Dezembro de 2004

Para quem não sabe, ou não se lembra, Stalin quer dizer “Homem de Aço”, em russo. Este também é o outro nome pelo qual é conhecido o Superman. O super-herói mais famoso dos quadrinhos, criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, em 1938. A partir dessa aparente coincidência, Mark Millar escreveu e Dave Johnson desenhou “Superman, entre a foice o martelo”. A revista foi lançada pela DC Comics no Brasil, em junho passado, em três edições.

Vou fazer algumas observações a que chamarei de parênteses. Os leitores que os acharem desnecessários ou quiserem tirar suas próprias conclusões, podem seguir o texto principal sem prejuízos para a compreensão da história.

Um parêntese, pra começar: por que um militante comunista escolheria para si o apelido de Homem de Aço? Um revolucionário socialista precisa ser firme na defesa de seus princípios. Mas firmeza não é incapacidade de ser flexível. Um militante socialista que quer fazer a revolução tem que ganhar milhões de pessoas para isso. E não se ganha milhões sem arrancá-los da dominação ideológica da burguesia. Para isso, não adianta recitar palavras-de-ordem ou trechos do manifesto comunista. Algo assim pode até funcionar para alguns, muito poucos. O problema é que a grande maioria das pessoas enxerga o mundo tal como a burguesia o apresenta. Se era assim quando existiam apenas jornais de papel, no começo do século passado, imagine hoje, com rádio, tevê, internete. E para fazer essa disputa é preciso tratar aqueles que queremos ganhar para a revolução com respeito por sua capacidade de compreensão. Não se trata de rebaixar nossa discussão para colocá-la ao alcance dos pobres mortais. Trata-se de conhecer a realidade do povo para aprender com ela. Convidar seus melhores filhos a aproveitarmos juntos as contradições que a vida pobre e explorada nos apresenta para dela nos livrar. Mostrar-lhes que há uma tradição de luta com homens e mulheres que já percorreram esse caminho e avançaram passos importantes nele. Convencê-los a seguir conosco esses passos em direção à destruição das condições que fazem a vida tão pobre e explorada. Nada disso combina com a visão de um militante duro e inflexível. Na verdade, a escolha que Stalin fez sobre seu apelido mostra muito do que se tornaria sua idéia falsa e terrível de socialismo.

O Superman soviético é uma espécie de versão invertida do Superman ianque. Na história criada por Siegel e Shuster, o super ser caiu do espaço em uma espaçonave na zona rural dos Estados Unidos. Ainda bebê, foi encontrado por um casal de humildes lavradores, que o criou como seu filho. Na história de Millar, a espaçonave vai parar numa fazenda coletiva da Ucrânia, em plena ditadura stalinista. Seus pais de criação são camponeses dedicados ao que eles pensam ser a causa comunista.

O Superman adulto é o grande ídolo do povo soviético. Na mesma lógica invertida de Millar, Lex Luthor continua sendo seu maior rival, mas é também um ídolo nos Estados Unidos. Um vencedor nos negócios e na ciência. Um exemplo disso é a cena em que aparece pela primeira vez. Luthor está lendo “O Príncipe”, de Maquiavel, enquanto joga xadrez com cinco adversários. Ao mesmo tempo, ouve música num gravador que projetou durante uma passagem pelo banheiro, naquela manhã. Invertendo de novo, Lois Lane é sua mulher.

Neste jogo de espelhos, Batman também é russo e teve seus pais mortos pelos carrascos de Stalin. Torna-se um rebelde anarquista. Vive fazendo atentados contra as autoridades soviéticas, com bombas e assassinatos.

Se o Superman é força e decência, Lex Luthor é inteligência e pragmatismo. Mas, ao contrário da história real, não é a América de Luthor que sai vitoriosa. Depois de relutar muito, Superman aceita ficar no lugar de Stalin. E quando o Homem de Aço completa 63 anos de idade, “o mundo tinha quase 6 bilhões de comunistas”, segundo narração feita por ele mesmo. E completa: “Moscou operava com a mesma precisão de relógio suíço evidente em todas as outras vilas e cidades de nossa União Soviética Global”.

Outro parêntese: a oposição entre os modos de vida soviético e ianque é apenas aparente. O sistema soviético seria pesado, autoritário, mas digno. Pelo menos, ele garantia a todos, emprego, saúde, educação. O modo de vida norte-americano, seria o contrário. Há liberdade e democracia, mas cada cidadão tem que saber utilizar esses valores para se dar bem. Pode haver pobreza, desemprego e injustiça, mas só para quem não souber utilizar sua inteligência e capacidade de trabalho. De fato, os dois sistemas operavam sob a mesma lógica. Ambos mantinham a separação entre o trabalhador e seu instrumento de trabalho. Num, eram os patrões que controlavam os meios de produção. No outro, era o Estado. Portanto, nos dois havia exploração. Havia extração de mais-valia. O fato de que no sistema soviético, não havia a figura jurídica da propriedade privada dos meios de produção não muda nada neste aspecto. Apenas no aspecto político e social. A classe que explora os trabalhadores está disfarçada de burocracia. Está travestida de Estado Operário.

Por outro lado, num dado momento, Superman especula sobre o papel de Lex Luthor. “Talvez,ele existisse para manter sob controle...”. Exatamente o que aconteceu durante o período da Guerra Fria. As duas superpotências aceitaram um jogo arriscado. Um cabo-de-guerra que, felizmente, não se rompeu. Caso contrário, já não estaríamos aqui. A pergunta é, pode um país que se afirmava socialista aceitar um jogo como este? Não. Ameaçar a humanidade com bombas atômicas nada tem a ver com o princípio de libertação e luta pela paz definitiva que está na base da causa socialista.

É ainda Superman que diz: “Não havia adulto sem emprego. Todas as crianças gozavam de um hobby e a população inteira desfrutava das oito horas completas de sono que seus corpos requeriam”.

No Superman original, outro de seus grandes inimigos é Brainiac. Trata-se de um alienígena com enormes poderes mentais, que acabou sendo aprisionado pelo Homem de Aço em um corpo robótico. Mas, na versão de Millar, Brainiac ajuda Superman a administrar o mundo. As providências do mecanismo aumentaram a expectativa de vida para 120 anos. Os suicídios estão em queda porque Brainiac colocou hidrocloreto de fluoxetina no fornecimento de água.

Terceiro parêntese: nada disso tem alguma coisa a ver com socialismo ou comunismo. A começar pela necessidade de um super-ser para dirigir a sociedade. Tal idéia está bem presente em todas as ditaduras. A idéia do homem superior governando os comuns. Além disso, o ideal do comunismo não é dar a cada pessoa um emprego. Trata-se de proporcionar a cada um a oportunidade de agir e se relacionar criativamente com a natureza e com as pessoas, através de um trabalho livre das imposições da sobrevivência. Algo levemente parecido com o que conhecemos hoje por atividade artística. A solução de Brainiac para o suicídio faz um feliz contraponto a essa imagem errada da utopia. Hidrocloreto de fluoxetina é o princípio ativo de um medicamento que, nos anos 90, foi considerado o Viagra da depressão. A idéia de que os conflitos existenciais serão resolvidos quimicamente é feia demais para ser utópica.

Toda essa obra foi conseguida com um novo estilo de governar. Sucessor de Stalin, Superman não quer manter seus métodos. Por exemplo, diante da sugestão de matar o subversivo Batman, Superman se mostra indignado. “A utopia não vai ser erguida sobre os ossos de meus oponentes. Essa era a maneira de agir do camarada Stalin, não minha”.

O novo Homem de Aço toma a si a tarefa de consertar o mundo, com o mínimo de violência possível. Quase um governo pelo convencimento. Stalin também fazia uso do convencimento. Mas não hesitava em exterminar quem se recusava a ser convencido.

Quarto parêntese: Ainda há os que acreditam que Stalin mandou matar milhares para defender as conquistas da revolução. Se isso for verdade, trata-se de um indivíduo, sem dúvida, de poderes sobrenaturais. Afinal, entre os mortos, estão praticamente todos os seus companheiros de revolução. Camaradas, no mínimo, acima da média. De todos os membros do Comitê Central do Partido de 1923, somente Stalin e Molotov sobrevieram aos anos 1930. Eis a lista dos mortos e suas causas: Lênin teve morte natural. Kamenev, Zinoviev, Bukharin, Rykov e Trotsky foram mortos a mando de Stalin. Tomsky se suicidiou, temendo ser preso. E não só isso, no outono de 1929 havia 60 mil prisioneiros em campos de concentração. Em Meados de 1930, 600 mil. Em 1932, cerca de 2 milhões. Todos traidores? Não. Era a máquina de poder dirigida por Stalin em pleno funcionamento.

A única exceção nesta situação utópica é a América. Uma zona de guerra que recusa a ajuda econômica soviética, com 350 milhões de pessoas à beira da morte por desnutrição. Mas o país que teima em permanecer em situação caótica é governada por Lex Luthor. E o velho inimigo de Superman não desistiu de vencer sua guerra contra o Homem de Aço.

Como presidente dos Estados Unidos, Luthor cortou relações diplomáticas do país com o resto do mundo. Criou um rígido mercado interno, onde exercia controle absoluto sobre todas as cédulas de dólar. Qualquer semelhança com os paises do bloco soviético na vida real não é mera coincidência. A diferença é que tudo isso fazia parte de um plano.

Enquanto o Superman calculava que o colapso da economia norte-americana viria a qualquer momento, Luthor preparava seu plano. As providências que tomou na esfera econômica estavam tornando o país rapidamente próspero. Além disso, havia desenvolvido armas poderosas para enfrentar os poderes de Superman.

Quinto parêntese: um vilão como Luthor governando os Estados Unidos é muito adequado. Afinal, o que é Bush? Sua primeira eleição foi uma fraude clara. Na segunda eleição, funcionaram os mecanismos de restrição do voto. A maioria dos negros e hispânicos teve grandes dificuldades em votar. Dos que votaram, a grande maioria era branca e conservadora. Além disso, não há pluripartidarismo, nem votação direta para presidente. Na verdade, há um único partido com duas alas. A republicana e a democrática. A legislação sufoca o crescimento de outros partidos. E ainda tem o Colégio Eleitoral, que elege o presidente. Quando os eleitores americanos vão votar é para eleger delegados para esse Colégio Eleitoral. Mas só o partido único da burguesia elege delegados e define qual o melhor representante de seus interesses. Uma democracia de cartas marcadas. A mais perfeita ditadura do Capital.

O momento em que a economia ianque deveria desabar não veio. Superman é, então, avisado por Brainiac sobre os planos de Lex. Diz que os Estados Unidos são a única ameaça ao que construíram juntos. Quer que o Homem de Aço ordene a destruição do país. Superman novamente se recusa a resolver o problema pela força bruta.

Lex Luthor aparece de surpresa. Invadiu a fortaleza do Homem de Aço. Diz que seu plano de ataque e destruição do poder soviético está em andamento. Brainiac não tem dúvidas. Captura Lex e o prende no interior de seu próprio corpo robótico.

Começam os ataques preparados por Luthor. Finalmente, Superman se convence a atacar os Estados Unidos. As forças norte-americanas começam a ser derrotadas. Uma legião de super monstros criados por Lex é destruída sem dificuldades por Superman. Começa o contra-ataque soviético.

As forças soviéticas avançam pelo território ianque. Superman se aproxima da Casa Branca e encontra Lois Lane na sacada. Lois diz que os Estados Unidos são o seu lar e não vai abandoná-lo. O Homem de Aço explica que os Estados Unidos já não existem mais. As forças soviéticas destruíram seus exércitos e Luthor está preso. Lois responde que ainda há uma bala no arsenal dos americanos. Trata-se de uma carta deixada por Luthor para que ele leia. Está no bolso do casaco dela. Lois Pede a Superman para ler o documento com sua visão de raios-X. O Homem de Aço obedece. Seus olhos lacrimejam. Ele cai de joelhos chorando e se lamentando: “Oh, meu Deus! O que foi que eu fiz. Tudo o que eu queria era pôr um fim nas guerras e na fome...” Lois fica surpresa. Abre a carta e lê: “Por que você não põe o mundo todo numa garrafa, Superman?”.

A carta de Lex colocou Superman num conflito moral. Diz a Brainiac que ele não passa de uma espécie alienígena violentando uma espécie menos desenvolvida. Isso não seria moralmente justificável. Por isso, resolve deixar tudo. Sair do planeta e da vida de seus habitantes. Brainiac diz que negar aos seres humanos a utopia perfeita é que não seria moralmente justificável. A máquina resolve se revoltar contra Superman. Vai continuar e completar o trabalho. Ataca o Superman com raios verdes. Provavelmente, kriptonita, único material capaz de destruir o Homem de Aço, na Terra.

Sexto parêntese: a discussão aqui é muito feliz. Trata-se da idéia de que o socialismo, a justiça social, a construção de um mundo melhor, podem ser impostos de cima para baixo. Impossível. A idéia de justiça social é o oposto da afirmação de hierarquias. Estas são incompatíveis com a compreensão de que os seres humanos são potencialmente iguais em suas capacidades e radicalmente diferentes em suas possibilidades. Não se trata de acabar com as hierarquias de um dia para o outro. Trata-se de lutar contra seu fortalecimento em nome da liberdade. Esta é a mais perigosa forma de mantê-las e reforçá-las. Luthor não representa a liberdade. Ao contrário, tem convicção de que a injustiça é o estado natural da humanidade. Por isso, pega o Homem de Aço no contrapé. Da mesma forma que o sistema soviético foi pego no contrapé. As populações do bloco soviético suportaram a repressão e a opressão por muito tempo, em nome de conquistas materiais básicas. Quando ficou claro que tanta repressão não garantia nem mesmo isso, o capitalismo jogou suas iscas: seria melhor ter liberdade com alguma chance de fugir da pobreza, do que a certeza da pobreza sem liberdade alguma. Infelizmente, os povos do bloco soviético descobriram que só passaram a ser dominados e explorados por outra forma de capitalismo.

Quando parecia ser o fim do super-herói, uma surpresa. A captura de Lex Luthor pela máquina era parte dos planos do vilão. Dentro das tripas artificiais de Brainiac, Luthor toma o controle da máquina. Detém o ataque ao Homem de Aço. Mas a máquina tem um dispositivo de segurança. Uma bomba poderosa é colocada em ação. Pode destruir todo o sistema solar. Somente o Superman pode levar a explosivo para longe da Terra. E ele o faz. Mas no caminho, deduz que esta é mais uma jogada de Luthor. A bomba foi acionada por ele mesmo para dar a chance de que o Superman precisava para abandonar o planeta em grande estilo. A explosão faz parecer que o Homem de Aço morrera para salvar a Terra. Superman agradece e sai de cena.

Último parêntese: um leitor mais delirante veria na estratégia de Luthor algo parecido com a idéia de que é possível modificar o sistema por dentro. Deixar-se engolir por Brainiac seria como eleger muitos parlamentares e governantes de esquerda. Eles iriam apresentar leis ou fazer políticas para ir mudando o sistema aos poucos. Até que chegássemos suavemente ao socialismo. Se o gibi tivesse terminado por aí, estaria demonstrado que o tal “sistema” é um mecanismo que não aceita sabotagens por dentro. Na verdade, mostraria que o verdadeiro sujeito da atual sociedade é um mecanismo. É o capital. É por isso que Marx batizou sua maior obra com o nome de “O Capital”. Não chamou de “Os capitalistas” ou “A burguesia”. Trata-se de um mecanismo posto em andamento que escraviza todos os seres humanos. Mesmo, os patrões, sempre às voltas com a necessidade de manter altas taxas de lucro para não naufragarem. Claro que a deles, é uma doce escravidão. O fato é que esta máquina não foi desativada após a revolução russa. Ao contrário, ganhou novo impulso quando a nascente experiência socialista se transformou em Estado socialista. Quando tudo o mais ficou subordinado à preservação de um governo que se intitulou comunista. Neste momento, o caminho passou a ser feito por dentro do “sistema”. Por dentro do mercado capitalista mundial, aceitando as regras da competição capitalista, acelerando a industrialização segundo os moldes capitalistas. Uma corrida louca para frente que atropelou e matou milhões de russos e de outros habitantes do Leste Europeu. O final da corrida foi conhecido em 1991. A União Soviética desapareceu, mas o capitalismo continuou. Não é à toa que a grande maioria dos funcionários da antiga máquina burocrática russa são hoje os empresários e mafiosos que controlam a economia. O final que Millar dá a sua história parece confirmar isso. É conservador, se o interpretarmos como impossibilidade de mudanças. Pode ser melhor que isso, se o interpretarmos como a negação de que a liberdade humana possa vir de cima para baixo. Voltará a se repetir, trocando apenas de autoridades e exploradores.

Agora, é Lex Luthor que reina absoluto. O planeta progride através de milhares de séculos. A linhagem Luthor segue governando e fazendo seu povo feliz. O bisneto de Luthor é Jor-L. Um jovem talentoso, que descobre o triste destino da Terra. O Sol está morrendo. A estrela está ficando vermelha e se expandindo. Vai engolir a Terra e os outros planetas. Ninguém acredita em Jor-L. Sabendo que a catástrofe não vai demorar, quer salvar seu único filho, ainda bebê. Cria uma nave espacial para enviar a criança para longe. Não no espaço, mas no tempo. Envia o pequeno Kal-L para o passado. Quer que a criança volte para mudar os destinos do mundo. A nave, com o bebê, cai em uma fazenda da Ucrânia em 1938. A história recomeça.

Livros consultados:
“State Capitalism in Russia”, de Toni Cliff.
“Russia, class and power – 1917 – 2000”, de Mike Haynes.
“El partido bolchevique”, de Pierre Broué.


 

8 de dez de 2014

Corações e mentes. Do Vietnã ao Iraque

Em 1974, 40 anos atrás, Peter Davis lançava o documentário "Corações e Mentes", sobre a guerra do Vietnã. A obra do cineasta estadunidense marcou época ao denunciar o engajamento americano no conflito como um erro. Como diz um dos entrevistados, ex-assessor de Bob Kennedy, “Nós não estamos do lado errado. Nós somos o lado errado”.

Logo no início da produção, surgem as imagens do presidente Lyndon Jonhson fazendo um discurso. No pequeno trecho destacado, ele afirma que uma vitória americana no Vietnã dependeria do coração e da mente do povo daquele país. Mas o filme de Davis mostra que o destino do conflito também envolvia os corações e mentes do povo estadunidense.

Davis utiliza um vasto material audiovisual de maneira muito inteligente. É o caso das imagens mostrando soldados americanos circulando por entre a população vietnamita em Saigon. De um lado, homens altos, robustos, envergando fardas novas. De outro, nativos baixos, muito magros, com a pele queimada pelo sol e vestindo roupas humildes.

Na zona rural, este contraste é ainda maior e mais violento. Aldeias inteiras são bombardeadas por aviões. No solo, soldados americanos brutalizam homens e mulheres, crianças e idosos acusando-os de serem cúmplices do inimigo. Sob o olhar desesperado dos aldeões, os militares ianques colocam fogo na palha que cobre o teto de suas casas.

Foi “Corações e Mentes” que popularizou as imagens que mostram uma menina correndo vietnamita sem roupas, queimadas juntamente com sua pele por napalm. Ou o tiro disparado à queima roupa na cabeça de um vietnamita, com as mãos algemadas, na rua e em plena luz do dia.

Outro recurso utilizado por Davis foi a discrepância entre imagens mostrando cerimônias e eventos patrióticos americanos e as cenas terríveis de uma guerra travada contra um povo militarmente muito mais fraco. É o orgulho nacional tornando-se arrogância imperialista. O espalhafatoso orgulho cívico é igualmente confrontado com imagens de grandes manifestações em meio aos monumentos de Washington.

Mas há também curiosos contrastes entre momentos diferentes de um mesmo depoimento. Isso acontece quando veteranos falam sobre suas expectativas e experiências em campo de batalha. No início de seus testemunhos, estes homens falam do orgulho de servir seu país, da nobreza da causa, da expectativa de grandes feitos militares e da eficácia técnica de seus modernos armamentos.

Os depoimentos estão divididos em trechos distribuídos ao longo do filme. Aos poucos, eles vão se tornando amargurados e perdem a aparente convicção inicial. E à medida que isso acontece, a câmera deixa de enquadrar apenas os rostos dos entrevistados para mostrar seus corpos mutilados pela guerra. Alguns deles participam de manifestações e eventos pela retirada das tropas americanas do território vietnamita.

Ainda como parte desse jogo de contrastes extremos, é muito citada a sequência que compara o depoimento de um general americano às cenas de um funeral coletivo no Vietnã. O alto oficial ianque afirma: “Os orientais não dão o mesmo valor à vida humana que os ocidentais. A morte não é nada para eles”. Ao mesmo tempo, são mostradas imagens de uma senhora desesperada que tenta se atirar à cova de um parente e de uma criança chorando dolorosamente a perda de alguém de sua família.

O filme foi lançado já em meio à retirada total das tropas ianques de território vietnamita, após serem derrotadas vergonhosamente. Os protestos populares contra a participação americana no conflito começaram em 1960, um ano após o envio das primeiras forças militares. Portanto, o filme já é produto de um clima de profundo mal-estar em relação àquela intervenção militar na Indochina. Mais que isso, o material que exibe é ele próprio grande responsável pela virada da opinião pública estadunidense contra a guerra.

Por outro lado, é muito provável que “Corações e Mentes” tenha colaborado para transformar a traumática derrota americana em uma onda contra-hegemônica que, pela primeira vez, questionou em escala de massa as ações imperialistas estadunidenses pelo mundo.

Um movimento que colocou em xeque também o consenso e os dispositivos de dominação que justificavam e alimentavam aquelas ações. Em especial, o racismo, a ditadura do partido único democrata-republicano, um Estado muito vulnerável às pressões do fundamentalismo judaico-cristão, os monopólios da grande mídia e um enorme aparato estatal de repressão, controle e vigilância.  

Se a Segunda Guerra pode ser considerada o conflito que contou com a maior cobertura fotográfica até então, a Guerra do Vietnã juntou às imagens fixas uma abundante cobertura televisiva.  A transmissão simultânea e em cores das sangrentas consequências que todas as guerras provocam entravam em contradição com a narrativa relativamente limpa e romântica das produções cinematográficas sobre a guerra contra o nazifascismo, por exemplo. Com o agravante de que o poderio bélico muito inferior do inimigo “vietcongue” enfraquecia as tentativas do governo americano de criar uma imagem dos inimigos como orientais fanáticos e cegos pela disciplina comunista.

Este erro a cúpula militar americana não voltaria a cometer na Guerra do Golfo de 90/91, por exemplo. A cobertura jornalística passou a ser cada vez mais controlada diretamente pelo Pentágono. Para isso conta com o auxílio entusiasmado da mídia empresarial, que exerce autocensura ou veta reportagens de seus próprios repórteres.

Esta blindagem contra a divulgação dos crimes de guerra cometidos pelas tropas estadunidenses começou a apresentar algumas rachaduras com a popularização da tecnologia móvel e interligada mundialmente. Imagens digitais feitas por civis, forças anti-imperialistas ou pelos próprios soldados americanos vazam por entre as brechas do bloqueio militar-midiático.

No entanto, a internete, principal canal para a circulação desse tipo de informação, também começa a mostrar limites cada vez mais rígidos. Por um lado, há o uso de seu fluxo de dados pelos serviços de inteligência imperialistas para identificar e perseguir críticos a suas ações. Por outro lado, a natureza crescentemente fragmentária e fragmentada da rede mundial dificulta a divulgação das denúncias para muito além dos círculos de esquerda.

Como há 40 anos, a questão decisiva continua a ser a criação de uma ampla reação contra-hegemônica. Continua a envolver a disputa por corações e mentes.

14 de set de 2014

A grande família brasileira ainda não está nas telas

Fevereiro de 2007

O seriado da Globo virou filme de sucesso. Na TV ou no cinema, é o que mais se aproxima da vida cotidiana dos pobres no Brasil. Mesmo assim, está longe dela. Por outro lado, surgem experimentos para mostrar a pobreza de modo mais realista. É preciso ficar de olho nisso.

“A grande família” é um filme de Mauricio Farias baseado na série da TV Globo que tem o mesmo nome. Esta, por sua vez, é uma reedição da série exibida nos anos 70 pela própria Globo e que teve grande audiência. Mais precisamente entre 1972 e 1975, quando a ditadura militar estava no auge da repressão no País. Na época, o responsável pelo roteiro dos episódios era diretor de teatro, Oduvaldo Vianna Filho. Vianinha já havia sido do PCB e aproveitou o seriado para dar umas cutucadas no governo dos generais. Afinal, era um tanto subversivo mostrar uma família às voltas com dificuldades financeiras, um cunhado desempregado e, Tuco, um filho adepto da cultura alternativa quando o discurso oficial falava em “milagre econômico” e valorizava a vida em família contra cabeludos adeptos de relações mais igualitárias e livres entre homens e mulheres. Havia até o personagem Júnior, que era abertamente politizado e contestador e, por isso, sempre foi alvo de restrições por parte da censura.

A volta da série adaptada para o século 21, obviamente, perdeu esse potencial contestador. Ao contrário, apesar das excelentes e engraçadas tramas, o tom é conformista e conservador. Lineu, o chefe da família, continua a sustentar o restante dos membros com seu magro salário de funcionário público. Uma situação que só piora pelo fato de ele se negar a ceder às pequenas corrupções que fariam parte da rotina da repartição. Mas sua persistência na honestidade sugere corrupção generalizada nos serviços públicos, o que nem de longe é verdade. Tuco era um defensor do comportamento alternativo na série dos anos 70. Na atual, é apenas um desempregado de quase 30 anos sem qualquer perspectiva a não ser comer, dormir e assistir TV o dia inteiro. E Júnior, claro, não existe em tempos de pensamento único.

No entanto, o sucesso da série continua e as razões podem ser muitas. O talento do elenco, dos roteiristas e da direção certamente pesa. Mas, talvez, a proximidade da vida cotidiana dos mais pobres também seja importante. Aliás, a cenografia e a produção da série e do filme são caprichadas. A casa, o bairro, a paisagem, as roupas e até os automóveis são típicos de um bairro pobre de nossas grandes cidades.

Por outro lado, a produção está longe de representar a vida da grande maioria das famílias brasileiras. Para usar um indicador de considerável luxo, Lineu tem um automóvel usado. O problema é que o número de lares brasileiros permanentes cujos moradores possuem um automóvel não chega a 33%. Outro elemento que distancia a “Grande Família” das famílias brasileiras em geral é a ausência de personagens negros, numa população com, pelo menos, sua metade formada por não brancos. De qualquer maneira, o programa de TV parece ser o que mais se aproxima da realidade da maioria. Afinal, a série não tem nem mesmo personagens ricos, como é regra nas outras produções nacionais.

Uma ironia é que o filme seja campeão de bilheteria, mas deve ser visto por pouca gente que realmente vive as situações mostradas por seus personagens. É verdade que em duas semanas de exibição ultrapassou 1 milhão de pagantes. No entanto, é uma marca bastante distante dos mais de 35 milhões e meio de pessoas que acompanham diariamente a novela “Páginas da Vida”, por exemplo. Nenhum mistério. Se são mais de 91% de residências brasileiras com um aparelho de televisão, apenas 8% dos municípios contam com uma sala de cinema.

Ao mesmo tempo, a televisão brasileira vem fazendo experimentos para chegar a uma realidade mais próxima da maioria. É o caso de “Cidade dos Homens”, “Antônia”, “Central da Periferia” e da novela “Vidas opostas” (sobre esta última, clique aqui e leia ótimo artigo de Marcela Figueiredo na página do Núcleo Piratininga de Comunicação). São produtos de boa qualidade e que abrem portas para artistas negros. Mas a lógica é a mesma. Recortar a realidade segundo os padrões dominantes. É a trama de amor, a luta pelo sucesso e o caminho individual para longe da pobreza, do crime, da marginalidade.

É preciso ficar de olho nesses movimentos dos monopólios de comunicação. A “Grande família” está a meio caminho entre a novela que retrata o dia-a-dia de cerca de 2% da população brasileira e as tentativas de mostrar o cotidiano da grande maioria, negra, pobre, explorada e oprimida. Os personagens da série e do filme mostram o drama daqueles que estão cada vez mais longe do Leblon, Morumbi e outros bairros ricos do País e mais perto dos morros e das periferias. Faz parte de um processo de empobrecimento da classe média que já tem mais de 20 anos. Mais gente escorrega para níveis precários de sobrevivência, enquanto somente uns poucos sobem para níveis extremos de luxo e riqueza.

Falar para a maioria da população sempre foi um trunfo que a Globo e outras emissoras usaram para impor modelos de vida e comportamento muito distantes de sua vida real. Agora, as empresas de comunicação parecem querer falar para os mais pobres sobre seus próprios problemas. Não para incentivá-los a buscar soluções autônomas e coletivas. Querem é manter o individualismo, o consumismo e outros modelos de comportamento que interessam aos poderosos. Talvez, pressintam a necessidade de falar para os pobres antes que eles fiquem definitivamente surdos a apelos de uma “paz e ordem” que não lhes garante tranqüilidade e perspectivas de uma vida melhor.


No final do filme, Lineu escapa por pouco de ser atropelado por um trem. Na vida real, o trem já atropelou muitos e deve continuar atropelando. A grande mídia quer manter os trilhos limpos para que as próximas vítimas não se assustem. Nem encontrem formas próprias de evitar o desastre.

21 de ago de 2014

Dona Pecúnia e Madame Hegemonia mandam notícias

Ah, pobres e frágeis membranas da honra. Quem as respeita? Ah, fatalidade. A boa reputação da verdade se foi desde que o dinheiro, este vil dinheiro, passou a ser o único valor.
Esta é uma das frases presentes no mais novo documentário de Jorge Furtado. Ela foi retirada da peça teatral “O mercado de notícias”, de Ben Jonson, que dá nome ao filme. Além da importância do tema de que trata, sua exposição cinematográfica é, como sempre, muito criativa.
 
O filme se propõe a debater a grande imprensa, seu poder e os interesses econômicos e políticos a que serve. Por si só, a seleção de entrevistados seria suficiente para despertar a atenção do público. Entre eles, Mino Carta, Raimundo Pereira, Janio de Freitas, Geneton Moraes e Bob Fernandes. Mas para tornar o filme ainda mais interessante, Furtado intercalou aos depoimentos trechos da peça de Jonson.
 
Há vários aspectos importantes na produção, mas o que mais chama a atenção são as contradições entre a divulgação de notícias e os custos de sua produção. Pois é disto que se trata. A peça de Jonson foi encenada pela primeira vez em 1626. Quase 200 anos antes de entrar em funcionamento a primeira rotativa a permitir a impressão de mais de mil exemplares por hora. Era um equipamento movido pelo vapor. A mesma fonte de energia que impulsionou a Revolução Industrial que lançaria o capitalismo em sua trajetória fulminante como primeiro meio de produção universal.
 
Mas o vapor, o petróleo, a energia elétrica ou nuclear, nenhuma dessas fontes de energia se compara com uma força muito mais poderosa. Na obra de Jonson esta tremenda potência é personificada por uma bela e jovem donzela, vestida em luxuosos trajes dourados. Trata-se de Dona Pecúnia, sempre ladeada por suas damas de companhia, Hipoteca, Norma, Promissória e Taxa. Como se vê, é do dinheiro que se trata. A mercadoria criada com a única função de intermediar a troca das outras mercadorias. Tão inútil em si mesma, quanto imprescindível para a vida regida pelas trocas mercantis.
 
Dona Pecúnia nem sempre foi tão poderosa, ainda que muito cobiçada. Durante séculos, muitos podiam viver sem ela, sem correr risco de morrer ou padecer sofrimentos terríveis. Os servos, camponeses, escravos, proletários ou plebeus em geral raramente colocavam os olhos em Dona Pecúnia durante suas curtas e penosas vidas. Somente sob o capitalismo, a bela donzela começou a ganhar importância inédita e passou a circular generalizadamente por entre a elite e o povo, sem pudor e reservas. E cada vez mais poderosa.
 
É diante deste poder que a obra de Jonson coloca em questão um novo ramo comercial surgido naquele século 17. Precisamente, o mercado de notícias que um dos personagens da peça deseja explorar fazendo uso da herança deixada pelo pai. Trata-se de Pila Jr, que pretende reforçar sua posição no novo mercado casando-se com Dona Pecúnia.
 
Mas a nova mercadoria não se presta facilmente a encomendas. Em um determinado momento, alguém solicita uma notícia na medida de seus interesses. Um dos empregados responde não ser possível comprometer a credibilidade do negócio desta maneira.
 
Corta para uma das afirmações mais contundentes dentre os depoimentos prestados por jornalistas experientes. Janio de Freitas diz que “o jornalismo feito no Brasil é feito por empresas capitalistas interessadas no lucro”. E que é um erro pensar que “um jornal é editado para fazer jornalismo. Na verdade, continua ele, o jornal é editado para publicar publicidade. O jornalismo é o recheio do entorno dos anúncios”. E disse mais. O papel dos jornalistas é subalterno e sua função primordial “é proporcionar a melhor tiragem para obter a venda mais fácil e o melhor preço do espaço publicitário no jornal”.
 
Ora, a afirmação de Freitas não é simplória. É verdade que a imprensa nasce e se desenvolve como uma empreitada em busca de lucros. Mas, tal como diz o personagem da peça de Jonson, ainda em tempos artesanais do jornalismo, a credibilidade é uma das características mais importantes dessa mercadoria específica. Do contrário, seria relativamente simples desmascarar os interesses por trás desta ou daquela empresa de comunicação. Bastaria relacionar sua produção noticiosa com os interesses de seus principais anunciantes, combinando-os com os desdobramentos na esfera política, como o apoio a este ou aquele partido, governo, regime etc. Estaria feito um diagnóstico capaz de mostrar que não se trata de divulgar notícias “objetivas”, “isentas”, “neutras”, mas de preservar interesses alheios aos dos leitores e à divulgação democrática da informação. Dona Pecúnia seria surpreendida em plenas conjunções carnais com os proprietários e controladores da grande mídia.
 
Mas não é assim que funciona. Falta a este cenário uma personagem importante, mas que não aparece na peça de Jonson. Para continuarmos no domínio das alegorias, chamemos esse personagem de Madame Hegemonia, cujas façanhas foram melhor reveladas por outro gênio. Desta vez, não um teatrólogo, mas o pensador comunista italiano Antonio Gramsci, uns 300 anos depois do surgimento da obra do dramaturgo inglês. Se a “maior tiragem” de que fala Freitas é um elemento ao qual deve se subordinar a produção de notícias, é Madame Hegemonia a responsável por assegurar a mais importante das qualidades da fabricação noticiosa: a credibilidade.
 
As receitas de Madame Hegemonia para conseguir a tal credibilidade são muitas, variadas, criativas. Os ingredientes são elementos da realidade, crenças, costumes, hábitos, preconceitos, medos. Muito disso tudo é antigo. O que parece novo, frequentemente é apenas coisa reciclada. A senhora Hegemonia atua há muito tempo, mas, como vimos, só foi descoberta recentemente.
 
No jornalismo da grande imprensa, Madame Hegemonia age por meio das empresas de comunicação, mas Gramsci preferiu chamá-las de Aparelhos Privados de Hegemonia. E é assim mesmo quando elas controlam concessões públicas. A propriedade desses aparelhos não é privada, mas os interesses que defendem, sim.
 
Os patrões e gerentes dessas empresas têm suas próprias receitas para cumprir aquilo que Madame Hegemonia recomenda. Mas todas fazem a combinação daqueles ingredientes citados acima. Eles sabem que não é possível mentir simplesmente. Ou apenas omitir e distorcer. Ou, ainda, dizer tudo com clareza e chamar as coisas por seus nomes. Eles fazem tudo isto, mas em doses e combinações variadas, de modo que pareça tudo muito verossímil. Mais do que isso, de modo que tudo o que divulgam pareça mero produto de uma leitura objetiva dos fatos. Um retrato da realidade.
 
Um bom exemplo é mostrado pelo filme no episódio do quadro de Picasso. Vamos transcrever a explicação do caso a partir do próprio site da produção de Furtado:
Em março de 2004, o jornal Folha de S. Paulo publica na capa de sua edição de domingo (07.03.2004), sob o título “Decoração burocrata”, uma reportagem informando que um valioso “desenho do pintor espanhol” Pablo Picasso “passa os dias debaixo de luzes fluorescentes e em meio à papelada de uma repartição do governo federal”, dividindo sua “moldura com restos de inseto”. Na foto, além da reprodução do supostamente valioso desenho, um retrato do Presidente Lula. O sentido da matéria é claro: os novos ocupantes do governo federal não reconhecem e não sabem lidar com o valor da arte. A notícia do suposto descaso com tão valiosa obra aparece em vários jornais, revistas e sites, no Brasil e no exterior. A observação atenta de alguns leitores logo deixa evidente que se trata de uma “barriga”: o tal desenho de Picasso é, na verdade, de uma reprodução fotográfica, sem nenhum valor. Os jornais são alertados de seu erro, mas nenhum desmente a informação. Em dezembro de 2005, o “Picasso do INSS” está outra vez na capa da Folha de São Paulo (29.12.2005) e também na do Estado de S. Paulo: um incêndio destruiu parte do prédio do INSS mas, para alívio de todos e apesar do descaso dos órgãos públicos, o “valioso” Picasso foi salvo das chamas. Mais uma vez os jornais são alertados por leitores de que se trata de uma reprodução sem valor, mas nada noticiam.(www.omercadodenoticias.com.br)
Como diz o texto acima, a matéria tinha um sentido político. Era uma reportagem pensada para ridicularizar o governo petista, mas de modo discreto e sutil. Usou elementos presentes na realidade, como o quadro, a repartição etc. Supôs o valor do quadro como sendo aquele de uma obra autêntica de Picasso. Não citou o governo Lula, apenas o retrato do presidente ao fundo, na parede da sala em que estava o suposto Picasso. Mentiu sobre seu valor ou, pelo menos, cometeu o erro de não conferir a autenticidade da obra ou dar-se o trabalho de pesquisar para saber se não havia um original em outro lugar. O jornal também fez ouvidos de mercador para os leitores que avisaram sobre o erro. Afinal, poderia dizer o jornal em sua defesa, foi apenas uma matéria, sem maiores pretensões.
 
É verdade. A reportagem não pretendia derrubar um governo. De forma alguma, influenciou diretamente na conquista de votos contrários às candidaturas petistas ou de seus aliados em eleições posteriores. Mas juntou-se a uma série de outros elementos parecidos no sentido de minarem a credibilidade do governo, ao mesmo tempo em que reafirmava seu próprio compromisso com a descrição da realidade. Por outro lado, procurava mostrar que a “alta cultura”, a cultura dos museus e dos palácios, jamais será reconhecida por simplórios que vieram da pobreza e da produção fabril. E que alguém assim não está preparado para governar. Quem é incapaz de saber o valor de coisas como aquela, também é incapaz de administrar outras coisas, como o dinheiro público, o patrimônio público etc. Estes são apenas alguns dos elementos que aparecem diariamente em dezenas de jornais e veículos da grande mídia. Eles vão mantendo e fortalecendo um senso comum conservador, elitista, preconceituoso. Não precisam derrubar um governo, nem mesmo fazer oposição aberta a ele. Basta que reforce o cerco que o mantém domesticado, dócil, inofensivo. É assim que Madame Hegemonia age.
 
Esta má vontade da grande mídia com o governo Lula é destacado por vários entrevistados. Mas talvez, exatamente por isso, o documentário pudesse ter discutido essa outra personagem que não estava na peça de Jonson. A astuciosa Hegemonia. Afinal, muitos dos petistas que estão poder acham que disputam os encantos dela. Que a estão seduzindo pouco a pouco para ficar a seu lado. Mas isso jamais acontecerá enquanto sua outra companheira, Pecúnia, continuar prisioneira de alguns poucos senhores poderosos. No jornalismo da grande imprensa, Dona Pecúnia está sob total controle dos monopólios empresariais da comunicação. Inclusive, com ajuda de polpudas verbas publicitárias oficiais. Enquanto for assim, Madame Hegemonia continuará a piscar os olhos na direção dos petistas e seus aliados, enquanto permanece em fogoso concubinato com nossos inimigos.
 
No enredo da vida real faltam outras figuras alegóricas, como a companheira Democratização da Mídia, a irmã Solidariedade, a camarada Organização, os aliados da Mídia Alternativa e, principalmente, os guerreiros da Consciência de Classe e os combatentes da Contra-Hegemonia. Sem que esses personagens entrem em cena, o jornalismo continuará mandando as notícias que interessam a Dona Pecúnia e Madame Hegemonia.
 

15 de fev de 2014

O Lobo de Wall Street: um chacal em pele de predador

Na verdade, o Lobo de Wall Street era apenas um chacal ou uma hiena, que se alimentava da volumosa carniça que lhe sobrava. O filme de Scorcese é diversão nos dois sentidos da palavra.

"O Lobo de Wall Street", de Martin Scorcese, é uma adaptação do livro de memórias de Jordan Belfort, corretor de títulos da bolsa norte-americana. Interpretado por Leonardo DiCaprio, logo no início do filme, o protagonista lista as várias drogas que ingere durante todo o dia para manter o ritmo louco do mundo da especulação financeira.

Na cena que mostra Belfort aspirando uma carreira de pó branco, ele avisa: esta é a mais terrível de todas as drogas. Mas não se trata de cocaína. Ele se refere à nota de dinheiro que utilizou como canudo para inalar a substância. “Esta é a mais poderosa das drogas”, diz ele.

E o filme todo é sobre os efeitos dessa substância que circula pelas veias de praticamente todas as sociedades do mundo atual. Que levou a vida social contemporânea a uma dependência, mais do que química, alquímica. Uma alquimia que não transforma apenas chumbo em ouro, mas converte tanto matéria, como espírito em bens monetizados. Em ativos que podem ser negociados nos mais diversos tipos de mercados em que foram transformadas as várias esferas da vida humana.

Ao mesmo tempo em que as drogas servem como estimulante para manter o ritmo frenético que permite a acumulação de riquezas, a riqueza não é um meio se não para si mesmo. Não há objetivos maiores do que o de possuir mansões, carrões, iates e tudo que esteja em conformidade com os padrões impostos pelo mercado de luxo, inclusive as mulheres.

Belfort e seu time de corretores precisam fazer dinheiro aos montes para ingerir doses cavalares de drogas, alimentos e bebidas, vestir as melhores grifes e fazer sexo em tempo integral. Mas, no fundo, fazem tudo isso apenas para voltar a fazer dinheiro. Este último é o seu verdadeiro mestre. Aquele a quem devem obediência e devoção.

Impossível assistir às cenas que mostram as palestras de motivação de Belfort para seus empregados sem lembrar de cultos religiosos. O uso poderoso da palavra, o discurso emocionado, as metáforas arrebatadoras, os gestos de comunhão histérica, os ataques de choro, os urros de fé e as juras de fidelidade às leis nada divinas da selva capitalista.

Muitos criticaram o filme por tornar simpática uma figura asquerosa. Por transformar em cenas cômicas as armadilhas com que Belfort levava pessoas pobres a apostar suas economias em investimentos furados apenas para que ele ganhasse sua polpuda comissão. Mas, creiam, o maior vilão dessa história não aparece no filme de Scorcese.

Do mesmo modo que o pastor ou o padre são apenas intermediários, Belfort é somente parte de uma matilha que apanha os restos deixados por feras muito maiores e mais vorazes. Não foi à toa que Marx resolveu chamar de “O Capital” sua maior obra, ao invés de “Os Capitalistas” ou “A Burguesia”, por exemplo. O capitalismo funciona como um mecanismo social que aliena até mesmo seus maiores beneficiários.

As cada vez mais recorrentes catástrofes ambientais, as seguidas e agudas crises econômicas, as ameaças de crises alimentares e catástrofes biológicas. Tudo isso é produto do que Marx chamou, não gratuitamente, de “anarquia da produção capitalista”. Um mecanismo que se alimenta de uma concorrência que vem se transformando na corrida para o abismo que Walter Benjamim já temia mais de 70 anos atrás.

Nada disso autoriza a isentar de culpa os poderosos controladores dos meios de produção e de circulação da economia mundial. Nem implica dizer que o modo de produção capitalista torne a todos suas vítimas, indistintamente. Estão aí o luxo e a riqueza para uma minoria minúscula e as limitações materiais mais básicas e os constrangimentos morais mais humilhantes para a gigantesca maioria do planeta.

Belfort não apenas tem culpa, como chegou a quebrar a própria legalidade de um sistema feito para promover a rapina mais cruel. Mas os responsáveis por levar a cabo o grande massacre são outros. São poucos e são patrocinadores e apadrinhados dos poderes políticos e institucionais em todos os cantos do planeta.

Basta que lembremos uma pesquisa da ONG britânica Oxfam divulgada em janeiro passado. O estudo revela que o patrimônio das 85 pessoas mais ricas do mundo equivale às posses de metade da população mundial. Este grupo que não chega a uma centena de indivíduos tem um patrimônio de US$ 1,7 trilhão. Valor que equivale aos bens das 3,5 bilhões de pessoas mais pobres do mundo. O relatório também mostra que a riqueza do 1% das pessoas mais ricas do planeta equivale a US$ 110 trilhões. Ou 65 vezes a riqueza total da metade mais pobre da população mundial.

Muito dificilmente essas pessoas seriam levadas a responder por alguma ilegalidade. Não apenas porque o atual aparato jurídico não foi feito para punir os que o puseram para funcionar. Mas, principalmente, por causa da natureza concentradora do Capital. Uma espécie de atração gravitacional poderosa como a dos buracos negros. Um fenômeno que vem confirmando as previsões nada astrológicas de Marx desde que ele estudou as primeiras crises capitalistas. Este pequeno grupo superprivilegiado poderá ser ainda menor, em pouco tempo.

Nessa imensa carnificina, o Lobo de Wall Street era apenas um chacal ou uma hiena, que se alimentava da volumosa carniça que lhe sobrava. O filme de Scorcese é diversão nos dois sentidos da palavra. Feito para entreter e para despistar.

3 de fev de 2014

Tempos Modernos, de Charles Chaplin

Um olhar humanista que serve aos objetivos da emancipação social

Charles Chaplin criou um personagem que tornou-se ícone da cultura de massa. Apesar disso, como é comum acontecer numa época em que a produção cultural é tanto mais massificada, quanto mais fragmentada, muitas pessoas que juram admiração a Carlitos e seu criador, jamais viram os filmes de Chaplin do começo ao fim. Principalmente os de longa metragem. Por isso o conhecimento que uma parcela mais ampla das pessoas tem da obra do cineasta limita-se às cenas mais cômicas de cada filme. E, às vezes, também às cenas mais emotivas, como o abraço choroso ao menino em O Garoto, e o olhar feliz e ingênuo do vagabundo no final de Luzes da Cidade.

Em Tempo Modernos, a cena mais conhecida é a de Carlitos apertando parafusos no ritmo frenético imposto pela linha de produção até ser arrastado pela esteira e engolido pelo maquinário. O significado mais óbvio do filme aparece nesta cena, em que o homem é tragado pelas entranhas da máquina.

Quem se baseia nesta cena para julgar o filme, pode achar que Tempo Modernos perdeu força em nossa época. Afinal, o método fordista de trabalho já não é predominante e a informatização está tomando conta das fábricas, mantendo relativamente poucos operários e funcionários entre seus quadros profissionais. Mas assim como operários de macacão não são necessariamente os únicos sinônimos adequados para representar os proletários, o objeto do filme de Chaplin não é apenas a tecnologia engolindo o homem. Na verdade este é apenas o lado mais visível do filme. Um aspecto enfatizado pela insistência em representar a obra apenas a partir daquela cena famosa.

Entendo que o que Chaplin aborda aqui é fundamentalmente a alienação do ser humano no mundo. Basta assistir ao filme todo e será possível deslocar seu tema da tecnologia massacrante para a alienação também em outros níveis da vida social. Por exemplo, quando Carlitos sai do manicômio onde foi internado após enlouquecer na linha de produção, encontra uma situação de grande desemprego devido à crise de 29. Fica, então, perambulando pelas ruas.

É quando lhe acontece ver cair uma bandeira de sinalização (obviamente, de cor vermelha) de um caminhão em movimento. Tentando ajudar, pega a bandeira e começa a perseguir o caminhão agitando-a para o motorista. Imediatamente, uma passeata aparece por trás do personagem de modo que Carlitos parece estar à frente da manifestação. Logo a polícia aparece para dispersar o movimento. Na confusão Carlitos vai parar num bueiro de onde é retirado pela polícia, ainda com a comprometedora bandeira na mão.

A prisão é inevitável. Como é inevitável a conclusão de que Chaplin utiliza esta cena para fazer uma sutil crítica aos socialistas. Será que muitos dos que estão envolvidos na contestação ao capitalismo, não estariam também eles agitando uma bandeira de forma ingênua? Não estariam se iludindo ao pensar que sua postura de contestação os livra da alienação?

Mas essa crítica não implica que Chaplin seja um anti-comunista. Ele apenas não é comunista.

Quando perseguido pela paranóia mackhartista, declarou ser um humanista. E como tal, dizia que os comunistas também eram seres humanos. Um avanço para a época. "A mãe de um comunista chora tanto quanto as outras mães, ao receber notícias trágicas sobre seu filho", teria dito.

Se respeitarmos a avaliação do próprio Chaplin sobre sua postura política, veremos que Tempos Modernos é uma expressão bastante coerente de seu humanismo. Afinal, se ele faz a crítica sutil aos socialistas, no restante do filme é o capitalismo que se torna objeto de uma crítica mordaz. Carlitos é jogado de um lado para o outro em todo o decorrer do filme. Na prisão, acaba ingerindo cocaína pensando que é sal (aliás, uma das cenas mais hilariantes da história do cinema). Agora, é a droga que o priva do controle de sua vontade. Mas, o irônico é que sob o efeito da cocaína, o personagem acaba debelando uma rebelião do presídio e ganha uma cela com regalias, como jornais e cafezinho servido pelo carcereiro. A droga o colocou ao lado da paz e da ordem.

A saída da prisão é dolorosa para o vagabundo. Não quer voltar ao mundo sem emprego e cheio de agitações. Mas, de novo é obrigado a fazer o que o sistema manda, mesmo que seja ao retomar sua liberdade.

De volta às ruas, conhece a linda orfã abandonada pelas ruas vivida por Paulette Goddard, mulher de Chaplin na vida real. Apaixonam-se e o amor agora lhe dá novo ânimo. Consegue um emprego de vigia noturno de uma loja de departamento Novamente, o que parecia ser uma ocupação tranqüila transforma-se em uma grande confusão. Primeiro, a loja de departamentos revela-se um grande play-ground. Um lugar para se ir e imaginar-se adquirindo coisas bonitas e luxuosas. Aqui, Chaplin parece querer dizer que quanto menor o poder aquisitivo do indivíduo, maior sua fascinação com esse parque de diversões em que os brinquedos são as mercadorias.

Depois, assaltantes invadem o local e Carlitos é obrigado a tentar impedir. É claro que o vagabundo é dominado, mas acaba descobrindo que um dos assaltantes foi seu colega de trabalho na linha de produção. Bill foi demitido e rouba para viver. A classe operária se reencontra na loja. Um em ocupação precária, recém saído da prisão, o outro entregue ao crime. Mas ambos vítimas das circunstâncias. Carlitos perdeu o emprego na fábrica por ser sensível demais à tecnologia. Seu colega de fábrica era mais resistente ao ritmo de trabalho industrial, mas não teve destino melhor.

Tal como aconteceu com Carlitos, Bill também acabou escorregando para a ilegalidade. Só que o primeiro acabou na prisão sem ter premeditado qualquer ato ilegal, enquanto Bill teria feito uma opção consciente pelo crime. Mas o que interessa aqui não é o nível de consciência. E sim o peso massacrante das circunstâncias.

Nesse sentido, nenhum nível de consciência é suficiente para libertar os seres humanos do grande mecanismo social que os engole e cospe de volta em condições ainda piores.

Desse ponto de vista, o filme poderia ser acusado de ser conformista. Até de ajudar na manutenção do sistema ao mostrar a impossibilidade de transformá-lo ou derrubá-lo.

No entanto, a força do personagem Carlitos está em sua capacidade de mostrar que mesmo no pior dos mundos, a contraditória condição humana mantém os olhos fixos na esperança. É por isso que sempre no final de seus filmes, Chaplin mostra o vagabundo sumindo em direção ao horizonte, após uma pequena sacudidela nos andrajos, como a deixar para trás todos os dissabores e renovar a vontade de viver.

A diferença é que em Tempos Modernos, após consolar sua companheira, Carlitos parte pela última vez. O vagabundo não seria mais utilizado por Chaplin em seus filmes seguintes, num sinal de que os tempos modernos já não teriam lugar para o vagabundo lírico.

Talvez estejam aí explicitados os limites da visão política de Chaplin. O humanismo não consegue avançar para além da denúncia da alienação massacrante da vida moderna. Uma espécie de nostalgia toma lugar de toda outra possibilidade de vida social. O vagabundo era um personagem perfeito para dizer que o estilo de vida burguês não é aceitável, mas ao mesmo tempo tinha apenas um caráter de negação anárquica. Negava sem afirmar uma outra forma de viver. Ficava à margem da vida social, contentando-se com alguns expedientes de sobrevivência, assim como lhe bastava catar algumas bitucas de cigarro.

Por outro lado, é aí que está a genialidade da obra de Chaplin e de seu personagem. Quando critica sutilmente o movimento socialista e fortemente o sistema capitalista, Chaplin está apenas alertando. Mesmo nos limites de seu humanismo, que politicamente pode ser considerado piegas, ele nos diz: cuidado, bandeiras se agitando, gente se manifestando, tudo isso é pouco perto da grande fábrica social, cheia de engrenagens que engolem pessoas todas as horas.

A escolha do vagabundo rico em malandragens que é Carlitos permite a Chaplin evitar que sua obra torne-se uma denúncia simplória das mazelas do homem moderno e diga algo como "nada do que é humano me é estranho". Uma frase que não destoaria da chacoalhada de ombros e do caminhar tranqüilo de Carlitos, na cena final de seus filmes.

É nesse sentido que o humanismo de Chaplin pode ser muito útil aos que pensam a emancipação humana sob o ponto de vista da ação coletiva, organizada e consciente. Dos que pretendem, não apenas denunciar e lamentar a atual sociedade, mas construir uma nova forma de viver a partir das contradições da atual. Chaplin não era um comunista ou socialista, mas sua obra pode fornecer elementos importantes para que socialistas e comunistas incorporem o humanismo com elemento fundamental para qualquer estratégia de transformação social.

Agosto de 1999