Uma série de grande sucesso nos Estados
Unidos e um documentário brasileiro mostram toda a arbitrariedade da estrutura
judiciária contemporânea. Outro elemento comum aos dois países é a adoção de
leis que pretendem criminalizar a pobreza e os movimentos sociais.
Making a murderer
A série “Making a murderer” (“Fabricando um assassino”), da Netflix, é o grande
sucesso da temporada nos Estados Unidos. Escrito e dirigido por Laura Ricciardi
e Moira Demos, o documentário conta a história de Steven Avery, acusado de ter
cometido crime sexual, em 1985. Condenado com base em provas frágeis, sua
sentença é anulada em 2003. Colocado em liberdade após 18 anos de prisão, ele processa
a justiça de sua cidade exigindo uma indenização de U$ 36 milhões.
Mas pouco tempo depois de sua libertação, uma jovem desaparece. Buscas
policiais chegam à propriedade da família de Avery e encontram restos de um
cadáver, o carro da vítima e outras evidências que apontam para Steven como autor do novo crime. A série,
basicamente, mostra as muitas inconsistências da acusação. Entre elas, a
participação nas investigações dos mesmos policiais que Avery estava
processando e claros sinais de evidências forjadas na suposta cena do crime.
Um dos aspectos que mais assusta no seriado é a impossibilidade de reverter uma
decisão, uma vez que ela é tomada pelo sistema judicial. A anulação da sentença
que condenou Avery em 1985 é um caso raro, mas os que trabalharam por sua condenação
não tiveram sossego enquanto não o implicaram em novo crime. Outro aspecto
assustador é o caráter de infabilidade quase sagrada com que os agentes da
justiça e da lei são ungidos pela sociedade.
Mesmo diante de sérias falhas e procedimentos bastante questionáveis dos
policiais envolvidos, era muito comum o argumento de que não se podia desmoralizá-los
publicamente. Para isso colabora bastante a atuação da grande mídia, cuja
necessidade de manter seu suposto caráter de portadora da verdade dos fatos a
coloca ao lado dos agentes da lei - como a igualar-se a eles na condição de
autoridades sobre as quais não cabem maiores questionamentos.
Além disso, a cobertura jornalística do julgamento serviu com um elemento de
forte distorção contra as pretensões de inocência a que tem direito qualquer
réu. Em um dado momento, por exemplo, a acusação apresenta uma testemunha cujos
depoimentos são aparentemente definitivos em favor da condenação de Avery. Mais
à frente, no entanto, revela-se o caráter completamente inconsistente e viciado
das declarações e a defesa acaba tendo que solicitar a retirada da testemunha do
julgamento e a consequente desconsideração de suas declarações pelos jurados.
Perguntado pelos jornalistas se o recuo teria sido uma vitória do réu, um dos
advogados de defesa responde negativamente. Afinal, diz ele, todo o estrago
feito pelos depoimentos prestados dificilmente seria sanado, em especial por
sua ampla difusão na grande imprensa. As mesmas pessoas que viram nas
declarações da testemunha provas irrefutáveis da culpa de Avery, teriam grandes
dificuldades para entender por que, agora, elas já não seriam válidas, pois não
teriam o mesmo acesso aos motivos que levaram à sua invalidação. E o que vale
para o público em geral, vale para os jurados: de forma alguma estão livres das
pressões da opinião pública.
A forma como Avery é tratado deixa claro que uma vez acusada, a pessoa é considerada
culpada, ainda que isso não venha a ser confirmado por uma sentença. É como se
o sistema judicial não pudesse admitir qualquer possibilidade de falha. O preço
pago por alguns prováveis inocentes seria pequeno diante da necessidade de
continuar condenando os ”verdadeiros culpados”.
O fato é que a presunção de inocência, que deveria proteger todo acusado, é
esmagada por uma suposta infabilidade das decisões da justiça.
Claro que este quadro precisa ser relativizado pela condição social daqueles
que se confrontam com ele. Os Avery são brancos, loiros, de olhos claros, mas
nunca foram bem vistos pela comunidade local, considerados desordeiros e de
hábitos “pouco cristãos”. A família pertence a uma classe média baixa, que exerce
uma atividade de pouco ou nenhum prestígio social: possui um grande
ferro-velho, explorado por seus próprios membros.
Os Avery não tinham dinheiro ou influência para se defender. O erro de que
Steven foi vítima e o levou à prisão foi revertido por uma organização civil
cujos membros utilizavam casos desse tipo para ampliar sua influência político-eleitoral.
Quando foi feita a segunda acusação contra Steven, se afastaram do caso e retiraram
seu nome da relação de pessoas a quem prestaram auxílio.
Os advogados contratados para defender Steven no segundo julgamento estavam
entre os melhores e mais caros do país. Mas foram pagos por meio de um acordo
com a justiça local. No lugar da indenização de U$ 36 milhões que estava pleiteando,
Steven aceitou U$ 400 mil para pagar pelos serviços de seus novos defensores.
Foi a primeira condenação e sua inesperada reversão que deu a Steven os meios financeiros
para se defender com um mínimo de chances no segundo julgamento, assessorado
por advogados capazes de desmontar as teses da acusação. É muito provável que
esta combinação de fatores tenha dado ao caso tanta repercussão na mídia, levando-o
a transformar-se em um seriado de sucesso.
Mas independentemente do desfecho do caso Avery, dezenas, talvez centenas, de
milhares de pessoas continuam a lotar o sistema carcerário estadunidense sendo
inocentes ou estando submetidas a penas desproporcionalmente elevadas em
relação aos crimes que cometeram. São quase todas pretas. A quase totalidade delas,
pobre ou remediada.
Sem Pena
O mesmo cenário pode ser pintado para retratar a situação penal no Brasil,
ainda que com tintas mais fortes. É o que mostra, por exemplo, o documentário “Sem
Pena”, de 2014.
Muito longe de receber a mesma repercussão, a produção de Eugênio Puppo aborda
o sistema carcerário brasileiro, principalmente por meio de sua porta de
entrada. Sempre aberta para os pobres e pretos e dando passagem a estadias
longas que nada devem ao Inferno descrito por Dante em “A Divina Comédia”.
No filme, os depoimentos são dados apenas por vozes, sem focalizar o rosto de
seus donos, a não ser no final, durante os créditos. O primeiro a testemunhar é
um rapaz que foi confundido com o agressor de uma jovem. Preso, é submetido a
um reconhecimento induzido. Colocado entre homens com tipo físico completamente
diferente em relação ao dele, com o rosto marcado por hematomas resultantes de
murros e pancadas recebidas na fase de “interrogatório”, a vítima não teve
dúvidas quanto a identificá-lo como autor das agressões. Uma vez processado, o
rapaz descobre que outras acusações caem sobre ele de modo a “resolver” casos
sem suspeitos e melhorar as estatísticas da polícia.
Em outro caso, uma usuária é condenada por porte de maconha. Cumprida a pena,
ela é novamente procurada pela polícia que a acusa de ser fugitiva da justiça.
O problema é que a vara de execução penal em que estava o processo dela não
informou às outras varas do cumprimento da pena. Mas as coisas se resolveriam
se a acusada concordasse em acertar sua situação informalmente, mediante uma
“pequena recompensa”.
Outra voz ouvida é a de um detento, que faz a seguinte afirmação sobre as
condições prisionais: “coloca um cavalo aqui pra ver o que acontece. Ele fica
louco”. Ele se refere, claro, a dez ou quinze anos de prisão em celas sujas e
superlotadas. Muitas vezes, o detento não tem nem mesmo uma sentença que
justifique sua permanência ali. Esta é a situação de um entre quatro presos no
Brasil.
Não é o caso de um policial condenado por crimes cometidos em serviço. Segundo
ele, um traficante pode escapar de ser preso se pagar, por exemplo, uns 200 mil
reais ao policial destacado para detê-lo. Mas em seu lugar, outra pessoa será
detida, ainda que seja inocente, para que seja mantida a média estatística de “crimes
resolvidos”.
Em todos os casos, libertados depois de cumprida a pena ou por não deverem nada
à lei, os recém-saídos encontram a enorme dificuldade de se integrar novamente
à vida social. Como no caso de Avery, uma vez acusado, condenado. Uma vez
condenado, jamais perdoado.
Por fim, o testemunho de um secretário de segurança deixa tudo muito claro. Um
detento custa em média R$ 1.350,00 para o estado, diz ele. Mas essa média pode
cair, se aumentar a população carcerária. “Quanto mais vazios os presídios,
maior a despesa. Presídio bom é presídio cheio”, conclui, sem deixar muita
margem a dúvidas. Esta conta, certamente, ajuda a explicar o fato de o Brasil registrar
a quarta maior população carcerária do mundo.
Legislação antiterrorista
Mas a situação pode piorar ainda mais.
Rafael Braga circulava pelo centro da cidade coletando material reciclável.
Dormia nas ruas até que completasse a coleta para voltar a sua casa, no
Complexo da Penha. Durante as manifestações de junho de 2013, ele foi preso e condenado
a 4 anos e 8 meses de reclusão pelo crime de “porte de material explosivo”. Na realidade,
ele carregava duas garrafas plásticas de produtos de limpeza, próximo a uma
manifestação realizada em 20 de junho.
Depois de muita luta e mobilização envolvendo amigos, parentes e movimentos
sociais, ele foi autorizado a cumprir a pena em regime aberto, em junho de
2015.
Em janeiro de 2016, no entanto, Rafael voltou a ser preso, acusado de portar
drogas e associar-se ao tráfico. O Instituto de Defensores de Direitos Humanos
acompanha o caso e garante que a acusação não tem qualquer fundamento.
Mas, como no caso de Avery, nos Estados Unidos, Rafael está pagando por
tornar-se não somente um acusado, preto e pobre, mas protagonista de um caso em
que fica clara toda a arbitrariedade do sistema judiciário.
A agravar todo esse quadro, há um projeto-de-lei de iniciativa do governo e em
debate no Congresso que pretende aprovar uma legislação “antiterrorista” no
País. Uma proposta que já vem sendo denunciada por várias organizações
nacionais e internacionais como uma forma de legalizar a criminalização dos
movimentos sociais e inviabilizar manifestações populares na base da repressão
pura e simples. Se o que aconteceu com Rafael viola direitos constitucionais e
liberdades fundamentais, a proposta em debate no Legislativo pretende legalizar
essas violações.
O que aconteceu com Avery e milhões de outros estadunidenses pobres e,
principalmente, pretos, tem muitas semelhanças com o que se passa no Brasil.
Faz parte de um sistema que fabrica os “criminosos” de que precisa para
justificar o investimento em gigantescas máquinas de repressão, voltadas para
controlar o que antigamente costumava ser chamado de “classes perigosas”. Ou
seja, aqueles que não têm lugar no sistema produtivo, a não ser em suas margens,
onde vivem de migalhas.
O jurista argentino Eugenio
Zaffaroni costuma dizer que a sociedade em que vivemos só tem lugar para uns
2/3 viverem com alguma dignidade. O restante não alcançará jamais este patamar
e qualquer movimento em direção à busca de uma vida mais digna deve ser contido
com violência. Zaffaroni aponta na “guerra às drogas” um importante instrumento
nesse sentido. Sob o pretexto de combater o tráfico, milhões são jogados nas
cadeias no mundo todo.
Mas por que a sociedade em geral aceita esta
lógica?
O filósofo italiano Giorgio
Agamben talvez ajude a entender. Segundo ele, uma das características do
tratamento dispensado pelas estruturas contemporâneas de dominação aos
problemas sociais é concentrar-se em seus efeitos e não em suas causas.
Esta regra valeria para todos os domínios, da economia à ecologia, das
políticas externas e militares às medidas policiais.
Desse modo, se sofremos com problemas ambientais a solução não é mudar a matriz
energética do planeta. É usar tecnologias caras, complexas, perigosas e
dominadas por alguns monopólios gigantes.
Se o trânsito nas grandes cidades não anda, nada de investir em transporte
coletivo. Construam-se mais pontes e viadutos, abram-se mais ruas e novas
faixas nas avenidas.
Na saúde pública, medidas de prevenção ficam em segundo plano. Bem à frente,
vêm as caras e lucrativas tecnologias e substâncias para cuidar das doenças.
Para lidar com a crise econômica, mais recursos, que acabam por ser investidos
em aventuras especulativas semelhantes às que causaram a crise de 2008.
E, finalmente, a desigualdade social deve ser assumida como natural. No lugar
de combatê-la, é preciso construir mais prisões, aprovar leis mais severas, dar
liberdade à polícia para agir como bem entender.
O principal motor dessa inversão maluca é a busca por lucro. Objetivo cego que
pode inviabilizar de vez o metabolismo que nossa espécie mal consegue manter
com o planeta e consigo mesma.
É neste contexto que os documentários sobre
Avery e sobre o sistema prisional brasileiro se aproximam. É nesta situação que
a abusiva legislação repressiva adotada nos Estados Unidos após o 11 de
Setembro serve de modelo à “Lei Antiterrorista” em discussão no Brasil. É desse
modo que à fabricação de
bandidos pretende se juntar agora a produção de terroristas. Quase todos saídos
dos setores socialmente mais vulneráveis ou questionadores da ordem dominante.
Nosso desafio é tornar a vulnerabilidade dos primeiros um reforço decisivo à
ação contestadora dos segundos. Algo que só será possível se ficarmos atentos e
prontos para transformar em oportunidades subversivas as inúmeras e enormes
contradições que provoca a imposição de uma ordem ainda mais autoritária.
Referências:
AGAMBEN, Giorgio (2014) - “Por uma Teoria do Poder Destituinte”: https://5dias.wordpress.com/2014/02/11/por-uma-teoria-do-poder-destituinte-de-giorgio-agamben/ -
acesso em 31/01/16.
ZAFFARONI, Raúl Eugenio (2013) - “Cada país tem o número de presos que decide
politicamente ter”: www.brasildefato.com.br/node/14487 -
acesso em 31/01/16.
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8 de fev. de 2016
14 de set. de 2014
A grande família brasileira ainda não está nas telas
Fevereiro
de 2007
O seriado da Globo virou
filme de sucesso. Na TV ou no cinema, é o que mais se aproxima da vida
cotidiana dos pobres no Brasil. Mesmo assim, está longe dela. Por outro lado,
surgem experimentos para mostrar a pobreza de modo mais realista. É preciso
ficar de olho nisso.
“A
grande família” é um filme de Mauricio Farias baseado na série da TV Globo que
tem o mesmo nome. Esta, por sua vez, é uma reedição da série exibida nos anos
70 pela própria Globo e que teve grande audiência. Mais precisamente entre 1972
e 1975, quando a ditadura militar estava no auge da repressão no País. Na
época, o responsável pelo roteiro dos episódios era diretor de teatro, Oduvaldo
Vianna Filho. Vianinha já havia sido do PCB e aproveitou o seriado para dar
umas cutucadas no governo dos generais. Afinal, era um tanto subversivo mostrar
uma família às voltas com dificuldades financeiras, um cunhado desempregado e,
Tuco, um filho adepto da cultura alternativa quando o discurso oficial falava
em “milagre econômico” e valorizava a vida em família contra cabeludos adeptos
de relações mais igualitárias e livres entre homens e mulheres. Havia até o
personagem Júnior, que era abertamente politizado e contestador e, por isso,
sempre foi alvo de restrições por parte da censura.
A
volta da série adaptada para o século 21, obviamente, perdeu esse potencial
contestador. Ao contrário, apesar das excelentes e engraçadas tramas, o tom é
conformista e conservador. Lineu, o chefe da família, continua a sustentar o
restante dos membros com seu magro salário de funcionário público. Uma situação
que só piora pelo fato de ele se negar a ceder às pequenas corrupções que
fariam parte da rotina da repartição. Mas sua persistência na honestidade
sugere corrupção generalizada nos serviços públicos, o que nem de longe é
verdade. Tuco era um defensor do comportamento alternativo na série dos anos
70. Na atual, é apenas um desempregado de quase 30 anos sem qualquer
perspectiva a não ser comer, dormir e assistir TV o dia inteiro. E Júnior,
claro, não existe em tempos de pensamento único.
No
entanto, o sucesso da série continua e as razões podem ser muitas. O talento do
elenco, dos roteiristas e da direção certamente pesa. Mas, talvez, a
proximidade da vida cotidiana dos mais pobres também seja importante. Aliás, a
cenografia e a produção da série e do filme são caprichadas. A casa, o bairro,
a paisagem, as roupas e até os automóveis são típicos de um bairro pobre de
nossas grandes cidades.
Por
outro lado, a produção está longe de representar a vida da grande maioria das
famílias brasileiras. Para usar um indicador de considerável luxo, Lineu tem um
automóvel usado. O problema é que o número de lares brasileiros permanentes
cujos moradores possuem um automóvel não chega a 33%. Outro elemento que
distancia a “Grande Família” das famílias brasileiras em geral é a ausência de
personagens negros, numa população com, pelo menos, sua metade formada por não
brancos. De qualquer maneira, o programa de TV parece ser o que mais se
aproxima da realidade da maioria. Afinal, a série não tem nem mesmo personagens
ricos, como é regra nas outras produções nacionais.
Uma
ironia é que o filme seja campeão de bilheteria, mas deve ser visto por pouca
gente que realmente vive as situações mostradas por seus personagens. É verdade
que em duas semanas de exibição ultrapassou 1 milhão de pagantes. No entanto, é
uma marca bastante distante dos mais de 35 milhões e meio de pessoas que
acompanham diariamente a novela “Páginas da Vida”, por exemplo. Nenhum
mistério. Se são mais de 91% de residências brasileiras com um aparelho de
televisão, apenas 8% dos municípios contam com uma sala de cinema.
Ao
mesmo tempo, a televisão brasileira vem fazendo experimentos para chegar a uma
realidade mais próxima da maioria. É o caso de “Cidade dos Homens”, “Antônia”,
“Central da Periferia” e da novela “Vidas opostas” (sobre esta última, clique aqui e leia ótimo artigo de Marcela Figueiredo na página do Núcleo
Piratininga de Comunicação). São produtos de boa qualidade e que abrem portas
para artistas negros. Mas a lógica é a mesma. Recortar a realidade segundo os
padrões dominantes. É a trama de amor, a luta pelo sucesso e o caminho
individual para longe da pobreza, do crime, da marginalidade.
É
preciso ficar de olho nesses movimentos dos monopólios de comunicação. A
“Grande família” está a meio caminho entre a novela que retrata o dia-a-dia de
cerca de 2% da população brasileira e as tentativas de mostrar o cotidiano da
grande maioria, negra, pobre, explorada e oprimida. Os personagens da série e
do filme mostram o drama daqueles que estão cada vez mais longe do Leblon,
Morumbi e outros bairros ricos do País e mais perto dos morros e das
periferias. Faz parte de um processo de empobrecimento da classe média que já
tem mais de 20 anos. Mais gente escorrega para níveis precários de
sobrevivência, enquanto somente uns poucos sobem para níveis extremos de luxo e
riqueza.
Falar
para a maioria da população sempre foi um trunfo que a Globo e outras emissoras
usaram para impor modelos de vida e comportamento muito distantes de sua vida
real. Agora, as empresas de comunicação parecem querer falar para os mais
pobres sobre seus próprios problemas. Não para incentivá-los a buscar soluções
autônomas e coletivas. Querem é manter o individualismo, o consumismo e outros
modelos de comportamento que interessam aos poderosos. Talvez, pressintam a
necessidade de falar para os pobres antes que eles fiquem definitivamente
surdos a apelos de uma “paz e ordem” que não lhes garante tranqüilidade e
perspectivas de uma vida melhor.
No
final do filme, Lineu escapa por pouco de ser atropelado por um trem. Na vida
real, o trem já atropelou muitos e deve continuar atropelando. A grande mídia
quer manter os trilhos limpos para que as próximas vítimas não se assustem. Nem
encontrem formas próprias de evitar o desastre.
21 de ago. de 2014
Dona Pecúnia e Madame Hegemonia mandam notícias
Ah, pobres e frágeis membranas da honra. Quem as respeita? Ah, fatalidade. A boa reputação da verdade se foi desde que o dinheiro, este vil dinheiro, passou a ser o único valor.
Esta é uma das frases presentes no mais novo documentário de Jorge Furtado. Ela
foi retirada da peça teatral “O mercado de notícias”, de Ben Jonson, que dá
nome ao filme. Além da importância do tema de que trata, sua exposição
cinematográfica é, como sempre, muito criativa.
O filme se propõe a debater a grande imprensa, seu poder e os interesses
econômicos e políticos a que serve. Por si só, a seleção de entrevistados seria
suficiente para despertar a atenção do público. Entre eles, Mino Carta,
Raimundo Pereira, Janio de Freitas, Geneton Moraes e Bob Fernandes. Mas para
tornar o filme ainda mais interessante, Furtado intercalou aos depoimentos
trechos da peça de Jonson.
Há vários aspectos importantes na produção, mas o que mais chama a atenção são as
contradições entre a divulgação de notícias e os custos de sua produção. Pois é
disto que se trata. A peça de Jonson foi encenada pela primeira vez em 1626. Quase
200 anos antes de entrar em funcionamento a primeira rotativa a permitir a
impressão de mais de mil exemplares por hora. Era um equipamento movido pelo
vapor. A mesma fonte de energia que impulsionou a Revolução Industrial que
lançaria o capitalismo em sua trajetória fulminante como primeiro meio de
produção universal.
Mas o vapor, o petróleo, a energia elétrica ou nuclear, nenhuma dessas fontes
de energia se compara com uma força muito mais poderosa. Na obra de Jonson esta
tremenda potência é personificada por uma bela e jovem donzela, vestida em
luxuosos trajes dourados. Trata-se de Dona Pecúnia, sempre ladeada por suas
damas de companhia, Hipoteca, Norma, Promissória e Taxa. Como se vê, é do
dinheiro que se trata. A mercadoria criada com a única função de intermediar a
troca das outras mercadorias. Tão inútil em si mesma, quanto imprescindível
para a vida regida pelas trocas mercantis.
Dona Pecúnia nem sempre foi tão poderosa, ainda que muito cobiçada. Durante
séculos, muitos podiam viver sem ela, sem correr risco de morrer ou padecer
sofrimentos terríveis. Os servos, camponeses, escravos, proletários ou plebeus
em geral raramente colocavam os olhos em Dona Pecúnia durante suas curtas e
penosas vidas. Somente sob o capitalismo, a bela donzela começou a ganhar
importância inédita e passou a circular generalizadamente por entre a elite e o
povo, sem pudor e reservas. E cada vez mais poderosa.
É diante deste poder que a obra de Jonson coloca em questão um novo ramo
comercial surgido naquele século 17. Precisamente, o mercado de notícias que um
dos personagens da peça deseja explorar fazendo uso da herança deixada pelo
pai. Trata-se de Pila Jr, que pretende reforçar sua posição no novo mercado
casando-se com Dona Pecúnia.
Mas a nova mercadoria não se presta facilmente a encomendas. Em um determinado
momento, alguém solicita uma notícia na medida de seus interesses. Um dos
empregados responde não ser possível comprometer a credibilidade do negócio
desta maneira.
Corta para uma das afirmações mais contundentes dentre os depoimentos prestados
por jornalistas experientes. Janio de Freitas diz que “o jornalismo feito no
Brasil é feito por empresas capitalistas interessadas no lucro”. E que é um
erro pensar que “um jornal é editado para fazer jornalismo. Na verdade,
continua ele, o jornal é editado para publicar publicidade. O jornalismo é o
recheio do entorno dos anúncios”. E disse mais. O papel dos jornalistas é
subalterno e sua função primordial “é proporcionar a melhor tiragem para obter
a venda mais fácil e o melhor preço do espaço publicitário no jornal”.
Ora, a afirmação de Freitas não é simplória. É verdade que a imprensa nasce e se
desenvolve como uma empreitada em busca de lucros. Mas, tal como diz o
personagem da peça de Jonson, ainda em tempos artesanais do jornalismo, a credibilidade
é uma das características mais importantes dessa mercadoria específica. Do
contrário, seria relativamente simples desmascarar os interesses por trás desta
ou daquela empresa de comunicação. Bastaria relacionar sua produção noticiosa
com os interesses de seus principais anunciantes, combinando-os com os
desdobramentos na esfera política, como o apoio a este ou aquele partido,
governo, regime etc. Estaria feito um diagnóstico capaz de mostrar que não se
trata de divulgar notícias “objetivas”, “isentas”, “neutras”, mas de preservar
interesses alheios aos dos leitores e à divulgação democrática da informação. Dona
Pecúnia seria surpreendida em plenas conjunções carnais com os proprietários e
controladores da grande mídia.
Mas não é assim que funciona. Falta a este cenário uma personagem importante,
mas que não aparece na peça de Jonson. Para continuarmos no domínio das
alegorias, chamemos esse personagem de Madame Hegemonia, cujas façanhas foram
melhor reveladas por outro gênio. Desta vez, não um teatrólogo, mas o pensador
comunista italiano Antonio Gramsci, uns 300 anos depois do surgimento da obra
do dramaturgo inglês. Se a “maior tiragem” de que fala Freitas é um elemento ao
qual deve se subordinar a produção de notícias, é Madame Hegemonia a responsável
por assegurar a mais importante das qualidades da fabricação noticiosa: a
credibilidade.
As receitas de Madame Hegemonia para conseguir a tal credibilidade são muitas,
variadas, criativas. Os ingredientes são elementos da realidade, crenças,
costumes, hábitos, preconceitos, medos. Muito disso tudo é antigo. O que parece
novo, frequentemente é apenas coisa reciclada. A senhora Hegemonia atua há
muito tempo, mas, como vimos, só foi descoberta recentemente.
No jornalismo da grande imprensa, Madame Hegemonia age por meio das empresas de
comunicação, mas Gramsci preferiu chamá-las de Aparelhos Privados de Hegemonia.
E é assim mesmo quando elas controlam concessões públicas. A propriedade desses
aparelhos não é privada, mas os interesses que defendem, sim.
Os patrões e gerentes dessas empresas têm suas próprias receitas para cumprir
aquilo que Madame Hegemonia recomenda. Mas todas fazem a combinação daqueles
ingredientes citados acima. Eles sabem que não é possível mentir simplesmente.
Ou apenas omitir e distorcer. Ou, ainda, dizer tudo com clareza e chamar as
coisas por seus nomes. Eles fazem tudo isto, mas em doses e combinações
variadas, de modo que pareça tudo muito verossímil. Mais do que isso, de modo
que tudo o que divulgam pareça mero produto de uma leitura objetiva dos fatos.
Um retrato da realidade.
Um bom exemplo é mostrado pelo filme no episódio do quadro de Picasso. Vamos
transcrever a explicação do caso a partir do próprio site da produção de
Furtado:
Em março de 2004, o jornal Folha de S. Paulo publica na capa de sua edição de domingo (07.03.2004), sob o título “Decoração burocrata”, uma reportagem informando que um valioso “desenho do pintor espanhol” Pablo Picasso “passa os dias debaixo de luzes fluorescentes e em meio à papelada de uma repartição do governo federal”, dividindo sua “moldura com restos de inseto”. Na foto, além da reprodução do supostamente valioso desenho, um retrato do Presidente Lula. O sentido da matéria é claro: os novos ocupantes do governo federal não reconhecem e não sabem lidar com o valor da arte. A notícia do suposto descaso com tão valiosa obra aparece em vários jornais, revistas e sites, no Brasil e no exterior. A observação atenta de alguns leitores logo deixa evidente que se trata de uma “barriga”: o tal desenho de Picasso é, na verdade, de uma reprodução fotográfica, sem nenhum valor. Os jornais são alertados de seu erro, mas nenhum desmente a informação. Em dezembro de 2005, o “Picasso do INSS” está outra vez na capa da Folha de São Paulo (29.12.2005) e também na do Estado de S. Paulo: um incêndio destruiu parte do prédio do INSS mas, para alívio de todos e apesar do descaso dos órgãos públicos, o “valioso” Picasso foi salvo das chamas. Mais uma vez os jornais são alertados por leitores de que se trata de uma reprodução sem valor, mas nada noticiam.(www.omercadodenoticias.com.br)
Como diz o texto acima, a matéria tinha um sentido político. Era uma reportagem
pensada para ridicularizar o governo petista, mas de modo discreto e sutil.
Usou elementos presentes na realidade, como o quadro, a repartição etc. Supôs o
valor do quadro como sendo aquele de uma obra autêntica de Picasso. Não citou o
governo Lula, apenas o retrato do presidente ao fundo, na parede da sala em que
estava o suposto Picasso. Mentiu sobre seu valor ou, pelo menos, cometeu o erro
de não conferir a autenticidade da obra ou dar-se o trabalho de pesquisar para
saber se não havia um original em outro lugar. O jornal também fez ouvidos de
mercador para os leitores que avisaram sobre o erro. Afinal, poderia dizer o
jornal em sua defesa, foi apenas uma matéria, sem maiores pretensões.
É verdade. A reportagem não pretendia derrubar um governo. De forma alguma,
influenciou diretamente na conquista de votos contrários às candidaturas
petistas ou de seus aliados em eleições posteriores. Mas juntou-se a uma série
de outros elementos parecidos no sentido de minarem a credibilidade do governo,
ao mesmo tempo em que reafirmava seu próprio compromisso com a descrição da
realidade. Por outro lado, procurava mostrar que a “alta cultura”, a cultura
dos museus e dos palácios, jamais será reconhecida por simplórios que vieram da
pobreza e da produção fabril. E que alguém assim não está preparado para
governar. Quem é incapaz de saber o valor de coisas como aquela, também é incapaz
de administrar outras coisas, como o dinheiro público, o patrimônio público etc.
Estes são apenas alguns dos elementos que aparecem diariamente em dezenas de
jornais e veículos da grande mídia. Eles vão mantendo e fortalecendo um senso
comum conservador, elitista, preconceituoso. Não precisam derrubar um governo,
nem mesmo fazer oposição aberta a ele. Basta que reforce o cerco que o mantém
domesticado, dócil, inofensivo. É assim que Madame Hegemonia age.
Esta má vontade da grande mídia com o governo Lula é destacado por vários
entrevistados. Mas talvez, exatamente por isso, o documentário pudesse ter
discutido essa outra personagem que não estava na peça de Jonson. A astuciosa
Hegemonia. Afinal, muitos dos petistas que estão poder acham que disputam os
encantos dela. Que a estão seduzindo pouco a pouco para ficar a seu lado. Mas
isso jamais acontecerá enquanto sua outra companheira, Pecúnia, continuar
prisioneira de alguns poucos senhores poderosos. No jornalismo da grande
imprensa, Dona Pecúnia está sob total controle dos monopólios empresariais da
comunicação. Inclusive, com ajuda de polpudas verbas publicitárias oficiais.
Enquanto for assim, Madame Hegemonia continuará a piscar os olhos na direção
dos petistas e seus aliados, enquanto permanece em fogoso concubinato com nossos
inimigos.
No enredo da vida real faltam outras figuras alegóricas, como a companheira
Democratização da Mídia, a irmã Solidariedade, a camarada Organização, os
aliados da Mídia Alternativa e, principalmente, os guerreiros da Consciência de
Classe e os combatentes da Contra-Hegemonia. Sem que esses personagens entrem
em cena, o jornalismo continuará mandando as notícias que interessam a Dona
Pecúnia e Madame Hegemonia.
15 de fev. de 2014
O Lobo de Wall Street: um chacal em pele de predador
Na verdade, o Lobo de Wall Street era
apenas um chacal ou uma hiena, que se alimentava da volumosa carniça que lhe
sobrava. O filme de Scorcese é diversão nos dois sentidos da palavra.
"O Lobo de Wall Street", de Martin Scorcese, é uma adaptação do livro de memórias de Jordan Belfort, corretor de títulos da bolsa norte-americana. Interpretado por Leonardo DiCaprio, logo no início do filme, o protagonista lista as várias drogas que ingere durante todo o dia para manter o ritmo louco do mundo da especulação financeira.
Na cena que mostra Belfort aspirando uma carreira de pó branco, ele avisa: esta é a mais terrível de todas as drogas. Mas não se trata de cocaína. Ele se refere à nota de dinheiro que utilizou como canudo para inalar a substância. “Esta é a mais poderosa das drogas”, diz ele.
E o filme todo é sobre os efeitos dessa substância que circula pelas veias de praticamente todas as sociedades do mundo atual. Que levou a vida social contemporânea a uma dependência, mais do que química, alquímica. Uma alquimia que não transforma apenas chumbo em ouro, mas converte tanto matéria, como espírito em bens monetizados. Em ativos que podem ser negociados nos mais diversos tipos de mercados em que foram transformadas as várias esferas da vida humana.
Ao mesmo tempo em que as drogas servem como estimulante para manter o ritmo frenético que permite a acumulação de riquezas, a riqueza não é um meio se não para si mesmo. Não há objetivos maiores do que o de possuir mansões, carrões, iates e tudo que esteja em conformidade com os padrões impostos pelo mercado de luxo, inclusive as mulheres.
Belfort e seu time de corretores precisam fazer dinheiro aos montes para ingerir doses cavalares de drogas, alimentos e bebidas, vestir as melhores grifes e fazer sexo em tempo integral. Mas, no fundo, fazem tudo isso apenas para voltar a fazer dinheiro. Este último é o seu verdadeiro mestre. Aquele a quem devem obediência e devoção.
Impossível assistir às cenas que mostram as palestras de motivação de Belfort para seus empregados sem lembrar de cultos religiosos. O uso poderoso da palavra, o discurso emocionado, as metáforas arrebatadoras, os gestos de comunhão histérica, os ataques de choro, os urros de fé e as juras de fidelidade às leis nada divinas da selva capitalista.
Muitos criticaram o filme por tornar simpática uma figura asquerosa. Por transformar em cenas cômicas as armadilhas com que Belfort levava pessoas pobres a apostar suas economias em investimentos furados apenas para que ele ganhasse sua polpuda comissão. Mas, creiam, o maior vilão dessa história não aparece no filme de Scorcese.
Do mesmo modo que o pastor ou o padre são apenas intermediários, Belfort é somente parte de uma matilha que apanha os restos deixados por feras muito maiores e mais vorazes. Não foi à toa que Marx resolveu chamar de “O Capital” sua maior obra, ao invés de “Os Capitalistas” ou “A Burguesia”, por exemplo. O capitalismo funciona como um mecanismo social que aliena até mesmo seus maiores beneficiários.
As cada vez mais recorrentes catástrofes ambientais, as seguidas e agudas crises econômicas, as ameaças de crises alimentares e catástrofes biológicas. Tudo isso é produto do que Marx chamou, não gratuitamente, de “anarquia da produção capitalista”. Um mecanismo que se alimenta de uma concorrência que vem se transformando na corrida para o abismo que Walter Benjamim já temia mais de 70 anos atrás.
Nada disso autoriza a isentar de culpa os poderosos controladores dos meios de produção e de circulação da economia mundial. Nem implica dizer que o modo de produção capitalista torne a todos suas vítimas, indistintamente. Estão aí o luxo e a riqueza para uma minoria minúscula e as limitações materiais mais básicas e os constrangimentos morais mais humilhantes para a gigantesca maioria do planeta.
Belfort não apenas tem culpa, como chegou a quebrar a própria legalidade de um sistema feito para promover a rapina mais cruel. Mas os responsáveis por levar a cabo o grande massacre são outros. São poucos e são patrocinadores e apadrinhados dos poderes políticos e institucionais em todos os cantos do planeta.
Basta que lembremos uma pesquisa da ONG britânica Oxfam divulgada em janeiro passado. O estudo revela que o patrimônio das 85 pessoas mais ricas do mundo equivale às posses de metade da população mundial. Este grupo que não chega a uma centena de indivíduos tem um patrimônio de US$ 1,7 trilhão. Valor que equivale aos bens das 3,5 bilhões de pessoas mais pobres do mundo. O relatório também mostra que a riqueza do 1% das pessoas mais ricas do planeta equivale a US$ 110 trilhões. Ou 65 vezes a riqueza total da metade mais pobre da população mundial.
Muito dificilmente essas pessoas seriam levadas a responder por alguma ilegalidade. Não apenas porque o atual aparato jurídico não foi feito para punir os que o puseram para funcionar. Mas, principalmente, por causa da natureza concentradora do Capital. Uma espécie de atração gravitacional poderosa como a dos buracos negros. Um fenômeno que vem confirmando as previsões nada astrológicas de Marx desde que ele estudou as primeiras crises capitalistas. Este pequeno grupo superprivilegiado poderá ser ainda menor, em pouco tempo.
Nessa imensa carnificina, o Lobo de Wall Street era apenas um chacal ou uma hiena, que se alimentava da volumosa carniça que lhe sobrava. O filme de Scorcese é diversão nos dois sentidos da palavra. Feito para entreter e para despistar.
"O Lobo de Wall Street", de Martin Scorcese, é uma adaptação do livro de memórias de Jordan Belfort, corretor de títulos da bolsa norte-americana. Interpretado por Leonardo DiCaprio, logo no início do filme, o protagonista lista as várias drogas que ingere durante todo o dia para manter o ritmo louco do mundo da especulação financeira.
Na cena que mostra Belfort aspirando uma carreira de pó branco, ele avisa: esta é a mais terrível de todas as drogas. Mas não se trata de cocaína. Ele se refere à nota de dinheiro que utilizou como canudo para inalar a substância. “Esta é a mais poderosa das drogas”, diz ele.
E o filme todo é sobre os efeitos dessa substância que circula pelas veias de praticamente todas as sociedades do mundo atual. Que levou a vida social contemporânea a uma dependência, mais do que química, alquímica. Uma alquimia que não transforma apenas chumbo em ouro, mas converte tanto matéria, como espírito em bens monetizados. Em ativos que podem ser negociados nos mais diversos tipos de mercados em que foram transformadas as várias esferas da vida humana.
Ao mesmo tempo em que as drogas servem como estimulante para manter o ritmo frenético que permite a acumulação de riquezas, a riqueza não é um meio se não para si mesmo. Não há objetivos maiores do que o de possuir mansões, carrões, iates e tudo que esteja em conformidade com os padrões impostos pelo mercado de luxo, inclusive as mulheres.
Belfort e seu time de corretores precisam fazer dinheiro aos montes para ingerir doses cavalares de drogas, alimentos e bebidas, vestir as melhores grifes e fazer sexo em tempo integral. Mas, no fundo, fazem tudo isso apenas para voltar a fazer dinheiro. Este último é o seu verdadeiro mestre. Aquele a quem devem obediência e devoção.
Impossível assistir às cenas que mostram as palestras de motivação de Belfort para seus empregados sem lembrar de cultos religiosos. O uso poderoso da palavra, o discurso emocionado, as metáforas arrebatadoras, os gestos de comunhão histérica, os ataques de choro, os urros de fé e as juras de fidelidade às leis nada divinas da selva capitalista.
Muitos criticaram o filme por tornar simpática uma figura asquerosa. Por transformar em cenas cômicas as armadilhas com que Belfort levava pessoas pobres a apostar suas economias em investimentos furados apenas para que ele ganhasse sua polpuda comissão. Mas, creiam, o maior vilão dessa história não aparece no filme de Scorcese.
Do mesmo modo que o pastor ou o padre são apenas intermediários, Belfort é somente parte de uma matilha que apanha os restos deixados por feras muito maiores e mais vorazes. Não foi à toa que Marx resolveu chamar de “O Capital” sua maior obra, ao invés de “Os Capitalistas” ou “A Burguesia”, por exemplo. O capitalismo funciona como um mecanismo social que aliena até mesmo seus maiores beneficiários.
As cada vez mais recorrentes catástrofes ambientais, as seguidas e agudas crises econômicas, as ameaças de crises alimentares e catástrofes biológicas. Tudo isso é produto do que Marx chamou, não gratuitamente, de “anarquia da produção capitalista”. Um mecanismo que se alimenta de uma concorrência que vem se transformando na corrida para o abismo que Walter Benjamim já temia mais de 70 anos atrás.
Nada disso autoriza a isentar de culpa os poderosos controladores dos meios de produção e de circulação da economia mundial. Nem implica dizer que o modo de produção capitalista torne a todos suas vítimas, indistintamente. Estão aí o luxo e a riqueza para uma minoria minúscula e as limitações materiais mais básicas e os constrangimentos morais mais humilhantes para a gigantesca maioria do planeta.
Belfort não apenas tem culpa, como chegou a quebrar a própria legalidade de um sistema feito para promover a rapina mais cruel. Mas os responsáveis por levar a cabo o grande massacre são outros. São poucos e são patrocinadores e apadrinhados dos poderes políticos e institucionais em todos os cantos do planeta.
Basta que lembremos uma pesquisa da ONG britânica Oxfam divulgada em janeiro passado. O estudo revela que o patrimônio das 85 pessoas mais ricas do mundo equivale às posses de metade da população mundial. Este grupo que não chega a uma centena de indivíduos tem um patrimônio de US$ 1,7 trilhão. Valor que equivale aos bens das 3,5 bilhões de pessoas mais pobres do mundo. O relatório também mostra que a riqueza do 1% das pessoas mais ricas do planeta equivale a US$ 110 trilhões. Ou 65 vezes a riqueza total da metade mais pobre da população mundial.
Muito dificilmente essas pessoas seriam levadas a responder por alguma ilegalidade. Não apenas porque o atual aparato jurídico não foi feito para punir os que o puseram para funcionar. Mas, principalmente, por causa da natureza concentradora do Capital. Uma espécie de atração gravitacional poderosa como a dos buracos negros. Um fenômeno que vem confirmando as previsões nada astrológicas de Marx desde que ele estudou as primeiras crises capitalistas. Este pequeno grupo superprivilegiado poderá ser ainda menor, em pouco tempo.
Nessa imensa carnificina, o Lobo de Wall Street era apenas um chacal ou uma hiena, que se alimentava da volumosa carniça que lhe sobrava. O filme de Scorcese é diversão nos dois sentidos da palavra. Feito para entreter e para despistar.
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3 de fev. de 2014
Tempos Modernos, de Charles Chaplin
Um
olhar humanista que serve aos objetivos da emancipação social
Charles Chaplin criou um personagem que tornou-se ícone da cultura de massa. Apesar disso, como é comum acontecer numa época em que a produção cultural é tanto mais massificada, quanto mais fragmentada, muitas pessoas que juram admiração a Carlitos e seu criador, jamais viram os filmes de Chaplin do começo ao fim. Principalmente os de longa metragem. Por isso o conhecimento que uma parcela mais ampla das pessoas tem da obra do cineasta limita-se às cenas mais cômicas de cada filme. E, às vezes, também às cenas mais emotivas, como o abraço choroso ao menino em O Garoto, e o olhar feliz e ingênuo do vagabundo no final de Luzes da Cidade.
Em Tempo Modernos, a cena mais conhecida é a de Carlitos apertando parafusos no ritmo frenético imposto pela linha de produção até ser arrastado pela esteira e engolido pelo maquinário. O significado mais óbvio do filme aparece nesta cena, em que o homem é tragado pelas entranhas da máquina.
Quem se baseia nesta cena para julgar o filme, pode achar que Tempo Modernos perdeu força em nossa época. Afinal, o método fordista de trabalho já não é predominante e a informatização está tomando conta das fábricas, mantendo relativamente poucos operários e funcionários entre seus quadros profissionais. Mas assim como operários de macacão não são necessariamente os únicos sinônimos adequados para representar os proletários, o objeto do filme de Chaplin não é apenas a tecnologia engolindo o homem. Na verdade este é apenas o lado mais visível do filme. Um aspecto enfatizado pela insistência em representar a obra apenas a partir daquela cena famosa.
Entendo que o que Chaplin aborda aqui é fundamentalmente a alienação do ser humano no mundo. Basta assistir ao filme todo e será possível deslocar seu tema da tecnologia massacrante para a alienação também em outros níveis da vida social. Por exemplo, quando Carlitos sai do manicômio onde foi internado após enlouquecer na linha de produção, encontra uma situação de grande desemprego devido à crise de 29. Fica, então, perambulando pelas ruas.
É quando lhe acontece ver cair uma bandeira de sinalização (obviamente, de cor vermelha) de um caminhão em movimento. Tentando ajudar, pega a bandeira e começa a perseguir o caminhão agitando-a para o motorista. Imediatamente, uma passeata aparece por trás do personagem de modo que Carlitos parece estar à frente da manifestação. Logo a polícia aparece para dispersar o movimento. Na confusão Carlitos vai parar num bueiro de onde é retirado pela polícia, ainda com a comprometedora bandeira na mão.
A prisão é inevitável. Como é inevitável a conclusão de que Chaplin utiliza esta cena para fazer uma sutil crítica aos socialistas. Será que muitos dos que estão envolvidos na contestação ao capitalismo, não estariam também eles agitando uma bandeira de forma ingênua? Não estariam se iludindo ao pensar que sua postura de contestação os livra da alienação?
Mas essa crítica não implica que Chaplin seja um anti-comunista. Ele apenas não é comunista.
Quando perseguido pela paranóia mackhartista, declarou ser um humanista. E como tal, dizia que os comunistas também eram seres humanos. Um avanço para a época. "A mãe de um comunista chora tanto quanto as outras mães, ao receber notícias trágicas sobre seu filho", teria dito.
Se respeitarmos a avaliação do próprio Chaplin sobre sua postura política, veremos que Tempos Modernos é uma expressão bastante coerente de seu humanismo. Afinal, se ele faz a crítica sutil aos socialistas, no restante do filme é o capitalismo que se torna objeto de uma crítica mordaz. Carlitos é jogado de um lado para o outro em todo o decorrer do filme. Na prisão, acaba ingerindo cocaína pensando que é sal (aliás, uma das cenas mais hilariantes da história do cinema). Agora, é a droga que o priva do controle de sua vontade. Mas, o irônico é que sob o efeito da cocaína, o personagem acaba debelando uma rebelião do presídio e ganha uma cela com regalias, como jornais e cafezinho servido pelo carcereiro. A droga o colocou ao lado da paz e da ordem.
A saída da prisão é dolorosa para o vagabundo. Não quer voltar ao mundo sem emprego e cheio de agitações. Mas, de novo é obrigado a fazer o que o sistema manda, mesmo que seja ao retomar sua liberdade.
De volta às ruas, conhece a linda orfã abandonada pelas ruas vivida por Paulette Goddard, mulher de Chaplin na vida real. Apaixonam-se e o amor agora lhe dá novo ânimo. Consegue um emprego de vigia noturno de uma loja de departamento Novamente, o que parecia ser uma ocupação tranqüila transforma-se em uma grande confusão. Primeiro, a loja de departamentos revela-se um grande play-ground. Um lugar para se ir e imaginar-se adquirindo coisas bonitas e luxuosas. Aqui, Chaplin parece querer dizer que quanto menor o poder aquisitivo do indivíduo, maior sua fascinação com esse parque de diversões em que os brinquedos são as mercadorias.
Depois, assaltantes invadem o local e Carlitos é obrigado a tentar impedir. É claro que o vagabundo é dominado, mas acaba descobrindo que um dos assaltantes foi seu colega de trabalho na linha de produção. Bill foi demitido e rouba para viver. A classe operária se reencontra na loja. Um em ocupação precária, recém saído da prisão, o outro entregue ao crime. Mas ambos vítimas das circunstâncias. Carlitos perdeu o emprego na fábrica por ser sensível demais à tecnologia. Seu colega de fábrica era mais resistente ao ritmo de trabalho industrial, mas não teve destino melhor.
Tal como aconteceu com Carlitos, Bill também acabou escorregando para a ilegalidade. Só que o primeiro acabou na prisão sem ter premeditado qualquer ato ilegal, enquanto Bill teria feito uma opção consciente pelo crime. Mas o que interessa aqui não é o nível de consciência. E sim o peso massacrante das circunstâncias.
Nesse sentido, nenhum nível de consciência é suficiente para libertar os seres humanos do grande mecanismo social que os engole e cospe de volta em condições ainda piores.
Desse ponto de vista, o filme poderia ser acusado de ser conformista. Até de ajudar na manutenção do sistema ao mostrar a impossibilidade de transformá-lo ou derrubá-lo.
No entanto, a força do personagem Carlitos está em sua capacidade de mostrar que mesmo no pior dos mundos, a contraditória condição humana mantém os olhos fixos na esperança. É por isso que sempre no final de seus filmes, Chaplin mostra o vagabundo sumindo em direção ao horizonte, após uma pequena sacudidela nos andrajos, como a deixar para trás todos os dissabores e renovar a vontade de viver.
A diferença é que em Tempos Modernos, após consolar sua companheira, Carlitos parte pela última vez. O vagabundo não seria mais utilizado por Chaplin em seus filmes seguintes, num sinal de que os tempos modernos já não teriam lugar para o vagabundo lírico.
Talvez estejam aí explicitados os limites da visão política de Chaplin. O humanismo não consegue avançar para além da denúncia da alienação massacrante da vida moderna. Uma espécie de nostalgia toma lugar de toda outra possibilidade de vida social. O vagabundo era um personagem perfeito para dizer que o estilo de vida burguês não é aceitável, mas ao mesmo tempo tinha apenas um caráter de negação anárquica. Negava sem afirmar uma outra forma de viver. Ficava à margem da vida social, contentando-se com alguns expedientes de sobrevivência, assim como lhe bastava catar algumas bitucas de cigarro.
Por outro lado, é aí que está a genialidade da obra de Chaplin e de seu personagem. Quando critica sutilmente o movimento socialista e fortemente o sistema capitalista, Chaplin está apenas alertando. Mesmo nos limites de seu humanismo, que politicamente pode ser considerado piegas, ele nos diz: cuidado, bandeiras se agitando, gente se manifestando, tudo isso é pouco perto da grande fábrica social, cheia de engrenagens que engolem pessoas todas as horas.
A escolha do vagabundo rico em malandragens que é Carlitos permite a Chaplin evitar que sua obra torne-se uma denúncia simplória das mazelas do homem moderno e diga algo como "nada do que é humano me é estranho". Uma frase que não destoaria da chacoalhada de ombros e do caminhar tranqüilo de Carlitos, na cena final de seus filmes.
É nesse sentido que o humanismo de Chaplin pode ser muito útil aos que pensam a emancipação humana sob o ponto de vista da ação coletiva, organizada e consciente. Dos que pretendem, não apenas denunciar e lamentar a atual sociedade, mas construir uma nova forma de viver a partir das contradições da atual. Chaplin não era um comunista ou socialista, mas sua obra pode fornecer elementos importantes para que socialistas e comunistas incorporem o humanismo com elemento fundamental para qualquer estratégia de transformação social.
Agosto de 1999
Charles Chaplin criou um personagem que tornou-se ícone da cultura de massa. Apesar disso, como é comum acontecer numa época em que a produção cultural é tanto mais massificada, quanto mais fragmentada, muitas pessoas que juram admiração a Carlitos e seu criador, jamais viram os filmes de Chaplin do começo ao fim. Principalmente os de longa metragem. Por isso o conhecimento que uma parcela mais ampla das pessoas tem da obra do cineasta limita-se às cenas mais cômicas de cada filme. E, às vezes, também às cenas mais emotivas, como o abraço choroso ao menino em O Garoto, e o olhar feliz e ingênuo do vagabundo no final de Luzes da Cidade.
Em Tempo Modernos, a cena mais conhecida é a de Carlitos apertando parafusos no ritmo frenético imposto pela linha de produção até ser arrastado pela esteira e engolido pelo maquinário. O significado mais óbvio do filme aparece nesta cena, em que o homem é tragado pelas entranhas da máquina.
Quem se baseia nesta cena para julgar o filme, pode achar que Tempo Modernos perdeu força em nossa época. Afinal, o método fordista de trabalho já não é predominante e a informatização está tomando conta das fábricas, mantendo relativamente poucos operários e funcionários entre seus quadros profissionais. Mas assim como operários de macacão não são necessariamente os únicos sinônimos adequados para representar os proletários, o objeto do filme de Chaplin não é apenas a tecnologia engolindo o homem. Na verdade este é apenas o lado mais visível do filme. Um aspecto enfatizado pela insistência em representar a obra apenas a partir daquela cena famosa.
Entendo que o que Chaplin aborda aqui é fundamentalmente a alienação do ser humano no mundo. Basta assistir ao filme todo e será possível deslocar seu tema da tecnologia massacrante para a alienação também em outros níveis da vida social. Por exemplo, quando Carlitos sai do manicômio onde foi internado após enlouquecer na linha de produção, encontra uma situação de grande desemprego devido à crise de 29. Fica, então, perambulando pelas ruas.
É quando lhe acontece ver cair uma bandeira de sinalização (obviamente, de cor vermelha) de um caminhão em movimento. Tentando ajudar, pega a bandeira e começa a perseguir o caminhão agitando-a para o motorista. Imediatamente, uma passeata aparece por trás do personagem de modo que Carlitos parece estar à frente da manifestação. Logo a polícia aparece para dispersar o movimento. Na confusão Carlitos vai parar num bueiro de onde é retirado pela polícia, ainda com a comprometedora bandeira na mão.
A prisão é inevitável. Como é inevitável a conclusão de que Chaplin utiliza esta cena para fazer uma sutil crítica aos socialistas. Será que muitos dos que estão envolvidos na contestação ao capitalismo, não estariam também eles agitando uma bandeira de forma ingênua? Não estariam se iludindo ao pensar que sua postura de contestação os livra da alienação?
Mas essa crítica não implica que Chaplin seja um anti-comunista. Ele apenas não é comunista.
Quando perseguido pela paranóia mackhartista, declarou ser um humanista. E como tal, dizia que os comunistas também eram seres humanos. Um avanço para a época. "A mãe de um comunista chora tanto quanto as outras mães, ao receber notícias trágicas sobre seu filho", teria dito.
Se respeitarmos a avaliação do próprio Chaplin sobre sua postura política, veremos que Tempos Modernos é uma expressão bastante coerente de seu humanismo. Afinal, se ele faz a crítica sutil aos socialistas, no restante do filme é o capitalismo que se torna objeto de uma crítica mordaz. Carlitos é jogado de um lado para o outro em todo o decorrer do filme. Na prisão, acaba ingerindo cocaína pensando que é sal (aliás, uma das cenas mais hilariantes da história do cinema). Agora, é a droga que o priva do controle de sua vontade. Mas, o irônico é que sob o efeito da cocaína, o personagem acaba debelando uma rebelião do presídio e ganha uma cela com regalias, como jornais e cafezinho servido pelo carcereiro. A droga o colocou ao lado da paz e da ordem.
A saída da prisão é dolorosa para o vagabundo. Não quer voltar ao mundo sem emprego e cheio de agitações. Mas, de novo é obrigado a fazer o que o sistema manda, mesmo que seja ao retomar sua liberdade.
De volta às ruas, conhece a linda orfã abandonada pelas ruas vivida por Paulette Goddard, mulher de Chaplin na vida real. Apaixonam-se e o amor agora lhe dá novo ânimo. Consegue um emprego de vigia noturno de uma loja de departamento Novamente, o que parecia ser uma ocupação tranqüila transforma-se em uma grande confusão. Primeiro, a loja de departamentos revela-se um grande play-ground. Um lugar para se ir e imaginar-se adquirindo coisas bonitas e luxuosas. Aqui, Chaplin parece querer dizer que quanto menor o poder aquisitivo do indivíduo, maior sua fascinação com esse parque de diversões em que os brinquedos são as mercadorias.
Depois, assaltantes invadem o local e Carlitos é obrigado a tentar impedir. É claro que o vagabundo é dominado, mas acaba descobrindo que um dos assaltantes foi seu colega de trabalho na linha de produção. Bill foi demitido e rouba para viver. A classe operária se reencontra na loja. Um em ocupação precária, recém saído da prisão, o outro entregue ao crime. Mas ambos vítimas das circunstâncias. Carlitos perdeu o emprego na fábrica por ser sensível demais à tecnologia. Seu colega de fábrica era mais resistente ao ritmo de trabalho industrial, mas não teve destino melhor.
Tal como aconteceu com Carlitos, Bill também acabou escorregando para a ilegalidade. Só que o primeiro acabou na prisão sem ter premeditado qualquer ato ilegal, enquanto Bill teria feito uma opção consciente pelo crime. Mas o que interessa aqui não é o nível de consciência. E sim o peso massacrante das circunstâncias.
Nesse sentido, nenhum nível de consciência é suficiente para libertar os seres humanos do grande mecanismo social que os engole e cospe de volta em condições ainda piores.
Desse ponto de vista, o filme poderia ser acusado de ser conformista. Até de ajudar na manutenção do sistema ao mostrar a impossibilidade de transformá-lo ou derrubá-lo.
No entanto, a força do personagem Carlitos está em sua capacidade de mostrar que mesmo no pior dos mundos, a contraditória condição humana mantém os olhos fixos na esperança. É por isso que sempre no final de seus filmes, Chaplin mostra o vagabundo sumindo em direção ao horizonte, após uma pequena sacudidela nos andrajos, como a deixar para trás todos os dissabores e renovar a vontade de viver.
A diferença é que em Tempos Modernos, após consolar sua companheira, Carlitos parte pela última vez. O vagabundo não seria mais utilizado por Chaplin em seus filmes seguintes, num sinal de que os tempos modernos já não teriam lugar para o vagabundo lírico.
Talvez estejam aí explicitados os limites da visão política de Chaplin. O humanismo não consegue avançar para além da denúncia da alienação massacrante da vida moderna. Uma espécie de nostalgia toma lugar de toda outra possibilidade de vida social. O vagabundo era um personagem perfeito para dizer que o estilo de vida burguês não é aceitável, mas ao mesmo tempo tinha apenas um caráter de negação anárquica. Negava sem afirmar uma outra forma de viver. Ficava à margem da vida social, contentando-se com alguns expedientes de sobrevivência, assim como lhe bastava catar algumas bitucas de cigarro.
Por outro lado, é aí que está a genialidade da obra de Chaplin e de seu personagem. Quando critica sutilmente o movimento socialista e fortemente o sistema capitalista, Chaplin está apenas alertando. Mesmo nos limites de seu humanismo, que politicamente pode ser considerado piegas, ele nos diz: cuidado, bandeiras se agitando, gente se manifestando, tudo isso é pouco perto da grande fábrica social, cheia de engrenagens que engolem pessoas todas as horas.
A escolha do vagabundo rico em malandragens que é Carlitos permite a Chaplin evitar que sua obra torne-se uma denúncia simplória das mazelas do homem moderno e diga algo como "nada do que é humano me é estranho". Uma frase que não destoaria da chacoalhada de ombros e do caminhar tranqüilo de Carlitos, na cena final de seus filmes.
É nesse sentido que o humanismo de Chaplin pode ser muito útil aos que pensam a emancipação humana sob o ponto de vista da ação coletiva, organizada e consciente. Dos que pretendem, não apenas denunciar e lamentar a atual sociedade, mas construir uma nova forma de viver a partir das contradições da atual. Chaplin não era um comunista ou socialista, mas sua obra pode fornecer elementos importantes para que socialistas e comunistas incorporem o humanismo com elemento fundamental para qualquer estratégia de transformação social.
Agosto de 1999
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26 de out. de 2013
Gravidade e Terra Firme: a humanidade entre a grandeza e a mesquinharia
Dois filmes de gêneros muito diferentes estrearam este mês. Em um, a pouca
gravidade coloca seus personagens à deriva no espaço sideral. No outro, o peso
de uma globalização racista e excludente arrasta milhares de pessoas para o
abismo da intolerância, todos os anos.
“Gravidade” é um filme de Alfonso Cuarón com Sandra Bullock e George Clooney. A bela produção tem efeitos especiais que aproveitam a tecnologia 3D de forma madura. Mas ganha interesse ainda maior se comparada a outro grande filme.
Em "Terra Firme", Emanuele Crialese mostra uma comunidade tradicional da Sicília. O modo de vida baseado na pesca está em rápida extinção. Vai dando lugar à indústria do turismo. Complicando as duas atividades, uma legislação que proíbe acolher imigrantes clandestinos vindos, principalmente, da África.
No filme de Cuarón, a astronauta quase aceita a própria morte, vencida pela tristeza de ter perdido sua filha de quatro anos de idade. Na produção de Crialese, a refugiada etíope teima em continuar sua busca pelo marido, apesar de toda a violência que sofreu e de um estupro que a engravidou de um carcereiro.
Em “Terra Firme”, a refugiada leva dois anos para atravessar três países africanos e chegar ao Mediterrâneo, para fazer uma travessia que mata centenas de seus irmãos de cor por mês. Em “Gravidade”, a astronauta luta por sua sobrevivência saindo de um ônibus espacial americano, abordando uma espaçonave russa e usando uma cápsula chinesa. Tudo em questão de horas.
Em “Gravidade”, o naufrágio acaba em vitória da determinação da mulher, que enfrenta frio, fogo e água, para tornar a contemplar o belo planeta que a recebeu de volta. Em “Terra Firme”, a mulher com seus filhos pequenos precisa se esconder daqueles que seriam seus irmãos de espécie. Contemplar não combina com se ocultar.
No espaço sideral, os pedidos de socorro não são ouvidos por Houston devido a problemas técnicos. No mar mediterrâneo, os gritos dos náufragos devem ser ignorados pelos que poderiam recolhê-los porque a lei não permite seu salvamento.
Os protagonistas de “Gravidade” sentem orgulho de pertencer a uma espécie capaz de olhar seu planeta, sem enxergar outras divisões que não as marcadas por rios, florestas, desertos, mares. Em “Terra Firme”, alguns metros separam impiedosamente alguns poucos que podem viajar e se divertir e muitos outros a quem não é permitido abandonar a terra que os castiga com fome e guerras.
As duas belas obras de cinema são contrastantes não só em sua temática e elaboração estética. Mostram como uma mesma espécie pode ser tão criativa e poderosa quanto mesquinha e covarde. Que caminho a humanidade irá seguir?
Diferente do que acontece em “Gravidade”, a vida real não autoriza esperar outro destino senão um naufrágio cheio de agonia. Mas a atitude do jovem siciliano no final de “Terra Firme” nos permite um mínimo de esperança em um resgate de última hora.
“Gravidade” é um filme de Alfonso Cuarón com Sandra Bullock e George Clooney. A bela produção tem efeitos especiais que aproveitam a tecnologia 3D de forma madura. Mas ganha interesse ainda maior se comparada a outro grande filme.
Em "Terra Firme", Emanuele Crialese mostra uma comunidade tradicional da Sicília. O modo de vida baseado na pesca está em rápida extinção. Vai dando lugar à indústria do turismo. Complicando as duas atividades, uma legislação que proíbe acolher imigrantes clandestinos vindos, principalmente, da África.
No filme de Cuarón, a astronauta quase aceita a própria morte, vencida pela tristeza de ter perdido sua filha de quatro anos de idade. Na produção de Crialese, a refugiada etíope teima em continuar sua busca pelo marido, apesar de toda a violência que sofreu e de um estupro que a engravidou de um carcereiro.
Em “Terra Firme”, a refugiada leva dois anos para atravessar três países africanos e chegar ao Mediterrâneo, para fazer uma travessia que mata centenas de seus irmãos de cor por mês. Em “Gravidade”, a astronauta luta por sua sobrevivência saindo de um ônibus espacial americano, abordando uma espaçonave russa e usando uma cápsula chinesa. Tudo em questão de horas.
Em “Gravidade”, o naufrágio acaba em vitória da determinação da mulher, que enfrenta frio, fogo e água, para tornar a contemplar o belo planeta que a recebeu de volta. Em “Terra Firme”, a mulher com seus filhos pequenos precisa se esconder daqueles que seriam seus irmãos de espécie. Contemplar não combina com se ocultar.
No espaço sideral, os pedidos de socorro não são ouvidos por Houston devido a problemas técnicos. No mar mediterrâneo, os gritos dos náufragos devem ser ignorados pelos que poderiam recolhê-los porque a lei não permite seu salvamento.
Os protagonistas de “Gravidade” sentem orgulho de pertencer a uma espécie capaz de olhar seu planeta, sem enxergar outras divisões que não as marcadas por rios, florestas, desertos, mares. Em “Terra Firme”, alguns metros separam impiedosamente alguns poucos que podem viajar e se divertir e muitos outros a quem não é permitido abandonar a terra que os castiga com fome e guerras.
As duas belas obras de cinema são contrastantes não só em sua temática e elaboração estética. Mostram como uma mesma espécie pode ser tão criativa e poderosa quanto mesquinha e covarde. Que caminho a humanidade irá seguir?
Diferente do que acontece em “Gravidade”, a vida real não autoriza esperar outro destino senão um naufrágio cheio de agonia. Mas a atitude do jovem siciliano no final de “Terra Firme” nos permite um mínimo de esperança em um resgate de última hora.
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8 de ago. de 2013
“O Som ao Redor”: a tranquilidade que antecipa a explosão
O filme "O Som ao Redor" está chegando às locadoras. Quem não viu, deve aproveitar a oportunidade. E quem assistiu, tem motivos para repetir a dose.
A produção do cineasta pernambucano Kléber Mendonça Filho tem muitos méritos. Elenco, fotografia, direção, roteiro. Mas é o clima de suspense que prende a atenção. A trama trata basicamente de uma área residencial em um bairro de classe média de Recife. Os integrantes de uma milícia aparecem oferecendo segurança particular aos moradores.
Um idoso que é latifundiário no interior, possui vários imóveis na capital. É o patriarca local, de quem os milicianos conseguem autorização para atuar.
Tudo parece sob controle. Mas a tensão cresce.
Uma jovem dona de casa não consegue dormir por causa dos latidos do cachorro do vizinho. Durante o dia, fuma maconha e se masturba. Um dos netos do patriarca comete furtos em automóveis da vizinhança, desafiando os novos seguranças. Outro neto não sabe o que fazer da vida de conforto material que leva. Um casal de adolescentes se agarra pelos cantos. As empregadas vão e vêm como sombras. Festinhas rolam e automóveis cruzam as pacatas ruas em alta velocidade.
Estes e outros elementos compõem o som que rodeia o conforto do bairro. Rumor incômodo, acumulado por um ódio e sede de vingança só revelados no final do filme. Esse ruído acompanha a história brasileira há séculos, produto da truculência dos que incluem vidas humanas entre os bens de que podem dispor.
Lançado meses antes das manifestações que abalam o País, o filme parecia pressentir alguma coisa. A tranquilidade e a segurança aparentes podem preceder a explosão.
A produção do cineasta pernambucano Kléber Mendonça Filho tem muitos méritos. Elenco, fotografia, direção, roteiro. Mas é o clima de suspense que prende a atenção. A trama trata basicamente de uma área residencial em um bairro de classe média de Recife. Os integrantes de uma milícia aparecem oferecendo segurança particular aos moradores.
Um idoso que é latifundiário no interior, possui vários imóveis na capital. É o patriarca local, de quem os milicianos conseguem autorização para atuar.
Tudo parece sob controle. Mas a tensão cresce.
Uma jovem dona de casa não consegue dormir por causa dos latidos do cachorro do vizinho. Durante o dia, fuma maconha e se masturba. Um dos netos do patriarca comete furtos em automóveis da vizinhança, desafiando os novos seguranças. Outro neto não sabe o que fazer da vida de conforto material que leva. Um casal de adolescentes se agarra pelos cantos. As empregadas vão e vêm como sombras. Festinhas rolam e automóveis cruzam as pacatas ruas em alta velocidade.
Estes e outros elementos compõem o som que rodeia o conforto do bairro. Rumor incômodo, acumulado por um ódio e sede de vingança só revelados no final do filme. Esse ruído acompanha a história brasileira há séculos, produto da truculência dos que incluem vidas humanas entre os bens de que podem dispor.
Lançado meses antes das manifestações que abalam o País, o filme parecia pressentir alguma coisa. A tranquilidade e a segurança aparentes podem preceder a explosão.
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23 de out. de 2010
Tropa 2: ainda conservador
O novo filme de José Padilha continua conservador. Agora, os políticos corruptos são os grandes vilões, mas aqueles que os corrompem ficam na sombra. As milícias da grande mídia agradecem.
As duas produções de Tropa de Elite são filmes de ação que pretendem fazer denúncia. Mas, não vão à raiz dos problemas que retratam de forma tão explícita. Ao fazer isso, acabam por justificar a forma como a sociedade brasileira está organizada. Com sua injustiça social, violência estatal contra os mais pobres, democracia de fachada e monopólios da grande mídia.
Em Tropa de Elite 2, os vilões são mais numerosos. A corrupção policial e os traficantes de drogas continuam presentes. Mas, a ação das milícias ganhou grande destaque. No filme anterior, boa parte da culpa da violência urbana cabia aos que compram drogas. Estranhamente, dessa vez, a mesma culpa não foi atribuída aos consumidores de TV paga. Um dos serviços vendidos ilegalmente por milicianos.
Tropa 2 chega a uma conclusão que já deveria ser óbvia em sua primeira edição. O único serviço público realmente presente e em funcionamento nas favelas é a polícia. Era questão de tempo para que policiais substituíssem o tráfico e se transformassem em tropa de ocupação com vontade própria. Mercenários dispostos a negociar o acesso às áreas ocupadas com os poderes constituídos. Entre estes, é claro, o poder estatal representado pelos políticos de plantão.
A cena em que Nascimento surra um secretário de estado vem arrancando aplausos nos cinemas. Simboliza a justa revolta popular contra os políticos em geral. O problema é que políticos profissionais não vivem apenas de seus altos salários. Nem se elegeram usando suas economias pessoais. Foram bancados por empresários. Em troca, a grande maioria deles trabalha como facilitadores de negócios para seus financiadores. E muitas vezes, o fazem dentro da lei.
Políticos envolvidos com criminosos comuns são poucos, mas fazem barulho suficiente para esconder ainda mais a já silenciosa ação de seus colegas. Membros das bancadas a serviço de ruralistas, proprietários de meios de comunicação, banqueiros, empreiteiros, mercenários religiosos e empresários de vários setores monopolizados da economia.
O personagem Fraga é uma justa homenagem ao deputado Marcelo Freixo (PSOL). Mas, na vida real, Freixo não apenas é um indivíduo corajoso e com princípios. É uma liderança apoiada em um trabalho de base desenvolvido nas comunidades pobres. Lugares massacrados pela ação conjunta do tráfico, da milícia e da polícia, incluindo o Bope. Ainda assim, Fraga não é o mocinho. Continua a ser Nascimento, com seus métodos violentos.
Mas, o filme de Padilha é conservador principalmente porque mostra a mídia empresarial como defensora da moralidade pública. No filme, a casa da milícia começou a cair porque uma jornalista foi assassinada. Na vida real algo muito parecido aconteceu. Uma equipe do jornal “O Dia” foi seqüestrada e submetida à tortura por milicianos. Até então, as autoridades e a própria imprensa fechavam o olhos para a ação violenta e covarde das milícias. Eram consideradas “formas comunitárias de auto-defesa”.
Na verdade, a responsabilidade da grande imprensa é enorme na montagem do cenário que possibilitou o surgimento das milícias. Cenário que não se limita ao Rio de Janeiro no início do século 21. Inclui um país inteiro vivendo séculos de injustiça social, racismo, truculência policial, criminalização da pobreza, autoritarismo, informação distorcida, preconceitos e corrupção.
Com Tropa de Elite, esquecemos de tudo isso. Vamos ao cinema e nos sentimos vingados pelos murros de Nascimento. Contemplados por denúncias encenadas em ritmo de filme americano. No lugar do debate organizado pela população em associações, partidos, sindicatos, sobram conversas de boteco sobre uma produção da Globo Filmes. No máximo, colóquios de classe média em mega-livrarias.
O final do filme promete uma continuação que chegaria mais fundo em suas denúncias. Difícil acreditar que a mira de Nascimento volte-se para o grande capital. Muitos de seus representantes financiam a vitoriosa produção. Querendo ou não seus realizadores, Tropa 2 trabalha para milícia midiática que justifica um dos sistemas de dominação mais violentos do mundo. E um dos mais inteligentes, também.
Leia também: As armas das tropas da elite não são só as de fogo
As duas produções de Tropa de Elite são filmes de ação que pretendem fazer denúncia. Mas, não vão à raiz dos problemas que retratam de forma tão explícita. Ao fazer isso, acabam por justificar a forma como a sociedade brasileira está organizada. Com sua injustiça social, violência estatal contra os mais pobres, democracia de fachada e monopólios da grande mídia.
Em Tropa de Elite 2, os vilões são mais numerosos. A corrupção policial e os traficantes de drogas continuam presentes. Mas, a ação das milícias ganhou grande destaque. No filme anterior, boa parte da culpa da violência urbana cabia aos que compram drogas. Estranhamente, dessa vez, a mesma culpa não foi atribuída aos consumidores de TV paga. Um dos serviços vendidos ilegalmente por milicianos.
Tropa 2 chega a uma conclusão que já deveria ser óbvia em sua primeira edição. O único serviço público realmente presente e em funcionamento nas favelas é a polícia. Era questão de tempo para que policiais substituíssem o tráfico e se transformassem em tropa de ocupação com vontade própria. Mercenários dispostos a negociar o acesso às áreas ocupadas com os poderes constituídos. Entre estes, é claro, o poder estatal representado pelos políticos de plantão.
A cena em que Nascimento surra um secretário de estado vem arrancando aplausos nos cinemas. Simboliza a justa revolta popular contra os políticos em geral. O problema é que políticos profissionais não vivem apenas de seus altos salários. Nem se elegeram usando suas economias pessoais. Foram bancados por empresários. Em troca, a grande maioria deles trabalha como facilitadores de negócios para seus financiadores. E muitas vezes, o fazem dentro da lei.
Políticos envolvidos com criminosos comuns são poucos, mas fazem barulho suficiente para esconder ainda mais a já silenciosa ação de seus colegas. Membros das bancadas a serviço de ruralistas, proprietários de meios de comunicação, banqueiros, empreiteiros, mercenários religiosos e empresários de vários setores monopolizados da economia.
O personagem Fraga é uma justa homenagem ao deputado Marcelo Freixo (PSOL). Mas, na vida real, Freixo não apenas é um indivíduo corajoso e com princípios. É uma liderança apoiada em um trabalho de base desenvolvido nas comunidades pobres. Lugares massacrados pela ação conjunta do tráfico, da milícia e da polícia, incluindo o Bope. Ainda assim, Fraga não é o mocinho. Continua a ser Nascimento, com seus métodos violentos.
Mas, o filme de Padilha é conservador principalmente porque mostra a mídia empresarial como defensora da moralidade pública. No filme, a casa da milícia começou a cair porque uma jornalista foi assassinada. Na vida real algo muito parecido aconteceu. Uma equipe do jornal “O Dia” foi seqüestrada e submetida à tortura por milicianos. Até então, as autoridades e a própria imprensa fechavam o olhos para a ação violenta e covarde das milícias. Eram consideradas “formas comunitárias de auto-defesa”.
Na verdade, a responsabilidade da grande imprensa é enorme na montagem do cenário que possibilitou o surgimento das milícias. Cenário que não se limita ao Rio de Janeiro no início do século 21. Inclui um país inteiro vivendo séculos de injustiça social, racismo, truculência policial, criminalização da pobreza, autoritarismo, informação distorcida, preconceitos e corrupção.
Com Tropa de Elite, esquecemos de tudo isso. Vamos ao cinema e nos sentimos vingados pelos murros de Nascimento. Contemplados por denúncias encenadas em ritmo de filme americano. No lugar do debate organizado pela população em associações, partidos, sindicatos, sobram conversas de boteco sobre uma produção da Globo Filmes. No máximo, colóquios de classe média em mega-livrarias.
O final do filme promete uma continuação que chegaria mais fundo em suas denúncias. Difícil acreditar que a mira de Nascimento volte-se para o grande capital. Muitos de seus representantes financiam a vitoriosa produção. Querendo ou não seus realizadores, Tropa 2 trabalha para milícia midiática que justifica um dos sistemas de dominação mais violentos do mundo. E um dos mais inteligentes, também.
Leia também: As armas das tropas da elite não são só as de fogo
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12 de out. de 2010
Wall Street: o dinheiro não dorme. Está morto
Mais uma vez, Gordon Gekko deve ganhar a simpatia do público no novo filme de Oliver Stone. É que diante do mundo finado do dinheiro, o vilão é o que mais se parece com algo vivo.
“Wall Street: o dinheiro nunca dorme” faz um retrato cru do capitalismo. Mas, padece do mesmo mal que atacou o filme do qual é continuação. Aquele que era para ser o vilão, acaba sendo o personagem que mais atrai a simpatia do público.
Gordon Gekko (Michael Douglas) com todo seu cinismo mostra-se bem adaptado a um ambiente extremamente competitivo. A selvageria da disputa capitalista fica bem clara nas cenas do pregão da bolsa. Como não sentir fascínio pelo leão na savana? Ou pelo tubarão no mar? Aprendemos a ter pena dos antílopes e dos peixinhos. Mas, séculos de pedagogia do canibalismo de mercado nos ensinou a admirar as feras.
Logo no início do filme, Gekko refere-se às famosas bolhas econômicas do capitalismo. E as compara à explosão cambriana. Trata-se de um fenômeno biológico ocorrido há uns 500 milhões de anos. Nessa época, houve o maior surgimento de novas espécies vivas de que se tem notícia.
Ao utilizar esse exemplo, Gekko defende o que pensa a maioria dos ideólogos da burguesia. É a idéia de que o capitalismo é resultado da evolução natural. Veio para ficar. E quem quiser se dar bem, tem que aceitar seu jogo bruto e disputá-lo seguindo suas regras violentas.
Gekko é bom nisso. Depois de anos de prisão, parece arrependido. Escreve um livro que desvendaria os segredos do sistema. Mostra-se arrependido do que fez com sua vida familiar. Desenvolve uma relação afetiva com seu genro, substituto ideal para o filho morto.
Nada disso impede que acabe dando o bote no final. Age como o escorpião que não consegue negar sua natureza. A reaproximação com a filha é apenas um modo de recuperar o dinheiro escondido na Suíça. Suas denúncias do sistema são uma forma de se manter em evidência. Um jeito de reatar antigas relações e vingar-se de seus velhos inimigos. Talvez sua única ação boa tenha sido colocar o genro para fora daquele meio cruel aos chutes e pontapés.
No final do filme, é possível sentir alguma pena de Gekko. Seu rosto olhando as imagens do neto na barriga da filha é como o pedido de socorro de um dependente químico. Gekko simboliza a humanidade presa num circuito estéril.
É o império do valor de troca, que há séculos vem seqüestrando todos os domínios da vida humana. Já não se trata de dinheiro apenas. São papéis de todo tipo. O que se negocia nos mercados do mundo não são bens, mas direitos sobre eles. E estes crescem numa proporção muito maior que a produção daqueles.
É o contrário da explosão cambriana. Nesta, a vida explodiu dando origem a praticamente todas as atuais formas vivas. O mercado capitalista parece estar cheio de diversidade. De fato, marcas, modelos, tamanhos, formas não passam de metamorfoses da mesma coisa: trabalho humano reduzido a mercadoria. Criatividade levada a óbito.
O filme de Stone faz a denúncia disso só até certo ponto. No fim, fica a sensação de que não há muita escapatória a não ser manter uma postura ética. Escolher a qualidade no lugar da quantidade. Saída individualista que conta com a boa consciência daqueles que estão que estão no topo da cadeia alimentar dos negócios.
Por outro lado, o filme deixa claro que a esperança no capitalismo ecologicamente correto está condenada ao fracasso. “A próxima bolha será verde”, diz Gekko. Esta sentença faz mais do que prever uma nova catástrofe. Acende o alerta de que o capital está atingindo o limite não só da vida social humana. Envolve, cada vez mais, o conjunto da vida no planeta em seu abraço de morte.
Felizmente, a vida costuma reagir mesmo nas crises mais fatais. Contra o instinto suicida do capital, só a reação ferida de milhões de explorados e humilhados pode ser a resposta. Perto deles, Gekko é só um morto-vivo à procura de descanso eterno.
“Wall Street: o dinheiro nunca dorme” faz um retrato cru do capitalismo. Mas, padece do mesmo mal que atacou o filme do qual é continuação. Aquele que era para ser o vilão, acaba sendo o personagem que mais atrai a simpatia do público.
Gordon Gekko (Michael Douglas) com todo seu cinismo mostra-se bem adaptado a um ambiente extremamente competitivo. A selvageria da disputa capitalista fica bem clara nas cenas do pregão da bolsa. Como não sentir fascínio pelo leão na savana? Ou pelo tubarão no mar? Aprendemos a ter pena dos antílopes e dos peixinhos. Mas, séculos de pedagogia do canibalismo de mercado nos ensinou a admirar as feras.
Logo no início do filme, Gekko refere-se às famosas bolhas econômicas do capitalismo. E as compara à explosão cambriana. Trata-se de um fenômeno biológico ocorrido há uns 500 milhões de anos. Nessa época, houve o maior surgimento de novas espécies vivas de que se tem notícia.
Ao utilizar esse exemplo, Gekko defende o que pensa a maioria dos ideólogos da burguesia. É a idéia de que o capitalismo é resultado da evolução natural. Veio para ficar. E quem quiser se dar bem, tem que aceitar seu jogo bruto e disputá-lo seguindo suas regras violentas.
Gekko é bom nisso. Depois de anos de prisão, parece arrependido. Escreve um livro que desvendaria os segredos do sistema. Mostra-se arrependido do que fez com sua vida familiar. Desenvolve uma relação afetiva com seu genro, substituto ideal para o filho morto.
Nada disso impede que acabe dando o bote no final. Age como o escorpião que não consegue negar sua natureza. A reaproximação com a filha é apenas um modo de recuperar o dinheiro escondido na Suíça. Suas denúncias do sistema são uma forma de se manter em evidência. Um jeito de reatar antigas relações e vingar-se de seus velhos inimigos. Talvez sua única ação boa tenha sido colocar o genro para fora daquele meio cruel aos chutes e pontapés.
No final do filme, é possível sentir alguma pena de Gekko. Seu rosto olhando as imagens do neto na barriga da filha é como o pedido de socorro de um dependente químico. Gekko simboliza a humanidade presa num circuito estéril.
É o império do valor de troca, que há séculos vem seqüestrando todos os domínios da vida humana. Já não se trata de dinheiro apenas. São papéis de todo tipo. O que se negocia nos mercados do mundo não são bens, mas direitos sobre eles. E estes crescem numa proporção muito maior que a produção daqueles.
É o contrário da explosão cambriana. Nesta, a vida explodiu dando origem a praticamente todas as atuais formas vivas. O mercado capitalista parece estar cheio de diversidade. De fato, marcas, modelos, tamanhos, formas não passam de metamorfoses da mesma coisa: trabalho humano reduzido a mercadoria. Criatividade levada a óbito.
O filme de Stone faz a denúncia disso só até certo ponto. No fim, fica a sensação de que não há muita escapatória a não ser manter uma postura ética. Escolher a qualidade no lugar da quantidade. Saída individualista que conta com a boa consciência daqueles que estão que estão no topo da cadeia alimentar dos negócios.
Por outro lado, o filme deixa claro que a esperança no capitalismo ecologicamente correto está condenada ao fracasso. “A próxima bolha será verde”, diz Gekko. Esta sentença faz mais do que prever uma nova catástrofe. Acende o alerta de que o capital está atingindo o limite não só da vida social humana. Envolve, cada vez mais, o conjunto da vida no planeta em seu abraço de morte.
Felizmente, a vida costuma reagir mesmo nas crises mais fatais. Contra o instinto suicida do capital, só a reação ferida de milhões de explorados e humilhados pode ser a resposta. Perto deles, Gekko é só um morto-vivo à procura de descanso eterno.
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19 de set. de 2010
O conformismo em “Nosso Lar”
Walter Assis produziu uma obra em defesa do espiritismo. Até aí, nada demais. O problema é que sua interpretação defende a passividade diante das injustiças terrenas.
O filme de Walter Assis é uma boa peça de propaganda do espiritismo. Como tal, seu sucesso depende de da resposta do público-alvo. E este parece ter respondido bem. As bilheterias já ultrapassaram os dois milhões de pagantes. Pouco menos que o número estimado de 2,3 milhões de adeptos do espiritismo no Brasil.
Por outro lado, o filme não deve entusiasmar o público em geral. O visual lembra anúncios de condomínio. O lar espiritual idealizado só agradaria a quem gosta de música clássica, roupas brancas e jardins bonitinhos. Por outro lado, os valores que o filme defende podem ser compartilhados por quem não compartilha da fé espírita. E aí, prevalece o conservadorismo.
Em primeiro lugar, há o apelo constante à família. Algo a que o próprio título da obra remete. O lar em questão é sinônimo de família nuclear tradicional. Em especial, quando a família retratada desfruta a privilegiada condição de classe média em plenos anos 1930 e mora em uma casa ampla e bem mobiliada, com direito a criados que incluem uma mucama negra.
A modernidade capitalista causou alterações sociais profundas e desastrosas. Mas, o alívio do peso familiar sobre os indivíduos foi uma mudança bem-vinda. A lógica do mercado dissolve o poder das ligações de sangue. Coloca a possibilidade de trocar relações impostas por laços de parentesco pela escolha baseadas em afinidades.
É a diferença entre o casamento por amor e o matrimônio arranjado, por exemplo. O primeiro não é certeza de felicidade. O segundo é quase garantia de tristeza. Ambos ainda dobram-se a convenções sociais sufocantes em que a família tem papel decisivo. Acontece que a superação definitiva das amarras baseadas nas ligações de sangue continua bloqueada pelo conservadorismo burguês de que o sistema necessita para se reproduzir.
Em uma sociedade realmente livre, até a paternidade seria cada vez mais uma questão de escolha. As relações amorosas entre parentes jamais foram regra. Ao contrário, a imagem da família tradicional harmoniosa esconde o mais extremo autoritarismo patriarcal. O filme mostra que André Luis cometeu muitos os erros em vida. No entanto, nenhum deles coloca em dúvida sua autoridade de chefe de família, apenas os exageros dela.
Além disso, a doutrina defendida pelo filme concentra-se na superação de defeitos que afetariam a busca da felicidade pessoal. É verdade que egoísmo, inveja, arrogância, intolerância são posturas e sentimentos negativos. Mas, a busca de sua superação de forma isolada do contexto social e histórico presta um serviço a um sistema social que vive desses valores. Ser egoísta e intolerante pode ser bastante recompensador sob o capitalismo. É o que mostra a vida tranqüila e a morte serena de muitos ditadores sanguinários e exploradores gananciosos.
Ao mesmo tempo, o filme mostra como no espiritismo a separação entre matéria e espírito parece chegar ao extremo. As sucessivas encarnações seriam uma forma de purificar o espírito até que ele pudesse continuar em seu estado imaterial permanentemente. Até que não mais tivesse que abandonar o “nosso lar”. Ou seja, a matéria seria considerada um estado imperfeito, mesmo que necessário, do qual todos devem tentar se livrar.
Não é o caso de discutir os pressupostos filosóficos dessa concepção. No entanto, uma doutrina como essa pode ser utilizada para incentivar a passividade em relação à miséria muito material que afeta bilhões de pessoas. Também pode contribuir para simplificar as complexidades da alma humana, transformando-as em simples jogos de “ação e reação”. Os que aqui sofrem, são eles mesmos culpados disso. Precisam se “depurar” para serem recompensados.
Nesse caso, a conclusão quase obrigatória é a adoção de uma paciência infinita com a injustiça terrena. Algo bastante conveniente para os principais responsáveis por ela. Os exploradores e opressores, com suas existências muito terrenas e luxuosas. Defensores encarniçados de interesses muito materiais.
Tais convicções não podem ser atribuídas a muitos dos adeptos do espiritismo. Isso não impede que o espírito da superprodução em cartaz esteja contaminado por um forte conformismo social.
O filme de Walter Assis é uma boa peça de propaganda do espiritismo. Como tal, seu sucesso depende de da resposta do público-alvo. E este parece ter respondido bem. As bilheterias já ultrapassaram os dois milhões de pagantes. Pouco menos que o número estimado de 2,3 milhões de adeptos do espiritismo no Brasil.
Por outro lado, o filme não deve entusiasmar o público em geral. O visual lembra anúncios de condomínio. O lar espiritual idealizado só agradaria a quem gosta de música clássica, roupas brancas e jardins bonitinhos. Por outro lado, os valores que o filme defende podem ser compartilhados por quem não compartilha da fé espírita. E aí, prevalece o conservadorismo.
Em primeiro lugar, há o apelo constante à família. Algo a que o próprio título da obra remete. O lar em questão é sinônimo de família nuclear tradicional. Em especial, quando a família retratada desfruta a privilegiada condição de classe média em plenos anos 1930 e mora em uma casa ampla e bem mobiliada, com direito a criados que incluem uma mucama negra.
A modernidade capitalista causou alterações sociais profundas e desastrosas. Mas, o alívio do peso familiar sobre os indivíduos foi uma mudança bem-vinda. A lógica do mercado dissolve o poder das ligações de sangue. Coloca a possibilidade de trocar relações impostas por laços de parentesco pela escolha baseadas em afinidades.
É a diferença entre o casamento por amor e o matrimônio arranjado, por exemplo. O primeiro não é certeza de felicidade. O segundo é quase garantia de tristeza. Ambos ainda dobram-se a convenções sociais sufocantes em que a família tem papel decisivo. Acontece que a superação definitiva das amarras baseadas nas ligações de sangue continua bloqueada pelo conservadorismo burguês de que o sistema necessita para se reproduzir.
Em uma sociedade realmente livre, até a paternidade seria cada vez mais uma questão de escolha. As relações amorosas entre parentes jamais foram regra. Ao contrário, a imagem da família tradicional harmoniosa esconde o mais extremo autoritarismo patriarcal. O filme mostra que André Luis cometeu muitos os erros em vida. No entanto, nenhum deles coloca em dúvida sua autoridade de chefe de família, apenas os exageros dela.
Além disso, a doutrina defendida pelo filme concentra-se na superação de defeitos que afetariam a busca da felicidade pessoal. É verdade que egoísmo, inveja, arrogância, intolerância são posturas e sentimentos negativos. Mas, a busca de sua superação de forma isolada do contexto social e histórico presta um serviço a um sistema social que vive desses valores. Ser egoísta e intolerante pode ser bastante recompensador sob o capitalismo. É o que mostra a vida tranqüila e a morte serena de muitos ditadores sanguinários e exploradores gananciosos.
Ao mesmo tempo, o filme mostra como no espiritismo a separação entre matéria e espírito parece chegar ao extremo. As sucessivas encarnações seriam uma forma de purificar o espírito até que ele pudesse continuar em seu estado imaterial permanentemente. Até que não mais tivesse que abandonar o “nosso lar”. Ou seja, a matéria seria considerada um estado imperfeito, mesmo que necessário, do qual todos devem tentar se livrar.
Não é o caso de discutir os pressupostos filosóficos dessa concepção. No entanto, uma doutrina como essa pode ser utilizada para incentivar a passividade em relação à miséria muito material que afeta bilhões de pessoas. Também pode contribuir para simplificar as complexidades da alma humana, transformando-as em simples jogos de “ação e reação”. Os que aqui sofrem, são eles mesmos culpados disso. Precisam se “depurar” para serem recompensados.
Nesse caso, a conclusão quase obrigatória é a adoção de uma paciência infinita com a injustiça terrena. Algo bastante conveniente para os principais responsáveis por ela. Os exploradores e opressores, com suas existências muito terrenas e luxuosas. Defensores encarniçados de interesses muito materiais.
Tais convicções não podem ser atribuídas a muitos dos adeptos do espiritismo. Isso não impede que o espírito da superprodução em cartaz esteja contaminado por um forte conformismo social.
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28 de jul. de 2010
Campeões de bilheteria e de caretice
Toy Story 3, Encontro Explosivo e Eclipse. Três boas bilheterias. Três exemplos do conservadorismo de Hollywood.
“Toy Story 3” é dirigido por John Lasseter. A animação competente e os efeitos em três dimensões não salvam o filme. Os divertidos brinquedos animados, liderados por Wood, estão em apuros. Seu dono cresceu e vai para a universidade. Estão entre serem esquecidos no sótão da casa ou jogados no lixo. Na confusão para escapar a tais destinos, acabam numa creche.
Poderia ser um bom pretexto para mostrar as vantagens da educação infantil em ambientes coletivos. A necessidade da diversidade social como elemento de educação e formação. A importância da posse comum de brinquedos. Talvez, a luta dos donos da creche para manterem-na aberta.
Ao invés disso, a situação é de pesadelo. O que parecia um paraíso de crianças acolhedoras mostra-se um inferno de pestinhas destruidoras. Longe dos pais protetores, os pequenos viram um bando incontrolável. Para completar, o líder do pedaço é um urso de pelúcia que não passa de um uma mistura de ditador com mafioso. Se a liberdade e a vida coletiva representam esses riscos todos, melhor se contentar com o bom e velho sótão.
O final feliz é a doação dos brinquedos a um novo lar. Tornam-se mascotes de uma garotinha gracinha, em um belo subúrbio americano. A menininha é pobre, mas isolada em sua casinha agradável está longe dos problemas que a vida comunitária causa.
Tudo muito fofinho. Tudo muito convidativo e atraente. É só sair da sala de cinema e se dirigir à loja mais próxima para comprar mais produtos da franquia. É a felicidade fácil, cara e curta na forma de bonecos sorridentes, em embalagens coloridas.
Em “Encontro explosivo”, James Mangold coloca Cameron Diaz e Tom Cruise nas mais variadas confusões. Variadas sem sair da mesmice. Muita perseguição, acrobacias, efeitos especiais e cenas que poderiam ser engraçadas mas não são.
Tudo para mostrar uma personagem feminina bancando a pateta em 90% das cenas. Caidinha pelo bonitão, que sabe tudo e vence a todos, sem tirar o sorriso cheio de dentes branqueados da cara. No final, a garota revela grande habilidade ao volante de um automóvel antigo. Mas, utiliza seus talentos única e exclusivamente para agarrar o bom partido que apareceu em sua vida chata.
Em “Eclipse”, de David Slade, a juventude está mais careta do que nunca. A começar por um vampiro bonzinho que faria Drácula querer morrer se já não fosse defunto há séculos. Neste parte da saga “Crepúsculo”, Bella está sendo disputada por seu namorado sanguessuga e seu amigo lobisomem. Nessa condição, vive sendo carregada de um canto para o outro como uma boneca.
O pior é que o jovem vampiro se recusa a transar com sua noiva antes do casamento. Ele se desculpa dizendo que é um cavaleiro do século 17. Do tipo que precisa fazer a corte à dama por meses antes de beijá-la. Mas, está mais para um adolescente do século 21 nos Estados Unidos de Bush. Aquele que recomenda não fazer sexo como a única forma de evitar Aids, gravidez indesejada, etc.
Filmes como esses deixam bem clara a principal função do cinema empresarial inspirado por Hollywood. Em meio a risadas, lágrimas, pipocas e refrigerantes nossas mentes vão sendo amaciadas. Amolecem suas defesas contra os valores mais conservadores e imbecilizantes.
“Toy Story 3” é dirigido por John Lasseter. A animação competente e os efeitos em três dimensões não salvam o filme. Os divertidos brinquedos animados, liderados por Wood, estão em apuros. Seu dono cresceu e vai para a universidade. Estão entre serem esquecidos no sótão da casa ou jogados no lixo. Na confusão para escapar a tais destinos, acabam numa creche.
Poderia ser um bom pretexto para mostrar as vantagens da educação infantil em ambientes coletivos. A necessidade da diversidade social como elemento de educação e formação. A importância da posse comum de brinquedos. Talvez, a luta dos donos da creche para manterem-na aberta.
Ao invés disso, a situação é de pesadelo. O que parecia um paraíso de crianças acolhedoras mostra-se um inferno de pestinhas destruidoras. Longe dos pais protetores, os pequenos viram um bando incontrolável. Para completar, o líder do pedaço é um urso de pelúcia que não passa de um uma mistura de ditador com mafioso. Se a liberdade e a vida coletiva representam esses riscos todos, melhor se contentar com o bom e velho sótão.
O final feliz é a doação dos brinquedos a um novo lar. Tornam-se mascotes de uma garotinha gracinha, em um belo subúrbio americano. A menininha é pobre, mas isolada em sua casinha agradável está longe dos problemas que a vida comunitária causa.
Tudo muito fofinho. Tudo muito convidativo e atraente. É só sair da sala de cinema e se dirigir à loja mais próxima para comprar mais produtos da franquia. É a felicidade fácil, cara e curta na forma de bonecos sorridentes, em embalagens coloridas.
Em “Encontro explosivo”, James Mangold coloca Cameron Diaz e Tom Cruise nas mais variadas confusões. Variadas sem sair da mesmice. Muita perseguição, acrobacias, efeitos especiais e cenas que poderiam ser engraçadas mas não são.
Tudo para mostrar uma personagem feminina bancando a pateta em 90% das cenas. Caidinha pelo bonitão, que sabe tudo e vence a todos, sem tirar o sorriso cheio de dentes branqueados da cara. No final, a garota revela grande habilidade ao volante de um automóvel antigo. Mas, utiliza seus talentos única e exclusivamente para agarrar o bom partido que apareceu em sua vida chata.
Em “Eclipse”, de David Slade, a juventude está mais careta do que nunca. A começar por um vampiro bonzinho que faria Drácula querer morrer se já não fosse defunto há séculos. Neste parte da saga “Crepúsculo”, Bella está sendo disputada por seu namorado sanguessuga e seu amigo lobisomem. Nessa condição, vive sendo carregada de um canto para o outro como uma boneca.
O pior é que o jovem vampiro se recusa a transar com sua noiva antes do casamento. Ele se desculpa dizendo que é um cavaleiro do século 17. Do tipo que precisa fazer a corte à dama por meses antes de beijá-la. Mas, está mais para um adolescente do século 21 nos Estados Unidos de Bush. Aquele que recomenda não fazer sexo como a única forma de evitar Aids, gravidez indesejada, etc.
Filmes como esses deixam bem clara a principal função do cinema empresarial inspirado por Hollywood. Em meio a risadas, lágrimas, pipocas e refrigerantes nossas mentes vão sendo amaciadas. Amolecem suas defesas contra os valores mais conservadores e imbecilizantes.
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29 de set. de 2009
Rock bom é rock pirata!
O filme “Os Piratas do Rock” mostra as origens das rádios piratas. E lembra como o rock´n roll foi subversivo. Hoje, virou mercadoria, mas ainda há muitos fazendo música contra as injustiças.
O ano é de 1966. O rock era considerado música perigosa. Afinal, o verbo rock, em inglês, quer dizer balançar. Rock and roll é algo como balançar e girar. Ou melhor, rebolar mesmo. É exatamente esse o movimento que quem dança rock faz. E como sabemos, movimentos com os quadris lembram o ato sexual. E sexo mais música é igual a prazer, não a reprodução da espécie. Um crime para os conservadores. Principalmente quando os maiores fãs da nova música eram jovens.
Por isso o rock foi tratado como algo extremamente subversivo quando nasceu. O novo ritmo só tocava duas horas por dia na maior rádio da Inglaterra, a BBC. Diante dessa censura não declarada, rádios que só tocavam rock começaram a surgir. A perseguição do governo britânico as jogou na ilegalidade. Para escapar à repressão, uma delas se instalou num barco. Como os piratas, ela atacava em alto mar. Longe das leis. Era a Rádio Rock.
Baseado em fatos reais, o filme de Richard Curtis conta a história dessa experiência. A produção passou despercebida por aqui, mas está nas locadoras. O elenco é ótimo: Philip Seymour Hoffman, Kenneth Branagh, Bill Nighy, January Jones, Gemma Arterton, Emma Thompson, Kenneth Branagh, Nick Frost. A história é boa e a trilha, melhor ainda. A caracterização da época também é interessante. Metade da Inglaterra, principalmente jovens e mulheres, ouvia as rádios piratas. Muitas vezes, a audição era feita escondida dos pais, maridos e patrões.
A produção surpreende ao retratar uma sociedade tão conservadora menos de 50 anos atrás. Como mostra o filme, a pílula já era bastante popular. Para o ódio da cúpula católica e conservadores em geral, libertava as mulheres de sua função reprodutiva. Dava a elas o direito de fazer sexo por prazer. O rock era só mais um elemento dessa liberdade. O problema é que o novo ritmo berrava isso aos quatro ventos nos sete mares.
Kenneth Branagh faz um ministro encarregado de acabar com as rádios piratas. Para isso, procura brechas na lei. Tenta usar força bruta. Mas, o que o personagem de Branagh não sabe é que a melhor maneira de acabar com alguns tipos de subversão anti-capitalista é torná-los objetos de consumo. Vivemos numa sociedade que gira em torno da mercadoria. Em que a maioria das coisas deixa de ter valor-de-uso para tornar-se valor-de-troca. Valor-de-uso tem a ver com qualidades. Valor-de-troca, com quantidade.
Manifestações culturais, como o rock, começam a perder suas qualidades subversivas ao se tornarem moda. Ao servirem para ajudar a fazer girar o mercado capitalista do entretenimento. Ao deixar sua dimensão qualitativa ser dominada pela lógica quantitativa. O que era criatividade desafiadora fica estéril e conformista. O mesmo vale para muitas outras coisas.
Che Guevara virou garoto-propaganda há muito tempo. A arte dos primeiros anos da Revolução Russa pode ser achada em comerciais de automóvel. Muita gente acha que Cuba já teria sido derrotada pelos Estados Unidos, se o boicote econômico fosse trocado pela venda de jeans e computadores para a Ilha de Fidel. A fé já tinha sua tabela de preços fixada nas igrejas muito antes dos neopentecostais existirem. E o sexo, tão temido nos anos 1960, hoje movimenta uma indústria de bilhões de dólares no mundo todo. Um ramo econômico que aprisionou em forma de mercadoria o corpo feminino que a pílula havia libertado.
No entanto, como diz o personagem Count (Philip Seymour Hoffman), enquanto houver gente fazendo música, político nenhum vai impedir. Sempre haverá a possibilidade de continuar fabricando subversão. E o próprio rock prova isso. Não são poucas as bandas surgidas para desafiar o capitalismo nos últimos 40 anos. Do “The Clash” ao “Rage Against Machine”. Da luta contra o racismo e o fascismo ao movimento contra a invasão do Iraque. É possível continuar fazendo música contra a injustiça social, a opressão e a exploração.
O grande problema do capitalismo é que ele não pode abrir mão totalmente dos seres humanos porque depende da exploração de sua força de trabalho. E a espécie humana tem a eterna mania de desobedecer leis naturais e sociais. Para o bem e para o mal. E quando se trata de rock contra o capitalismo, é para o bem!
O ano é de 1966. O rock era considerado música perigosa. Afinal, o verbo rock, em inglês, quer dizer balançar. Rock and roll é algo como balançar e girar. Ou melhor, rebolar mesmo. É exatamente esse o movimento que quem dança rock faz. E como sabemos, movimentos com os quadris lembram o ato sexual. E sexo mais música é igual a prazer, não a reprodução da espécie. Um crime para os conservadores. Principalmente quando os maiores fãs da nova música eram jovens.
Por isso o rock foi tratado como algo extremamente subversivo quando nasceu. O novo ritmo só tocava duas horas por dia na maior rádio da Inglaterra, a BBC. Diante dessa censura não declarada, rádios que só tocavam rock começaram a surgir. A perseguição do governo britânico as jogou na ilegalidade. Para escapar à repressão, uma delas se instalou num barco. Como os piratas, ela atacava em alto mar. Longe das leis. Era a Rádio Rock.
Baseado em fatos reais, o filme de Richard Curtis conta a história dessa experiência. A produção passou despercebida por aqui, mas está nas locadoras. O elenco é ótimo: Philip Seymour Hoffman, Kenneth Branagh, Bill Nighy, January Jones, Gemma Arterton, Emma Thompson, Kenneth Branagh, Nick Frost. A história é boa e a trilha, melhor ainda. A caracterização da época também é interessante. Metade da Inglaterra, principalmente jovens e mulheres, ouvia as rádios piratas. Muitas vezes, a audição era feita escondida dos pais, maridos e patrões.
A produção surpreende ao retratar uma sociedade tão conservadora menos de 50 anos atrás. Como mostra o filme, a pílula já era bastante popular. Para o ódio da cúpula católica e conservadores em geral, libertava as mulheres de sua função reprodutiva. Dava a elas o direito de fazer sexo por prazer. O rock era só mais um elemento dessa liberdade. O problema é que o novo ritmo berrava isso aos quatro ventos nos sete mares.
Kenneth Branagh faz um ministro encarregado de acabar com as rádios piratas. Para isso, procura brechas na lei. Tenta usar força bruta. Mas, o que o personagem de Branagh não sabe é que a melhor maneira de acabar com alguns tipos de subversão anti-capitalista é torná-los objetos de consumo. Vivemos numa sociedade que gira em torno da mercadoria. Em que a maioria das coisas deixa de ter valor-de-uso para tornar-se valor-de-troca. Valor-de-uso tem a ver com qualidades. Valor-de-troca, com quantidade.
Manifestações culturais, como o rock, começam a perder suas qualidades subversivas ao se tornarem moda. Ao servirem para ajudar a fazer girar o mercado capitalista do entretenimento. Ao deixar sua dimensão qualitativa ser dominada pela lógica quantitativa. O que era criatividade desafiadora fica estéril e conformista. O mesmo vale para muitas outras coisas.
Che Guevara virou garoto-propaganda há muito tempo. A arte dos primeiros anos da Revolução Russa pode ser achada em comerciais de automóvel. Muita gente acha que Cuba já teria sido derrotada pelos Estados Unidos, se o boicote econômico fosse trocado pela venda de jeans e computadores para a Ilha de Fidel. A fé já tinha sua tabela de preços fixada nas igrejas muito antes dos neopentecostais existirem. E o sexo, tão temido nos anos 1960, hoje movimenta uma indústria de bilhões de dólares no mundo todo. Um ramo econômico que aprisionou em forma de mercadoria o corpo feminino que a pílula havia libertado.
No entanto, como diz o personagem Count (Philip Seymour Hoffman), enquanto houver gente fazendo música, político nenhum vai impedir. Sempre haverá a possibilidade de continuar fabricando subversão. E o próprio rock prova isso. Não são poucas as bandas surgidas para desafiar o capitalismo nos últimos 40 anos. Do “The Clash” ao “Rage Against Machine”. Da luta contra o racismo e o fascismo ao movimento contra a invasão do Iraque. É possível continuar fazendo música contra a injustiça social, a opressão e a exploração.
O grande problema do capitalismo é que ele não pode abrir mão totalmente dos seres humanos porque depende da exploração de sua força de trabalho. E a espécie humana tem a eterna mania de desobedecer leis naturais e sociais. Para o bem e para o mal. E quando se trata de rock contra o capitalismo, é para o bem!
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24 de ago. de 2009
Tempos de paz no paraíso da tortura
O judeu Clausewitz foge do nazismo e encontra no Brasil outro inferno. Seria uma chance de denunciar o nosso secular terrorismo de Estado. Mas, Daniel Filho desperdiça a oportunidade.
"Tempos de paz" é baseado na peça de teatro “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, de Bosco Brasil. Sua transformação em filme oferecia muitas possibilidades boas. O máximo a que Daniel Filho chegou foi mostrar dois talentosos atores e uma denúncia tímida da ditadura getulista.
A história se passa em 1945, no dia em que a ditadura Vargas liberta seus presos políticos. Fugindo da guerra na Europa, milhares de pessoas chegam ao Rio de Janeiro. Entre elas, está o polonês Clausewitz (Dan Stulbach). Logo que avista a bela paisagem carioca, ele repete a famosa frase do poeta russo Maiakovski: “Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”. Depois, durante o interrogatório a que é submetido pelo funcionário Sigismundo (Tony Ramos), o polonês diz que aprendeu o português porque lhe parecia uma língua falada por bebês. Por gente ainda sem dentes.
Essa imagem do Brasil como paraíso, lugar de inocência e felicidade, parece ser uma constante na mente dos habitantes do Velho Mundo. Remete à famosa carta de Pero Vaz Caminha, que descreve as novas terras como um éden em que “se plantando, tudo dá”. É certo que foi escrita pouco antes da pilhagem que começou e não parou mais. Incluindo o constante estupro das nativas, transformado recentemente em turismo sexual.
Para Clausewitz, artista de teatro, o Brasil era uma promessa de doçura eterna. Onde ele lavraria a terra com suas mãos finas com a mesma facilidade com que declamava textos nos palcos da Europa. O funcionário vivido por Tony Ramos logo quebra suas ilusões. Sem bagagens e bens com que subornar os funcionários, Sigismundo está pronto a fazê-lo voltar ao velho continente. Não o fará se o recém-chegado aceitar um desafio. Fazê-lo chorar contando suas dolorosas lembranças de judeu perseguido.
Clausewitz logo descobre que arrancar lágrimas de Sigismundo é missão quase impossível. O funcionário prestou dedicados e cruéis serviços de torturador para o Estado Novo. No cumprimento do dever, chegou a aleijar as mãos do médico (Daniel Filho) que salvou a vida de sua irmã. Antes disso, foi capanga no interior gaúcho, onde cometia barbaridades ordenadas por seu padrinho.
Desse modo fica claro para o judeu que o mito do paraíso tropical brasileiro foi construído sobre uma história sangrenta. Um genocídio continuado contra índios e negros e estendido aos que ousam desafiar o poder, como os comunistas e lutadores populares em geral. Um jardim sem campos de concentração, mas com os porões lotados de vítimas do terror do Estado. Um território distante da guerra, mas entregando milhares de inocentes à paz dos cemitérios.
Se o filme traz algo de positivo é uma tímida denúncia da sangrenta ditadura de Getúlio Vargas. Foram milhares de presos e torturados pelo homem que costuma ser glorificado até por muitos setores de esquerda. Na verdade um gênio político a serviço dos poderosos. Alguém que aperfeiçoou uma máquina de morte utilizada depois pela ditadura militar e que até hoje funciona em muitas delegacias de polícia, contra pobres e negros. Um dos poucos setores do Estado brasileiro que vem mantendo elevado nível de eficiência. E pronto para ser utilizado novamente contra quem ameaçar os interesses dos que mandam.
O judeu, afinal, arranca lágrimas ao torturador. Não contando suas lembranças, mas encenando o trecho de uma peça. Poderia ser a simbolização de que a arte é tão poderosa que consegue tocar o humano escondido numa besta cruel. Mas, o filme não chega a tanto. E a presença do médico na última cena, tentando intimidar seu carrasco com o olhar, acaba de estragar tudo. Um olhar de reprovação é a punição máxima que as autoridades democráticas de plantão têm coragem de adotar contra os covardes que estiveram a serviço das ditaduras de nossa história.
O inferno tupiniquim continua queimando e sob as ordens da mesma dinastia demoníaca. Às vezes, mudam seus auxiliares. Alguns cumprem suas tarefas de bom grado. Outros, sob a sombra vergonhosa da traição. O jeito é criar condições para que um dia o conflito seja assumido abertamente pelos debaixo. E as diretrizes que passem a valer sejam as da guerra da resistência popular.
"Tempos de paz" é baseado na peça de teatro “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, de Bosco Brasil. Sua transformação em filme oferecia muitas possibilidades boas. O máximo a que Daniel Filho chegou foi mostrar dois talentosos atores e uma denúncia tímida da ditadura getulista.
A história se passa em 1945, no dia em que a ditadura Vargas liberta seus presos políticos. Fugindo da guerra na Europa, milhares de pessoas chegam ao Rio de Janeiro. Entre elas, está o polonês Clausewitz (Dan Stulbach). Logo que avista a bela paisagem carioca, ele repete a famosa frase do poeta russo Maiakovski: “Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”. Depois, durante o interrogatório a que é submetido pelo funcionário Sigismundo (Tony Ramos), o polonês diz que aprendeu o português porque lhe parecia uma língua falada por bebês. Por gente ainda sem dentes.
Essa imagem do Brasil como paraíso, lugar de inocência e felicidade, parece ser uma constante na mente dos habitantes do Velho Mundo. Remete à famosa carta de Pero Vaz Caminha, que descreve as novas terras como um éden em que “se plantando, tudo dá”. É certo que foi escrita pouco antes da pilhagem que começou e não parou mais. Incluindo o constante estupro das nativas, transformado recentemente em turismo sexual.
Para Clausewitz, artista de teatro, o Brasil era uma promessa de doçura eterna. Onde ele lavraria a terra com suas mãos finas com a mesma facilidade com que declamava textos nos palcos da Europa. O funcionário vivido por Tony Ramos logo quebra suas ilusões. Sem bagagens e bens com que subornar os funcionários, Sigismundo está pronto a fazê-lo voltar ao velho continente. Não o fará se o recém-chegado aceitar um desafio. Fazê-lo chorar contando suas dolorosas lembranças de judeu perseguido.
Clausewitz logo descobre que arrancar lágrimas de Sigismundo é missão quase impossível. O funcionário prestou dedicados e cruéis serviços de torturador para o Estado Novo. No cumprimento do dever, chegou a aleijar as mãos do médico (Daniel Filho) que salvou a vida de sua irmã. Antes disso, foi capanga no interior gaúcho, onde cometia barbaridades ordenadas por seu padrinho.
Desse modo fica claro para o judeu que o mito do paraíso tropical brasileiro foi construído sobre uma história sangrenta. Um genocídio continuado contra índios e negros e estendido aos que ousam desafiar o poder, como os comunistas e lutadores populares em geral. Um jardim sem campos de concentração, mas com os porões lotados de vítimas do terror do Estado. Um território distante da guerra, mas entregando milhares de inocentes à paz dos cemitérios.
Se o filme traz algo de positivo é uma tímida denúncia da sangrenta ditadura de Getúlio Vargas. Foram milhares de presos e torturados pelo homem que costuma ser glorificado até por muitos setores de esquerda. Na verdade um gênio político a serviço dos poderosos. Alguém que aperfeiçoou uma máquina de morte utilizada depois pela ditadura militar e que até hoje funciona em muitas delegacias de polícia, contra pobres e negros. Um dos poucos setores do Estado brasileiro que vem mantendo elevado nível de eficiência. E pronto para ser utilizado novamente contra quem ameaçar os interesses dos que mandam.
O judeu, afinal, arranca lágrimas ao torturador. Não contando suas lembranças, mas encenando o trecho de uma peça. Poderia ser a simbolização de que a arte é tão poderosa que consegue tocar o humano escondido numa besta cruel. Mas, o filme não chega a tanto. E a presença do médico na última cena, tentando intimidar seu carrasco com o olhar, acaba de estragar tudo. Um olhar de reprovação é a punição máxima que as autoridades democráticas de plantão têm coragem de adotar contra os covardes que estiveram a serviço das ditaduras de nossa história.
O inferno tupiniquim continua queimando e sob as ordens da mesma dinastia demoníaca. Às vezes, mudam seus auxiliares. Alguns cumprem suas tarefas de bom grado. Outros, sob a sombra vergonhosa da traição. O jeito é criar condições para que um dia o conflito seja assumido abertamente pelos debaixo. E as diretrizes que passem a valer sejam as da guerra da resistência popular.
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