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20 de set. de 2013

Novas mídias e velhas barricadas: limites parecidos

Em 08/09, Eduardo Febbro publicou excelente entrevista com Jacques Henno na Carta Maior. No depoimento intitulado “Estamos todos vigiados e fichados”, o francês, especialista em novas tecnologias, alertou para o surgimento de “uma nova era marcada pelo nascimento de um lobby entre os militares, a informática, os dados e os arquivos”.

A introdução à entrevista destaca: “a Agência Nacional de Segurança estadunidense (NSA) rouba chaves de segurança, altera programas e computadores e força certas empresas a colaborar com o objetivo de ter acesso a comunicações privadas, tanto dentro como fora do território norte-americano”.

Ainda segundo o texto de Febbro com base na entrevista de Henno: “A NSA não respeitou limite algum: correios eletrônicos, compras na internet, rede VPN, conexões de alta segurança (o famoso SSL), acesso aos serviços de telefonia da Microsoft, Facebook, Yahoo e Google, a lista dos novos territórios de caça é interminável”.

O entrevistado dá exemplos de como a espionagem americana desenvolve um serviço de rastreamento muito eficaz, amplo e detalhista. O que adquirimos com nossos cartões magnéticos, ou pela internete, pode colocar qualquer um de nós na lista de suspeitos por terrorismo, por exemplo.

É o caso de alguém que compre uma passagem para a classe executiva em um voo. Se essa pessoa nunca fez isso antes e não tem rendimento médio que justifique a compra, pode se tornar alvo de ações repressivas. A classe executiva fica próxima à cabine dos pilotos da aeronave e seria a preferida  de quem pretendesse executar um sequestro.

Como resume muito bem Henno:

“... os norte-americanos exploram todas as informações que obtém de uma pessoa. Eles são, ao mesmo tempo, paranoicos e amantes da tecnologia. Paranoicos porque há muito tempo vivem armados. E amantes da tecnologia porque, cada vez que há um problema tratam de encontrar uma solução técnica e não forçosamente social ou econômica”.

O pior, diz o especialista, é que nós mesmos é que alimentamos esses grande banco de dados paranoico. Basta possuir uma conta de uma empresa estadunidense, como Yahoo, Microsoft, ou Google. “Se os dados que confiamos a Yahoo, Microsoft, Amazon, Facebook ou Google estão armazenados no território norte-americano, eles estão regidos pelo direito norte-americano”, diz Henno. E a legislação aprovada depois dos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos permite ao governo norte-americano “requisitar os arquivos e dados que julgar necessários. Os dados que entregamos a essas empresas vão parar na NSA”, conclui.

A entrevista tem muitas outras informações importantes para a militância social. Diz, por exemplo, que no Facebook se publicam diariamente 350 milhões de fotos. Em um ano, são quase 130 bilhões de imagens. É a “maior base de imagens do mundo”, diz Henno. E muitos de nós o alimentamos todos os dias.

Diante disso, o que fazer? Poderíamos deixar de utilizar as novas mídias? Voltaríamos a nos comunicar apenas por papel impresso, a utilizar os correios, discutir e decidir tudo presencialmente? Infelizmente, não. Essa questão lembra um texto do revolucionário alemão Friedrich Engels. Em 1895, ele escreveu uma introdução para “As Lutas de Classes na França”, escrito por Marx, em 1850.

Em um determinado trecho, Engels aborda a questão militar. Avalia as dificuldades dos movimentos de insurreição para fazer frente aos novos arsenais da burguesia:

“Em 1848, era o simples fuzil a percussão; hoje em dia é o fuzil de repetição de pequeno calibre que atira quatro vezes mais longe, dez vezes mais certeiro e dez vezes mais rápido do que o primeiro. Antigamente, eram as granadas e os obuses de artilharia, relativamente pouco eficazes; hoje em dia, são os obuses a percussão, dos quais um só é suficiente para por em cacos a melhor barricada. Antigamente, era a picareta para derrubar muros; hoje em dia, são os cartuchos de dinamite”.

Essa situação levou Engels a concluir que a luta a partir de barricadas seria cada vez mais arriscada e facilmente derrotada pelas classes dominantes.

Muitos socialistas utilizaram esse trecho de Engels para justificar suas posições reformistas, de conciliação e traição às causas da luta proletária. Mas para fazer isso, esse pessoal costumava omitir um trecho do texto de Engels que não admitia essa conclusão. Dizia o seguinte:

“Isso quer dizer que no futuro o combate de rua não jogará nenhum papel? De jeito nenhum. Isso apenas quer dizer que as condições desde 1848 se tornaram muito menos favoráveis para os combatentes civis e muito mais favoráveis para as tropas. Um combate de rua não poderá, então, no futuro, ser vitorioso sem que essa inferioridade de situação seja compensada por outros fatores”.

Voltando às graves denúncias de Jacques Henno, talvez possamos fazer um paralelo com a situação abordada por Engels. Nossas barricadas nas mídias virtuais estão perigosamente minadas. Estamos na alça de mira das armas inimigas. Acreditar que somente a partir de nossos blogs, sites e contas virtuais seremos capazes de alterar essa situação de desvantagem é perigosa ilusão.

Como diz Engels, teremos que compensar essa situação inferioridade com outros fatores. Entre eles, a criação de uma verdadeira imprensa dos setores explorados e oprimidos. Capaz de construir seus próprios instrumentos reais. Que conte com a colaboração de partidos de esquerda, sindicatos combativos, associações e entidades populares e movimentos sociais em geral. Além disso, é fundamental a destruição do monopólio das comunicações. Tarefa que os governos que ajudamos a eleger se mostraram covardemente incapazes de cumprir.

17 de ago. de 2013

Os ninjas e a luta anticapitalista

A atuação do coletivo Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) está no centro dos debates sobre jornalismo alternativo. Seus integrantes se destacaram no acompanhamento das manifestações populares que começaram em junho passado.

A cobertura do coletivo foi fundamental na denúncia da violência policial e na divulgação das principais pautas dos movimentos. Furou o bloqueio dos monopólios da comunicação e mostrou compromisso com a informação e com as causas das manifestações.

Mas somente aos poucos vai ficando clara qual é a proposta dos ninjas. A presença de dois de seus membros no programa Roda Viva de 05/08, na TV Cultura, ajudou a esclarecer alguns pontos. Diante de jornalistas da grande imprensa, Bruno Torturra e Pablo Capilé deram uma demonstração de segurança quanto ao que fazem e no que acreditam. Enfrentaram com tranquilidade uma bancada que, em grande sua maioria, vacilava entre a hostilidade ignorante e a ignorância hostil.

Mas não deveríamos acreditar que a grande mídia observará tudo isso tranquilamente ou com temor. E não se trata apenas de ataques ao coletivo. Calúnias e insinuações quanto a quem está por trás de seus membros. Mais do que isso, uma proposta como a apresentada pelos ninjas, apesar de sua novidade, corre o risco de ser engolida pelo mercado.

Foi grande a pressão para saber quem banca o coletivo. Os jornalistas presentes sabem muito bem que quem paga a banda, escolhe a música. Torturra e Capilé não se intimidaram. Afirmaram que a Mídia Ninja faz parte do coletivo Fora do Eixo. Trata-se de uma rede solidária de coletivos distribuídos por todo o país e mantida por recursos públicos, obtidos por edital, afirmaram os entrevistados. Sua dinâmica colaborativa e horizontal permitiria potencializar o uso desses recursos. Uma espécie de moeda própria circularia pela rede, viabilizando shows e eventos artísticos, artistas e trabalhadores culturais.

Há muita polêmica cercando esse modo de funcionamento do Fora do Eixo. Principalmente, nas redes virtuais. Muitos apoiam e elogiam a iniciativa, como inovadora e comprometida com a produção cultural alternativa. Mas também há acusações de centralismo, falta de democracia, oportunismo, relações privilegiadas com governos, utilização pouco transparente dos recursos etc.

Mas digamos que as críticas não procedam. Consideremos que o coletivo realmente funcione como seus divulgadores afirmam. Ainda assim, é preciso considerar uma série de questões. A começar pela relação com o mercado.

Para ficar apenas na questão da Mídia Ninja, no programa Roda Viva Torturra deixou muito claro quais são os objetivos perseguidos pelos ninjas. Disse que o ideal do coletivo é tentar criar uma rede financeiramente viável que dê conta não só da demanda por informação de qualidade, mas oferecer oportunidade de trabalho a jornalistas que não encontram vagas no mercado ou que estão sendo despedidos das grandes redações. Portanto, trata-se de uma aposta de mercado, ainda que na contramão dos monopólios que o dominam e se apresente sob a forma de um empreendimento solidário.

Ocorre que não há horizontalidade profissional e princípios colaborativos que possam fazer frente às leis da concorrência capitalista, cada vez mais selvagens. A não ser que a proposta seja aderir a elas. E nesse caso seria bom lembrar uma análise de Rosa Luxemburgo sobre os limites da produção cooperativada. O trecho é de "Reforma ou Revolução", uma das maiores obras da grande revolucionária:

... na economia capitalista a troca domina a produção; por causa da concorrência exige, para que a empresa possa sobreviver, uma impiedosa exploração da força do trabalho, quer dizer. a dominação completa do processo de produção pelos interesses capitalistas. (...) Daí uma cooperativa de produção ter a necessidade, contraditória para os operários, de se governar a si própria com toda a autoridade absoluta necessária e de os seus elementos desempenharem entre si o papel de empresários capitalistas. Dessa contradição morre a cooperativa de produção, ou tornando-se uma empresa capitalista ou, no caso em que os interesses dos operários são mais fortes, se dissolvendo. Estes são os fatos.

É certo que os representantes da Mídia Ninja não concordariam com tal argumentação. Pelo que disseram no programa da TV Cultura, vivemos num momento "pós-industrial", que já teria superado as contradições a que se refere Rosa. Além disso, a iniciativa que propõem não poderia ser caracterizada como uma cooperativa de produção, mas de serviços criativos.

No entanto, uma coisa é inegável. Os lucros movimentados pelo setor de comunicações e produtos culturais são cada vez mais astronômicos. Queiram ou não os ninjas, o setor obedece à lógica da rentabilidade acima de tudo, chamemos ou não isso de capitalismo industrial, de capital material ou imaterial, de setor de transformação ou de serviços. E pequenas iniciativas criativas e inovadoras não são necessariamente contraditórias com essa lógica.

Novamente recorremos a Rosa e ao seu texto, publicado mais de um século atrás. Ainda em "Reforma ou Revolução", ela diz:

No curso geral do desenvolvimento capitalista, os pequenos capitais desempenham o papel, na teoria marxista, de pioneiros da revolução técnica, e isso de maneira dupla: em primeiro lugar no respeitante a novos métodos de produção nos setores antigos fortemente enraizados, depois pela criação de novos setores de produção inexplorados pelos grandes capitais.
Como a comprovar essa tese, basta observarmos os gigantes empresariais que nasceram em garagens, sótãos e porões, como Microsoft, Apple, HP, Google e Youtube. Até pouco tempo atrás, considerados instrumentos de inovação criativa e democratização da informação. Recentemente, desmascarados como colaboradores do sistema de espionagem estadunidense. E agarram-se a suas posições monopolistas como os velhos tubarões do capitalismo.

De qualquer maneira, vivemos em tempos de ditadura midiática. E sob uma ditadura, as forças que a ela resistem devem buscar a maior unidade possível. Os ninjas são muito bem vindos às mobilizações populares da luta anticapitalista. Anticapitalista!

9 de ago. de 2013

Reforçar as guerrilhas da comunicação

Entre as muitas lições das manifestações populares que vêm chacoalhando o País, está a de que vivemos uma sob uma verdadeira ditadura da grande mídia.

O jornalismo empresarial faz uma cobertura dos acontecimentos que é tendenciosa, criminaliza os movimentos sociais, omite, mente, esconde, distorce. Causa na esfera da informação estrago equivalente ao provocado por balas de borracha, spray de pimenta e gás lacrimogêneo nas ruas.

Um exemplo é a cobertura jornalística dos protestos que acabaram em depredação de lojas e bancos no Leblon. A gritaria que a grande imprensa fez só é comparável com o silêncio com que tratou a morte de dez pessoas na favela da Maré, vinte dias antes. O grande patrimônio de uma dúzia de pessoas colocado acima das vidas de milhares.

Não estamos vivendo sob uma ditadura política. Mas não se pode dizer o mesmo quanto ao direito à informação, que está soterrado sob o peso de grandes monopólios. Felizmente do nosso lado, temos a cobertura feita por centenas de jornalistas alternativos com suas microcâmeras e celulares. Desmascarando a mídia empresarial em blogs, redes virtuais, rádios e jornais comunitários e sindicais. No asfalto e nas comunidades.

Essas mulheres e homens heroicos e comprometidos com as lutas populares desempenham um papel fundamental. Um exemplo claro foi o caso do molotov atirado em policiais nas manifestações do dia 22/07. Foram as imagens da mídia alternativa que mostraram que o artefato foi atirado por um policial infiltrado. É isso que torna essa verdadeira guerrilha da informação tão odiada pelas forças da repressão e governantes de plantão.

Sob uma ditadura política, a luta popular aberta contra os poderosos é desigual e dificilmente escapa à derrota. Daí, a necessidade de ações pequenas, mas eficientes e que ajudem a acumular forças para um momento favorável.

Do mesmo modo, enquanto durar a ditadura midiática, teremos que nos limitar às escaramuças pontuais e estratégicas. Acumular forças e reunir condições para travar o grande combate. Mas este só será vitorioso se deixarmos para trás aqueles que vacilam entre a covardia e a cumplicidade em relação aos poderosos da mídia.

O apoio a governos progressistas, ou que pretendem sê-lo, é possível. Muitas vezes, pode ser necessário. A pressão sobre parlamentares, também. Mas é imprescindível evitar a dependência em relação aos "poderes constituídos", sempre embaraçados nas cordas que atam o Estado ao grande capital. Nossas principais lutas têm que ser travadas nas ruas, com câmeras, gravadores e muita disposição.

28 de jan. de 2012

Menos Google e Facebook, mais luta

Ferramentas como Google e Facebook podem até ajudar nas mobilizações sociais. Mas são mecanismos criados principalmente para aumentar o consumismo e a alienação. Só de forma muito eventual podem servir à transformação social.

Quem usa a ferramenta de busca do Google sabe como é. Você começa a digitar uma palavra para fazer uma pesquisa e o programa se encarrega de completá-la. É como se adivinhasse nossos pensamentos.

O recurso pode até ser desativado. Mas isso não é possível em relação a outros mecanismos, igualmente utilizados por ferramentas como Google e Facebook. A pretexto de nos facilitar a vida, elas nos levam por caminhos que não escolhemos. Geralmente, estão a serviço do consumo.

Se você costuma consumir usando a internete faz parte de uma minoria. Ainda. A previsão de crescimento do chamado “e-commerce” é de 30% ao ano. Já nas vendas tradicionais a expansão não deve passar de 5%. As vendas por meios virtuais em 2010 representaram 4% do varejo no Brasil. Mas a participação deve chegar a 8% em 2015.

O custo bem menor em contratação de pessoal e instalações tem tudo para tornar esse tipo de transação comercial majoritário em algumas décadas. O problema é que o “e-commerce” não é apenas uma forma mais ágil e econômica de comprar. Seu poder de induzir ao consumo, ao mesmo tempo em que aliena o comprador é bem maior.

É só imaginar uma loja de departamentos que altere seu layout de acordo com o gosto de cada cliente que entra nela. Você adora literatura, por exemplo. É só passar da soleira da porta da loja para que estantes cheias de livros brotem na sua frente. É doido por surfe? Uma coleção colorida de pranchas e acessórios surge no seu caminho.

Na loja física, isso seria impossível. Na virtual, isso já acontece graças ao uso do que os programadores chamam de algoritmos. Comandos que identificam a freqüência de acessos do usuário para cada tipo de produto.

Se eu acesso com muitas vezes a sessão de filmes numa loja eletrônica, ela passa a me oferecer produtos desse tipo. Basta que eu aceite me identificar cada vez que entrar na página. Algo que terei que fazer se quiser adquirir uma mercadoria.

Há três grandes problemas nesse tipo de relação. Em primeiro lugar, a já temida perda de privacidade. Nossos dados estão espalhados pela rede. Nossos gostos, preferências, vícios, relações. E não apenas pela parte abertamente comercial da rede. O acesso gratuito a serviços de e-mail, arquivamento de dados, programas, jogos, torna essa oferta de informações cada vez mais voluntária.

Em segundo lugar, está o consumismo. O conforto e facilidade do acesso aos produtos facilitam e incentivam o consumo. Daí para o consumismo pode ser um pulo. Um problema que está longe de ser de segunda ordem. A produção de desperdício e lixo no planeta está chegando a níveis que colocam em risco a vida em muitas partes do planeta.

Um terceiro problema é a acentuação da visão parcial e isolada das coisas humanas. Posso achar que literatura é a melhor coisa do mundo. Mas não seria bom achar que somente ela apresenta essa condição. E mesmo no âmbito da produção literária, não seria bom considerar, por exemplo, que somente livros policiais valem a pena ser lidos.

É isso o que a rápida e fácil adaptação ao gosto da clientela oferecida pelas lojas virtuais podem fazer. Afastar seus consumidores de muitas das possibilidades oferecidas pela criatividade humana. O mesmo pode acontecer em ambientes menos comerciais. O fato é que para a lógica que impera ou somos consumidores ou não somos nada.

Mas os efeitos dessas ferramentas não se limitam à esfera do consumo. Do mesmo modo que influenciam de forma tão poderosa nossas decisões de mercado, também dominam a formação de nossas opiniões e escolhas.

No Facebook, por exemplo, há comandos que fazem desaparecer links menos freqüentados. Pode ser uma comodidade, por um lado. Por outro lado, é uma limitação perigosa.

É perfeitamente compreensível que alguém goste de futebol e odeie política. Mas isso não quer dizer que a política tenha que ser ignorada. Gostemos ou não, é importante saber o que acontece nos governos, parlamentos ou nas ruas e praças ocupadas por pessoas revoltadas. Afinal, esse tipo de atividade costuma determinar os rumos de nossas vidas.

Muita gente considera a Matemática um pesadelo. Nem por isso aceitaria abolir a ciência dos cálculos da vida social. Os filtros utilizados pelo Google e Facebook fazem algo parecido. Dão a impressão de que a matemática e a política sumiram. Mas elas continuam agindo e influenciando pesadamente a vida de todos.

É provável que esta seja a dimensão mais poderosa desse tipo de mecanismo. Claro que é perigoso permitir que uma grande quantidade de dados privados acabe estocada nos servidores desses grandes monopólios da informação. Eles poderiam ser facilmente utilizados pelo Estado em uma caça às bruxas contra lutadores sociais, militantes e líderes populares.

Mas lutadores, militantes e lideranças populares ficam muito menos perigosos se não conseguem atrair a atenção da maior parte da sociedade. Principalmente, de seus setores mais explorados e oprimidos. E é isso que mecanismos como o Facebook e Google fazem. Isolam aqueles que lutam por transformações políticas e sociais da maioria das pessoas. Erguem uma barreira feita de insistentes apelos ao consumo e ao individualismo.

A criação do Google, Twitter e Facebook não foi um raio num céu azul. A genialidade de seus criadores é inegável. No entanto, seu surgimento corresponde à lógica econômica e social do capitalismo. São apenas o estágio mais recente e evoluído da capacidade que os controladores do sistema têm para monopolizar nossa atenção. Representam mais uma vitória da burguesia na disputa por hegemonia. Assim como aconteceu com a utilização da imprensa, do rádio, do cinema, da TV.

A grande diferença que esse tipo de comunicação apresenta é sua interatividade. E isso aconteceu porque o Capital precisou facilitar e agilizar a troca de mercadorias e informações. Do contrário, não conseguiria manter suas taxas de lucros. Algo que os monopólios tradicionais da radiodifusão já não estavam conseguindo fazer.

De um lado, essa característica abriu novas brechas para usos contra-hegemônicos das “redes sociais” e assemelhados. Por outro lado, trata-se de um tipo de comunicação tão monopolizado por grandes corporações quanto outras mídias.

Então, a luta tem que ser a mesma. Pelo fim dos monopólios dos meios de comunicação, incluindo a rede mundial de computadores. Podemos até usar Twitter, Facebook, Google pra travar essa luta, mas sem ilusões. Para cada internauta engajado socialmente, há milhares de seguidores presos nas redes criadas pelos Zuckebergs do mercado.

A mobilização social não exclui a utilização de Google, Twitter ou Facebook. O perigo é substituir a luta real por batalhas virtuais com alcance muito limitado.