Muitos comemoram o papel das mídias alternativas nas manifestações populares iniciadas em junho. Não deixa de ser justo, mas é sempre bom temperar o otimismo do entusiasmo com o pessimismo frio dos números.
"Brasileiro passa muito tempo longe dos livros" diz o título da matéria de Cassia Almeida para o Globo, publicada em 09/08. A reportagem trata de pesquisa recentemente divulgada pelo IBGE, que constatou que a leitura ocupa só 6 minutos do dia dos brasileiros, em média.
Foram ouvidas mais de 5 mil pessoas com 10 anos de idade ou mais. O levantamento limitou-se a quatro estados (Pará, São Paulo, Rio Grande do Sul e Pernambuco) e o Distrito Federal. Mas dificilmente a realidade é outra no restante do País.
Mais grave é o que dizem outros números da mesma pesquisa. Enquanto a leitura fica com aquela meia dúzia de minutos, a TV recebe 2h35m de atenção. Também mostram que mais da metade dos entrevistados levantam da cama às 6h45m da manhã. Daí em diante, continua a reportagem, o trabalho domina o dia da maioria das pessoas. Tempo livre mesmo, somente a partir das 21h, "quando o sono vem".
Estes números podem nos dizer algo do papel da grande mídia no sistema de dominação brasileiro. A principal fonte de informação continua a ser a televisão, que, como sabemos, está nas mãos dos monopólios que defendem poderosos interesses econômicos.
As longas jornadas de trabalho, mais as muitas horas de deslocamento em transportes públicos indecentes, roubam tempo não só do descanso, do lazer e da educação. Também inviabilizam qualquer atividade associativa e participação política para a grande maioria da população.
Não por acaso o Jornal Nacional atrasou seu início para as 21h, há alguns anos. O objetivo é continuar bombardeando cérebros cansados e entorpecidos com suas informações deformadas e tendenciosas. Depois, já devidamente dopados, os telespectadores são entregues às imagens e sensações da novela até que durmam.
Uma situação como esta mostra que ainda é muito grande o poder dos monopólios da comunicação. O papel das redes virtuais e das mídias alternativas tem sido muito importante nas atuais mobilizações populares. Mas sem a democratização das comunicações, o tempo da maioria de nós continuará sob controle da ditadura da grande mídia.
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24 de ago. de 2013
15 de ago. de 2009
A TV na cesta básica brasileira
Há algum tempo, sabemos que existem mais aparelhos de TV nas residências brasileiras do que geladeiras. Agora, começam a chegar outros meios eletrônicos, como internete e celulares. Aumenta o cerco da vida cotidiana pelos valores capitalistas.
As pesquisas do IBGE vêm demonstrando ano após ano que há residências brasileiras que possuem aparelho de TV, mas nenhuma geladeira. Agora, outras bugigangas eletrônicas também começam a chegar. Em 01 de agosto de 2009, reportagem de O Globo, dizia que o peso dos itens de tecnologia no orçamento das famílias brasileiras vem subindo. São principalmente computadores, celulares e aparelhos de DVD.
Segundo, a reportagem de Bruno Rosa, o maior crescimento aconteceu entre as famílias de classes A e B, com ganho superior a R$ 4.807,00 mensais. Claro que as famílias das chamadas classes A e B são minoria. Mas, reportagem da revista Época de 10 de agosto destaca maior acesso dos segmentos C e D a tecnologias como celulares e computadores pessoais.
Tudo isso seria muito bom. Poderia significar uma democratização no acesso aos meios de comunicação. Não fosse por um enorme detalhe: o monopólio dos meios de comunicação e dos meios de criação de conteúdo em geral. Um setor cujo tamanho explodiu na economia e na vida social. E foi a televisão que abriu caminho. No mundo e aqui, tudo começou com ela.
Aparentemente houve duas grandes explosões de venda de televisores no Brasil. Uma, nos anos 1970. Outra, pouco depois do lançamento do Plano Real. O crédito fácil parece estar na origem dos dois momentos. Porém, da Copa Mundial de Futebol de 94 para cá a TV invadiu também os espaços públicos. Já não há restaurante ou boteco que não tenha sua tela pendurada na parede. O que pode mudar é a programação, mas sempre a cargo de alguma das grandes redes do setor, seja em sinal aberto, seja por assinatura.
Não é preciso fazer um estudo sério, para concluir que tal presença na vida cotidiana da população alterou significativamente sua visão de mundo. É muito difícil que um fato seja conhecido e discutido sem ter passado antes pelas emissoras de TV e seus programas. Quem não assiste TV tem sérias dificuldades para manter algum tipo de conversação com a maioria das pessoas. Daqui a pouco, o mesmo vai acontecer com quem não tem celular e internete.
A internete, o celular e os aparelhos de DVD são bem menos presentes na vida dos brasileiros. Apesar disso, cada um a seu modo complementa o trabalho ideológico da TV.
As promessas de ampla democracia da internete esbarram em seu pouco alcance, mas principalmente em seu domínio por grandes provedores. Sem falar, na pura e simples transposição do material dos grandes produtores de notícias e entretenimentos para a rede mundial de computadores.
Os aparelhos de DVD, por sua vez, são maciçamente utilizados para reproduzir material das mesmas grandes produtoras de filmes. Os celulares nos tornaram trabalhadores em tempo integral. Através deles, ficamos presos ao trabalho quase 24 horas por dia. Mesmo os desempregados precisam de um celular para organizar seus “bicos”.
Marx chamava a predominância da mercadoria no cotidiano capitalista de fetichismo da mercadoria. As coisas ganham vida e controlam os seres humanos. Nossa incapacidade atual de falar uns com os outros sem passar por objetos intermediários, como a TV, o celular e a internete é uma demonstração desse fenômeno.
Pessoas mais idosas devem se lembrar o que era viver sem tudo isso. O espaço do dia que sobrava depois do trabalho não estava necessariamente pautado pelos grandes meios de comunicação. Assistir ao Jornal Nacional e à novela não era um ritual obrigatório. No máximo, já havia o rádio. Mas, sem o apelo arrasador da imagem em movimento.
Claro que também eram raras as reuniões de partido ou assembléias do sindicato. No entanto, relações que envolviam solidariedade e convivência eram mais fortes. Pelo menos, criavam um ambiente de resistência à intensa competição capitalista.
Hoje a TV faz parte da cesta básica. É o que mostram as milhares de antenas de TV espetadas mesmo nos bairros mais pobres. As outras bugigangas eletrônicas ainda estão longe ganhar tanto terreno. Mas, o cerco da vida cotidiana pelos limites impostos pela visão de mundo da classe dominante é cada vez maior.
Nossa sorte é que essa visão de mundo está cheia de furos e contradições. De um lado, os meios de comunicação são obrigados a defender valores como igualdade, justiça, solidariedade, liberdade. Dizer que a organização social que temos é a melhor maneira de conquistar tais valores. Por outro lado, todos os dias acontecem fatos aos montes que desmentem tudo isso. Os próprios meios de comunicação acabam sendo obrigados a mostrar que ter dinheiro, patrimônio e boas relações com o poder está acima da liberdade e da justiça que as novelas e filmes nos ensinam a perseguir.
Cabe à luta contra-hegemônica saber explorar essas contradições. E usar os avançados meios tecnológicos em seu favor. Mas, nessa luta, acabar com o monopólio dos meios de comunicação é fundamental. A mídia empresarial é grande responsável por manter a cesta básica da maioria da população pobre em quantidade e qualidade.
As pesquisas do IBGE vêm demonstrando ano após ano que há residências brasileiras que possuem aparelho de TV, mas nenhuma geladeira. Agora, outras bugigangas eletrônicas também começam a chegar. Em 01 de agosto de 2009, reportagem de O Globo, dizia que o peso dos itens de tecnologia no orçamento das famílias brasileiras vem subindo. São principalmente computadores, celulares e aparelhos de DVD.
Segundo, a reportagem de Bruno Rosa, o maior crescimento aconteceu entre as famílias de classes A e B, com ganho superior a R$ 4.807,00 mensais. Claro que as famílias das chamadas classes A e B são minoria. Mas, reportagem da revista Época de 10 de agosto destaca maior acesso dos segmentos C e D a tecnologias como celulares e computadores pessoais.
Tudo isso seria muito bom. Poderia significar uma democratização no acesso aos meios de comunicação. Não fosse por um enorme detalhe: o monopólio dos meios de comunicação e dos meios de criação de conteúdo em geral. Um setor cujo tamanho explodiu na economia e na vida social. E foi a televisão que abriu caminho. No mundo e aqui, tudo começou com ela.
Aparentemente houve duas grandes explosões de venda de televisores no Brasil. Uma, nos anos 1970. Outra, pouco depois do lançamento do Plano Real. O crédito fácil parece estar na origem dos dois momentos. Porém, da Copa Mundial de Futebol de 94 para cá a TV invadiu também os espaços públicos. Já não há restaurante ou boteco que não tenha sua tela pendurada na parede. O que pode mudar é a programação, mas sempre a cargo de alguma das grandes redes do setor, seja em sinal aberto, seja por assinatura.
Não é preciso fazer um estudo sério, para concluir que tal presença na vida cotidiana da população alterou significativamente sua visão de mundo. É muito difícil que um fato seja conhecido e discutido sem ter passado antes pelas emissoras de TV e seus programas. Quem não assiste TV tem sérias dificuldades para manter algum tipo de conversação com a maioria das pessoas. Daqui a pouco, o mesmo vai acontecer com quem não tem celular e internete.
A internete, o celular e os aparelhos de DVD são bem menos presentes na vida dos brasileiros. Apesar disso, cada um a seu modo complementa o trabalho ideológico da TV.
As promessas de ampla democracia da internete esbarram em seu pouco alcance, mas principalmente em seu domínio por grandes provedores. Sem falar, na pura e simples transposição do material dos grandes produtores de notícias e entretenimentos para a rede mundial de computadores.
Os aparelhos de DVD, por sua vez, são maciçamente utilizados para reproduzir material das mesmas grandes produtoras de filmes. Os celulares nos tornaram trabalhadores em tempo integral. Através deles, ficamos presos ao trabalho quase 24 horas por dia. Mesmo os desempregados precisam de um celular para organizar seus “bicos”.
Marx chamava a predominância da mercadoria no cotidiano capitalista de fetichismo da mercadoria. As coisas ganham vida e controlam os seres humanos. Nossa incapacidade atual de falar uns com os outros sem passar por objetos intermediários, como a TV, o celular e a internete é uma demonstração desse fenômeno.
Pessoas mais idosas devem se lembrar o que era viver sem tudo isso. O espaço do dia que sobrava depois do trabalho não estava necessariamente pautado pelos grandes meios de comunicação. Assistir ao Jornal Nacional e à novela não era um ritual obrigatório. No máximo, já havia o rádio. Mas, sem o apelo arrasador da imagem em movimento.
Claro que também eram raras as reuniões de partido ou assembléias do sindicato. No entanto, relações que envolviam solidariedade e convivência eram mais fortes. Pelo menos, criavam um ambiente de resistência à intensa competição capitalista.
Hoje a TV faz parte da cesta básica. É o que mostram as milhares de antenas de TV espetadas mesmo nos bairros mais pobres. As outras bugigangas eletrônicas ainda estão longe ganhar tanto terreno. Mas, o cerco da vida cotidiana pelos limites impostos pela visão de mundo da classe dominante é cada vez maior.
Nossa sorte é que essa visão de mundo está cheia de furos e contradições. De um lado, os meios de comunicação são obrigados a defender valores como igualdade, justiça, solidariedade, liberdade. Dizer que a organização social que temos é a melhor maneira de conquistar tais valores. Por outro lado, todos os dias acontecem fatos aos montes que desmentem tudo isso. Os próprios meios de comunicação acabam sendo obrigados a mostrar que ter dinheiro, patrimônio e boas relações com o poder está acima da liberdade e da justiça que as novelas e filmes nos ensinam a perseguir.
Cabe à luta contra-hegemônica saber explorar essas contradições. E usar os avançados meios tecnológicos em seu favor. Mas, nessa luta, acabar com o monopólio dos meios de comunicação é fundamental. A mídia empresarial é grande responsável por manter a cesta básica da maioria da população pobre em quantidade e qualidade.
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