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21 de ago. de 2014

Dona Pecúnia e Madame Hegemonia mandam notícias

Ah, pobres e frágeis membranas da honra. Quem as respeita? Ah, fatalidade. A boa reputação da verdade se foi desde que o dinheiro, este vil dinheiro, passou a ser o único valor.
Esta é uma das frases presentes no mais novo documentário de Jorge Furtado. Ela foi retirada da peça teatral “O mercado de notícias”, de Ben Jonson, que dá nome ao filme. Além da importância do tema de que trata, sua exposição cinematográfica é, como sempre, muito criativa.
 
O filme se propõe a debater a grande imprensa, seu poder e os interesses econômicos e políticos a que serve. Por si só, a seleção de entrevistados seria suficiente para despertar a atenção do público. Entre eles, Mino Carta, Raimundo Pereira, Janio de Freitas, Geneton Moraes e Bob Fernandes. Mas para tornar o filme ainda mais interessante, Furtado intercalou aos depoimentos trechos da peça de Jonson.
 
Há vários aspectos importantes na produção, mas o que mais chama a atenção são as contradições entre a divulgação de notícias e os custos de sua produção. Pois é disto que se trata. A peça de Jonson foi encenada pela primeira vez em 1626. Quase 200 anos antes de entrar em funcionamento a primeira rotativa a permitir a impressão de mais de mil exemplares por hora. Era um equipamento movido pelo vapor. A mesma fonte de energia que impulsionou a Revolução Industrial que lançaria o capitalismo em sua trajetória fulminante como primeiro meio de produção universal.
 
Mas o vapor, o petróleo, a energia elétrica ou nuclear, nenhuma dessas fontes de energia se compara com uma força muito mais poderosa. Na obra de Jonson esta tremenda potência é personificada por uma bela e jovem donzela, vestida em luxuosos trajes dourados. Trata-se de Dona Pecúnia, sempre ladeada por suas damas de companhia, Hipoteca, Norma, Promissória e Taxa. Como se vê, é do dinheiro que se trata. A mercadoria criada com a única função de intermediar a troca das outras mercadorias. Tão inútil em si mesma, quanto imprescindível para a vida regida pelas trocas mercantis.
 
Dona Pecúnia nem sempre foi tão poderosa, ainda que muito cobiçada. Durante séculos, muitos podiam viver sem ela, sem correr risco de morrer ou padecer sofrimentos terríveis. Os servos, camponeses, escravos, proletários ou plebeus em geral raramente colocavam os olhos em Dona Pecúnia durante suas curtas e penosas vidas. Somente sob o capitalismo, a bela donzela começou a ganhar importância inédita e passou a circular generalizadamente por entre a elite e o povo, sem pudor e reservas. E cada vez mais poderosa.
 
É diante deste poder que a obra de Jonson coloca em questão um novo ramo comercial surgido naquele século 17. Precisamente, o mercado de notícias que um dos personagens da peça deseja explorar fazendo uso da herança deixada pelo pai. Trata-se de Pila Jr, que pretende reforçar sua posição no novo mercado casando-se com Dona Pecúnia.
 
Mas a nova mercadoria não se presta facilmente a encomendas. Em um determinado momento, alguém solicita uma notícia na medida de seus interesses. Um dos empregados responde não ser possível comprometer a credibilidade do negócio desta maneira.
 
Corta para uma das afirmações mais contundentes dentre os depoimentos prestados por jornalistas experientes. Janio de Freitas diz que “o jornalismo feito no Brasil é feito por empresas capitalistas interessadas no lucro”. E que é um erro pensar que “um jornal é editado para fazer jornalismo. Na verdade, continua ele, o jornal é editado para publicar publicidade. O jornalismo é o recheio do entorno dos anúncios”. E disse mais. O papel dos jornalistas é subalterno e sua função primordial “é proporcionar a melhor tiragem para obter a venda mais fácil e o melhor preço do espaço publicitário no jornal”.
 
Ora, a afirmação de Freitas não é simplória. É verdade que a imprensa nasce e se desenvolve como uma empreitada em busca de lucros. Mas, tal como diz o personagem da peça de Jonson, ainda em tempos artesanais do jornalismo, a credibilidade é uma das características mais importantes dessa mercadoria específica. Do contrário, seria relativamente simples desmascarar os interesses por trás desta ou daquela empresa de comunicação. Bastaria relacionar sua produção noticiosa com os interesses de seus principais anunciantes, combinando-os com os desdobramentos na esfera política, como o apoio a este ou aquele partido, governo, regime etc. Estaria feito um diagnóstico capaz de mostrar que não se trata de divulgar notícias “objetivas”, “isentas”, “neutras”, mas de preservar interesses alheios aos dos leitores e à divulgação democrática da informação. Dona Pecúnia seria surpreendida em plenas conjunções carnais com os proprietários e controladores da grande mídia.
 
Mas não é assim que funciona. Falta a este cenário uma personagem importante, mas que não aparece na peça de Jonson. Para continuarmos no domínio das alegorias, chamemos esse personagem de Madame Hegemonia, cujas façanhas foram melhor reveladas por outro gênio. Desta vez, não um teatrólogo, mas o pensador comunista italiano Antonio Gramsci, uns 300 anos depois do surgimento da obra do dramaturgo inglês. Se a “maior tiragem” de que fala Freitas é um elemento ao qual deve se subordinar a produção de notícias, é Madame Hegemonia a responsável por assegurar a mais importante das qualidades da fabricação noticiosa: a credibilidade.
 
As receitas de Madame Hegemonia para conseguir a tal credibilidade são muitas, variadas, criativas. Os ingredientes são elementos da realidade, crenças, costumes, hábitos, preconceitos, medos. Muito disso tudo é antigo. O que parece novo, frequentemente é apenas coisa reciclada. A senhora Hegemonia atua há muito tempo, mas, como vimos, só foi descoberta recentemente.
 
No jornalismo da grande imprensa, Madame Hegemonia age por meio das empresas de comunicação, mas Gramsci preferiu chamá-las de Aparelhos Privados de Hegemonia. E é assim mesmo quando elas controlam concessões públicas. A propriedade desses aparelhos não é privada, mas os interesses que defendem, sim.
 
Os patrões e gerentes dessas empresas têm suas próprias receitas para cumprir aquilo que Madame Hegemonia recomenda. Mas todas fazem a combinação daqueles ingredientes citados acima. Eles sabem que não é possível mentir simplesmente. Ou apenas omitir e distorcer. Ou, ainda, dizer tudo com clareza e chamar as coisas por seus nomes. Eles fazem tudo isto, mas em doses e combinações variadas, de modo que pareça tudo muito verossímil. Mais do que isso, de modo que tudo o que divulgam pareça mero produto de uma leitura objetiva dos fatos. Um retrato da realidade.
 
Um bom exemplo é mostrado pelo filme no episódio do quadro de Picasso. Vamos transcrever a explicação do caso a partir do próprio site da produção de Furtado:
Em março de 2004, o jornal Folha de S. Paulo publica na capa de sua edição de domingo (07.03.2004), sob o título “Decoração burocrata”, uma reportagem informando que um valioso “desenho do pintor espanhol” Pablo Picasso “passa os dias debaixo de luzes fluorescentes e em meio à papelada de uma repartição do governo federal”, dividindo sua “moldura com restos de inseto”. Na foto, além da reprodução do supostamente valioso desenho, um retrato do Presidente Lula. O sentido da matéria é claro: os novos ocupantes do governo federal não reconhecem e não sabem lidar com o valor da arte. A notícia do suposto descaso com tão valiosa obra aparece em vários jornais, revistas e sites, no Brasil e no exterior. A observação atenta de alguns leitores logo deixa evidente que se trata de uma “barriga”: o tal desenho de Picasso é, na verdade, de uma reprodução fotográfica, sem nenhum valor. Os jornais são alertados de seu erro, mas nenhum desmente a informação. Em dezembro de 2005, o “Picasso do INSS” está outra vez na capa da Folha de São Paulo (29.12.2005) e também na do Estado de S. Paulo: um incêndio destruiu parte do prédio do INSS mas, para alívio de todos e apesar do descaso dos órgãos públicos, o “valioso” Picasso foi salvo das chamas. Mais uma vez os jornais são alertados por leitores de que se trata de uma reprodução sem valor, mas nada noticiam.(www.omercadodenoticias.com.br)
Como diz o texto acima, a matéria tinha um sentido político. Era uma reportagem pensada para ridicularizar o governo petista, mas de modo discreto e sutil. Usou elementos presentes na realidade, como o quadro, a repartição etc. Supôs o valor do quadro como sendo aquele de uma obra autêntica de Picasso. Não citou o governo Lula, apenas o retrato do presidente ao fundo, na parede da sala em que estava o suposto Picasso. Mentiu sobre seu valor ou, pelo menos, cometeu o erro de não conferir a autenticidade da obra ou dar-se o trabalho de pesquisar para saber se não havia um original em outro lugar. O jornal também fez ouvidos de mercador para os leitores que avisaram sobre o erro. Afinal, poderia dizer o jornal em sua defesa, foi apenas uma matéria, sem maiores pretensões.
 
É verdade. A reportagem não pretendia derrubar um governo. De forma alguma, influenciou diretamente na conquista de votos contrários às candidaturas petistas ou de seus aliados em eleições posteriores. Mas juntou-se a uma série de outros elementos parecidos no sentido de minarem a credibilidade do governo, ao mesmo tempo em que reafirmava seu próprio compromisso com a descrição da realidade. Por outro lado, procurava mostrar que a “alta cultura”, a cultura dos museus e dos palácios, jamais será reconhecida por simplórios que vieram da pobreza e da produção fabril. E que alguém assim não está preparado para governar. Quem é incapaz de saber o valor de coisas como aquela, também é incapaz de administrar outras coisas, como o dinheiro público, o patrimônio público etc. Estes são apenas alguns dos elementos que aparecem diariamente em dezenas de jornais e veículos da grande mídia. Eles vão mantendo e fortalecendo um senso comum conservador, elitista, preconceituoso. Não precisam derrubar um governo, nem mesmo fazer oposição aberta a ele. Basta que reforce o cerco que o mantém domesticado, dócil, inofensivo. É assim que Madame Hegemonia age.
 
Esta má vontade da grande mídia com o governo Lula é destacado por vários entrevistados. Mas talvez, exatamente por isso, o documentário pudesse ter discutido essa outra personagem que não estava na peça de Jonson. A astuciosa Hegemonia. Afinal, muitos dos petistas que estão poder acham que disputam os encantos dela. Que a estão seduzindo pouco a pouco para ficar a seu lado. Mas isso jamais acontecerá enquanto sua outra companheira, Pecúnia, continuar prisioneira de alguns poucos senhores poderosos. No jornalismo da grande imprensa, Dona Pecúnia está sob total controle dos monopólios empresariais da comunicação. Inclusive, com ajuda de polpudas verbas publicitárias oficiais. Enquanto for assim, Madame Hegemonia continuará a piscar os olhos na direção dos petistas e seus aliados, enquanto permanece em fogoso concubinato com nossos inimigos.
 
No enredo da vida real faltam outras figuras alegóricas, como a companheira Democratização da Mídia, a irmã Solidariedade, a camarada Organização, os aliados da Mídia Alternativa e, principalmente, os guerreiros da Consciência de Classe e os combatentes da Contra-Hegemonia. Sem que esses personagens entrem em cena, o jornalismo continuará mandando as notícias que interessam a Dona Pecúnia e Madame Hegemonia.
 

7 de nov. de 2013

Grande imprensa vandaliza a notícia

O vandalismo não sai das páginas dos grandes jornais. Mas não se trata das justas reações populares à violência policial. O vandalismo em questão tem como vítima fatal as notícias sobre as atuais manifestações populares.

Há muitas décadas, sabemos que não existe uma única e absoluta verdade em jornalismo. Não há fatos imunes a interpretações interessadas. Até os chefões da grande imprensa são incapazes de negar isso. Mas não abrem mão de apresentar apenas a sua versão dos fatos. Vejamos alguns exemplos desse jornalismo poderoso, mas rasteiro.

“’Quem roubou não era amigo do Douglas, era bandido’, diz pai de jovem morto por PM”. Este é o título de entrevista feita por Felipe Souza com José Rodrigues, pai de Douglas Rodrigues, jovem morto pela PM na periferia de São Paulo. Foi publicada pela Folha de S. Paulo, em 30/10/2013.

A frase do entrevistado refere-se a atos como caminhões e ônibus incendiados, motoristas roubados e lojas saqueadas durante manifestações contra a morte de seu filho. Até aí, tudo bem. O pai do garoto realmente mostrou total desacordo em relação ao que aconteceu.

Mas José Rodrigues também fez outras observações muito importantes. Por exemplo:

Aqui na rua colocaram fogo em pneus e por aqui ficou. E policiais dando tiro, bombas de gás lacrimogêneo. Estourou uma perto de mim que eu não conseguia nem respirar. Tem colega todo marcado [de bala de borracha].

Esta informação poderia ter inspirado o título da entrevista, por exemplo. Afinal, não satisfeitos em matar um jovem, os policiais ainda reprimiram manifestações de protesto contra o crime.

No final do depoimento, perguntado se seu filho teria sofrido o mesmo fosse morador de bairro nobre, Rodrigues foi taxativo: “Com certeza não. O policial ia pensar duas vezes antes de atirar”.

Esta última frase também seria muito mais relevante para figurar como título da entrevista. Mas a escolha editorial preferiu juntar as palavras “bandido” e “roubo” à realização de manifestações.

Outro exemplo vem de O Estado de São Paulo. Em 14/07, o jornal estampou a manchete “Manifestantes queimam mais de 300 carros em protestos na França”. Na França, queimar automóveis é coisa de “manifestantes”. Aqui, atos muito semelhantes são obra de vândalos, criminosos, bandidos etc. E, como ficou convencionado, vândalos, criminosos, bandidos, devem ser tratados na base do cassetete e do tiro.

Enquanto isso, os grandes jornais reclamam em coro: seus profissionais também estão sendo vítimas da violência dos vândalos! Mas esta não chega a ser nem meia verdade. É o que mostrou matéria do site “Comunique-se” em 29/10: “Polícia é responsável por 75% das agressões a jornalistas, revela levantamento da Abraji [Associação Brasileia de Jornalismo Investigativo]”. Um quarto da verdade torna-se a verdade inteira quando interessa à grande imprensa.

Por fim, o Globo publicou, em 30/10, o editorial “Vandalismo, democracia e fascismo”. Deu uma verdadeira lição de distorção conservadora em favor dos interesses mais poderosos do País.

O texto começa dizendo que houve “queda no apoio às manifestações” devido à ação dos black blocs. Realmente, pesquisa Datafolha teria mostrado uma diminuição de 89% para 66% desde junho na aprovação popular aos protestos. Mas a interpretação dos números deveria ser bem diferente. Apesar de todo o bombardeio da grande imprensa contra a resistência dos manifestantes à violência policial, pelo menos 2/3 dos entrevistados continuam a apoiá-los.

O editorial cobra firme combate do Estado às ações de “vandalismo”. Toma o cuidado de alertar para que se procure manter um “baixo grau de letalidade”. Mas como vidraças, lixeiras, ônibus e viaturas não podem ser ameaçados, a ocorrência de mortes é considerada um “risco que está presente”.

“Entre as imagens que ficarão destes tempos”, diz o texto, estaria a foto do coronel da PM paulista “sendo espancado por black blocs”. Ou seja, as centenas de imagens de manifestantes sendo linchados por hordas de policiais permanecerão nas redes virtuais, distantes da enorme audiência desconectada.

O Globo manifesta espanto diante do apoio de “professores sindicalistas” aos black blocs. Como se a decisão tivesse sido aprovada por uma dúzia de lideranças e não por milhares de grevistas, testemunhas e principais vítimas da violência policial nas manifestações. O espanto que a decisão causou no Globo é mais uma medalha que os professores ganharam em sua luta por dignidade.

Por fim, o texto chama de fascismo a “prática de perseguir e agredir fisicamente” aqueles que são considerados inimigos. A descrição serve para as ações da polícia, não para o comportamento de suas vítimas. E o editorial do Globo se revela como a crônica que justifica o caráter fascista de toda essa violência.

É famosa a frase atribuída ao senador americano Hiram Johnson: “numa guerra, a primeira vítima é a verdade”. Não estamos em guerra. Só há um lado atirando para matar e é o braço armado do Estado. Mas a verdade já sucumbiu nas páginas dos grandes jornais.

19 de out. de 2013

Monopólios da comunicação e da violência unidos

"Reportagem do Fantástico denuncia...". Esta é uma expressão cada vez mais ouvida nos meios de comunicação. As denúncias são muitas. “Analfabetos tinham acesso à carteira de habilitação em esquema nos Detran...”. “Compra de explosivos para roubar caixas eletrônicos...”. “Fraudes em concursos públicos...”. “Esquema de licitações com cartas marcadas ...”. Estes são apenas alguns exemplos oferecidos pela máquina investigativa do programa dominical da Rede Globo.

Mas não é só o Fantástico. É o Jornal Nacional, a CBN, Jornal da Band, jornalões impressos, revistas semanais. Só muda o sujeito da oração e o tipo de crime que serve de predicado.  O verbo é o mesmo: denúncia ou investigação.  Algo que deveria estar a cargo de órgãos e autoridades públicos. Pela polícia, Ministério Público e até por parlamentares.

Claro que o jornalismo investigativo é uma das possibilidades da imprensa. Óbvio que denúncias  jornalísticas podem ajudar a combater corrupção, golpes, roubos, violência, abusos. Mas quando a grande imprensa começa a aparecer como principal instituição para a apuração de delitos e crimes, algo está muito errado. Até porque o que é apenas apuração pode tornar-se facilmente processos sumários de acusação, julgamento e punição. Na grande maioria das vezes, sem qualquer direito a defesa. 

E o que fazem os órgãos de segurança pública enquanto isso? Grande parte de seus agentes está diretamente envolvida com os próprios crimes que a imprensa diz investigar. Ou estão ocupados espionando, se infiltrando e reprimindo violentamente as manifestações populares.

São muito raras as vezes em que policiais, juízes, parlamentares, governantes sofrem alguma punição séria, mesmo quando vão parar nas capas dos jornais. Já a punição para lutadores e lutadoras sociais incriminados pela grande imprensa vem rápida, violenta e discreta.

O fato é que há muito pouco de jornalismo investigativo nessa história toda. As reportagens são comandadas por grandes corporações da mídia. Elas mesmas acusadas por vários crimes, principalmente contra a ordem econômica. 

Na verdade, o que estamos vendo não passa de uma ação combinada entre os monopólios da comunicação e os monopólios da violência. Os primeiros tentam se credenciar como instrumentos de cidadania para melhor defender os interesses dos poderosos. Os segundos encontram no discurso dos primeiros a justificação para suas ações covardes e violentas.

No meio, apanhando e sendo criminalizados, estão os movimentos sociais e os pobres em geral.

6 de out. de 2013

O apoio do Globo às trevas da ditadura getulista

Depois de quase 50 anos, todos vimos como o Globo resolveu pedir desculpas por seu apoio à ditadura militar de 1964. Alguns comentaristas chegaram a notar que o jornalão carioca só se mostrou mais ágil que o Vaticano no reconhecimento de seus erros.

Mas o diário da família Marinho também deveria lembrar outra ditadura que contou com seu apoio. Trata-se do chamado “Estado Novo”, decretado em novembro de 1937 por Getúlio Vargas.

O golpe getulista determinou o fechamento do Congresso Nacional e a extinção dos partidos políticos. Foi imposta uma nova constituição, inspirada no nazifascismo. O presidente ditador passou a ter total controle do poder executivo.

Foram nomeados interventores nos estados em lugar de governadores eleitos. As eleições presidenciais previstas para 1938 jamais foram realizadas. O legislativo tornou-se decorativo, pois Getúlio governou por decretos-lei até 1945, quando foi expulso do poder na onda antifascista do final da 2ª Guerra.

Milhares de trabalhadores, militantes políticos, sindicais e sociais foram jogados na cadeia, torturados, desaparecidos e mortos. Verdadeira carnificina, provavelmente ainda mais cruel e sangrenta que a cometida pelo regime militar de 64.

Uma das medidas adotadas foi a censura aos meios de comunicação pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). E esta foi uma boa desculpa para que os jornais da burguesia apoiassem a ditadura sem se comprometer abertamente. A única exceção foi o jornal “O Estado de S. Paulo”.

Em seu acervo eletrônico, O Globo afirma: “Na ditadura do Estado Novo, a censura impedia o posicionamento aberto da imprensa”. Mas não foi bem assim. Em sua ótima biografia sobre Getúlio Vargas, Lira Neto cita um episódio vergonhoso *.

Em julho de 1939, em pleno Estado Novo, Alzira Vargas casou-se com Ernani do Amaral Peixoto, na época interventor federal no estado do Rio de Janeiro. A cerimônia teria sido simples, mas a lua de mel foi nos Estados Unidos.

Uma nota publicada pelo jornalista Mario Tarquínio de Souza em O Globo dizia que a viagem fora paga com dinheiro público. Não há registro de que tenha havido um desmentido categórico das informações publicadas. Mas a reação do governo foi imediata. O jornalista foi demitido e preso.

O dono do jornal que publicou a denúncia também foi rápido. Segundo o que escreveu Lira Neto na página 366 de seu livro, Roberto Marinho publicou um pedido de desculpas a Getúlio, na primeira página do jornal com o seguinte teor:

“Sinto o dever de me apressar em externar a vossa excelência a minha profunda e sincera revolta contra o embuste de que foi vítima a direção de O Globo, e a própria censura policial, com a publicação de notícia estampada em alguns exemplares de uma das edições de hoje”.

Que o jornal fosse obrigado a publicar o que a ditadura determinava é uma coisa. Que seu proprietário tomasse a iniciativa de lamber as botas do ditador e de seu serviço de censura é outra.

Jorge Amado escreveu um romance sobre esta época terrível da história brasileira. Chama-se “Os subterrâneos da liberdade”. Foi nestes subterrâneos que o Globo se refugiou. Dele jamais saiu. Do interior de seu esconderijo tenebroso, continua tentando nos roubar a luz.

* “Getúlio (1930-1945): Do governo provisório à ditadura do Estado Novo”, segundo volume da trilogia biográfica sobre Getúlio Vargas, escrita por Lira Neto, Companhia das Letras, 2013.

13 de set. de 2013

O Globo continua em sua guerra suja contra a liberdade

Um texto anterior deste blog abordou a disponibilização pelo Globo de seu próprio acervo. Destacou, principalmente, o apoio do periódico ao golpe militar de 1964. Avaliou que a abertura ao público dos “11 milhões de documentos” do jornalão poderia ter como objetivo tornar menos visíveis episódios vergonhosos, como o apoio do diário carioca à ditadura que se seguiu ao golpe.

Mas, logo depois, o Globo não só reconheceu a postura favorável à implantação da ditadura de 64, como pediu desculpas por isso. Em 31/08, publicou o editorial “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro”.

O texto afirma que “há muitos anos, em discussões internas, as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro”. E que a decisão de tornar pública esta avaliação aconteceu há alguns meses, quando o projeto “Memória” estava sendo estruturado.

Desde a publicação do editorial, muita gente da imprensa alternativa escreveu bons textos sobre a decisão do jornalão. Entre eles, destaca-se o de Fernando Brito que, em seu blog Tijolaço, recusa o pedido de desculpas e diz que não se tratou de um erro, mas de um crime.

Marco Aurélio Weissheimer também publicou bom texto na Carta Maior, e apresentou uma coletânea de frases publicadas nas redes virtuais, ironizando o episódio. Como estes, há muitos outros que podem ser encontrados nos melhores blogs e sites alternativos. Portanto, este texto teria pouco a acrescentar. A destacar apenas alguns pontos.

Em primeiro lugar, o editorial de O Globo afirma que o jornal esperava uma rápida passagem dos militares pelo governo e a devolução deste aos civis, com a realização de eleições livres. Mas, diz o texto, “o desenrolar da ‘revolução’ é conhecido”: “Não houve as eleições. Os militares ficaram no poder 21 anos, até saírem em 1985, com a posse de José Sarney, vice do presidente Tancredo Neves, eleito ainda pelo voto indireto, falecido antes de receber a faixa”.

O “desenrolar da revolução” também mostrou as organizações Globo completamente à vontade com a situação ditatorial. Não basta afirmar que Roberto Marinho protegia os “comunistas” que trabalhavam para ele. Nem que acompanhava “seus jornalistas” nos depoimentos a que eram convocados pelos órgãos de repressão para que não desaparecessem.

Nada disso é suficiente quando o conjunto das organizações Globo trabalhava pela legitimação deste mesmo regime que perseguia “comunistas” e desaparecia com jornalistas. É como agiria um senhor de escravos que não deixa matarem seus cativos para não sofrer prejuízo em seu patrimônio.

Também não é suficiente afirmar que Marinho sempre defendera a legalidade. Muitas das leis vigentes sob a ditadura eram injustas, abusivas, desumanas. Denunciá-las e desafiá-las. Esta era a obrigação de um jornal que zelasse pela liberdade e pela justiça. Colocar-se, inclusive, na ilegalidade, como muitos jornalistas verdadeiros fizeram. Mas as Organizações Globo estavam preocupadas em subverter outras leis. As da livre concorrência. Por isso, montaram um dos maiores monopólios de mídia do mundo, precisamente sob as leis ilegítimas da ditadura militar.

Por fim, a conclusão a que o último texto desta coluna chegou não estava totalmente errada. O Globo não escondeu sua postura vergonhosa em relação ao golpe de 64. Evidenciou-a e por ela pediu desculpas. Mas o próprio ato esconde mais do que mostra. Espera, com isso, colocar uma pedra sobre o assunto e aliviar a pressão que vem sofrendo nas manifestações populares.

Continuamos a ser desafiados e, agora ainda mais fortemente, a mostrar que se trata de mais uma manobra. Mais um truque de quem sempre esteve ao lado dos que travam uma guerra suja contra a liberdade.

30 de ago. de 2013

O acervo de um jornal a serviço das forças mais conservadoras

“Professores já utilizam ferramenta para melhor explicar episódios históricos e as mudanças na linguagem do brasileiro”, diz matéria de Eduardo Vanini publicada em 19/08, em O Globo. O texto refere-se à disponibilização pelo próprio jornal de seu acervo completo.

Por enquanto, a consulta pode ser feita gratuitamente. Segundo o periódico, o internauta poderá:

"...navegar pelas edições do jornal desde sua fundação. E consultar tanto as páginas quanto as matérias ou artigos, que foram digitalizados um a um. No total, são mais de 11 milhões de documentos, entre páginas e artigos".

Muitos poderiam achar que a ideia pode se virar contra o jornalão. Afinal, ficaria facilitado o acesso às posições políticas conservadoras que o diário carioca defendeu em vários momentos decisivos da história do País.

Um exemplo clássico é a postura que o Globo adotou no golpe militar de 31 de março de 1964. Em 02 de abril, o jornal publicou o editorial “Ressurge a Democracia!”. Se o título já não fosse explícito o suficiente, alguns trechos confirmam o apoio ao ato ditatorial:

"Vive a nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial à democracia, a lei, a ordem. (...) Mais uma vez o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor".

Logo em seguida, em 9 de abril de 1964, a ditadura baixava o Ato Institucional no 1. A medida estabelecia eleições indiretas para Presidente da República, nomeando o general Castelo Branco por um colégio eleitoral. Também foram cassados mandatos parlamentares e direitos políticos. 

Na manhã seguinte, a manchete do jornal de Roberto Marinho dizia: “Cassados os mandatos de 40 parlamentares e suspensos direitos políticos de 58 pessoas”. Apesar disso, um trecho do editorial afirmava:

"Temos fé em que sob a direção do General Castelo Branco, a Nação enfrentará, unida, as dificuldades que a afligem e que afetam especialmente as massas trabalhadoras, para assim retomar o seu lugar no mundo democrático".

Em 27 de outubro de 1962, foi editado o Ato Institucional no 2, que extinguiu os partidos políticos e estabeleceu um sistema bipartidário. De um lado a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), que representava o regime, e de outro o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), em que uma oposição controlada podia se organizar.

O decreto também permitia ao presidente declarar Estado de Sítio, sem a prévia aprovação do Congresso. Entre outras medidas, funcionários públicos perdiam seus direitos e poderiam ser demitidos por ordem presidencial.

Em relação à medida, o editorial de O Globo publicado no dia seguinte dizia: “...o Ato Institucional no 2 contém em seus artigos preceitos que realmente atendem aos interesses do País e da administração pública...”.

Estes são somente alguns exemplos do comprometimento do jornal da família Marinho com o nascimento de um dos períodos mais tenebrosos de nossa história.

Como estes houve muito outros que poderiam manchar a reputação do diário. Mas certamente, seus proprietários contam com poder de monopólio que construíram durante décadas. Procuram tornar os episódios mais vergonhosos menos visíveis em meio à torrente de “11 milhões de documentos” disponíveis. Também se beneficiam da amnésia política que ajudaram a espalhar e contam com a cumplicidade de autoridades e lideranças que até anteontem os acusavam de ser inimigos da democracia.

Cabe a nós, da imprensa alternativa de esquerda e militantes sociais em geral, atrapalhar o máximo possível esses planos.

9 de ago. de 2013

Reforçar as guerrilhas da comunicação

Entre as muitas lições das manifestações populares que vêm chacoalhando o País, está a de que vivemos uma sob uma verdadeira ditadura da grande mídia.

O jornalismo empresarial faz uma cobertura dos acontecimentos que é tendenciosa, criminaliza os movimentos sociais, omite, mente, esconde, distorce. Causa na esfera da informação estrago equivalente ao provocado por balas de borracha, spray de pimenta e gás lacrimogêneo nas ruas.

Um exemplo é a cobertura jornalística dos protestos que acabaram em depredação de lojas e bancos no Leblon. A gritaria que a grande imprensa fez só é comparável com o silêncio com que tratou a morte de dez pessoas na favela da Maré, vinte dias antes. O grande patrimônio de uma dúzia de pessoas colocado acima das vidas de milhares.

Não estamos vivendo sob uma ditadura política. Mas não se pode dizer o mesmo quanto ao direito à informação, que está soterrado sob o peso de grandes monopólios. Felizmente do nosso lado, temos a cobertura feita por centenas de jornalistas alternativos com suas microcâmeras e celulares. Desmascarando a mídia empresarial em blogs, redes virtuais, rádios e jornais comunitários e sindicais. No asfalto e nas comunidades.

Essas mulheres e homens heroicos e comprometidos com as lutas populares desempenham um papel fundamental. Um exemplo claro foi o caso do molotov atirado em policiais nas manifestações do dia 22/07. Foram as imagens da mídia alternativa que mostraram que o artefato foi atirado por um policial infiltrado. É isso que torna essa verdadeira guerrilha da informação tão odiada pelas forças da repressão e governantes de plantão.

Sob uma ditadura política, a luta popular aberta contra os poderosos é desigual e dificilmente escapa à derrota. Daí, a necessidade de ações pequenas, mas eficientes e que ajudem a acumular forças para um momento favorável.

Do mesmo modo, enquanto durar a ditadura midiática, teremos que nos limitar às escaramuças pontuais e estratégicas. Acumular forças e reunir condições para travar o grande combate. Mas este só será vitorioso se deixarmos para trás aqueles que vacilam entre a covardia e a cumplicidade em relação aos poderosos da mídia.

O apoio a governos progressistas, ou que pretendem sê-lo, é possível. Muitas vezes, pode ser necessário. A pressão sobre parlamentares, também. Mas é imprescindível evitar a dependência em relação aos "poderes constituídos", sempre embaraçados nas cordas que atam o Estado ao grande capital. Nossas principais lutas têm que ser travadas nas ruas, com câmeras, gravadores e muita disposição.

26 de fev. de 2011

Folha: de rabo preso com a ditadura de plantão

A Folha de S. Paulo acaba de completar 90 anos. Aproveitou para confessar seu apoio ao regime militar. Na verdade, comemora a vitória do Projeto Folha, em que trocou seu apoio à ditadura política pela fé na ditadura econômica.

A Folha de S. Paulo completou 90 anos no sábado, dia 19 de fevereiro. Nascido em 1921, o jornal só ganhou o nome atual em 1931. Até então, era Folha da Noite. De 1986 a 2010 foi a publicação jornalística de maior circulação do País. Perdeu o primeiro lugar para o tablóide mineiro Super Notícia. Mas, sem dúvida segue sendo um dos mais influentes no País.

Relembrando sua história, o jornal fez uma confissão rara em sua edição do dia 20/02. Assumiu claramente seu apoio ao golpe militar de 1964. Disse que sua redação foi entregue jornalistas “entusiasmados com a linha dura militar” como parte de uma reação da empresa “à atuação clandestina” de militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) nas dependências do próprio jornal. Uma desculpa mais que esfarrapada.

Quanto ao uso de suas caminhonetes de entrega de jornal por agentes da repressão, a Folha atribui o relato a denúncias de presos políticos e não as confirma. Mesmo assim, surpreende a admissão do papel do jornal no apoio à ditadura. Ou não?

Na verdade, esse repentino ataque de franqueza nada tem de contraditório. A Folha fez um movimento inteligente no início dos anos 1980. Pressentindo a crise do regime militar, trocou seu apoio à ditadura dos generais pela militância pela ditadura do mercado. Essa guinada recebeu o nome de Projeto Folha. O próprio histórico publicado no jornal ajuda a esclarecer:
A Folha foi o jornal que mais se associou às Diretas. Seu engajamento é anterior ao das principais lideranças de oposição que, em fins de 1983, ainda não formavam uma frente compacta, deixando prevalecer os interesses partidários. Nessa altura, quando o movimento mal conseguia encher uma praça, o jornal criticou o sectarismo dos políticos e o silêncio da imprensa.
Ou seja, sentindo as dificuldades do governo dos generais para se manter no poder, a Folha cobrava da classe dominante unidade em torno de outro projeto. O movimento das Diretas teria sido o “o apogeu do consenso suprapartidário das oposições”. Mas, uma vez derrotada a emenda que propunha eleições diretas para presidente, “cada partido tratou de traçar sua própria estratégia”.

“Respondendo a essa fragmentação, continua o texto da Folha, a direção do jornal elegeu o pluralismo e o apartidarismo (...) como os principais pilares do Projeto Folha”. Segundo o final feliz do histórico do jornalão paulista, “o Projeto Folha transformou-se numa influente escola de jornalismo”. Teria se tornado um veiculo apartidário e comprometido com a sociedade civil. Ou conforme campanha publicitária dos anos 1980, um jornal “de rabo preso com o leitor”.

José Arbex foi um dos jornalistas que acompanhou esse projeto muito de perto. Fazia parte da redação da Folha na época de sua implantação. Em seu livro “Shownarlismo” (Casa Amarela-2001), Arbex diz que o Projeto Folha significou a adoção do discurso para o mercado. Nada mais do que o tratamento da notícia como mercadoria.

A pose da Folha como porta-voz da democracia, escondia uma política interna autoritária. Um rígido controle industrial e ideológico da produção de informação materializado em seu famoso Manual de Redação. Arbex diz que o jornal escolheu “a estratégia de transformar a democracia em marketing”.

Na verdade, trata-se da adoção da “democracia de mercado”, em que o que importa é o funcionamento das leis capitalistas. Se a Folha sobreviveu à censura dos generais, por que não veria com tranqüilidade a implantação de um sistema baseado em eleições e outras liberdades? Afinal, a condição de monopólio da mídia empresarial já lhe garantia poder suficiente para funcionar como um bloqueio econômico à verdadeira liberdade de informação. Foi isso o que a Folha enxergou antes de sua concorrência.

O Projeto Folha implicava uma opção clara. Era pelo fim do apoio da empresa à ditadura política dos militares. Mas também pelo engajamento na defesa do livre funcionamento da ditadura das leis do mercado. Uma postura que ajudava também a reforçar o lado conservador da “transição democrática”. Aquele que tentou e conseguiu manter o essencial dos aparelhos de repressão reforçados pela ditadura militar. Algo que resultou, por exemplo, no tratamento ilegal e violento dispensado pelas polícias e forças de segurança a pobres e negros. Assim como na criminalização dos movimentos sociais.

Essa promessa de fé no império da acumulação do capital ajuda a explicar algumas recaídas que lembram a relação submissa do jornal em relação ao regime militar. Uma delas foi o episódio da “ditabranda”, palavra inventada pela Folha em editorial de fevereiro de 2009. O neologismo procurava dar à ditadura de 64 um caráter moderado.

Esta espécie de ato falho talvez revele disposição em aceitar a volta do uso de medidas ditatoriais. Basta que se mostrem necessárias para garantir a enorme concentração de poder e lucros das grandes corporações.

Mas, a razão mais concreta da recente “confissão” da Folha parece ser mais simples. Por ocasião de seus 90 anos, o jornal colocou à disposição do público seu conteúdo integral desde 1921. São quase 2 milhões de páginas totalmente indexadas. Uma medida que certamente deixa mais óbvias muitas das relações podres da Folha com o poder.

Aí, a melhor política passa a ser confessar logo aquilo que vai ficar claro demais para ser negado. Mais uma amostra da linha flexível do jornal quando se trata de manter o essencial de seu projeto. Além disso, aproveita o momento em que os principais atores políticos do País se recusam a acertar contas com os carrascos da ditadura.

O aniversário da Folha mereceu um discurso da presidenta da República em evento comemorativo. Dilma não nega nem renega sua atuação na resistência à ditadura. Mas, manteve em seu governo Nelson Jobim, figura submissa à cúpula conservadora das Forças Armadas. A última proeza de Jobim foi propor a cassação da anistia concedida a militares que se rebelaram contra o golpe de 64.

Acrescente-se a isso a presença de Dilma nas comemorações do jornalão paulista. Péssimo sinal. O evento festejava mais uma vitória da mídia empresarial. Saudava sua capacidade de disfarçar seus interesses particulares e antipopulares com a máscara da liberdade de imprensa. Comemorava a maestria da Folha em esconder seu rabo preso às ditaduras de plantão. As políticas e as econômicas.