“Distrito 9”, de Neill Blomkamp, alia diversão e denúncia. É ótimo. Pena que perto do verdadeiro racismo seja quase um conto de fadas.
Em 2012, alienígenas vêm parar na Terra, mas não chegam invadindo e atirando raios. Também não são seres superiores dando lição de moral a nossa espécie. São milhões de criaturas cuja nave enguiçou sobre a cidade de Joanesburgo, na África do Sul. Resgatados pelos humanos, são colocados numa enorme favela que recebeu o nome de Distrito 9. O aspecto físico dos recém-chegados é desagradável, lembrando uma mistura de inseto com crustáceo. Por isso, recebem o apelido nada carinhoso de camarões.
Não é a primeira vez que um diretor dá aos alienígenas um aspecto repugnante. Em 1997, Paul Verhoeven realizou “Tropas Estelares”. A produção adotou como modelo a estética dos diretores de cinema da Alemanha nazista. Seus heróis eram homens e mulheres jovens, atléticos, bonitos e brancos. Leais e amigos entre si e impiedosos com os inimigos. Nada mais fácil do que ser cruel com vilões que parecem enormes baratas nojentas. Este seria o segredo da estética fascista. Transformar os inimigos em criaturas repugnantes. Não à toa, os nazistas chamavam os judeus de ratos.
Mas, o filme de Blomkamp parte desse ponto de vista para invertê-lo. As primeiras cenas mostram os alienígenas como seres violentos, sujos, viciados em ração de gato e desleais. No final da exibição, nossa simpatia vai toda para a causa dos infelizes aliens em sua luta contra a injustiça.
São vários os aspectos interessantes do filme. A maioria, ligada à denúncia do racismo. Em primeiro lugar, nada mais apropriado do que situar o drama na maior cidade de um país que viveu a vergonha do racismo institucionalizado. O diretor é branco e jovem, mas chegou a ver o Apartheid em pleno funcionamento. Afinal, o odioso regime racista só acabou há 15 anos.
O processo de favelização da colônia extraterrestre mostrado no filme também é parecido com o que ocorre nas grandes cidades do planeta. Populações recém-chegadas são isoladas em bairros distantes, sem estrutura e acesso a direitos básicos. Mas, a inevitável deterioração de suas condições de vida não é vista como conseqüência desse isolamento. Passa a ser entendida como característica natural de sua gente.
Quando uma socióloga considera preconceituoso chamar os alienígenas de camarões, um chefe de polícia diz que não vê preconceito. “Eles realmente se parecem com camarões”, diz ele. Isso é bem típico dos mecanismos que alimentam a discriminação e o racismo. Faz lembrar um trecho do romance “O sorriso do lagarto”, de João Ubaldo Ribeiro. Nele, um personagem diz que a maioria dos macacos tem traços e características que os faz mais parecidos com homens brancos do que com negros. No entanto, o racismo afirma o contrário.
O mesmo acontece quando comportamentos verificados entre populações pobres são considerados próprios de animais. É a tentativa de lhes tirar a condição de seres humanos. São o mesmo que ratos, baratas, camarões, macacos. Se for preciso, se fugirem ao controle e tornarem-se pragas, devem ser contidos ou exterminados. Basta prestar atenção no discurso da classe dominante. Ouvir o que dizem a grande mídia, governantes, parlamentares, empresários. Essa lógica está lá. Às vezes, bem aparente.
Como as idéias da classe dominante dominam a sociedade, o racismo e a discriminação também surgem entre suas próprias vítimas. Por isso, “Distrito 9” mostra negros sul-africanos a favor da perseguição aos alienígenas. Não notam que reproduzem a opressão de que também são vítimas. Afinal, nem da espécie humana eles são, diz um deles. Mas, para o racismo este é só um detalhe. Para transformar um setor da população em seu alvo, não é preciso que seus membros tenham antenas e garras. Basta escolher certas características estranhas ao senso comum e generalizar para aquele setor da população. Aí, é só excluí-lo das pessoas consideradas “corretas” e “civilizadas”.
Uma crítica que poderia ser feita ao filme é o modo como mostra uma gangue de nigerianos. Um bando criminoso cruel, ignorante, supersticioso. Mas, o filme acaba retratando a realidade sul-africana hoje. Há um grande movimento migratório da Nigéria para a África do Sul, país mais desenvolvido do continente e um dos mais injustos do mundo, também. Os nigerianos acabam formando grande parte da população pobre e moradora de favelas. São os mais recentes discriminados em uma sociedade já tão marcada pela injustiça social.
Por fim, é interessante notar como à medida que o filme se aproxima do final, começamos a enxergar os recém-chegados como vítimas. Os estranhos seres se mostram capazes de sentimentos e reações muito parecidas com as nossas. Revelam dominar uma tecnologia avançada e serem capazes de manifestar solidariedade e lealdade.
Isso acontece porque já somos capazes de contextualizar a situação dos alienígenas. Diferente do que acontecia antes, no início do filme, quando a sucessão de imagens era frenética. Imperava o ritmo típico dos diversos telejornais apelativos que mostram situações violentas sem qualquer preocupação em situar histórica e socialmente os conflitos, guerras e dificuldades vividos por explorados e oprimidos no mundo todo. O resultado é mais preconceito e visões distorcidas em relação a povos, etnias ou ao vizinho da favela ou periferia mais próxima. Mais lenha na fogueira do racismo, do ódio aos estrangeiros, da intolerância com o diferente.
O filme vale porque alia diversão e denúncia. Pena que suas cenas chocantes sejam suaves perto dos verdadeiros efeitos do racismo e da exploração capitalista pelo mundo afora. Basta assistir a um documentário como “O pesadelo de Darwin”, de Hubert Sauper, ou ler os relatos de “Planeta favela”, de Mike Davis. Deixam qualquer roteirista de terror apavorado.
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26 de out. de 2009
24 de ago. de 2009
Tempos de paz no paraíso da tortura
O judeu Clausewitz foge do nazismo e encontra no Brasil outro inferno. Seria uma chance de denunciar o nosso secular terrorismo de Estado. Mas, Daniel Filho desperdiça a oportunidade.
"Tempos de paz" é baseado na peça de teatro “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, de Bosco Brasil. Sua transformação em filme oferecia muitas possibilidades boas. O máximo a que Daniel Filho chegou foi mostrar dois talentosos atores e uma denúncia tímida da ditadura getulista.
A história se passa em 1945, no dia em que a ditadura Vargas liberta seus presos políticos. Fugindo da guerra na Europa, milhares de pessoas chegam ao Rio de Janeiro. Entre elas, está o polonês Clausewitz (Dan Stulbach). Logo que avista a bela paisagem carioca, ele repete a famosa frase do poeta russo Maiakovski: “Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”. Depois, durante o interrogatório a que é submetido pelo funcionário Sigismundo (Tony Ramos), o polonês diz que aprendeu o português porque lhe parecia uma língua falada por bebês. Por gente ainda sem dentes.
Essa imagem do Brasil como paraíso, lugar de inocência e felicidade, parece ser uma constante na mente dos habitantes do Velho Mundo. Remete à famosa carta de Pero Vaz Caminha, que descreve as novas terras como um éden em que “se plantando, tudo dá”. É certo que foi escrita pouco antes da pilhagem que começou e não parou mais. Incluindo o constante estupro das nativas, transformado recentemente em turismo sexual.
Para Clausewitz, artista de teatro, o Brasil era uma promessa de doçura eterna. Onde ele lavraria a terra com suas mãos finas com a mesma facilidade com que declamava textos nos palcos da Europa. O funcionário vivido por Tony Ramos logo quebra suas ilusões. Sem bagagens e bens com que subornar os funcionários, Sigismundo está pronto a fazê-lo voltar ao velho continente. Não o fará se o recém-chegado aceitar um desafio. Fazê-lo chorar contando suas dolorosas lembranças de judeu perseguido.
Clausewitz logo descobre que arrancar lágrimas de Sigismundo é missão quase impossível. O funcionário prestou dedicados e cruéis serviços de torturador para o Estado Novo. No cumprimento do dever, chegou a aleijar as mãos do médico (Daniel Filho) que salvou a vida de sua irmã. Antes disso, foi capanga no interior gaúcho, onde cometia barbaridades ordenadas por seu padrinho.
Desse modo fica claro para o judeu que o mito do paraíso tropical brasileiro foi construído sobre uma história sangrenta. Um genocídio continuado contra índios e negros e estendido aos que ousam desafiar o poder, como os comunistas e lutadores populares em geral. Um jardim sem campos de concentração, mas com os porões lotados de vítimas do terror do Estado. Um território distante da guerra, mas entregando milhares de inocentes à paz dos cemitérios.
Se o filme traz algo de positivo é uma tímida denúncia da sangrenta ditadura de Getúlio Vargas. Foram milhares de presos e torturados pelo homem que costuma ser glorificado até por muitos setores de esquerda. Na verdade um gênio político a serviço dos poderosos. Alguém que aperfeiçoou uma máquina de morte utilizada depois pela ditadura militar e que até hoje funciona em muitas delegacias de polícia, contra pobres e negros. Um dos poucos setores do Estado brasileiro que vem mantendo elevado nível de eficiência. E pronto para ser utilizado novamente contra quem ameaçar os interesses dos que mandam.
O judeu, afinal, arranca lágrimas ao torturador. Não contando suas lembranças, mas encenando o trecho de uma peça. Poderia ser a simbolização de que a arte é tão poderosa que consegue tocar o humano escondido numa besta cruel. Mas, o filme não chega a tanto. E a presença do médico na última cena, tentando intimidar seu carrasco com o olhar, acaba de estragar tudo. Um olhar de reprovação é a punição máxima que as autoridades democráticas de plantão têm coragem de adotar contra os covardes que estiveram a serviço das ditaduras de nossa história.
O inferno tupiniquim continua queimando e sob as ordens da mesma dinastia demoníaca. Às vezes, mudam seus auxiliares. Alguns cumprem suas tarefas de bom grado. Outros, sob a sombra vergonhosa da traição. O jeito é criar condições para que um dia o conflito seja assumido abertamente pelos debaixo. E as diretrizes que passem a valer sejam as da guerra da resistência popular.
"Tempos de paz" é baseado na peça de teatro “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, de Bosco Brasil. Sua transformação em filme oferecia muitas possibilidades boas. O máximo a que Daniel Filho chegou foi mostrar dois talentosos atores e uma denúncia tímida da ditadura getulista.
A história se passa em 1945, no dia em que a ditadura Vargas liberta seus presos políticos. Fugindo da guerra na Europa, milhares de pessoas chegam ao Rio de Janeiro. Entre elas, está o polonês Clausewitz (Dan Stulbach). Logo que avista a bela paisagem carioca, ele repete a famosa frase do poeta russo Maiakovski: “Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”. Depois, durante o interrogatório a que é submetido pelo funcionário Sigismundo (Tony Ramos), o polonês diz que aprendeu o português porque lhe parecia uma língua falada por bebês. Por gente ainda sem dentes.
Essa imagem do Brasil como paraíso, lugar de inocência e felicidade, parece ser uma constante na mente dos habitantes do Velho Mundo. Remete à famosa carta de Pero Vaz Caminha, que descreve as novas terras como um éden em que “se plantando, tudo dá”. É certo que foi escrita pouco antes da pilhagem que começou e não parou mais. Incluindo o constante estupro das nativas, transformado recentemente em turismo sexual.
Para Clausewitz, artista de teatro, o Brasil era uma promessa de doçura eterna. Onde ele lavraria a terra com suas mãos finas com a mesma facilidade com que declamava textos nos palcos da Europa. O funcionário vivido por Tony Ramos logo quebra suas ilusões. Sem bagagens e bens com que subornar os funcionários, Sigismundo está pronto a fazê-lo voltar ao velho continente. Não o fará se o recém-chegado aceitar um desafio. Fazê-lo chorar contando suas dolorosas lembranças de judeu perseguido.
Clausewitz logo descobre que arrancar lágrimas de Sigismundo é missão quase impossível. O funcionário prestou dedicados e cruéis serviços de torturador para o Estado Novo. No cumprimento do dever, chegou a aleijar as mãos do médico (Daniel Filho) que salvou a vida de sua irmã. Antes disso, foi capanga no interior gaúcho, onde cometia barbaridades ordenadas por seu padrinho.
Desse modo fica claro para o judeu que o mito do paraíso tropical brasileiro foi construído sobre uma história sangrenta. Um genocídio continuado contra índios e negros e estendido aos que ousam desafiar o poder, como os comunistas e lutadores populares em geral. Um jardim sem campos de concentração, mas com os porões lotados de vítimas do terror do Estado. Um território distante da guerra, mas entregando milhares de inocentes à paz dos cemitérios.
Se o filme traz algo de positivo é uma tímida denúncia da sangrenta ditadura de Getúlio Vargas. Foram milhares de presos e torturados pelo homem que costuma ser glorificado até por muitos setores de esquerda. Na verdade um gênio político a serviço dos poderosos. Alguém que aperfeiçoou uma máquina de morte utilizada depois pela ditadura militar e que até hoje funciona em muitas delegacias de polícia, contra pobres e negros. Um dos poucos setores do Estado brasileiro que vem mantendo elevado nível de eficiência. E pronto para ser utilizado novamente contra quem ameaçar os interesses dos que mandam.
O judeu, afinal, arranca lágrimas ao torturador. Não contando suas lembranças, mas encenando o trecho de uma peça. Poderia ser a simbolização de que a arte é tão poderosa que consegue tocar o humano escondido numa besta cruel. Mas, o filme não chega a tanto. E a presença do médico na última cena, tentando intimidar seu carrasco com o olhar, acaba de estragar tudo. Um olhar de reprovação é a punição máxima que as autoridades democráticas de plantão têm coragem de adotar contra os covardes que estiveram a serviço das ditaduras de nossa história.
O inferno tupiniquim continua queimando e sob as ordens da mesma dinastia demoníaca. Às vezes, mudam seus auxiliares. Alguns cumprem suas tarefas de bom grado. Outros, sob a sombra vergonhosa da traição. O jeito é criar condições para que um dia o conflito seja assumido abertamente pelos debaixo. E as diretrizes que passem a valer sejam as da guerra da resistência popular.
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10 de jul. de 2009
Jean Charles é correto, mas sua denúncia é limitada
Henrique Goldman fez um bom filme sobre a morte do jovem brasileiro, em Londres. Serve como denúncia. Mas, poderia ter deixado mais claro o papel do terrorismo de Estado e da intolerância racial.
Jean Charles é um filme bem feito. Realista, com o ritmo certo, roteiro redondo e bons atores. No elenco, destacam-se o sempre talentoso Selton Mello no papel-título e Luis Miranda, como Alex. O final do filme deixa claro quanta injustiça e covardia envolveram o caso. O que não fica tão evidente é o papel do Estado e do conservadorismo da sociedade inglesa em toda a tragédia.
O diretor optou corretamente por retratar Jean Charles tal como ele devia ser. Um jovem vindo de um país periférico, de família pobre, se virando para sobreviver em uma sociedade muito diferente da sua e pouco amigável em relação a estrangeiros. Nesse meio, Jean Charles usa todas as suas habilidades para se dar bem. É o caso da cena inicial em que ele mente descaradamente para conseguir o visto de entrada para sua prima. É o caso da traição que comete contra seu empregador e amigo. Para não falar da confusão que criou com os passaportes dos colegas de trabalho.
A seu jeito, o próprio Jean Charles explica a razão maior para isso tudo: “o sistema é bruto”. As dificuldades para chegar e se instalar em um país europeu considerado rico são enormes. Os recém-chegados são praticamente empurrados para a ilegalidade e para a utilização de expedientes pouco éticos. Ao mesmo tempo, há tolerância suficiente para que os patrões locais se aproveitem da situação e explorem a força-de-trabalho barata de pessoas com medo de ter sua condição irregular descoberta.
É a cara da globalização capitalista. A circulação de mercadorias é muito mais livre que a de seres humanos. E só fica menos complicada se as pessoas forem reduzidas a algo que deveria ser apenas parte delas: a força-de-trabalho.
E isso tudo se agravou depois dos ataques às Torres Gêmeas. Mais do que nunca, os que têm o cabelo crespo, usam turbante ou um véu, tornaram-se alvo fácil para todo tipo de ofensas. É o que mostra o filme, quando o cozinheiro italiano cospe nos sanduíches antes de servi-los a uma família com roupas muçulmanas.
Em alguns momentos, a obra de Goldman mostra toda essa brutalidade. Mas, não aborda, por exemplo, a dura escolha que, freqüentemente, se impõe a muitos imigrantes pobres que moram no chamado “Primeiro Mundo”.
Por um lado, há imigrantes que optam por permanecer entre seus semelhantes. Às vezes, há bairros inteiros em que vivem pessoas da mesma origem nacional. Formam comunidades em torno dos valores e hábitos que compartilham. Algo que aparece claramente quando os personagens do filme assistem a um programa de Raul Gil e vão a um show de Sidney Magal. Tudo isso lhes dá uma sensação de segurança e conforto. Mas, os afasta ainda mais dos nativos, de sua língua e costumes.
Por outro lado, há os que conseguem se integrar à vida social local. Começam a dominar a língua, a cultura e os hábitos do país anfitrião. Fazem amigos, conseguem empregos formais, casam, têm filhos. Mas, o preço é alto. As chances de receber ataques preconceituosos e racistas quando menos esperam são grandes. E eles podem vir de sogros, cunhados, colegas de trabalho, colegas de escola dos filhos etc. Ao mesmo tempo, também podem ser tratados como traidores pela comunidade de seus conterrâneos.
A encruzilhada entre esses dois caminhos parece estar simbolizada no nome que o personagem principal recebeu de seus pais. Menezes de família, mas Jean Charles para fazer fortuna no estrangeiro. Este aspecto o filme não abordou, apesar de dar sinais de que o personagem de Selton Mello pretendia entrar num mundo em que seu nome de batismo tivesse mais importância que seu sobrenome. O assassinato covarde no vagão do metrô acabou sendo uma demonstração bem exagerada de que conquistar algo assim é muito difícil.
Outra dimensão que mal aparece no filme é a natureza abertamente racista das operações do aparelho repressivo britânico. Somente no final, um manifestante faz essa afirmação. Mas é pouco diante da brutalidade da morte de Jean Charles.
A ausência elementos mais esclarecedores pode dar margem a interpretações que justifiquem o que aconteceu. Não em relação ao personagem principal, diretamente, mas ao que ele representa. Jean Charles era estrangeiro, nascido no “Terceiro Mundo”, malandro e ambicioso. Não era um terrorista. Dificilmente alguém diria que merecia a morte que teve. Mas, pertencia a uma parte da população cuja conduta é desaprovada por puro preconceito. E isso é o bastante para torná-la alvo fácil da violência policial. A conclusão conservadora diria que é essa parte da população que deve mudar sua forma de agir e não a polícia.
A possibilidade de que seja esta a moral da história deduzida pelo público é grande. E é alimentada pelos racismos espalhados pelo planeta. Não apenas contra estrangeiros e não brancos. Há também os preconceitos regionais, como é o caso de nordestinos no Brasil. Uma parcela da população brasileira que muitas vezes é tratada como estrangeira dentro de seu país. Somente levando em conta o clima de enorme intolerância em que vivemos, é possível apontar os limites de Jean Charles, o filme.
Jean Charles é um filme bem feito. Realista, com o ritmo certo, roteiro redondo e bons atores. No elenco, destacam-se o sempre talentoso Selton Mello no papel-título e Luis Miranda, como Alex. O final do filme deixa claro quanta injustiça e covardia envolveram o caso. O que não fica tão evidente é o papel do Estado e do conservadorismo da sociedade inglesa em toda a tragédia.
O diretor optou corretamente por retratar Jean Charles tal como ele devia ser. Um jovem vindo de um país periférico, de família pobre, se virando para sobreviver em uma sociedade muito diferente da sua e pouco amigável em relação a estrangeiros. Nesse meio, Jean Charles usa todas as suas habilidades para se dar bem. É o caso da cena inicial em que ele mente descaradamente para conseguir o visto de entrada para sua prima. É o caso da traição que comete contra seu empregador e amigo. Para não falar da confusão que criou com os passaportes dos colegas de trabalho.
A seu jeito, o próprio Jean Charles explica a razão maior para isso tudo: “o sistema é bruto”. As dificuldades para chegar e se instalar em um país europeu considerado rico são enormes. Os recém-chegados são praticamente empurrados para a ilegalidade e para a utilização de expedientes pouco éticos. Ao mesmo tempo, há tolerância suficiente para que os patrões locais se aproveitem da situação e explorem a força-de-trabalho barata de pessoas com medo de ter sua condição irregular descoberta.
É a cara da globalização capitalista. A circulação de mercadorias é muito mais livre que a de seres humanos. E só fica menos complicada se as pessoas forem reduzidas a algo que deveria ser apenas parte delas: a força-de-trabalho.
E isso tudo se agravou depois dos ataques às Torres Gêmeas. Mais do que nunca, os que têm o cabelo crespo, usam turbante ou um véu, tornaram-se alvo fácil para todo tipo de ofensas. É o que mostra o filme, quando o cozinheiro italiano cospe nos sanduíches antes de servi-los a uma família com roupas muçulmanas.
Em alguns momentos, a obra de Goldman mostra toda essa brutalidade. Mas, não aborda, por exemplo, a dura escolha que, freqüentemente, se impõe a muitos imigrantes pobres que moram no chamado “Primeiro Mundo”.
Por um lado, há imigrantes que optam por permanecer entre seus semelhantes. Às vezes, há bairros inteiros em que vivem pessoas da mesma origem nacional. Formam comunidades em torno dos valores e hábitos que compartilham. Algo que aparece claramente quando os personagens do filme assistem a um programa de Raul Gil e vão a um show de Sidney Magal. Tudo isso lhes dá uma sensação de segurança e conforto. Mas, os afasta ainda mais dos nativos, de sua língua e costumes.
Por outro lado, há os que conseguem se integrar à vida social local. Começam a dominar a língua, a cultura e os hábitos do país anfitrião. Fazem amigos, conseguem empregos formais, casam, têm filhos. Mas, o preço é alto. As chances de receber ataques preconceituosos e racistas quando menos esperam são grandes. E eles podem vir de sogros, cunhados, colegas de trabalho, colegas de escola dos filhos etc. Ao mesmo tempo, também podem ser tratados como traidores pela comunidade de seus conterrâneos.
A encruzilhada entre esses dois caminhos parece estar simbolizada no nome que o personagem principal recebeu de seus pais. Menezes de família, mas Jean Charles para fazer fortuna no estrangeiro. Este aspecto o filme não abordou, apesar de dar sinais de que o personagem de Selton Mello pretendia entrar num mundo em que seu nome de batismo tivesse mais importância que seu sobrenome. O assassinato covarde no vagão do metrô acabou sendo uma demonstração bem exagerada de que conquistar algo assim é muito difícil.
Outra dimensão que mal aparece no filme é a natureza abertamente racista das operações do aparelho repressivo britânico. Somente no final, um manifestante faz essa afirmação. Mas é pouco diante da brutalidade da morte de Jean Charles.
A ausência elementos mais esclarecedores pode dar margem a interpretações que justifiquem o que aconteceu. Não em relação ao personagem principal, diretamente, mas ao que ele representa. Jean Charles era estrangeiro, nascido no “Terceiro Mundo”, malandro e ambicioso. Não era um terrorista. Dificilmente alguém diria que merecia a morte que teve. Mas, pertencia a uma parte da população cuja conduta é desaprovada por puro preconceito. E isso é o bastante para torná-la alvo fácil da violência policial. A conclusão conservadora diria que é essa parte da população que deve mudar sua forma de agir e não a polícia.
A possibilidade de que seja esta a moral da história deduzida pelo público é grande. E é alimentada pelos racismos espalhados pelo planeta. Não apenas contra estrangeiros e não brancos. Há também os preconceitos regionais, como é o caso de nordestinos no Brasil. Uma parcela da população brasileira que muitas vezes é tratada como estrangeira dentro de seu país. Somente levando em conta o clima de enorme intolerância em que vivemos, é possível apontar os limites de Jean Charles, o filme.
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