“Professores já utilizam ferramenta para melhor explicar episódios históricos e as mudanças na linguagem do brasileiro”, diz matéria de Eduardo Vanini publicada em 19/08, em O Globo. O texto refere-se à disponibilização pelo próprio jornal de seu acervo completo.
Por enquanto, a consulta pode ser feita gratuitamente. Segundo o periódico, o internauta poderá:
"...navegar pelas edições do jornal desde sua fundação. E consultar tanto as páginas quanto as matérias ou artigos, que foram digitalizados um a um. No total, são mais de 11 milhões de documentos, entre páginas e artigos".
Muitos poderiam achar que a ideia pode se virar contra o jornalão. Afinal, ficaria facilitado o acesso às posições políticas conservadoras que o diário carioca defendeu em vários momentos decisivos da história do País.
Um exemplo clássico é a postura que o Globo adotou no golpe militar de 31 de março de 1964. Em 02 de abril, o jornal publicou o editorial “Ressurge a Democracia!”. Se o título já não fosse explícito o suficiente, alguns trechos confirmam o apoio ao ato ditatorial:
"Vive a nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial à democracia, a lei, a ordem. (...) Mais uma vez o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor".
Logo em seguida, em 9 de abril de 1964, a ditadura baixava o Ato Institucional no 1. A medida estabelecia eleições indiretas para Presidente da República, nomeando o general Castelo Branco por um colégio eleitoral. Também foram cassados mandatos parlamentares e direitos políticos.
Na manhã seguinte, a manchete do jornal de Roberto Marinho dizia: “Cassados os mandatos de 40 parlamentares e suspensos direitos políticos de 58 pessoas”. Apesar disso, um trecho do editorial afirmava:
"Temos fé em que sob a direção do General Castelo Branco, a Nação enfrentará, unida, as dificuldades que a afligem e que afetam especialmente as massas trabalhadoras, para assim retomar o seu lugar no mundo democrático".
Em 27 de outubro de 1962, foi editado o Ato Institucional no 2, que extinguiu os partidos políticos e estabeleceu um sistema bipartidário. De um lado a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), que representava o regime, e de outro o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), em que uma oposição controlada podia se organizar.
O decreto também permitia ao presidente declarar Estado de Sítio, sem a prévia aprovação do Congresso. Entre outras medidas, funcionários públicos perdiam seus direitos e poderiam ser demitidos por ordem presidencial.
Em relação à medida, o editorial de O Globo publicado no dia seguinte dizia: “...o Ato Institucional no 2 contém em seus artigos preceitos que realmente atendem aos interesses do País e da administração pública...”.
Estes são somente alguns exemplos do comprometimento do jornal da família Marinho com o nascimento de um dos períodos mais tenebrosos de nossa história.
Como estes houve muito outros que poderiam manchar a reputação do diário. Mas certamente, seus proprietários contam com poder de monopólio que construíram durante décadas. Procuram tornar os episódios mais vergonhosos menos visíveis em meio à torrente de “11 milhões de documentos” disponíveis. Também se beneficiam da amnésia política que ajudaram a espalhar e contam com a cumplicidade de autoridades e lideranças que até anteontem os acusavam de ser inimigos da democracia.
Cabe a nós, da imprensa alternativa de esquerda e militantes sociais em geral, atrapalhar o máximo possível esses planos.
30 de ago. de 2013
24 de ago. de 2013
O tempo que a grande mídia nos rouba
Muitos comemoram o papel das mídias alternativas nas manifestações populares iniciadas em junho. Não deixa de ser justo, mas é sempre bom temperar o otimismo do entusiasmo com o pessimismo frio dos números.
"Brasileiro passa muito tempo longe dos livros" diz o título da matéria de Cassia Almeida para o Globo, publicada em 09/08. A reportagem trata de pesquisa recentemente divulgada pelo IBGE, que constatou que a leitura ocupa só 6 minutos do dia dos brasileiros, em média.
Foram ouvidas mais de 5 mil pessoas com 10 anos de idade ou mais. O levantamento limitou-se a quatro estados (Pará, São Paulo, Rio Grande do Sul e Pernambuco) e o Distrito Federal. Mas dificilmente a realidade é outra no restante do País.
Mais grave é o que dizem outros números da mesma pesquisa. Enquanto a leitura fica com aquela meia dúzia de minutos, a TV recebe 2h35m de atenção. Também mostram que mais da metade dos entrevistados levantam da cama às 6h45m da manhã. Daí em diante, continua a reportagem, o trabalho domina o dia da maioria das pessoas. Tempo livre mesmo, somente a partir das 21h, "quando o sono vem".
Estes números podem nos dizer algo do papel da grande mídia no sistema de dominação brasileiro. A principal fonte de informação continua a ser a televisão, que, como sabemos, está nas mãos dos monopólios que defendem poderosos interesses econômicos.
As longas jornadas de trabalho, mais as muitas horas de deslocamento em transportes públicos indecentes, roubam tempo não só do descanso, do lazer e da educação. Também inviabilizam qualquer atividade associativa e participação política para a grande maioria da população.
Não por acaso o Jornal Nacional atrasou seu início para as 21h, há alguns anos. O objetivo é continuar bombardeando cérebros cansados e entorpecidos com suas informações deformadas e tendenciosas. Depois, já devidamente dopados, os telespectadores são entregues às imagens e sensações da novela até que durmam.
Uma situação como esta mostra que ainda é muito grande o poder dos monopólios da comunicação. O papel das redes virtuais e das mídias alternativas tem sido muito importante nas atuais mobilizações populares. Mas sem a democratização das comunicações, o tempo da maioria de nós continuará sob controle da ditadura da grande mídia.
"Brasileiro passa muito tempo longe dos livros" diz o título da matéria de Cassia Almeida para o Globo, publicada em 09/08. A reportagem trata de pesquisa recentemente divulgada pelo IBGE, que constatou que a leitura ocupa só 6 minutos do dia dos brasileiros, em média.
Foram ouvidas mais de 5 mil pessoas com 10 anos de idade ou mais. O levantamento limitou-se a quatro estados (Pará, São Paulo, Rio Grande do Sul e Pernambuco) e o Distrito Federal. Mas dificilmente a realidade é outra no restante do País.
Mais grave é o que dizem outros números da mesma pesquisa. Enquanto a leitura fica com aquela meia dúzia de minutos, a TV recebe 2h35m de atenção. Também mostram que mais da metade dos entrevistados levantam da cama às 6h45m da manhã. Daí em diante, continua a reportagem, o trabalho domina o dia da maioria das pessoas. Tempo livre mesmo, somente a partir das 21h, "quando o sono vem".
Estes números podem nos dizer algo do papel da grande mídia no sistema de dominação brasileiro. A principal fonte de informação continua a ser a televisão, que, como sabemos, está nas mãos dos monopólios que defendem poderosos interesses econômicos.
As longas jornadas de trabalho, mais as muitas horas de deslocamento em transportes públicos indecentes, roubam tempo não só do descanso, do lazer e da educação. Também inviabilizam qualquer atividade associativa e participação política para a grande maioria da população.
Não por acaso o Jornal Nacional atrasou seu início para as 21h, há alguns anos. O objetivo é continuar bombardeando cérebros cansados e entorpecidos com suas informações deformadas e tendenciosas. Depois, já devidamente dopados, os telespectadores são entregues às imagens e sensações da novela até que durmam.
Uma situação como esta mostra que ainda é muito grande o poder dos monopólios da comunicação. O papel das redes virtuais e das mídias alternativas tem sido muito importante nas atuais mobilizações populares. Mas sem a democratização das comunicações, o tempo da maioria de nós continuará sob controle da ditadura da grande mídia.
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17 de ago. de 2013
Os ninjas e a luta anticapitalista
A atuação do coletivo Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) está no centro dos debates sobre jornalismo alternativo. Seus integrantes se destacaram no acompanhamento das manifestações populares que começaram em junho passado.
A cobertura do coletivo foi fundamental na denúncia da violência policial e na divulgação das principais pautas dos movimentos. Furou o bloqueio dos monopólios da comunicação e mostrou compromisso com a informação e com as causas das manifestações.
Mas somente aos poucos vai ficando clara qual é a proposta dos ninjas. A presença de dois de seus membros no programa Roda Viva de 05/08, na TV Cultura, ajudou a esclarecer alguns pontos. Diante de jornalistas da grande imprensa, Bruno Torturra e Pablo Capilé deram uma demonstração de segurança quanto ao que fazem e no que acreditam. Enfrentaram com tranquilidade uma bancada que, em grande sua maioria, vacilava entre a hostilidade ignorante e a ignorância hostil.
Mas não deveríamos acreditar que a grande mídia observará tudo isso tranquilamente ou com temor. E não se trata apenas de ataques ao coletivo. Calúnias e insinuações quanto a quem está por trás de seus membros. Mais do que isso, uma proposta como a apresentada pelos ninjas, apesar de sua novidade, corre o risco de ser engolida pelo mercado.
Foi grande a pressão para saber quem banca o coletivo. Os jornalistas presentes sabem muito bem que quem paga a banda, escolhe a música. Torturra e Capilé não se intimidaram. Afirmaram que a Mídia Ninja faz parte do coletivo Fora do Eixo. Trata-se de uma rede solidária de coletivos distribuídos por todo o país e mantida por recursos públicos, obtidos por edital, afirmaram os entrevistados. Sua dinâmica colaborativa e horizontal permitiria potencializar o uso desses recursos. Uma espécie de moeda própria circularia pela rede, viabilizando shows e eventos artísticos, artistas e trabalhadores culturais.
Há muita polêmica cercando esse modo de funcionamento do Fora do Eixo. Principalmente, nas redes virtuais. Muitos apoiam e elogiam a iniciativa, como inovadora e comprometida com a produção cultural alternativa. Mas também há acusações de centralismo, falta de democracia, oportunismo, relações privilegiadas com governos, utilização pouco transparente dos recursos etc.
Mas digamos que as críticas não procedam. Consideremos que o coletivo realmente funcione como seus divulgadores afirmam. Ainda assim, é preciso considerar uma série de questões. A começar pela relação com o mercado.
Para ficar apenas na questão da Mídia Ninja, no programa Roda Viva Torturra deixou muito claro quais são os objetivos perseguidos pelos ninjas. Disse que o ideal do coletivo é tentar criar uma rede financeiramente viável que dê conta não só da demanda por informação de qualidade, mas oferecer oportunidade de trabalho a jornalistas que não encontram vagas no mercado ou que estão sendo despedidos das grandes redações. Portanto, trata-se de uma aposta de mercado, ainda que na contramão dos monopólios que o dominam e se apresente sob a forma de um empreendimento solidário.
Ocorre que não há horizontalidade profissional e princípios colaborativos que possam fazer frente às leis da concorrência capitalista, cada vez mais selvagens. A não ser que a proposta seja aderir a elas. E nesse caso seria bom lembrar uma análise de Rosa Luxemburgo sobre os limites da produção cooperativada. O trecho é de "Reforma ou Revolução", uma das maiores obras da grande revolucionária:
... na economia capitalista a troca domina a produção; por causa da concorrência exige, para que a empresa possa sobreviver, uma impiedosa exploração da força do trabalho, quer dizer. a dominação completa do processo de produção pelos interesses capitalistas. (...) Daí uma cooperativa de produção ter a necessidade, contraditória para os operários, de se governar a si própria com toda a autoridade absoluta necessária e de os seus elementos desempenharem entre si o papel de empresários capitalistas. Dessa contradição morre a cooperativa de produção, ou tornando-se uma empresa capitalista ou, no caso em que os interesses dos operários são mais fortes, se dissolvendo. Estes são os fatos.
É certo que os representantes da Mídia Ninja não concordariam com tal argumentação. Pelo que disseram no programa da TV Cultura, vivemos num momento "pós-industrial", que já teria superado as contradições a que se refere Rosa. Além disso, a iniciativa que propõem não poderia ser caracterizada como uma cooperativa de produção, mas de serviços criativos.
No entanto, uma coisa é inegável. Os lucros movimentados pelo setor de comunicações e produtos culturais são cada vez mais astronômicos. Queiram ou não os ninjas, o setor obedece à lógica da rentabilidade acima de tudo, chamemos ou não isso de capitalismo industrial, de capital material ou imaterial, de setor de transformação ou de serviços. E pequenas iniciativas criativas e inovadoras não são necessariamente contraditórias com essa lógica.
Novamente recorremos a Rosa e ao seu texto, publicado mais de um século atrás. Ainda em "Reforma ou Revolução", ela diz:
No curso geral do desenvolvimento capitalista, os pequenos capitais desempenham o papel, na teoria marxista, de pioneiros da revolução técnica, e isso de maneira dupla: em primeiro lugar no respeitante a novos métodos de produção nos setores antigos fortemente enraizados, depois pela criação de novos setores de produção inexplorados pelos grandes capitais.
Como a comprovar essa tese, basta observarmos os gigantes empresariais que nasceram em garagens, sótãos e porões, como Microsoft, Apple, HP, Google e Youtube. Até pouco tempo atrás, considerados instrumentos de inovação criativa e democratização da informação. Recentemente, desmascarados como colaboradores do sistema de espionagem estadunidense. E agarram-se a suas posições monopolistas como os velhos tubarões do capitalismo.
De qualquer maneira, vivemos em tempos de ditadura midiática. E sob uma ditadura, as forças que a ela resistem devem buscar a maior unidade possível. Os ninjas são muito bem vindos às mobilizações populares da luta anticapitalista. Anticapitalista!
A cobertura do coletivo foi fundamental na denúncia da violência policial e na divulgação das principais pautas dos movimentos. Furou o bloqueio dos monopólios da comunicação e mostrou compromisso com a informação e com as causas das manifestações.
Mas somente aos poucos vai ficando clara qual é a proposta dos ninjas. A presença de dois de seus membros no programa Roda Viva de 05/08, na TV Cultura, ajudou a esclarecer alguns pontos. Diante de jornalistas da grande imprensa, Bruno Torturra e Pablo Capilé deram uma demonstração de segurança quanto ao que fazem e no que acreditam. Enfrentaram com tranquilidade uma bancada que, em grande sua maioria, vacilava entre a hostilidade ignorante e a ignorância hostil.
Mas não deveríamos acreditar que a grande mídia observará tudo isso tranquilamente ou com temor. E não se trata apenas de ataques ao coletivo. Calúnias e insinuações quanto a quem está por trás de seus membros. Mais do que isso, uma proposta como a apresentada pelos ninjas, apesar de sua novidade, corre o risco de ser engolida pelo mercado.
Foi grande a pressão para saber quem banca o coletivo. Os jornalistas presentes sabem muito bem que quem paga a banda, escolhe a música. Torturra e Capilé não se intimidaram. Afirmaram que a Mídia Ninja faz parte do coletivo Fora do Eixo. Trata-se de uma rede solidária de coletivos distribuídos por todo o país e mantida por recursos públicos, obtidos por edital, afirmaram os entrevistados. Sua dinâmica colaborativa e horizontal permitiria potencializar o uso desses recursos. Uma espécie de moeda própria circularia pela rede, viabilizando shows e eventos artísticos, artistas e trabalhadores culturais.
Há muita polêmica cercando esse modo de funcionamento do Fora do Eixo. Principalmente, nas redes virtuais. Muitos apoiam e elogiam a iniciativa, como inovadora e comprometida com a produção cultural alternativa. Mas também há acusações de centralismo, falta de democracia, oportunismo, relações privilegiadas com governos, utilização pouco transparente dos recursos etc.
Mas digamos que as críticas não procedam. Consideremos que o coletivo realmente funcione como seus divulgadores afirmam. Ainda assim, é preciso considerar uma série de questões. A começar pela relação com o mercado.
Para ficar apenas na questão da Mídia Ninja, no programa Roda Viva Torturra deixou muito claro quais são os objetivos perseguidos pelos ninjas. Disse que o ideal do coletivo é tentar criar uma rede financeiramente viável que dê conta não só da demanda por informação de qualidade, mas oferecer oportunidade de trabalho a jornalistas que não encontram vagas no mercado ou que estão sendo despedidos das grandes redações. Portanto, trata-se de uma aposta de mercado, ainda que na contramão dos monopólios que o dominam e se apresente sob a forma de um empreendimento solidário.
Ocorre que não há horizontalidade profissional e princípios colaborativos que possam fazer frente às leis da concorrência capitalista, cada vez mais selvagens. A não ser que a proposta seja aderir a elas. E nesse caso seria bom lembrar uma análise de Rosa Luxemburgo sobre os limites da produção cooperativada. O trecho é de "Reforma ou Revolução", uma das maiores obras da grande revolucionária:
É certo que os representantes da Mídia Ninja não concordariam com tal argumentação. Pelo que disseram no programa da TV Cultura, vivemos num momento "pós-industrial", que já teria superado as contradições a que se refere Rosa. Além disso, a iniciativa que propõem não poderia ser caracterizada como uma cooperativa de produção, mas de serviços criativos.
No entanto, uma coisa é inegável. Os lucros movimentados pelo setor de comunicações e produtos culturais são cada vez mais astronômicos. Queiram ou não os ninjas, o setor obedece à lógica da rentabilidade acima de tudo, chamemos ou não isso de capitalismo industrial, de capital material ou imaterial, de setor de transformação ou de serviços. E pequenas iniciativas criativas e inovadoras não são necessariamente contraditórias com essa lógica.
Novamente recorremos a Rosa e ao seu texto, publicado mais de um século atrás. Ainda em "Reforma ou Revolução", ela diz:
Como a comprovar essa tese, basta observarmos os gigantes empresariais que nasceram em garagens, sótãos e porões, como Microsoft, Apple, HP, Google e Youtube. Até pouco tempo atrás, considerados instrumentos de inovação criativa e democratização da informação. Recentemente, desmascarados como colaboradores do sistema de espionagem estadunidense. E agarram-se a suas posições monopolistas como os velhos tubarões do capitalismo.
De qualquer maneira, vivemos em tempos de ditadura midiática. E sob uma ditadura, as forças que a ela resistem devem buscar a maior unidade possível. Os ninjas são muito bem vindos às mobilizações populares da luta anticapitalista. Anticapitalista!
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9 de ago. de 2013
Reforçar as guerrilhas da comunicação
Entre as muitas lições das manifestações populares que vêm chacoalhando o País, está a de que vivemos uma sob uma verdadeira ditadura da grande mídia.
O jornalismo empresarial faz uma cobertura dos acontecimentos que é tendenciosa, criminaliza os movimentos sociais, omite, mente, esconde, distorce. Causa na esfera da informação estrago equivalente ao provocado por balas de borracha, spray de pimenta e gás lacrimogêneo nas ruas.
Um exemplo é a cobertura jornalística dos protestos que acabaram em depredação de lojas e bancos no Leblon. A gritaria que a grande imprensa fez só é comparável com o silêncio com que tratou a morte de dez pessoas na favela da Maré, vinte dias antes. O grande patrimônio de uma dúzia de pessoas colocado acima das vidas de milhares.
Não estamos vivendo sob uma ditadura política. Mas não se pode dizer o mesmo quanto ao direito à informação, que está soterrado sob o peso de grandes monopólios. Felizmente do nosso lado, temos a cobertura feita por centenas de jornalistas alternativos com suas microcâmeras e celulares. Desmascarando a mídia empresarial em blogs, redes virtuais, rádios e jornais comunitários e sindicais. No asfalto e nas comunidades.
Essas mulheres e homens heroicos e comprometidos com as lutas populares desempenham um papel fundamental. Um exemplo claro foi o caso do molotov atirado em policiais nas manifestações do dia 22/07. Foram as imagens da mídia alternativa que mostraram que o artefato foi atirado por um policial infiltrado. É isso que torna essa verdadeira guerrilha da informação tão odiada pelas forças da repressão e governantes de plantão.
Sob uma ditadura política, a luta popular aberta contra os poderosos é desigual e dificilmente escapa à derrota. Daí, a necessidade de ações pequenas, mas eficientes e que ajudem a acumular forças para um momento favorável.
Do mesmo modo, enquanto durar a ditadura midiática, teremos que nos limitar às escaramuças pontuais e estratégicas. Acumular forças e reunir condições para travar o grande combate. Mas este só será vitorioso se deixarmos para trás aqueles que vacilam entre a covardia e a cumplicidade em relação aos poderosos da mídia.
O apoio a governos progressistas, ou que pretendem sê-lo, é possível. Muitas vezes, pode ser necessário. A pressão sobre parlamentares, também. Mas é imprescindível evitar a dependência em relação aos "poderes constituídos", sempre embaraçados nas cordas que atam o Estado ao grande capital. Nossas principais lutas têm que ser travadas nas ruas, com câmeras, gravadores e muita disposição.
O jornalismo empresarial faz uma cobertura dos acontecimentos que é tendenciosa, criminaliza os movimentos sociais, omite, mente, esconde, distorce. Causa na esfera da informação estrago equivalente ao provocado por balas de borracha, spray de pimenta e gás lacrimogêneo nas ruas.
Um exemplo é a cobertura jornalística dos protestos que acabaram em depredação de lojas e bancos no Leblon. A gritaria que a grande imprensa fez só é comparável com o silêncio com que tratou a morte de dez pessoas na favela da Maré, vinte dias antes. O grande patrimônio de uma dúzia de pessoas colocado acima das vidas de milhares.
Não estamos vivendo sob uma ditadura política. Mas não se pode dizer o mesmo quanto ao direito à informação, que está soterrado sob o peso de grandes monopólios. Felizmente do nosso lado, temos a cobertura feita por centenas de jornalistas alternativos com suas microcâmeras e celulares. Desmascarando a mídia empresarial em blogs, redes virtuais, rádios e jornais comunitários e sindicais. No asfalto e nas comunidades.
Essas mulheres e homens heroicos e comprometidos com as lutas populares desempenham um papel fundamental. Um exemplo claro foi o caso do molotov atirado em policiais nas manifestações do dia 22/07. Foram as imagens da mídia alternativa que mostraram que o artefato foi atirado por um policial infiltrado. É isso que torna essa verdadeira guerrilha da informação tão odiada pelas forças da repressão e governantes de plantão.
Sob uma ditadura política, a luta popular aberta contra os poderosos é desigual e dificilmente escapa à derrota. Daí, a necessidade de ações pequenas, mas eficientes e que ajudem a acumular forças para um momento favorável.
Do mesmo modo, enquanto durar a ditadura midiática, teremos que nos limitar às escaramuças pontuais e estratégicas. Acumular forças e reunir condições para travar o grande combate. Mas este só será vitorioso se deixarmos para trás aqueles que vacilam entre a covardia e a cumplicidade em relação aos poderosos da mídia.
O apoio a governos progressistas, ou que pretendem sê-lo, é possível. Muitas vezes, pode ser necessário. A pressão sobre parlamentares, também. Mas é imprescindível evitar a dependência em relação aos "poderes constituídos", sempre embaraçados nas cordas que atam o Estado ao grande capital. Nossas principais lutas têm que ser travadas nas ruas, com câmeras, gravadores e muita disposição.
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8 de ago. de 2013
“O Som ao Redor”: a tranquilidade que antecipa a explosão
O filme "O Som ao Redor" está chegando às locadoras. Quem não viu, deve aproveitar a oportunidade. E quem assistiu, tem motivos para repetir a dose.
A produção do cineasta pernambucano Kléber Mendonça Filho tem muitos méritos. Elenco, fotografia, direção, roteiro. Mas é o clima de suspense que prende a atenção. A trama trata basicamente de uma área residencial em um bairro de classe média de Recife. Os integrantes de uma milícia aparecem oferecendo segurança particular aos moradores.
Um idoso que é latifundiário no interior, possui vários imóveis na capital. É o patriarca local, de quem os milicianos conseguem autorização para atuar.
Tudo parece sob controle. Mas a tensão cresce.
Uma jovem dona de casa não consegue dormir por causa dos latidos do cachorro do vizinho. Durante o dia, fuma maconha e se masturba. Um dos netos do patriarca comete furtos em automóveis da vizinhança, desafiando os novos seguranças. Outro neto não sabe o que fazer da vida de conforto material que leva. Um casal de adolescentes se agarra pelos cantos. As empregadas vão e vêm como sombras. Festinhas rolam e automóveis cruzam as pacatas ruas em alta velocidade.
Estes e outros elementos compõem o som que rodeia o conforto do bairro. Rumor incômodo, acumulado por um ódio e sede de vingança só revelados no final do filme. Esse ruído acompanha a história brasileira há séculos, produto da truculência dos que incluem vidas humanas entre os bens de que podem dispor.
Lançado meses antes das manifestações que abalam o País, o filme parecia pressentir alguma coisa. A tranquilidade e a segurança aparentes podem preceder a explosão.
A produção do cineasta pernambucano Kléber Mendonça Filho tem muitos méritos. Elenco, fotografia, direção, roteiro. Mas é o clima de suspense que prende a atenção. A trama trata basicamente de uma área residencial em um bairro de classe média de Recife. Os integrantes de uma milícia aparecem oferecendo segurança particular aos moradores.
Um idoso que é latifundiário no interior, possui vários imóveis na capital. É o patriarca local, de quem os milicianos conseguem autorização para atuar.
Tudo parece sob controle. Mas a tensão cresce.
Uma jovem dona de casa não consegue dormir por causa dos latidos do cachorro do vizinho. Durante o dia, fuma maconha e se masturba. Um dos netos do patriarca comete furtos em automóveis da vizinhança, desafiando os novos seguranças. Outro neto não sabe o que fazer da vida de conforto material que leva. Um casal de adolescentes se agarra pelos cantos. As empregadas vão e vêm como sombras. Festinhas rolam e automóveis cruzam as pacatas ruas em alta velocidade.
Estes e outros elementos compõem o som que rodeia o conforto do bairro. Rumor incômodo, acumulado por um ódio e sede de vingança só revelados no final do filme. Esse ruído acompanha a história brasileira há séculos, produto da truculência dos que incluem vidas humanas entre os bens de que podem dispor.
Lançado meses antes das manifestações que abalam o País, o filme parecia pressentir alguma coisa. A tranquilidade e a segurança aparentes podem preceder a explosão.
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28 de jan. de 2012
Menos Google e Facebook, mais luta
Ferramentas como Google e Facebook podem até ajudar nas mobilizações sociais. Mas são mecanismos criados principalmente para aumentar o consumismo e a alienação. Só de forma muito eventual podem servir à transformação social.
Quem usa a ferramenta de busca do Google sabe como é. Você começa a digitar uma palavra para fazer uma pesquisa e o programa se encarrega de completá-la. É como se adivinhasse nossos pensamentos.
O recurso pode até ser desativado. Mas isso não é possível em relação a outros mecanismos, igualmente utilizados por ferramentas como Google e Facebook. A pretexto de nos facilitar a vida, elas nos levam por caminhos que não escolhemos. Geralmente, estão a serviço do consumo.
Se você costuma consumir usando a internete faz parte de uma minoria. Ainda. A previsão de crescimento do chamado “e-commerce” é de 30% ao ano. Já nas vendas tradicionais a expansão não deve passar de 5%. As vendas por meios virtuais em 2010 representaram 4% do varejo no Brasil. Mas a participação deve chegar a 8% em 2015.
O custo bem menor em contratação de pessoal e instalações tem tudo para tornar esse tipo de transação comercial majoritário em algumas décadas. O problema é que o “e-commerce” não é apenas uma forma mais ágil e econômica de comprar. Seu poder de induzir ao consumo, ao mesmo tempo em que aliena o comprador é bem maior.
É só imaginar uma loja de departamentos que altere seu layout de acordo com o gosto de cada cliente que entra nela. Você adora literatura, por exemplo. É só passar da soleira da porta da loja para que estantes cheias de livros brotem na sua frente. É doido por surfe? Uma coleção colorida de pranchas e acessórios surge no seu caminho.
Na loja física, isso seria impossível. Na virtual, isso já acontece graças ao uso do que os programadores chamam de algoritmos. Comandos que identificam a freqüência de acessos do usuário para cada tipo de produto.
Se eu acesso com muitas vezes a sessão de filmes numa loja eletrônica, ela passa a me oferecer produtos desse tipo. Basta que eu aceite me identificar cada vez que entrar na página. Algo que terei que fazer se quiser adquirir uma mercadoria.
Há três grandes problemas nesse tipo de relação. Em primeiro lugar, a já temida perda de privacidade. Nossos dados estão espalhados pela rede. Nossos gostos, preferências, vícios, relações. E não apenas pela parte abertamente comercial da rede. O acesso gratuito a serviços de e-mail, arquivamento de dados, programas, jogos, torna essa oferta de informações cada vez mais voluntária.
Em segundo lugar, está o consumismo. O conforto e facilidade do acesso aos produtos facilitam e incentivam o consumo. Daí para o consumismo pode ser um pulo. Um problema que está longe de ser de segunda ordem. A produção de desperdício e lixo no planeta está chegando a níveis que colocam em risco a vida em muitas partes do planeta.
Um terceiro problema é a acentuação da visão parcial e isolada das coisas humanas. Posso achar que literatura é a melhor coisa do mundo. Mas não seria bom achar que somente ela apresenta essa condição. E mesmo no âmbito da produção literária, não seria bom considerar, por exemplo, que somente livros policiais valem a pena ser lidos.
É isso o que a rápida e fácil adaptação ao gosto da clientela oferecida pelas lojas virtuais podem fazer. Afastar seus consumidores de muitas das possibilidades oferecidas pela criatividade humana. O mesmo pode acontecer em ambientes menos comerciais. O fato é que para a lógica que impera ou somos consumidores ou não somos nada.
Mas os efeitos dessas ferramentas não se limitam à esfera do consumo. Do mesmo modo que influenciam de forma tão poderosa nossas decisões de mercado, também dominam a formação de nossas opiniões e escolhas.
No Facebook, por exemplo, há comandos que fazem desaparecer links menos freqüentados. Pode ser uma comodidade, por um lado. Por outro lado, é uma limitação perigosa.
É perfeitamente compreensível que alguém goste de futebol e odeie política. Mas isso não quer dizer que a política tenha que ser ignorada. Gostemos ou não, é importante saber o que acontece nos governos, parlamentos ou nas ruas e praças ocupadas por pessoas revoltadas. Afinal, esse tipo de atividade costuma determinar os rumos de nossas vidas.
Muita gente considera a Matemática um pesadelo. Nem por isso aceitaria abolir a ciência dos cálculos da vida social. Os filtros utilizados pelo Google e Facebook fazem algo parecido. Dão a impressão de que a matemática e a política sumiram. Mas elas continuam agindo e influenciando pesadamente a vida de todos.
É provável que esta seja a dimensão mais poderosa desse tipo de mecanismo. Claro que é perigoso permitir que uma grande quantidade de dados privados acabe estocada nos servidores desses grandes monopólios da informação. Eles poderiam ser facilmente utilizados pelo Estado em uma caça às bruxas contra lutadores sociais, militantes e líderes populares.
Mas lutadores, militantes e lideranças populares ficam muito menos perigosos se não conseguem atrair a atenção da maior parte da sociedade. Principalmente, de seus setores mais explorados e oprimidos. E é isso que mecanismos como o Facebook e Google fazem. Isolam aqueles que lutam por transformações políticas e sociais da maioria das pessoas. Erguem uma barreira feita de insistentes apelos ao consumo e ao individualismo.
A criação do Google, Twitter e Facebook não foi um raio num céu azul. A genialidade de seus criadores é inegável. No entanto, seu surgimento corresponde à lógica econômica e social do capitalismo. São apenas o estágio mais recente e evoluído da capacidade que os controladores do sistema têm para monopolizar nossa atenção. Representam mais uma vitória da burguesia na disputa por hegemonia. Assim como aconteceu com a utilização da imprensa, do rádio, do cinema, da TV.
A grande diferença que esse tipo de comunicação apresenta é sua interatividade. E isso aconteceu porque o Capital precisou facilitar e agilizar a troca de mercadorias e informações. Do contrário, não conseguiria manter suas taxas de lucros. Algo que os monopólios tradicionais da radiodifusão já não estavam conseguindo fazer.
De um lado, essa característica abriu novas brechas para usos contra-hegemônicos das “redes sociais” e assemelhados. Por outro lado, trata-se de um tipo de comunicação tão monopolizado por grandes corporações quanto outras mídias.
Então, a luta tem que ser a mesma. Pelo fim dos monopólios dos meios de comunicação, incluindo a rede mundial de computadores. Podemos até usar Twitter, Facebook, Google pra travar essa luta, mas sem ilusões. Para cada internauta engajado socialmente, há milhares de seguidores presos nas redes criadas pelos Zuckebergs do mercado.
A mobilização social não exclui a utilização de Google, Twitter ou Facebook. O perigo é substituir a luta real por batalhas virtuais com alcance muito limitado.
Quem usa a ferramenta de busca do Google sabe como é. Você começa a digitar uma palavra para fazer uma pesquisa e o programa se encarrega de completá-la. É como se adivinhasse nossos pensamentos.
O recurso pode até ser desativado. Mas isso não é possível em relação a outros mecanismos, igualmente utilizados por ferramentas como Google e Facebook. A pretexto de nos facilitar a vida, elas nos levam por caminhos que não escolhemos. Geralmente, estão a serviço do consumo.
Se você costuma consumir usando a internete faz parte de uma minoria. Ainda. A previsão de crescimento do chamado “e-commerce” é de 30% ao ano. Já nas vendas tradicionais a expansão não deve passar de 5%. As vendas por meios virtuais em 2010 representaram 4% do varejo no Brasil. Mas a participação deve chegar a 8% em 2015.
O custo bem menor em contratação de pessoal e instalações tem tudo para tornar esse tipo de transação comercial majoritário em algumas décadas. O problema é que o “e-commerce” não é apenas uma forma mais ágil e econômica de comprar. Seu poder de induzir ao consumo, ao mesmo tempo em que aliena o comprador é bem maior.
É só imaginar uma loja de departamentos que altere seu layout de acordo com o gosto de cada cliente que entra nela. Você adora literatura, por exemplo. É só passar da soleira da porta da loja para que estantes cheias de livros brotem na sua frente. É doido por surfe? Uma coleção colorida de pranchas e acessórios surge no seu caminho.
Na loja física, isso seria impossível. Na virtual, isso já acontece graças ao uso do que os programadores chamam de algoritmos. Comandos que identificam a freqüência de acessos do usuário para cada tipo de produto.
Se eu acesso com muitas vezes a sessão de filmes numa loja eletrônica, ela passa a me oferecer produtos desse tipo. Basta que eu aceite me identificar cada vez que entrar na página. Algo que terei que fazer se quiser adquirir uma mercadoria.
Há três grandes problemas nesse tipo de relação. Em primeiro lugar, a já temida perda de privacidade. Nossos dados estão espalhados pela rede. Nossos gostos, preferências, vícios, relações. E não apenas pela parte abertamente comercial da rede. O acesso gratuito a serviços de e-mail, arquivamento de dados, programas, jogos, torna essa oferta de informações cada vez mais voluntária.
Em segundo lugar, está o consumismo. O conforto e facilidade do acesso aos produtos facilitam e incentivam o consumo. Daí para o consumismo pode ser um pulo. Um problema que está longe de ser de segunda ordem. A produção de desperdício e lixo no planeta está chegando a níveis que colocam em risco a vida em muitas partes do planeta.
Um terceiro problema é a acentuação da visão parcial e isolada das coisas humanas. Posso achar que literatura é a melhor coisa do mundo. Mas não seria bom achar que somente ela apresenta essa condição. E mesmo no âmbito da produção literária, não seria bom considerar, por exemplo, que somente livros policiais valem a pena ser lidos.
É isso o que a rápida e fácil adaptação ao gosto da clientela oferecida pelas lojas virtuais podem fazer. Afastar seus consumidores de muitas das possibilidades oferecidas pela criatividade humana. O mesmo pode acontecer em ambientes menos comerciais. O fato é que para a lógica que impera ou somos consumidores ou não somos nada.
Mas os efeitos dessas ferramentas não se limitam à esfera do consumo. Do mesmo modo que influenciam de forma tão poderosa nossas decisões de mercado, também dominam a formação de nossas opiniões e escolhas.
No Facebook, por exemplo, há comandos que fazem desaparecer links menos freqüentados. Pode ser uma comodidade, por um lado. Por outro lado, é uma limitação perigosa.
É perfeitamente compreensível que alguém goste de futebol e odeie política. Mas isso não quer dizer que a política tenha que ser ignorada. Gostemos ou não, é importante saber o que acontece nos governos, parlamentos ou nas ruas e praças ocupadas por pessoas revoltadas. Afinal, esse tipo de atividade costuma determinar os rumos de nossas vidas.
Muita gente considera a Matemática um pesadelo. Nem por isso aceitaria abolir a ciência dos cálculos da vida social. Os filtros utilizados pelo Google e Facebook fazem algo parecido. Dão a impressão de que a matemática e a política sumiram. Mas elas continuam agindo e influenciando pesadamente a vida de todos.
É provável que esta seja a dimensão mais poderosa desse tipo de mecanismo. Claro que é perigoso permitir que uma grande quantidade de dados privados acabe estocada nos servidores desses grandes monopólios da informação. Eles poderiam ser facilmente utilizados pelo Estado em uma caça às bruxas contra lutadores sociais, militantes e líderes populares.
Mas lutadores, militantes e lideranças populares ficam muito menos perigosos se não conseguem atrair a atenção da maior parte da sociedade. Principalmente, de seus setores mais explorados e oprimidos. E é isso que mecanismos como o Facebook e Google fazem. Isolam aqueles que lutam por transformações políticas e sociais da maioria das pessoas. Erguem uma barreira feita de insistentes apelos ao consumo e ao individualismo.
A criação do Google, Twitter e Facebook não foi um raio num céu azul. A genialidade de seus criadores é inegável. No entanto, seu surgimento corresponde à lógica econômica e social do capitalismo. São apenas o estágio mais recente e evoluído da capacidade que os controladores do sistema têm para monopolizar nossa atenção. Representam mais uma vitória da burguesia na disputa por hegemonia. Assim como aconteceu com a utilização da imprensa, do rádio, do cinema, da TV.
A grande diferença que esse tipo de comunicação apresenta é sua interatividade. E isso aconteceu porque o Capital precisou facilitar e agilizar a troca de mercadorias e informações. Do contrário, não conseguiria manter suas taxas de lucros. Algo que os monopólios tradicionais da radiodifusão já não estavam conseguindo fazer.
De um lado, essa característica abriu novas brechas para usos contra-hegemônicos das “redes sociais” e assemelhados. Por outro lado, trata-se de um tipo de comunicação tão monopolizado por grandes corporações quanto outras mídias.
Então, a luta tem que ser a mesma. Pelo fim dos monopólios dos meios de comunicação, incluindo a rede mundial de computadores. Podemos até usar Twitter, Facebook, Google pra travar essa luta, mas sem ilusões. Para cada internauta engajado socialmente, há milhares de seguidores presos nas redes criadas pelos Zuckebergs do mercado.
A mobilização social não exclui a utilização de Google, Twitter ou Facebook. O perigo é substituir a luta real por batalhas virtuais com alcance muito limitado.
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30 de out. de 2011
Aos 40 anos, a Globo quer ser a senhora do destino
Texto de 2005
"Senhora do Destino" atrai 45 milhões de telespectadores diariamente. Reportagem da revista Veja explica bem o fenômeno. Mas não tira a conclusão necessária. A de que a estratégia das novelas globais é totalitária. Algo que vem sendo construído há 40 anos.
A novela "Senhora do Destino" da TV Globo foi para a capa da Veja de 09/02/2005. O motivo disso não é apenas a boa relação entre as duas maiores porta-vozes dos interesses conservadores. Segundo o Ibope a novela de Aguinaldo Silva tem uma audiência de cerca de 45 milhões de pessoas diariamente. Em 2 de fevereiro, ela teria sido assistida em 80 de cada 100 lares do País.
Por incrível que pareça a matéria de Veja é até bem feita. Claro que não tem uma vírgula de críticas. Mas, aplica um raio-x no esquema global de novelas que pode nos ajudar a entender as razões para tanta audiência. Pra começar destaca o uso da velha e atraente oposição entre o Bem e o Mal. No caso, as personagens Maria do Carmo (Suzana Vieira) e Nazaré (Renata Sorrah). Ricardo Valladares, autor da reportagem, explica que "na literatura e na dramaturgia 'sérias' as fronteiras entre bem e mal tendem a ser borradas". É verdade. O jornalista também diz que "uma das principais marcas da ficção popular tem sido a falta de pudor em dividir o mundo de maneira muito definida entre luz e trevas. Isso vale para o folhetim escrito, tanto quanto para o eletrônico". Um raciocínio correto, sem dúvida. Mas, para sermos coerentes com ele, teríamos que colocar a revista para a qual Valladares trabalha na categoria de folhetim, dada a facilidade com que trata os movimentos sociais como demônios.
A reportagem destaca que mesmo essa surrada fórmula que opõe bonzinhos e vilões apela para truques novos. Um deles é fazer de Nazaré uma espécie de "vilã de desenho animado", segundo as palavras de Aguinaldo Silva. A reportagem explica que a maldosa mulher "já apanhou e viu sua máscara cair em diversas situações. Sempre se reergue, ainda que estropiada". Renata Sorrah confirma essa idéia. Diz que é comum crianças lhe pedirem autógrafo mais do que seria normal para alguém que interpreta uma verdadeira bruxa má. Sinal de que a máquina de fazer novelas da Globo está sintonizada com a crescente adaptação infantil ao mal inevitável. Algo que vem sendo gradualmente trabalhado por desenhos animados, vídeo-games, filmes e programas de tevê. Não sem a enorme ajuda de uma realidade extremamente violenta.
Definindo o que as famílias devem conversar
Mas "Senhora do Destino" vai muito além da conhecida exploração da rivalidade entre mal e bem. A reportagem fala da já conhecida capacidade das novelas globais em introduzir temas polêmicos em suas tramas. E "Senhora do Destino" parece ter chegado ao máximo nesta fórmula. Há um casal feminino de homossexuais vivido por Eleonora (Mylla Christie) e Jenifer (Bárbara Borges). Glória Menezes faz o papel da baronesa de Bonsucesso, que sofre da doença de Alzheimer, comum entre idosos. Reginaldo (Eduardo Moscovis) é prefeito da fictícia Vila São Miguel. É o próprio modelo de político corrupto e conta com o apoio da mulher, Viviane (Leticia Spiller) para suas bandalheiras. Outro tema presente é a gravidez na adolescência, através da personagem Lady Daiane (Jéssica Sodré). E ainda há a violência doméstica, de que é vítima Rita (Adriana Lessa). Pobre e a negra, a personagem era uma esposa submissa que levava surras do marido, do qual felizmente se livrou. Cada um desses temas são abordados do modo mais didático e avançado possível. Os diálogos viram aulas sobre tolerância, prevenção, ética na política, condenação ao machismo, etc.
Qual é o problema nisso tudo? Em primeiro lugar, alguns temas são tratados de forma meio enfeitada. Por exemplo, o casal lésbico é vivido por duas atrizes consideradas bonitas. Um primeiro passo para amenizar a rejeição preconceituosa do público. Além disso, segundo a reportagem de Veja, o casal também conta com a simpatia da audiência "graças à forma como se construiu a relação de ambas. Elas tiveram a aprovação dos pais, vão morar juntas e pretendem adotar um filho". Sem dúvida, um caso raro.
No entanto, muitos diriam, com razão, que se trata de uma obra de ficção, não de um documentário. Está bem. Daremos o devido desconto. O problema é outro. É a tentativa sempre renovada pela Globo para preencher todos os espaços de pensamento e reflexão. A matéria de Valladares fala das novelas. Identifica corretamente a estratégia da emissora. Vejam o que ele diz: "Ao longo dos anos, os autores da Rede Globo refinaram uma série de técnicas para conquistar a atenção do público. São referências críticas na trama ao cenário político nacional, a abordagem de assuntos polêmicos como a homossexualidade ou a violência doméstica (que assim entram na pauta de conversa das famílias) e a prestação de informações sobre doenças e outras aflições do brasileiro - o chamado 'merchandising do bem'". É isso mesmo. Com a desculpa de que faz propaganda do bem, a Globo define o que deve ou não deve entrar na "conversa das famílias".
Separação entre realidade e aparência acomoda preconceitos
Ao mesmo tempo, há uma ilusão aí. Exatamente por ser algo de cima pra baixo, imposto pelo monopólio dos meios de comunicação, é que os efeitos desse "merchandising do bem" tendem a ser superficiais. Não mudam necessariamente comportamentos violentos, preconceituosos, desonestos etc. Ao contrário, estimulam os comportamentos de fachada. Que não vão às raízes dos problemas. É só observar o resultado de pesquisas sobre racismo. Por exemplo, em 2003 o Núcleo de Opinião Pública (NOP) da Fundação Perseu Abramo fez uma pesquisa nacional sobre a questão. O resultado surpreende: 90% da população diz existir racismo e, no entanto, só 19% manifestam preconceito.
Há uma grande separação entre realidade e aparência, que acomoda a sociedade a seus conflitos de classe, cor, orientação sexual, etc. O problema é que a tal "propaganda do bem" não tem qualquer correspondente na realidade. Os preconceitos não nascem apenas da pouca informação, da falta de diálogo etc. Medidas como mais escolas, emprego, mais informação e melhor qualidade de vida não diminuem automaticamente o preconceito. No entanto, criam condições para que isso aconteça.
Enquanto essas medidas não são colocadas em prática, as classes dominantes vão reinando tranqüilas. Fazendo uso não só da exploração, mas da divisão que os preconceitos e a violência causam entre os de baixo. E as novelas da Globo são parte importante dessa acomodação. São 45 milhões de pessoas vendo diariamente a imagem de uma vida mais justa e esquecendo de suas próprias desgraças.
Basta ver como as novelas impregnam toda a programação da poderosa emissora. Logo após o meio-dia, o "Vídeo-Show" mostra trechos de novelas, entrevista seus atores e diretores, faz jogos para ver quem acerta mais questões sobre novelas novas e antigas. Durante a tarde, novelas antigas são repetidas em "Vale a pena ver de novo". A partir das 17:30h, "Malhação" inaugura a maratona de folhetins, interrompida apenas pelo Jornal Nacional. E este último, sempre teve mais atores do que jornalistas na apresentação do que parecem ser mais imagens bem feitas do que notícias. O "Casseta e Planeta" avacalha as novelas, o "Faustão" só elogia. O fato é que todos colaboram para fazer "as famílias conversarem" sobre as produções globais.
Enfim, a reportagem de Valladares é bem feita, apesar de ter sido publicada na mais conservadora e pior revista do País. Deve ser por isso mesmo que a matéria não mostra que toda essa capacidade dramatúrgica da Rede Globo está a serviço de uma estratégia totalitária. Que quer impor tudo o que ela pensa a todos. Sem deixar espaço para ninguém mais, a não ser para seus amigos poderosos. Uma estratégia de quem vem há 40 anos fazendo o jogo do poder participando dele, combatendo os movimentos sociais da forma mais inteligente e destrutiva. Pela guerra das idéias, pela omissão e distorção. Exibindo somente os pedaços da realidade que interessam aos poderosos. Falando de preconceitos, apenas para que circulem e se multipliquem de maneira mais comportada.
Aos 40 anos, a Globo continua pretendendo ser senhora de nosso destino. Continua se achando acima do bem e do mal. Cabe a nós dar fim a essa grande e poderosa fábrica de preconceitos
"Senhora do Destino" atrai 45 milhões de telespectadores diariamente. Reportagem da revista Veja explica bem o fenômeno. Mas não tira a conclusão necessária. A de que a estratégia das novelas globais é totalitária. Algo que vem sendo construído há 40 anos.
A novela "Senhora do Destino" da TV Globo foi para a capa da Veja de 09/02/2005. O motivo disso não é apenas a boa relação entre as duas maiores porta-vozes dos interesses conservadores. Segundo o Ibope a novela de Aguinaldo Silva tem uma audiência de cerca de 45 milhões de pessoas diariamente. Em 2 de fevereiro, ela teria sido assistida em 80 de cada 100 lares do País.
Por incrível que pareça a matéria de Veja é até bem feita. Claro que não tem uma vírgula de críticas. Mas, aplica um raio-x no esquema global de novelas que pode nos ajudar a entender as razões para tanta audiência. Pra começar destaca o uso da velha e atraente oposição entre o Bem e o Mal. No caso, as personagens Maria do Carmo (Suzana Vieira) e Nazaré (Renata Sorrah). Ricardo Valladares, autor da reportagem, explica que "na literatura e na dramaturgia 'sérias' as fronteiras entre bem e mal tendem a ser borradas". É verdade. O jornalista também diz que "uma das principais marcas da ficção popular tem sido a falta de pudor em dividir o mundo de maneira muito definida entre luz e trevas. Isso vale para o folhetim escrito, tanto quanto para o eletrônico". Um raciocínio correto, sem dúvida. Mas, para sermos coerentes com ele, teríamos que colocar a revista para a qual Valladares trabalha na categoria de folhetim, dada a facilidade com que trata os movimentos sociais como demônios.
A reportagem destaca que mesmo essa surrada fórmula que opõe bonzinhos e vilões apela para truques novos. Um deles é fazer de Nazaré uma espécie de "vilã de desenho animado", segundo as palavras de Aguinaldo Silva. A reportagem explica que a maldosa mulher "já apanhou e viu sua máscara cair em diversas situações. Sempre se reergue, ainda que estropiada". Renata Sorrah confirma essa idéia. Diz que é comum crianças lhe pedirem autógrafo mais do que seria normal para alguém que interpreta uma verdadeira bruxa má. Sinal de que a máquina de fazer novelas da Globo está sintonizada com a crescente adaptação infantil ao mal inevitável. Algo que vem sendo gradualmente trabalhado por desenhos animados, vídeo-games, filmes e programas de tevê. Não sem a enorme ajuda de uma realidade extremamente violenta.
Definindo o que as famílias devem conversar
Mas "Senhora do Destino" vai muito além da conhecida exploração da rivalidade entre mal e bem. A reportagem fala da já conhecida capacidade das novelas globais em introduzir temas polêmicos em suas tramas. E "Senhora do Destino" parece ter chegado ao máximo nesta fórmula. Há um casal feminino de homossexuais vivido por Eleonora (Mylla Christie) e Jenifer (Bárbara Borges). Glória Menezes faz o papel da baronesa de Bonsucesso, que sofre da doença de Alzheimer, comum entre idosos. Reginaldo (Eduardo Moscovis) é prefeito da fictícia Vila São Miguel. É o próprio modelo de político corrupto e conta com o apoio da mulher, Viviane (Leticia Spiller) para suas bandalheiras. Outro tema presente é a gravidez na adolescência, através da personagem Lady Daiane (Jéssica Sodré). E ainda há a violência doméstica, de que é vítima Rita (Adriana Lessa). Pobre e a negra, a personagem era uma esposa submissa que levava surras do marido, do qual felizmente se livrou. Cada um desses temas são abordados do modo mais didático e avançado possível. Os diálogos viram aulas sobre tolerância, prevenção, ética na política, condenação ao machismo, etc.
Qual é o problema nisso tudo? Em primeiro lugar, alguns temas são tratados de forma meio enfeitada. Por exemplo, o casal lésbico é vivido por duas atrizes consideradas bonitas. Um primeiro passo para amenizar a rejeição preconceituosa do público. Além disso, segundo a reportagem de Veja, o casal também conta com a simpatia da audiência "graças à forma como se construiu a relação de ambas. Elas tiveram a aprovação dos pais, vão morar juntas e pretendem adotar um filho". Sem dúvida, um caso raro.
No entanto, muitos diriam, com razão, que se trata de uma obra de ficção, não de um documentário. Está bem. Daremos o devido desconto. O problema é outro. É a tentativa sempre renovada pela Globo para preencher todos os espaços de pensamento e reflexão. A matéria de Valladares fala das novelas. Identifica corretamente a estratégia da emissora. Vejam o que ele diz: "Ao longo dos anos, os autores da Rede Globo refinaram uma série de técnicas para conquistar a atenção do público. São referências críticas na trama ao cenário político nacional, a abordagem de assuntos polêmicos como a homossexualidade ou a violência doméstica (que assim entram na pauta de conversa das famílias) e a prestação de informações sobre doenças e outras aflições do brasileiro - o chamado 'merchandising do bem'". É isso mesmo. Com a desculpa de que faz propaganda do bem, a Globo define o que deve ou não deve entrar na "conversa das famílias".
Separação entre realidade e aparência acomoda preconceitos
Ao mesmo tempo, há uma ilusão aí. Exatamente por ser algo de cima pra baixo, imposto pelo monopólio dos meios de comunicação, é que os efeitos desse "merchandising do bem" tendem a ser superficiais. Não mudam necessariamente comportamentos violentos, preconceituosos, desonestos etc. Ao contrário, estimulam os comportamentos de fachada. Que não vão às raízes dos problemas. É só observar o resultado de pesquisas sobre racismo. Por exemplo, em 2003 o Núcleo de Opinião Pública (NOP) da Fundação Perseu Abramo fez uma pesquisa nacional sobre a questão. O resultado surpreende: 90% da população diz existir racismo e, no entanto, só 19% manifestam preconceito.
Há uma grande separação entre realidade e aparência, que acomoda a sociedade a seus conflitos de classe, cor, orientação sexual, etc. O problema é que a tal "propaganda do bem" não tem qualquer correspondente na realidade. Os preconceitos não nascem apenas da pouca informação, da falta de diálogo etc. Medidas como mais escolas, emprego, mais informação e melhor qualidade de vida não diminuem automaticamente o preconceito. No entanto, criam condições para que isso aconteça.
Enquanto essas medidas não são colocadas em prática, as classes dominantes vão reinando tranqüilas. Fazendo uso não só da exploração, mas da divisão que os preconceitos e a violência causam entre os de baixo. E as novelas da Globo são parte importante dessa acomodação. São 45 milhões de pessoas vendo diariamente a imagem de uma vida mais justa e esquecendo de suas próprias desgraças.
Basta ver como as novelas impregnam toda a programação da poderosa emissora. Logo após o meio-dia, o "Vídeo-Show" mostra trechos de novelas, entrevista seus atores e diretores, faz jogos para ver quem acerta mais questões sobre novelas novas e antigas. Durante a tarde, novelas antigas são repetidas em "Vale a pena ver de novo". A partir das 17:30h, "Malhação" inaugura a maratona de folhetins, interrompida apenas pelo Jornal Nacional. E este último, sempre teve mais atores do que jornalistas na apresentação do que parecem ser mais imagens bem feitas do que notícias. O "Casseta e Planeta" avacalha as novelas, o "Faustão" só elogia. O fato é que todos colaboram para fazer "as famílias conversarem" sobre as produções globais.
Enfim, a reportagem de Valladares é bem feita, apesar de ter sido publicada na mais conservadora e pior revista do País. Deve ser por isso mesmo que a matéria não mostra que toda essa capacidade dramatúrgica da Rede Globo está a serviço de uma estratégia totalitária. Que quer impor tudo o que ela pensa a todos. Sem deixar espaço para ninguém mais, a não ser para seus amigos poderosos. Uma estratégia de quem vem há 40 anos fazendo o jogo do poder participando dele, combatendo os movimentos sociais da forma mais inteligente e destrutiva. Pela guerra das idéias, pela omissão e distorção. Exibindo somente os pedaços da realidade que interessam aos poderosos. Falando de preconceitos, apenas para que circulem e se multipliquem de maneira mais comportada.
Aos 40 anos, a Globo continua pretendendo ser senhora de nosso destino. Continua se achando acima do bem e do mal. Cabe a nós dar fim a essa grande e poderosa fábrica de preconceitos
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15 de out. de 2011
Romantismo, cinema e TV
Acreditem, o romantismo é um protesto contra a sociedade capitalista. O estranho é que Hollywood e a Globo usem e abusem desse tipo de protesto.
Texto de novembro de 2004
O que é o romantismo? Qualquer pessoa na rua responderia a essa pergunta citando canções de Roberto Carlos e até de Chico Buarque. Ou poemas de Vinícius, novelas de Janete Clair e filmes como “Love Story”, de Arthur Hiller (1970) “E o vento levou”, de Victor Fleming (1939) e até “Olga”, de Jayme Monjardim (2004). Aliás, uma das críticas mais comuns a este último filme é o fato de terem transformado a vida dos militantes comunistas, Olga e Prestes, num melodrama digno das novelas da Globo. Mas há os que defendem a produção exatamente por isso. “Afinal”, dizem eles, “para fazer chegar a história do casal comunista ao grande público é preciso dar lhe um formato bonito e atraente. Usar uma linguagem a que ele já está acostumado. Falar de amor e paixão”. O problema é: por que para ser atraente, uma obra cinematográfica ou televisiva precisa ser romântica? O que é o romantismo, afinal?
Uma vez Karl Marx disse algo assim: “O romantismo nasceu com o capitalismo e vai morrer com ele”. Por que? Porque o romantismo é um protesto contra a sociedade capitalista. É isso mesmo. Uma afirmação como esta deve ser uma surpresa para quem está acostumado a pensar em novelas, filmes, canções de amor, poesias melosas, como coisas que justificam uma vida conformada diante do capitalismo. Mas vamos com calma.
Tentemos definir o romantismo com a ajuda de um dos teóricos marxistas mais inteligentes e criativos da atualidade. Trata-se de Michael Löwy. Em um livro escrito com Robert Sayre chamado “Romantismo e Política”, os autores dizem “que a visão romântica é por essência uma reação contra as condições de vida na sociedade capitalista”. Mais especificamente, contra o “desencantamento” da vida. Um mundo onde impera o valor-de-troca. Uma sociedade fundada sobre o dinheiro e sobre a concorrência, que separa os indivíduos em “nômades egoístas, hostis e indiferentes aos outros”. Mas isso não significa que todo romântico é ou pode tornar-se socialista.
Existem vários romantismos, como existem várias formas de ser anticapitalista. Alguém que defenda o retorno à Idade Média, por exemplo, é anticapitalista. Quer a volta dos tempos dos cavaleiros e suas armaduras, dos reis e padres dominando a sociedade. Quadro bonito, mas ordinário. Afinal, quer a volta de uma opressão sobre a mulher ainda maior do que a que vemos hoje. Da religião autoritária, impondo sua fé a todos e castigando os que se recusam a segui-la. De reis e nobres parasitas vivendo da exploração de seus servos.
O mesmo pode ser dito sobre visões que idealizam a sociedade grega ou romana. Acham que nelas, sim, a inteligência, a elegância, a bravura imperavam. Esquecem que também imperavam a escravidão, um machismo que considerava a mulher um ser de segunda classe e até um autoritarismo que fez Sócrates se envenenar. Uma produção famosa de Hollywood que faz esse tipo de elogio a um passado nobre é “E o vento levou”. O casal principal do filme pertence ao galante mundo do sul dos Estados Unidos, arrasado pela Guerra Civil. Um lugar que seria bonito, se não tivesse sido construído com o sangue de milhões de escravos negros.
Também há romantismo de esquerda
Por outro lado, também há romantismos de esquerda. Aqueles que imaginam uma sociedade de iguais, onde não há propriedade privada, nem opressão sobre o semelhante. Esse tipo de romantismo costuma ver seu modelo nas tribos indígenas ou nas antigas sociedades pré-históricas. Imagina utopias, com justiça e liberdade. São como alguns socialistas utópicos dos séculos 18 e 19.
Além desse desconforto com o capitalismo, o romantismo também se caracteriza pela valorização do indivíduo. O desenvolvimento da idéia do sujeito individual está ligado ao nascimento e ao funcionamento do capitalismo. Afinal, para os patrões, é cômodo que cada trabalhador se considere um ser isolado e em competição com os outros trabalhadores. Alguém que pode vencer sozinho e não com seus camaradas do sindicato, do partido, da associação.
O romantismo também valoriza o indivíduo, mas num sentido heróico e dramático. Alguém que enfrenta as dificuldades da vida, do amor não correspondido ou do amor proibido, como em Romeu e Julieta. E o capitalismo é o exato contrário disso. É o culto do sujeito egoísta, preso a suas mesquinharias, aos valores materiais. O amor apaixonado é o oposto do casamento por conveniência, preso às convenções sociais. É o sentimento que precisa vencer os preconceitos de classe, de raça, de religião etc.
Outra característica do romantismo é a busca da totalidade. A comunhão do ser humano com a natureza, com o universo. Algo que o capitalismo não permite ao dividir a existência humana em tarefas parceladas, ao aprofundar a separação entre campo e cidade, esmagar até nossa compreensão das coisas sob uma avalanche de informações rápidas e desligadas entre si.
Indiana Jones, Romeu e Julieta, Olga e Prestes
Se o romantismo é tudo isso, ele é bom? Nem bom, nem ruim, necessariamente. O romantismo faz parte das contradições criadas pelo capitalismo. E quando ele se manifesta nas artes, essas contradições ficam mais visíveis. Mas, os produtores de filmes, novelas, os editores de livros, sabem usar essas contradições para dialogar com os anseios do público, mantendo-os amarrados à concepção de mundo burguesa.
É possível fazer uma novela e um filme não românticos. Existem muitos deles. Mas, os românticos acertam ao atingir diretamente a experiência de vida da grande maioria das pessoas. A experiência de indivíduos que se sentem sozinhos, mesmo quando estão em multidões. Que amam com medo de serem abandonados. São abandonados e temem começar a amar novamente. Querem fugir da vida chata e frustrante que vivem na realidade. Se identificam com as figuras heróicas como Indiana Jones, com lugares longínquos como a Terra Média, de “O Senhor dos Anéis”. Querem ser os casais trágicos como Romeu e Julieta ou Prestes e Olga. As pessoas se encantam com a natureza que é mostrada na televisão. A novela “Pantanal”, de Benedito Ruy Barbosa (1990), por exemplo. Os telespectadores se deliciam com novelas de época, onde o passado é reduzido a uma vida mais simples e inocente. É o caso de “Cabocla”, em exibição atualmente. São formas de fugir de um presente ou de um lugar incômodos.
Enfim, o romantismo é a linguagem que mais se aproxima da experiência concreta da maioria de nós. Começar a entender esse fenômeno é um bom começo para discutir como as obras estéticas atingem grandes multidões. Também é uma forma de construir caminhos para o diálogo. Muitos de nós já passaram pela experiência de tentar exibir filmes políticos para pessoas sem formação política. Cada vez mais, um “Encouraçado Potenkim”, de Sergei Eisenstein (1925), é menos suportável para quem já se acostumou aos padrões dos filmões americanos e produções da Globo. Roncos na sala de exibição não são raros.
O que fazer? Transformar o “Manifesto Comunista” em uma minissérie? Mostrar a história da Revolução Russa como um dramalhão mexicano? Não é o caso. Mas é preciso pensar e discutir mais sobre as produções culturais para os grandes públicos. Do contrário, só nos resta o caminho dos cineclubes voltados somente para alguns heróis românticos de esquerda.
Texto de novembro de 2004
O que é o romantismo? Qualquer pessoa na rua responderia a essa pergunta citando canções de Roberto Carlos e até de Chico Buarque. Ou poemas de Vinícius, novelas de Janete Clair e filmes como “Love Story”, de Arthur Hiller (1970) “E o vento levou”, de Victor Fleming (1939) e até “Olga”, de Jayme Monjardim (2004). Aliás, uma das críticas mais comuns a este último filme é o fato de terem transformado a vida dos militantes comunistas, Olga e Prestes, num melodrama digno das novelas da Globo. Mas há os que defendem a produção exatamente por isso. “Afinal”, dizem eles, “para fazer chegar a história do casal comunista ao grande público é preciso dar lhe um formato bonito e atraente. Usar uma linguagem a que ele já está acostumado. Falar de amor e paixão”. O problema é: por que para ser atraente, uma obra cinematográfica ou televisiva precisa ser romântica? O que é o romantismo, afinal?
Uma vez Karl Marx disse algo assim: “O romantismo nasceu com o capitalismo e vai morrer com ele”. Por que? Porque o romantismo é um protesto contra a sociedade capitalista. É isso mesmo. Uma afirmação como esta deve ser uma surpresa para quem está acostumado a pensar em novelas, filmes, canções de amor, poesias melosas, como coisas que justificam uma vida conformada diante do capitalismo. Mas vamos com calma.
Tentemos definir o romantismo com a ajuda de um dos teóricos marxistas mais inteligentes e criativos da atualidade. Trata-se de Michael Löwy. Em um livro escrito com Robert Sayre chamado “Romantismo e Política”, os autores dizem “que a visão romântica é por essência uma reação contra as condições de vida na sociedade capitalista”. Mais especificamente, contra o “desencantamento” da vida. Um mundo onde impera o valor-de-troca. Uma sociedade fundada sobre o dinheiro e sobre a concorrência, que separa os indivíduos em “nômades egoístas, hostis e indiferentes aos outros”. Mas isso não significa que todo romântico é ou pode tornar-se socialista.
Existem vários romantismos, como existem várias formas de ser anticapitalista. Alguém que defenda o retorno à Idade Média, por exemplo, é anticapitalista. Quer a volta dos tempos dos cavaleiros e suas armaduras, dos reis e padres dominando a sociedade. Quadro bonito, mas ordinário. Afinal, quer a volta de uma opressão sobre a mulher ainda maior do que a que vemos hoje. Da religião autoritária, impondo sua fé a todos e castigando os que se recusam a segui-la. De reis e nobres parasitas vivendo da exploração de seus servos.
O mesmo pode ser dito sobre visões que idealizam a sociedade grega ou romana. Acham que nelas, sim, a inteligência, a elegância, a bravura imperavam. Esquecem que também imperavam a escravidão, um machismo que considerava a mulher um ser de segunda classe e até um autoritarismo que fez Sócrates se envenenar. Uma produção famosa de Hollywood que faz esse tipo de elogio a um passado nobre é “E o vento levou”. O casal principal do filme pertence ao galante mundo do sul dos Estados Unidos, arrasado pela Guerra Civil. Um lugar que seria bonito, se não tivesse sido construído com o sangue de milhões de escravos negros.
Também há romantismo de esquerda
Por outro lado, também há romantismos de esquerda. Aqueles que imaginam uma sociedade de iguais, onde não há propriedade privada, nem opressão sobre o semelhante. Esse tipo de romantismo costuma ver seu modelo nas tribos indígenas ou nas antigas sociedades pré-históricas. Imagina utopias, com justiça e liberdade. São como alguns socialistas utópicos dos séculos 18 e 19.
Além desse desconforto com o capitalismo, o romantismo também se caracteriza pela valorização do indivíduo. O desenvolvimento da idéia do sujeito individual está ligado ao nascimento e ao funcionamento do capitalismo. Afinal, para os patrões, é cômodo que cada trabalhador se considere um ser isolado e em competição com os outros trabalhadores. Alguém que pode vencer sozinho e não com seus camaradas do sindicato, do partido, da associação.
O romantismo também valoriza o indivíduo, mas num sentido heróico e dramático. Alguém que enfrenta as dificuldades da vida, do amor não correspondido ou do amor proibido, como em Romeu e Julieta. E o capitalismo é o exato contrário disso. É o culto do sujeito egoísta, preso a suas mesquinharias, aos valores materiais. O amor apaixonado é o oposto do casamento por conveniência, preso às convenções sociais. É o sentimento que precisa vencer os preconceitos de classe, de raça, de religião etc.
Outra característica do romantismo é a busca da totalidade. A comunhão do ser humano com a natureza, com o universo. Algo que o capitalismo não permite ao dividir a existência humana em tarefas parceladas, ao aprofundar a separação entre campo e cidade, esmagar até nossa compreensão das coisas sob uma avalanche de informações rápidas e desligadas entre si.
Indiana Jones, Romeu e Julieta, Olga e Prestes
Se o romantismo é tudo isso, ele é bom? Nem bom, nem ruim, necessariamente. O romantismo faz parte das contradições criadas pelo capitalismo. E quando ele se manifesta nas artes, essas contradições ficam mais visíveis. Mas, os produtores de filmes, novelas, os editores de livros, sabem usar essas contradições para dialogar com os anseios do público, mantendo-os amarrados à concepção de mundo burguesa.
É possível fazer uma novela e um filme não românticos. Existem muitos deles. Mas, os românticos acertam ao atingir diretamente a experiência de vida da grande maioria das pessoas. A experiência de indivíduos que se sentem sozinhos, mesmo quando estão em multidões. Que amam com medo de serem abandonados. São abandonados e temem começar a amar novamente. Querem fugir da vida chata e frustrante que vivem na realidade. Se identificam com as figuras heróicas como Indiana Jones, com lugares longínquos como a Terra Média, de “O Senhor dos Anéis”. Querem ser os casais trágicos como Romeu e Julieta ou Prestes e Olga. As pessoas se encantam com a natureza que é mostrada na televisão. A novela “Pantanal”, de Benedito Ruy Barbosa (1990), por exemplo. Os telespectadores se deliciam com novelas de época, onde o passado é reduzido a uma vida mais simples e inocente. É o caso de “Cabocla”, em exibição atualmente. São formas de fugir de um presente ou de um lugar incômodos.
Enfim, o romantismo é a linguagem que mais se aproxima da experiência concreta da maioria de nós. Começar a entender esse fenômeno é um bom começo para discutir como as obras estéticas atingem grandes multidões. Também é uma forma de construir caminhos para o diálogo. Muitos de nós já passaram pela experiência de tentar exibir filmes políticos para pessoas sem formação política. Cada vez mais, um “Encouraçado Potenkim”, de Sergei Eisenstein (1925), é menos suportável para quem já se acostumou aos padrões dos filmões americanos e produções da Globo. Roncos na sala de exibição não são raros.
O que fazer? Transformar o “Manifesto Comunista” em uma minissérie? Mostrar a história da Revolução Russa como um dramalhão mexicano? Não é o caso. Mas é preciso pensar e discutir mais sobre as produções culturais para os grandes públicos. Do contrário, só nos resta o caminho dos cineclubes voltados somente para alguns heróis românticos de esquerda.
1 de out. de 2011
CBN: 15 anos tocando a mesma música
Texto de julho de 2006
A CBN faz 15 anos em outubro que vem. A rádio inovou ao assumir a transmissão de notícias como único objetivo. Seus programas são bem feitos, em linguagem correta e passam uma sensação de isenção. Longe disso, o que impera é a defesa das idéias neoliberais. Não tem música, mas o repertório não muda.
Quando surgiu, em 1991, a Central Brasileira de Notícias, tinha como modelo a TV CNN, americana. Queria fazer no rádio o que a emissora estadunidense fazia na televisão: veiculação de notícias 24 horas por dia. Daí, o mote “a rádio que só toca notícia”. Não se tratava somente de imitação. Era produto de uma idéia muito clara e da qual a Globo nunca teve dúvidas: controle de informação tem cada vez mais valor econômico, político e social. Além disso, era o início da grande ofensiva neoliberal no Brasil. A CBN surgiu, então, para fornecer informação em abundância, mas com a marca neoliberal.
Quinze anos depois, a CBN é um sucesso. Não é uma líder isolada no segmento. Em certos horários, a “Band News” e a “Jovem Pan”, em São Paulo, ganham. Mas é referência e obrigou suas concorrentes a imitá-la. Além disso, como disse sua diretora executiva, Mariza Tavares, é rentável. Apenas rentável? Provavelmente. Afinal, a função da CBN não é exatamente fazer dinheiro. É fazer cabeças.
Falando para as classes A e B
Tavares concedeu entrevista ao Observatório da Imprensa em junho passado. Um depoimento revelador sobre os objetivos da emissora que dirige. Segundo ela, “a cabeça da rede” é basicamente São Paulo. Por que? “São Paulo é o centro de decisões, o centro econômico, e a emissora tem que obedecer a isso”. Ou seja, a rádio que só toca notícia quase só fala para um público definido. Aqueles que têm ou estão próximos ao poder econômico. Os números do Ibope não desmentem isso: dados do último trimestre de 2005 mostravam que o público da CBN era mais masculino (64%) e predominantemente das classes chamadas A e B (66%;).
É verdade que a programação realmente presta serviços importantes. Principalmente, nas grandes cidades como São Paulo e seu trânsito caótico. E tem um estilo mais limpo na transmissão. Sem as apelações comuns utilizadas por outros programas e locutores, que não escondem seu ódio de classe, enquanto defendem a pena-de-morte e prisão de crianças, por exemplo. Um dos maiores responsáveis por isso é Heródoto Barbeiro. O principal âncora da CBN também deu entrevista ao Observatório da Imprensa e definiu como grandes trunfos da CBN, “isenção, pluralismo, perseguição diária da conduta ética”. E é esta a impressão que o ouvinte comum acaba tendo. Mariza Tavares reforça essa idéia ao dizer que “tem gente que acha que nós somos petistas, os petistas acham que somos tucanos. Acho que isso é bom”.
Claro que na atual confusão, opor tucanos e petistas não faz muito sentido. Pelo menos, para a maioria dos petistas que usam crachá. Mas também dá uma idéia daquilo que realmente é a programação da CBN. Heródoto é um dos que afirmam que a CBN sempre ouve o outro lado. E que o compromisso da rádio é com a notícia. Na realidade, são poucos os lados que a rádio ouve. Quase todos eles ligados ao verdadeiro compromisso da CBN: com os elogios às maravilhas do mercado.
A grande maioria dos entrevistados é formada por políticos, empresários, professores universitários, sindicalistas. Quase todos, antigos ou recentes devotos da fé neoliberal. Vez por outra, ouvem-se as vozes de lideranças populares e outras pessoas que não comungam da crença no “deus mercado”. Mas acabam fazendo o papel de figuras folclóricas em meio ao ambiente geral criado pela rádio. Um ambiente que é perfeitamente traduzido por seus âncoras e comentaristas.
O petista Heródoto Barbeiro, por exemplo, é discreto. Fala muito sobre cidadania e responsabilidade social de empresas, mas não vai mais longe que isso. Se pressionado, também fala em “populismo” quando o assunto é aumento dos gastos sociais. “Calote” quando alguém aponta o absurdo da dívida pública brasileira, e por aí vai. Outro âncora da rádio é Carlos Sardenberg. Bem menos discreto que Barbeiro, é tucano em cada um de seus comentários a favor das leis do mercado. Miriam Leitão é a porta-voz das receitas neoliberais, desde a época de Collor.
Lucia Hippólito aborda o mundo da política de maneira aparentemente crítica, mas seus comentários não passam da defesa da política institucional sem exageros. E exagero é denunciar o parlamento como a farsa que é. Mais ou menos na mesma linha de Franklin Martins. Gilberto Dimenstein é irritante com seu discurso “faça você mesmo aquilo que os governantes deveriam fazer com o dinheiro dos impostos arrancados dos mais pobres”. Arnaldo Jabor, então, é o retrato perfeito do conservadorismo beirando o fascismo, junto com muita informação distorcida e defesa incondicional do neoliberalismo.
Candidata a “guia” dos menos endinheirados
A CBN é como as rádios que tocam música. O repertório é restrito aos artistas cujas gravadoras pagaram seu “jabá”. Do mesmo modo, a música que toca na emissora da Globo é uma só, a do pensamento único neoliberal. O “jabá” vem na forma de patrocínios empresariais. E governamentais, claro.
O grande problema dessa história é que a CBN não “faz a cabeça” somente dos mais endinheirados. As chamadas classes C, D e E são responsáveis por 34% da audiência da rádio. E a própria Mariza Tavares alerta para outro fenômeno. Na mesma entrevista, falando sobre os que ganham menos, ela diz:“Existe um movimento que não é de classe A-B, um enorme movimento de um contingente parcialmente invisível, ou pouco visível, querendo entender este mundo muito mais complicado. Quem são os guias? (...). É quem vai dar ferramentas para entender o mundo. Algo que nós achávamos que era prerrogativa do leitor de jornal, classe média, do público da CBN, mas não é só isso. Na verdade há um grande movimento subterrâneo, e sairá na frente quem entender como fornecer esse instrumental”.“Quem são os guias ?”, pergunta Mariza. A resposta é assustadora: uma forte candidata é a rádio de notícias da Globo.
É preciso ficar atento. A burguesia não perde tempo. E aproveita-se de um vazio deixado pela esquerda. Por um lado, mesmo que de forma precária, funcionam algumas rádios comunitárias em bairros pobres. Falam ao tal público “D e E”. Aos trancos e barrancos, é verdade. Mas, pelo menos, falam.
Por outro lado, como fica a chamada “classe C”? Esta não é forçada a formas coletivas de sobrevivência, como nas favelas e cortiços. São muito mais sujeitas a um modo de vida isolado de vizinhos e colegas de trabalho. E cada vez mais são alvo dessa disputa por hegemonia. A qualidade da técnica global de comunicação pode fazer enormes estragos nessa briga. A CBN vem fazendo sua parte.
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5 de set. de 2011
Antonio Fagundes e os sete minutos
Texto de novembro de 2003
Sete minutos, peça de Antonio Fagundes, ataca a imposição de padrões televisivos, mas pode ser vista em DVD. É uma contradição, sem dúvida. Mas é uma contradição interessante.
A peça foi escrita por Antonio Fagundes (a primeira de sua carreira) e dirigida por Bibi Ferreira. O espetáculo começa com uma encenação de Macbeth, de Shakespeare. O personagem de Fagundes (o Ator) está dizendo a famosa frase “A vida é uma sombra que passa ...”, quando é interrompido por uma cascata de tosses de um espectador. Irritado, o Ator sai de cena.
O cenário passa a ser o camarim. O Ator reclama dos constantes barulhos e interrupções que já ouviu da platéia em seus 37 anos de carreira. Papéis de bala, sacos de batatas fritas, celulares, bocejos, pigarros e as inevitáveis tosses. A cena é engraçada, mas começa a parecer apenas um desabafo até que a peça toma outros rumos.
Um mini-debate se instala entre o Ator e a Empresária (Suzy Rêgo). Ele insiste que ninguém respeita ou liga para teatro. Ela pondera que as pessoas não têm dinheiro nem para o ônibus, etc. Ele responde que elas têm dinheiro sim, mas gastam em bingos, vão aos estádios etc. Enfim, mais ou menos como aquelas conversas de boteco que raramente chegam a algum lugar.
Seguem-se cenas muito engraçadas até chegarmos à explicação do fenômeno que inspirou a peça. Trata-se do ritmo imposto pela programação televisiva no Brasil. Para ficar mais claro, apelemos para o próprio texto de Fagundes, na voz de seu personagem:
De qualquer maneira, o interessante é que o texto de Chauí também fala de um conhecido ensaio do filósofo alemão Walter Benjamin chamado A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Este texto fala da rápida reprodução e comercialização das obras artísticas e suas contradições. Marilena Chauí comenta o ensaio de Benjamin chamando a atenção para os aspectos positivos e negativos do fenômeno.
De um lado, ele coloca à disposição da maioria, obras a que apenas uma minoria tinha acesso até então. De outro lado, o capitalismo se apropriou desses avanços para criar toda uma produção e um mercado novos. Mais uma forma de obter altos lucros às custas da banalização da criatividade humana. É a chamada indústria cultural, que, hoje, identificamos facilmente no cinema, na tevê, rádio, discos, e, ao contrário do que sugere Sete minutos, também no teatro.
Afinal, o teatro, apesar de seus 2 mil anos de existência, também vem sendo padronizado pelo ritmo da grande mídia. Um sucesso como Os Mistérios de Irma Vap, por exemplo, não precisou necessariamente seguir ciclos de 7 em 7 minutos, mas tem um ritmo próximo ao que estamos acostumados a ver na tevê. A maior razão de sua aceitação pode ser o talento de seus atores, Ney Latorraca e Marco Nanini. O fator ritmo, no entanto, deve ter colaborado. Esse parece ser o caso de outras peças de sucesso. Principalmente, as de humor, como Trair e coçar é só começar e Caixa dois.
Aí é que entram em cenas as contradições da peça de Fagundes. O ator e produtor faz uma declaração de amor ao teatro, critica o ritmo televisivo, elogia a presença do público, convida-o à proximidade, a abrir mão das certezas. Mas coloca sua peça à venda na forma de um disco digital que pode ser levado para casa e visto de forma quase solitária. Um artefato que permite as interrupções que o personagem de Fagundes pede que não sejam feitas. Que segmenta a obra em faixas, como num disco de música. Cronometra sua duração e permite acelerar ou retardar a exibição.
Mas, não são contradições no sentido negativo. São da mesma natureza daquelas apontadas pelo comentário de Chauí ao texto de Benjamin. A obra de Fagundes denuncia um aspecto importante da indústria cultural, mas faz uso de um seu instrumento para divulgar essa denúncia. Ao dizer o que diz a partir de um palco, Sete minutos faz sua parte junto ao público de teatro. Mas, ao lançar mão do DVD, atinge também um público que já desistiu do teatro ou nunca conheceu sua riqueza devido às pretensas facilidades da telinha. O saldo dessas contradições é positivo.
Por outro lado, é preciso elogiar a iniciativa de Antonio Fagundes. Ele é astro de primeira linha da Globo. Fez 21 novelas e dezenas de minisséries. No cinema, apareceu em 37 longa-metragens. Apesar de todo esse sucesso, nunca deixou os palcos. Aos 51 anos de idade, é ator de teatro desde os 14 anos. Fez mais de 40 espetáculos teatrais. Poderia estar acomodado. Mas preferiu enfrentar a contraditória condição de quem é astro global, mas ama os palcos. Essa peça é a escolha pela paixão do teatro e pela crítica à televisão.
A utilização do formato digital talvez tenha o objetivo de mostrar que não se trata de, pura e simplesmente, condenar a tevê como veículo de comunicação e até de formação. Ela pode e tem que ser melhor do que é. Sete minutos pode ajudar na medida em que funcione como complicador do cotidiano simplificado que todos acabamos por viver. Indo ou não ao teatro, vendo ou não televisão.
Sete minutos, peça de Antonio Fagundes, ataca a imposição de padrões televisivos, mas pode ser vista em DVD. É uma contradição, sem dúvida. Mas é uma contradição interessante.
A peça foi escrita por Antonio Fagundes (a primeira de sua carreira) e dirigida por Bibi Ferreira. O espetáculo começa com uma encenação de Macbeth, de Shakespeare. O personagem de Fagundes (o Ator) está dizendo a famosa frase “A vida é uma sombra que passa ...”, quando é interrompido por uma cascata de tosses de um espectador. Irritado, o Ator sai de cena.
O cenário passa a ser o camarim. O Ator reclama dos constantes barulhos e interrupções que já ouviu da platéia em seus 37 anos de carreira. Papéis de bala, sacos de batatas fritas, celulares, bocejos, pigarros e as inevitáveis tosses. A cena é engraçada, mas começa a parecer apenas um desabafo até que a peça toma outros rumos.
Um mini-debate se instala entre o Ator e a Empresária (Suzy Rêgo). Ele insiste que ninguém respeita ou liga para teatro. Ela pondera que as pessoas não têm dinheiro nem para o ônibus, etc. Ele responde que elas têm dinheiro sim, mas gastam em bingos, vão aos estádios etc. Enfim, mais ou menos como aquelas conversas de boteco que raramente chegam a algum lugar.
Seguem-se cenas muito engraçadas até chegarmos à explicação do fenômeno que inspirou a peça. Trata-se do ritmo imposto pela programação televisiva no Brasil. Para ficar mais claro, apelemos para o próprio texto de Fagundes, na voz de seu personagem:
Somos um País desacostumado ao ato de pensar. Nossa formação cultural tá reduzida àquela dúzia de filmes americanos traduzido em ação, ação...Nosso padrão de televisão, rápido,esperto, ágil, dinâmico, prende a nossa atenção por, no máximo, 7 minutos. O tempo aproximado de cada segmento antes do intervalo comercial. Nada mais nos exige maior reflexão.No DVD, Fagundes comenta que teve a idéia dos 7 minutos desde 1993. No entanto, essa tese também está presente no livro Convite à Filosofia, de Marilena Chauí (Ática, 2000 – pág. 326).
Até mesmo o melhor programa está sujeito a essa lei férrea, do tempo máximo de 7 minutos. Então eu vou ao banheiro, eu tomo café, eu telefono, eu descanso. Eu tenho tempo pra isso. O intervalo comercial, como em nenhuma parte do mundo, dura quase que os mesmos 7 minutos. Divididos em mensagens rápidas de 15, 30 segundos, que prendem a minha atenção, caso eu não tenha mais nada pra fazer, por um espaço de tempo cada vez menor. (...)
Nossos melhores pensamentos, nossas maiores reflexões, nossa mais apurada percepção do mundo, não passam dos 7 minutos a que fomos condicionados. Até mesmo as nossas emoções obedecem a essa regra de tempo. E não é pra menos. A leitura diária dos jornais nos obriga a isso. Mas se fôssemos capazes de manter a nossa indignação por um espaço de tempo maior, só Deus sabe que caminhos estaríamos trilhando agora. (...)
Nossos espetáculos duram mais do que 7 minutos e fazemos assim porque é possível estarmos juntos por mais tempo. Trocando, refletindo, sonhando. Que bom que vocês vieram (...) para dividir as nossas dúvidas, repartir os nossos sonhos e multiplicar as nossas vontades de que tudo isso um dia não passe de uma peça de teatro. Mas sem interrupções...por favor?
De qualquer maneira, o interessante é que o texto de Chauí também fala de um conhecido ensaio do filósofo alemão Walter Benjamin chamado A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Este texto fala da rápida reprodução e comercialização das obras artísticas e suas contradições. Marilena Chauí comenta o ensaio de Benjamin chamando a atenção para os aspectos positivos e negativos do fenômeno.
De um lado, ele coloca à disposição da maioria, obras a que apenas uma minoria tinha acesso até então. De outro lado, o capitalismo se apropriou desses avanços para criar toda uma produção e um mercado novos. Mais uma forma de obter altos lucros às custas da banalização da criatividade humana. É a chamada indústria cultural, que, hoje, identificamos facilmente no cinema, na tevê, rádio, discos, e, ao contrário do que sugere Sete minutos, também no teatro.
Afinal, o teatro, apesar de seus 2 mil anos de existência, também vem sendo padronizado pelo ritmo da grande mídia. Um sucesso como Os Mistérios de Irma Vap, por exemplo, não precisou necessariamente seguir ciclos de 7 em 7 minutos, mas tem um ritmo próximo ao que estamos acostumados a ver na tevê. A maior razão de sua aceitação pode ser o talento de seus atores, Ney Latorraca e Marco Nanini. O fator ritmo, no entanto, deve ter colaborado. Esse parece ser o caso de outras peças de sucesso. Principalmente, as de humor, como Trair e coçar é só começar e Caixa dois.
Aí é que entram em cenas as contradições da peça de Fagundes. O ator e produtor faz uma declaração de amor ao teatro, critica o ritmo televisivo, elogia a presença do público, convida-o à proximidade, a abrir mão das certezas. Mas coloca sua peça à venda na forma de um disco digital que pode ser levado para casa e visto de forma quase solitária. Um artefato que permite as interrupções que o personagem de Fagundes pede que não sejam feitas. Que segmenta a obra em faixas, como num disco de música. Cronometra sua duração e permite acelerar ou retardar a exibição.
Mas, não são contradições no sentido negativo. São da mesma natureza daquelas apontadas pelo comentário de Chauí ao texto de Benjamin. A obra de Fagundes denuncia um aspecto importante da indústria cultural, mas faz uso de um seu instrumento para divulgar essa denúncia. Ao dizer o que diz a partir de um palco, Sete minutos faz sua parte junto ao público de teatro. Mas, ao lançar mão do DVD, atinge também um público que já desistiu do teatro ou nunca conheceu sua riqueza devido às pretensas facilidades da telinha. O saldo dessas contradições é positivo.
Por outro lado, é preciso elogiar a iniciativa de Antonio Fagundes. Ele é astro de primeira linha da Globo. Fez 21 novelas e dezenas de minisséries. No cinema, apareceu em 37 longa-metragens. Apesar de todo esse sucesso, nunca deixou os palcos. Aos 51 anos de idade, é ator de teatro desde os 14 anos. Fez mais de 40 espetáculos teatrais. Poderia estar acomodado. Mas preferiu enfrentar a contraditória condição de quem é astro global, mas ama os palcos. Essa peça é a escolha pela paixão do teatro e pela crítica à televisão.
A utilização do formato digital talvez tenha o objetivo de mostrar que não se trata de, pura e simplesmente, condenar a tevê como veículo de comunicação e até de formação. Ela pode e tem que ser melhor do que é. Sete minutos pode ajudar na medida em que funcione como complicador do cotidiano simplificado que todos acabamos por viver. Indo ou não ao teatro, vendo ou não televisão.
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3 de ago. de 2011
No princípio era o verbo. Agora, é Matrix
Texto de julho de 2007
O primeiro meio de comunicação dos seres humanos foi a fala. Hoje, a função tripla (triple-play) permite recebermos imagens, informações e som num único aparelho. Mas, sob a lógica capitalista, quase não falamos, só ouvimos. Não imaginamos, só assistimos.
O primeiro e mais eficiente meio de comunicação dos seres humanos foi a fala. É quando o som ganha peso simbólico na forma de palavras que a comunicação chega para ficar como patrimônio exclusivo de nossa espécie. “No princípio era o Verbo...”. Além da fala, havia somente as pinturas e esculturas. Muito som e algumas imagens.
Foram necessários cerca de 95 mil anos para que uma nova evolução acontecesse na comunicação humana. Foi o surgimento da escrita. Agora, os relatos podiam ser registrados em meio material e permanecerem fiéis a si mesmos. Sai a criatividade humana sem maiores controles que não os construídos por consenso, entra a exatidão de alguns poucos que dominavam a técnica da escrita.
Eram sacerdotes e burocratas, que passaram a registrar as tradições culturais e religiosas, os estoques de produtos, os impostos devidos, a história oficial. Tudo escrito em pedras, placas, papiros e pergaminhos. Dominar a escrita era dominar informações importantes e justificar o poder, diminuindo a necessidade de utilizar a violência.
A revolução tecnológica seguinte nas comunicações aconteceu uns 7 mil anos depois. No século 15, Gutenberg inventou a imprensa. O texto escrito já podia ser reproduzido em escala maior. Trata-se de uma técnica que já teria sido descoberta na China e no Japão, sem maiores conseqüências. É que o alemão fez sua contribuição tecnológica no lugar e momento certos. O interesse pelas ciências surgido no Renascimento precisava de uma maior difusão e troca de informações. E ficava mais fácil fazer isso através de textos impressos. Além disso, a burguesia soube usar muito bem a escrita impressa.
Em primeiro lugar, para divulgar suas idéias revolucionárias. Até a Revolução Francesa, havia apenas um jornal na França. O do rei. De julho a dezembro de 1789, surgiram 184 novos jornais em Paris. No ano seguinte, foram mais 335. Mas, a palavra impressa também foi importante para permitir o avanço na pesquisa de novos meios de produção, e, claro, para justificar ascenso da burguesia à condição de classe dominante.
O domínio da natureza através de técnicas cada vez mais complexas levou rapidamente a uma nova mudança radical nas comunicações. Desta vez, cerca de 400 anos depois da última. A captura e domesticação do som permitiram o surgimento do rádio. A fala voltava a ter importância na comunicação humana. Mas o uso do rádio para a troca de informações entre pessoas logo foi bloqueado. Ao invés disso, o rádio ficou surdo e passou a apenas falar com as pessoas.
Surgia a radiodifusão. Ferramenta fundamental para o capitalismo. Afinal, o modo de produção capitalista é o único que tem crises porque produz demais e não de menos. Manter o nível de consumo é seu grande problema. A propaganda é a alma do negócio. O rádio surge para ajudar a vender. Mas não só.
Pessoas reunidas em frente a um aparelho de rádio não conversam entre si. Todos escutam a mesma voz, o mesmo discurso, a mesma música. Como disse Marx, as idéias dominantes em uma sociedade são as idéias da classe dominante. A voz do rádio era a voz de seus donos. Compre mercadorias e receba inteiramente grátis as idéias dominantes.
Essa passividade diante de um meio de comunicação permaneceu e aumentou quando se aprendeu a usar a luz para fixar imagens e, logo depois, para colocá-las em movimento. A fotografia virou filme. Na primeira sessão comercial de cinema, os irmãos Lumiére exibiram a imagem de um trem entrando na estação de Lyon. Dizem que alguns dos presentes ficaram com medo de serem atropelados. Ficariam ainda mais assustados se o filme já contasse com uma trilha sonora. Mas o som não tardaria a chegar.
O primeiro filme sonoro é de 1927. Chaplin dizia que não haveria futuro para o cinema com som. Afinal, a universalidade dos gestos humanos presentes nos filmes mudos ultrapassava os limites das várias línguas. Mas o criador de Carlitos não contava com a força da indústria cultural ianque. Os filmes chegam a todos os lugares do mundo legendados, dublados ou simplesmente falados em inglês, que foi imposto como um moderno latim.
Menos de 100 anos depois da chegada do trem dos irmãos Lumiére, o cinema foi para dentro das casas transformado em televisão. Era o rádio e o cinema, num único aparelho, presente em quase todos os lugares do planeta. Os meios pareciam convergir. A fala, a imagem, o movimento, de um lado. Avassaladores. De outro, avassalado, o espectador. Do latim “spectátoróris”, ou seja, “contemplador, observador”, segundo o dicionário Houaiss. Mais precisamente, pessoa passiva.
Uns 40 anos atrás, aconteceu a mais recente revolução nas comunicações. Ela foi possibilitada pela microeletrônica e pela informática e permitiu criar uma base material única. É a tecnologia digital, utilizada tanto na linha de montagem das empresas automobilísticas, como na campanha publicitária para estimular o consumo de automóveis.
A digitalização permitiu a convergência da organização da informação de tal forma que informações, som e imagem podem chegar todos ao mesmo tempo através de um único aparelho. É o chamado “triple-play” ou tripla função. Enquanto isso, a palavra escrita é utilizada plenamente por cada vez menos pessoas. A maioria só domina a escrita e a leitura para tarefas muito básicas. E, tal como na época anterior à escrita, a fala e as imagens estabelecem seu predomínio.
Só que, agora, elas não são produtos de uma convivência comunitária, com suas múltiplas conversas e seus relatos coletivos. Na sociedade de massas, o verbo e a imagens vêm em pacotes prontos e fechados a sugestões. Nossos antepassados ficariam espantados com nossa submissão a nossas próprias conquistas tecnológicas. Quase não falamos, só ouvimos. Não imaginamos, só assistimos.
No outro lado disso, estariam os meios de comunicação que permaneceram interativos. São o correio eletrônico e o telefone. Por eles, duas ou mais pessoas podem trocar o conteúdo que quiserem. Claro que muito desse conteúdo é determinado pelas idéias, conceitos, hábitos, costumes, preconceitos, crenças, visões de mundo dominantes.
Mas, sempre há um espaço para uma comunicação própria, alternativa, diferente. Inadmissível, pensa o sistema. Se depender da lógica capitalista, essa relativa liberdade vai ter cada vez menos espaço. A internete, além de estar muito longe da universalização, não está a salvo de ser monopolizada. É possível, por exemplo, diferenciar o desempenho do tráfego de dados, obrigando os usuários a pagar por uma transmissão de informações mais rápida e de qualidade melhor.
Quanto ao telefone, a invasão dos celulares é esmagadora. Já se fala em metade da população mundial com esse tipo de equipamento. E o funcionamento pleno da função tripla vai tornar esses aparelhos cada vez mais receptores de conteúdos prontos. Em outras palavras, vamos ter mais dificuldade em falar uns com os outros porque estaremos assistindo programas, jogos de futebol, musicais e filmes em nossos terminais móveis.
Cada vez mais nosso tempo livre será invadido por esse bombardeio midiático. Nosso repertório vai se encolhendo e se ajustando ao que as grandes empresas de bens simbólicos produzem, para preencher ao máximo nosso campo visual e auditivo. Uma permanente pressão a favor do consumo desenfreado e do conformismo social.
No entanto, nem tudo são flores para o Capital. Toda essa tecnologia tornou mais difícil a determinação do que seja propriedade privada. Os programas de computadores já não são mais vendidos como qualquer mercadoria. Apenas têm seu uso autorizado por uma licença. Isso facilita a cópia não autorizada. A informação é um elemento estratégico na atual fase do capitalismo.
Mas, informação é um bem diferente dos outros. No momento em que é usada ela ganha valor, ao invés de perder, como acontece com as outras mercadorias. Ela escapa por entre as garras do Capital. Como disse Thomas Jefferson uma vez:
Do ponto de vista do combate à dominação, as tecnologias também se tornaram mais acessíveis. Já não é tão caro montar uma rádio ou uma tv. É certo que serão comunitárias com todas as suas limitações de alcance, sem falar na repressão pura e simples que se abate sobre elas. A internete também apresenta boas perspectivas e elas podem ser muito melhores se conseguíssemos ligar a rede de TV digital à rede mundial de computadores. A internete ficaria acessível para a maioria da população.
Na verdade, a capacidade de transmissão de informações conquistada pela humanidade pode ser um grande avanço para a interação universal dos seres humanos em toda sua diversidade. Para isso seria preciso acabar com as atuais relações sociais. Criar novas formas de convivência e seus instrumentos.
Seria preciso partir da base material alcançada pela atual tecnologia, mas adaptá-la a outros objetivos que não a apropriação privada dos produtos do trabalho humano. Enquanto isso, permanece a ameaça de nos tornarmos cada vez mais extensões de nossos terminais eletrônicos. Matrix é aqui.
O primeiro meio de comunicação dos seres humanos foi a fala. Hoje, a função tripla (triple-play) permite recebermos imagens, informações e som num único aparelho. Mas, sob a lógica capitalista, quase não falamos, só ouvimos. Não imaginamos, só assistimos.
O primeiro e mais eficiente meio de comunicação dos seres humanos foi a fala. É quando o som ganha peso simbólico na forma de palavras que a comunicação chega para ficar como patrimônio exclusivo de nossa espécie. “No princípio era o Verbo...”. Além da fala, havia somente as pinturas e esculturas. Muito som e algumas imagens.
Foram necessários cerca de 95 mil anos para que uma nova evolução acontecesse na comunicação humana. Foi o surgimento da escrita. Agora, os relatos podiam ser registrados em meio material e permanecerem fiéis a si mesmos. Sai a criatividade humana sem maiores controles que não os construídos por consenso, entra a exatidão de alguns poucos que dominavam a técnica da escrita.
Eram sacerdotes e burocratas, que passaram a registrar as tradições culturais e religiosas, os estoques de produtos, os impostos devidos, a história oficial. Tudo escrito em pedras, placas, papiros e pergaminhos. Dominar a escrita era dominar informações importantes e justificar o poder, diminuindo a necessidade de utilizar a violência.
A revolução tecnológica seguinte nas comunicações aconteceu uns 7 mil anos depois. No século 15, Gutenberg inventou a imprensa. O texto escrito já podia ser reproduzido em escala maior. Trata-se de uma técnica que já teria sido descoberta na China e no Japão, sem maiores conseqüências. É que o alemão fez sua contribuição tecnológica no lugar e momento certos. O interesse pelas ciências surgido no Renascimento precisava de uma maior difusão e troca de informações. E ficava mais fácil fazer isso através de textos impressos. Além disso, a burguesia soube usar muito bem a escrita impressa.
Em primeiro lugar, para divulgar suas idéias revolucionárias. Até a Revolução Francesa, havia apenas um jornal na França. O do rei. De julho a dezembro de 1789, surgiram 184 novos jornais em Paris. No ano seguinte, foram mais 335. Mas, a palavra impressa também foi importante para permitir o avanço na pesquisa de novos meios de produção, e, claro, para justificar ascenso da burguesia à condição de classe dominante.
O domínio da natureza através de técnicas cada vez mais complexas levou rapidamente a uma nova mudança radical nas comunicações. Desta vez, cerca de 400 anos depois da última. A captura e domesticação do som permitiram o surgimento do rádio. A fala voltava a ter importância na comunicação humana. Mas o uso do rádio para a troca de informações entre pessoas logo foi bloqueado. Ao invés disso, o rádio ficou surdo e passou a apenas falar com as pessoas.
Surgia a radiodifusão. Ferramenta fundamental para o capitalismo. Afinal, o modo de produção capitalista é o único que tem crises porque produz demais e não de menos. Manter o nível de consumo é seu grande problema. A propaganda é a alma do negócio. O rádio surge para ajudar a vender. Mas não só.
Pessoas reunidas em frente a um aparelho de rádio não conversam entre si. Todos escutam a mesma voz, o mesmo discurso, a mesma música. Como disse Marx, as idéias dominantes em uma sociedade são as idéias da classe dominante. A voz do rádio era a voz de seus donos. Compre mercadorias e receba inteiramente grátis as idéias dominantes.
Essa passividade diante de um meio de comunicação permaneceu e aumentou quando se aprendeu a usar a luz para fixar imagens e, logo depois, para colocá-las em movimento. A fotografia virou filme. Na primeira sessão comercial de cinema, os irmãos Lumiére exibiram a imagem de um trem entrando na estação de Lyon. Dizem que alguns dos presentes ficaram com medo de serem atropelados. Ficariam ainda mais assustados se o filme já contasse com uma trilha sonora. Mas o som não tardaria a chegar.
O primeiro filme sonoro é de 1927. Chaplin dizia que não haveria futuro para o cinema com som. Afinal, a universalidade dos gestos humanos presentes nos filmes mudos ultrapassava os limites das várias línguas. Mas o criador de Carlitos não contava com a força da indústria cultural ianque. Os filmes chegam a todos os lugares do mundo legendados, dublados ou simplesmente falados em inglês, que foi imposto como um moderno latim.
Menos de 100 anos depois da chegada do trem dos irmãos Lumiére, o cinema foi para dentro das casas transformado em televisão. Era o rádio e o cinema, num único aparelho, presente em quase todos os lugares do planeta. Os meios pareciam convergir. A fala, a imagem, o movimento, de um lado. Avassaladores. De outro, avassalado, o espectador. Do latim “spectátoróris”, ou seja, “contemplador, observador”, segundo o dicionário Houaiss. Mais precisamente, pessoa passiva.
Uns 40 anos atrás, aconteceu a mais recente revolução nas comunicações. Ela foi possibilitada pela microeletrônica e pela informática e permitiu criar uma base material única. É a tecnologia digital, utilizada tanto na linha de montagem das empresas automobilísticas, como na campanha publicitária para estimular o consumo de automóveis.
A digitalização permitiu a convergência da organização da informação de tal forma que informações, som e imagem podem chegar todos ao mesmo tempo através de um único aparelho. É o chamado “triple-play” ou tripla função. Enquanto isso, a palavra escrita é utilizada plenamente por cada vez menos pessoas. A maioria só domina a escrita e a leitura para tarefas muito básicas. E, tal como na época anterior à escrita, a fala e as imagens estabelecem seu predomínio.
Só que, agora, elas não são produtos de uma convivência comunitária, com suas múltiplas conversas e seus relatos coletivos. Na sociedade de massas, o verbo e a imagens vêm em pacotes prontos e fechados a sugestões. Nossos antepassados ficariam espantados com nossa submissão a nossas próprias conquistas tecnológicas. Quase não falamos, só ouvimos. Não imaginamos, só assistimos.
No outro lado disso, estariam os meios de comunicação que permaneceram interativos. São o correio eletrônico e o telefone. Por eles, duas ou mais pessoas podem trocar o conteúdo que quiserem. Claro que muito desse conteúdo é determinado pelas idéias, conceitos, hábitos, costumes, preconceitos, crenças, visões de mundo dominantes.
Mas, sempre há um espaço para uma comunicação própria, alternativa, diferente. Inadmissível, pensa o sistema. Se depender da lógica capitalista, essa relativa liberdade vai ter cada vez menos espaço. A internete, além de estar muito longe da universalização, não está a salvo de ser monopolizada. É possível, por exemplo, diferenciar o desempenho do tráfego de dados, obrigando os usuários a pagar por uma transmissão de informações mais rápida e de qualidade melhor.
Quanto ao telefone, a invasão dos celulares é esmagadora. Já se fala em metade da população mundial com esse tipo de equipamento. E o funcionamento pleno da função tripla vai tornar esses aparelhos cada vez mais receptores de conteúdos prontos. Em outras palavras, vamos ter mais dificuldade em falar uns com os outros porque estaremos assistindo programas, jogos de futebol, musicais e filmes em nossos terminais móveis.
Cada vez mais nosso tempo livre será invadido por esse bombardeio midiático. Nosso repertório vai se encolhendo e se ajustando ao que as grandes empresas de bens simbólicos produzem, para preencher ao máximo nosso campo visual e auditivo. Uma permanente pressão a favor do consumo desenfreado e do conformismo social.
No entanto, nem tudo são flores para o Capital. Toda essa tecnologia tornou mais difícil a determinação do que seja propriedade privada. Os programas de computadores já não são mais vendidos como qualquer mercadoria. Apenas têm seu uso autorizado por uma licença. Isso facilita a cópia não autorizada. A informação é um elemento estratégico na atual fase do capitalismo.
Mas, informação é um bem diferente dos outros. No momento em que é usada ela ganha valor, ao invés de perder, como acontece com as outras mercadorias. Ela escapa por entre as garras do Capital. Como disse Thomas Jefferson uma vez:
...se a natureza produziu uma coisa menos suscetível de propriedade exclusiva (...), é a ação do poder de pensar que chamamos de idéia. Aquele que recebe uma idéia de mim, recebe instrução para si sem que haja diminuição da minha, da mesma forma que quem acende um lampião no meu, recebe luz sem que a minha seja apagada.Daí, as polêmicas em torno das patentes e, principalmente, da propriedade intelectual.
Do ponto de vista do combate à dominação, as tecnologias também se tornaram mais acessíveis. Já não é tão caro montar uma rádio ou uma tv. É certo que serão comunitárias com todas as suas limitações de alcance, sem falar na repressão pura e simples que se abate sobre elas. A internete também apresenta boas perspectivas e elas podem ser muito melhores se conseguíssemos ligar a rede de TV digital à rede mundial de computadores. A internete ficaria acessível para a maioria da população.
Na verdade, a capacidade de transmissão de informações conquistada pela humanidade pode ser um grande avanço para a interação universal dos seres humanos em toda sua diversidade. Para isso seria preciso acabar com as atuais relações sociais. Criar novas formas de convivência e seus instrumentos.
Seria preciso partir da base material alcançada pela atual tecnologia, mas adaptá-la a outros objetivos que não a apropriação privada dos produtos do trabalho humano. Enquanto isso, permanece a ameaça de nos tornarmos cada vez mais extensões de nossos terminais eletrônicos. Matrix é aqui.
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29 de jul. de 2011
A grande mídia e o princípio da incerteza
Texto de julho de 2006
O modo como a grande mídia age é parecido com o chamado "princípio da incerteza" da física quântica. Quanto menor o objeto estudado, menor a precisão com que é registrado. O tamanho da mídia altera os fatos que pretende descrever. A única certeza é a de que esse mecanismo está a serviços dos poderosos.
Em 1997, Patrick Champagne publicou o artigo "A Visão Mediática", em um livro organizado por Pierre Bourdieu chamado "A Miséria do Mundo". Nele, Champagne alertava para o modo como a mídia focalizava problemas sociais nas grandes cidades. Segundo ele, a mídia aumenta alguns problemas por interesses próprios. Exagera para vender mais, aterrorizar ou fazer uso político. Mas, essa interferência também leva os setores focalizados a assimilar essa interferência e se preparar para dizer "o que a mídia quer".
Ônibus 174 e PCC
Em 12 de junho de 2000, o seqüestro de um ônibus no Rio de Janeiro foi filmado em tempo real. Por quatro horas, as televisões mostraram o caso ao vivo, paralisando o país. Mais tarde, o acontecimento transformou-se num ótimo e triste filme. "Ônibus 174" de José Padilha mostra toda a estupidez que cercou o episódio. Mas, também é um claro testemunho da enorme influência que a presença da mídia no local teve no desfecho do caso. Tanto Sandro, o seqüestrador, como a polícia, tiveram o tempo todo a mídia como referência maior. Permanecer sob os holofotes era fundamental para Sandro. Evitar a morte tanto do criminoso, como da refém diante das câmeras era crucial para as autoridades. Somente a incompetência e a crueldade policial acabaram levando a um desfecho mortal para ambos.
Mais recentemente, em maio e julho de 2006, a organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) fez uma série de ataques em São Paulo e outros estados. Seu líder é conhecido como Marcola. Em 23/5/2006, o colunista Arnaldo Jabor publicou "Estamos todos no inferno", no jornal "O Globo". Tratava-se de uma entrevista imaginária com Marcola. Nela, o líder criminoso faz discursos falando sobre problemas sociais, luta de classes, corrupção e falência do Estado etc. Na internete, o texto ganhou condição de entrevista verdadeira. Mais confusão. Muita gente viu no chefe do PCC um novo líder revolucionário ou algo assim. Esse pessoal iniciou (ou retomou) teorias sobre o "crime organizado" como nova vanguarda ou coisa parecida. Desmentidos circularam pela internete e alguns jornais. Mas, ainda há quem pense que a entrevista é verdadeira e tira as conclusões mais estranhas com base nisso.
O “empurrão” da luz e o peso da mídia
Tudo isso mostra como a grande mídia não se limita a registrar os fatos. Ao contrário, na medida em que o faz interfere em suas conseqüências. Seja distorcendo o passado, seja condicionando o futuro. Parece o que acontece quando entra em ação o chamado "princípio da incerteza" na física quântica.
Em 1927, Werner Heisenberg formulou esse famoso princípio matemático. Como explica Marcelo Gleiser (Folha de São Paulo – 16/11/2003) em dimensões muito pequenas:
Mas, no caso da grande mídia, não é o objeto que é pequeno. E ela, como instrumento monopolizado e a serviço dos poderosos, que se agigantou diante de outros elementos. Desse modo, modifica aquilo que registra. No caso de Jabor há um agravante. A ficção se mistura ao noticiário. A mídia vai tornando-se uma coisa só. Informação e invenção confundem coordenadas já tão embaralhadas.
Numa tal situação, é claro que há um elemento involuntário. O próprio peso da grande mídia acaba distorcendo os fatos, independente da vontade de quem nela trabalha. O problema é que não estamos falando de leis da física. Por trás de uma ferramenta tão poderosa há interesses bastante definidos. Aí, não há incerteza. O objetivo é claro e certo: causar confusão para manter a dominação ideológica e vencer desafios à ela. São os interesses de seus proprietários, seus patrocinadores e daqueles que zelam pela manutenção dos monopólios: empresários e governos.
O modo como a grande mídia age é parecido com o chamado "princípio da incerteza" da física quântica. Quanto menor o objeto estudado, menor a precisão com que é registrado. O tamanho da mídia altera os fatos que pretende descrever. A única certeza é a de que esse mecanismo está a serviços dos poderosos.
Em 1997, Patrick Champagne publicou o artigo "A Visão Mediática", em um livro organizado por Pierre Bourdieu chamado "A Miséria do Mundo". Nele, Champagne alertava para o modo como a mídia focalizava problemas sociais nas grandes cidades. Segundo ele, a mídia aumenta alguns problemas por interesses próprios. Exagera para vender mais, aterrorizar ou fazer uso político. Mas, essa interferência também leva os setores focalizados a assimilar essa interferência e se preparar para dizer "o que a mídia quer".
Ônibus 174 e PCC
Em 12 de junho de 2000, o seqüestro de um ônibus no Rio de Janeiro foi filmado em tempo real. Por quatro horas, as televisões mostraram o caso ao vivo, paralisando o país. Mais tarde, o acontecimento transformou-se num ótimo e triste filme. "Ônibus 174" de José Padilha mostra toda a estupidez que cercou o episódio. Mas, também é um claro testemunho da enorme influência que a presença da mídia no local teve no desfecho do caso. Tanto Sandro, o seqüestrador, como a polícia, tiveram o tempo todo a mídia como referência maior. Permanecer sob os holofotes era fundamental para Sandro. Evitar a morte tanto do criminoso, como da refém diante das câmeras era crucial para as autoridades. Somente a incompetência e a crueldade policial acabaram levando a um desfecho mortal para ambos.
Mais recentemente, em maio e julho de 2006, a organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) fez uma série de ataques em São Paulo e outros estados. Seu líder é conhecido como Marcola. Em 23/5/2006, o colunista Arnaldo Jabor publicou "Estamos todos no inferno", no jornal "O Globo". Tratava-se de uma entrevista imaginária com Marcola. Nela, o líder criminoso faz discursos falando sobre problemas sociais, luta de classes, corrupção e falência do Estado etc. Na internete, o texto ganhou condição de entrevista verdadeira. Mais confusão. Muita gente viu no chefe do PCC um novo líder revolucionário ou algo assim. Esse pessoal iniciou (ou retomou) teorias sobre o "crime organizado" como nova vanguarda ou coisa parecida. Desmentidos circularam pela internete e alguns jornais. Mas, ainda há quem pense que a entrevista é verdadeira e tira as conclusões mais estranhas com base nisso.
O “empurrão” da luz e o peso da mídia
Tudo isso mostra como a grande mídia não se limita a registrar os fatos. Ao contrário, na medida em que o faz interfere em suas conseqüências. Seja distorcendo o passado, seja condicionando o futuro. Parece o que acontece quando entra em ação o chamado "princípio da incerteza" na física quântica.
Em 1927, Werner Heisenberg formulou esse famoso princípio matemático. Como explica Marcelo Gleiser (Folha de São Paulo – 16/11/2003) em dimensões muito pequenas:
"...existe um limite máximo na precisão com que a posição e a velocidade de uma partícula, como o elétron, podem ser medidas conjuntamente. Nessas dimensões tão minúsculas, medir significa perturbar (...). É que as dimensões são tão pequenas, que a luz utilizada para observar “empurra” o objeto, alterando suas coordenadas".O pesquisador nunca sabe exatamente onde está seu objeto de estudo. Já, as coisas à nossa volta são grandes demais para que isso aconteça. Assim, quanto maior o tamanho, menor a incerteza quanto a suas medidas.
Mas, no caso da grande mídia, não é o objeto que é pequeno. E ela, como instrumento monopolizado e a serviço dos poderosos, que se agigantou diante de outros elementos. Desse modo, modifica aquilo que registra. No caso de Jabor há um agravante. A ficção se mistura ao noticiário. A mídia vai tornando-se uma coisa só. Informação e invenção confundem coordenadas já tão embaralhadas.
Numa tal situação, é claro que há um elemento involuntário. O próprio peso da grande mídia acaba distorcendo os fatos, independente da vontade de quem nela trabalha. O problema é que não estamos falando de leis da física. Por trás de uma ferramenta tão poderosa há interesses bastante definidos. Aí, não há incerteza. O objetivo é claro e certo: causar confusão para manter a dominação ideológica e vencer desafios à ela. São os interesses de seus proprietários, seus patrocinadores e daqueles que zelam pela manutenção dos monopólios: empresários e governos.
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16 de mai. de 2011
Videogames, violência e indústria da diversão
A indústria de games vem tornando-se mais poderosa que a do cinema. Os jogos violentos são sua principal atração. Mas é perigoso fazer uma ligação direta entre o aumento de sua influência e o crescimento da violência social. É preciso combater a indústria da diversão sem desrespeitar a inteligência de seu público.
Em julho de 2008, “Harry Potter” quebrou o recorde histórico de bilheteria para filmes na semana de estréia. Arrecadou US$ 394 milhões. Desde então, nenhuma produção superou a marca, incluindo Avatar, de James Cameron.
Mas, em maio do mesmo ano, o jogo GTA IV vendeu US$ 500 milhões em uma semana. Deixou o filme da franquia Potter para trás em mais de US$ 100 milhões. E em dezembro de 2010, “Call of Duty” havia alcançado US$ 1 bilhão em vendas, cerca de um mês após seu lançamento.
Não à toa, o próprio cinema vem tentando surfar nesta onda. São cada vez mais comuns filmes baseados em personagens e situações criados para os videogames. Por outro lado, filmes de sucesso podem tornar-se bem sucedidas adaptações para games.
“Call of Duty” simula situações de combate. Sua primeira versão tinha como cenário batalhas travadas durante a Segunda Guerra Mundial. Mas sua versão “Modern Warfare 2” é ambientado nos tempos atuais e em grande cidades. Algumas ações se passam no Rio de Janeiro, com direito a invasão de favelas e tiros em moradores como um mal necessário.
GTA é a sigla para “Grand Theft Auto”. É o nome que a polícia americana usa para identificar furtos de automóveis de valor elevado. O jogo explora situações de extrema violência, roubos, homicídios e prostituição.
Mais recentemente, foi lançado o game Bully. O cenário é uma escola. O jogador é um aluno. Sua missão é sobreviver às panelinhas de alunos, enfrentar o autoritarismo de professores, lidar com brincadeiras maldosas, conquistar garotas e também aprontar com os outros para ganhar pontos.
A indústria dos videogames é coisa muito séria. Está cada vez mais poderosa. No ano passado lucrou US$ 24 bilhões. Números como este e o perfil dos jogos mais vendidos são preocupantes. Mostram o crescimento da influência de um tipo de mídia que ainda recebe pouca atenção.
E quando recebem, costumam despertar reações pouco sutis. Por exemplo, quando os jogos eletrônicos são acusados de tornar os jovens mais violentos. Não há estudos aprofundados sobre tal relação. Nem em relação à TV e ao cinema, que são bem mais antigos, há provas definitivas de que suas atrações tornem seu público mais violento.
Se esta relação de causa e efeito fosse tão direta, conviveríamos com centenas de maníacos assassinos em nossos bairros, famílias, locais de trabalho e de estudo. É só olhar em volta para descobrir muitos adeptos dos jogos, filmes e programas violentos. A maioria deles, envolvida em pacatas atividades e rotinas de vida.
O Japão, por exemplo, tem um dos maiores mercados do mundo para produtos que têm a violência extrema como tema. No entanto, apresenta índices de crimes violentos muito baixos. A violência que atinge os jovens daquele país parece ser de outra natureza. Um fenômeno que se manifesta em um grande número de suicídios.
Não se trata de dizer que os videogames, filmes e séries de TV violentos são inofensivos. Mas, é preciso tomar cuidado com relações que enxerguem no público um amontoado de teleguiados. Ou de seres facilmente programáveis por empresas todo-poderosas.
Críticas como essas foram muito comuns, por exemplo, na época em que as histórias em quadrinhos começaram a se tornar popular. As restrições a esse tipo de produção começou com Mussolini, mas foi adotada também nos Estados Unidos no Pós-Guerra.
O grande problema da condenação pura e simples de produtos como quadrinhos e videogames é ignorar seu apelo lúdico. Uma dimensão legítima e necessária da condição humana.
A indústria do videogame, como a do cinema e dos quadrinhos, somente faz sucesso duradouro quando atende a este apelo sem subestimar a inteligência de seu público-alvo. E é este erro que não podemos cometer ao fazer a crítica desse tipo de indústria. Acusá-la de manipular pura e simplesmente as pessoas pode ser entendido por estas como um menosprezo a sua capacidade crítica.
E isso só piora quando as críticas partem de quem não tem a menor familiaridade com o rico universo que abrange jogos, quadrinhos, seriados e cinema. Os encarregados de criar os elementos desse cosmo são artistas bem pagos, inteligentes, bem informados e muito criativos.
Ao mesmo tempo, a indústria sabe aproveitar as sugestões e idéias que surgem de ambientes virtuais que reúnem fãs e adeptos quase profissionais. Tal ambiente vem dando aos games cada vez mais complexidade, força dramática e qualidade artística.
O fato é que o sucesso dos jogos violentos deve-se muito mais ao ambiente social em que são criados. Seria cômodo dizer que são os games violentos que alimentam a violência. E seria fácil combater tais efeitos. Bastaria proibir sua circulação, como se tenta fazer com armas e drogas.
A ação dos games é mais sutil. Trata-se de reforçar uma lógica social de extrema competição individualista e discriminatória. Mas precisa fazer isso em meio a uma disputa de mercado. Por isso, as estratégias podem variar conforme o momento, o lugar do mercado e a faixa de público que se quer atingir. Daí, os inúmeros tipos de jogos e sua evolução ao longo do tempo.
Nada disso dispensa a necessidade de denunciar a lógica da indústria de games e das diversões em geral. Mas, é preciso fazê-lo unindo razão e sensibilidade de modo a respeitar a inteligência alheia. De preferência, contando com aliados que atuem nesse campo, que já vai se transformando em uma nova e poderosa “arte”.
Do contrário, seria como virar as costas ao cinema, ignorando produções que defenderam a necessidade de lutar por transformações sociais. Correríamos o risco de nos tornar não uma esquerda crítica, mas rabugenta e atrasada. Melhor dizendo, “sem noção!”
Em julho de 2008, “Harry Potter” quebrou o recorde histórico de bilheteria para filmes na semana de estréia. Arrecadou US$ 394 milhões. Desde então, nenhuma produção superou a marca, incluindo Avatar, de James Cameron.
Mas, em maio do mesmo ano, o jogo GTA IV vendeu US$ 500 milhões em uma semana. Deixou o filme da franquia Potter para trás em mais de US$ 100 milhões. E em dezembro de 2010, “Call of Duty” havia alcançado US$ 1 bilhão em vendas, cerca de um mês após seu lançamento.
Não à toa, o próprio cinema vem tentando surfar nesta onda. São cada vez mais comuns filmes baseados em personagens e situações criados para os videogames. Por outro lado, filmes de sucesso podem tornar-se bem sucedidas adaptações para games.
“Call of Duty” simula situações de combate. Sua primeira versão tinha como cenário batalhas travadas durante a Segunda Guerra Mundial. Mas sua versão “Modern Warfare 2” é ambientado nos tempos atuais e em grande cidades. Algumas ações se passam no Rio de Janeiro, com direito a invasão de favelas e tiros em moradores como um mal necessário.
GTA é a sigla para “Grand Theft Auto”. É o nome que a polícia americana usa para identificar furtos de automóveis de valor elevado. O jogo explora situações de extrema violência, roubos, homicídios e prostituição.
Mais recentemente, foi lançado o game Bully. O cenário é uma escola. O jogador é um aluno. Sua missão é sobreviver às panelinhas de alunos, enfrentar o autoritarismo de professores, lidar com brincadeiras maldosas, conquistar garotas e também aprontar com os outros para ganhar pontos.
A indústria dos videogames é coisa muito séria. Está cada vez mais poderosa. No ano passado lucrou US$ 24 bilhões. Números como este e o perfil dos jogos mais vendidos são preocupantes. Mostram o crescimento da influência de um tipo de mídia que ainda recebe pouca atenção.
E quando recebem, costumam despertar reações pouco sutis. Por exemplo, quando os jogos eletrônicos são acusados de tornar os jovens mais violentos. Não há estudos aprofundados sobre tal relação. Nem em relação à TV e ao cinema, que são bem mais antigos, há provas definitivas de que suas atrações tornem seu público mais violento.
Se esta relação de causa e efeito fosse tão direta, conviveríamos com centenas de maníacos assassinos em nossos bairros, famílias, locais de trabalho e de estudo. É só olhar em volta para descobrir muitos adeptos dos jogos, filmes e programas violentos. A maioria deles, envolvida em pacatas atividades e rotinas de vida.
O Japão, por exemplo, tem um dos maiores mercados do mundo para produtos que têm a violência extrema como tema. No entanto, apresenta índices de crimes violentos muito baixos. A violência que atinge os jovens daquele país parece ser de outra natureza. Um fenômeno que se manifesta em um grande número de suicídios.
Não se trata de dizer que os videogames, filmes e séries de TV violentos são inofensivos. Mas, é preciso tomar cuidado com relações que enxerguem no público um amontoado de teleguiados. Ou de seres facilmente programáveis por empresas todo-poderosas.
Críticas como essas foram muito comuns, por exemplo, na época em que as histórias em quadrinhos começaram a se tornar popular. As restrições a esse tipo de produção começou com Mussolini, mas foi adotada também nos Estados Unidos no Pós-Guerra.
O grande problema da condenação pura e simples de produtos como quadrinhos e videogames é ignorar seu apelo lúdico. Uma dimensão legítima e necessária da condição humana.
A indústria do videogame, como a do cinema e dos quadrinhos, somente faz sucesso duradouro quando atende a este apelo sem subestimar a inteligência de seu público-alvo. E é este erro que não podemos cometer ao fazer a crítica desse tipo de indústria. Acusá-la de manipular pura e simplesmente as pessoas pode ser entendido por estas como um menosprezo a sua capacidade crítica.
E isso só piora quando as críticas partem de quem não tem a menor familiaridade com o rico universo que abrange jogos, quadrinhos, seriados e cinema. Os encarregados de criar os elementos desse cosmo são artistas bem pagos, inteligentes, bem informados e muito criativos.
Ao mesmo tempo, a indústria sabe aproveitar as sugestões e idéias que surgem de ambientes virtuais que reúnem fãs e adeptos quase profissionais. Tal ambiente vem dando aos games cada vez mais complexidade, força dramática e qualidade artística.
O fato é que o sucesso dos jogos violentos deve-se muito mais ao ambiente social em que são criados. Seria cômodo dizer que são os games violentos que alimentam a violência. E seria fácil combater tais efeitos. Bastaria proibir sua circulação, como se tenta fazer com armas e drogas.
A ação dos games é mais sutil. Trata-se de reforçar uma lógica social de extrema competição individualista e discriminatória. Mas precisa fazer isso em meio a uma disputa de mercado. Por isso, as estratégias podem variar conforme o momento, o lugar do mercado e a faixa de público que se quer atingir. Daí, os inúmeros tipos de jogos e sua evolução ao longo do tempo.
Nada disso dispensa a necessidade de denunciar a lógica da indústria de games e das diversões em geral. Mas, é preciso fazê-lo unindo razão e sensibilidade de modo a respeitar a inteligência alheia. De preferência, contando com aliados que atuem nesse campo, que já vai se transformando em uma nova e poderosa “arte”.
Do contrário, seria como virar as costas ao cinema, ignorando produções que defenderam a necessidade de lutar por transformações sociais. Correríamos o risco de nos tornar não uma esquerda crítica, mas rabugenta e atrasada. Melhor dizendo, “sem noção!”
26 de fev. de 2011
Folha: de rabo preso com a ditadura de plantão
A Folha de S. Paulo acaba de completar 90 anos. Aproveitou para confessar seu apoio ao regime militar. Na verdade, comemora a vitória do Projeto Folha, em que trocou seu apoio à ditadura política pela fé na ditadura econômica.
A Folha de S. Paulo completou 90 anos no sábado, dia 19 de fevereiro. Nascido em 1921, o jornal só ganhou o nome atual em 1931. Até então, era Folha da Noite. De 1986 a 2010 foi a publicação jornalística de maior circulação do País. Perdeu o primeiro lugar para o tablóide mineiro Super Notícia. Mas, sem dúvida segue sendo um dos mais influentes no País.
Relembrando sua história, o jornal fez uma confissão rara em sua edição do dia 20/02. Assumiu claramente seu apoio ao golpe militar de 1964. Disse que sua redação foi entregue jornalistas “entusiasmados com a linha dura militar” como parte de uma reação da empresa “à atuação clandestina” de militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) nas dependências do próprio jornal. Uma desculpa mais que esfarrapada.
Quanto ao uso de suas caminhonetes de entrega de jornal por agentes da repressão, a Folha atribui o relato a denúncias de presos políticos e não as confirma. Mesmo assim, surpreende a admissão do papel do jornal no apoio à ditadura. Ou não?
Na verdade, esse repentino ataque de franqueza nada tem de contraditório. A Folha fez um movimento inteligente no início dos anos 1980. Pressentindo a crise do regime militar, trocou seu apoio à ditadura dos generais pela militância pela ditadura do mercado. Essa guinada recebeu o nome de Projeto Folha. O próprio histórico publicado no jornal ajuda a esclarecer:
“Respondendo a essa fragmentação, continua o texto da Folha, a direção do jornal elegeu o pluralismo e o apartidarismo (...) como os principais pilares do Projeto Folha”. Segundo o final feliz do histórico do jornalão paulista, “o Projeto Folha transformou-se numa influente escola de jornalismo”. Teria se tornado um veiculo apartidário e comprometido com a sociedade civil. Ou conforme campanha publicitária dos anos 1980, um jornal “de rabo preso com o leitor”.
José Arbex foi um dos jornalistas que acompanhou esse projeto muito de perto. Fazia parte da redação da Folha na época de sua implantação. Em seu livro “Shownarlismo” (Casa Amarela-2001), Arbex diz que o Projeto Folha significou a adoção do discurso para o mercado. Nada mais do que o tratamento da notícia como mercadoria.
A pose da Folha como porta-voz da democracia, escondia uma política interna autoritária. Um rígido controle industrial e ideológico da produção de informação materializado em seu famoso Manual de Redação. Arbex diz que o jornal escolheu “a estratégia de transformar a democracia em marketing”.
Na verdade, trata-se da adoção da “democracia de mercado”, em que o que importa é o funcionamento das leis capitalistas. Se a Folha sobreviveu à censura dos generais, por que não veria com tranqüilidade a implantação de um sistema baseado em eleições e outras liberdades? Afinal, a condição de monopólio da mídia empresarial já lhe garantia poder suficiente para funcionar como um bloqueio econômico à verdadeira liberdade de informação. Foi isso o que a Folha enxergou antes de sua concorrência.
O Projeto Folha implicava uma opção clara. Era pelo fim do apoio da empresa à ditadura política dos militares. Mas também pelo engajamento na defesa do livre funcionamento da ditadura das leis do mercado. Uma postura que ajudava também a reforçar o lado conservador da “transição democrática”. Aquele que tentou e conseguiu manter o essencial dos aparelhos de repressão reforçados pela ditadura militar. Algo que resultou, por exemplo, no tratamento ilegal e violento dispensado pelas polícias e forças de segurança a pobres e negros. Assim como na criminalização dos movimentos sociais.
Essa promessa de fé no império da acumulação do capital ajuda a explicar algumas recaídas que lembram a relação submissa do jornal em relação ao regime militar. Uma delas foi o episódio da “ditabranda”, palavra inventada pela Folha em editorial de fevereiro de 2009. O neologismo procurava dar à ditadura de 64 um caráter moderado.
Esta espécie de ato falho talvez revele disposição em aceitar a volta do uso de medidas ditatoriais. Basta que se mostrem necessárias para garantir a enorme concentração de poder e lucros das grandes corporações.
Mas, a razão mais concreta da recente “confissão” da Folha parece ser mais simples. Por ocasião de seus 90 anos, o jornal colocou à disposição do público seu conteúdo integral desde 1921. São quase 2 milhões de páginas totalmente indexadas. Uma medida que certamente deixa mais óbvias muitas das relações podres da Folha com o poder.
Aí, a melhor política passa a ser confessar logo aquilo que vai ficar claro demais para ser negado. Mais uma amostra da linha flexível do jornal quando se trata de manter o essencial de seu projeto. Além disso, aproveita o momento em que os principais atores políticos do País se recusam a acertar contas com os carrascos da ditadura.
O aniversário da Folha mereceu um discurso da presidenta da República em evento comemorativo. Dilma não nega nem renega sua atuação na resistência à ditadura. Mas, manteve em seu governo Nelson Jobim, figura submissa à cúpula conservadora das Forças Armadas. A última proeza de Jobim foi propor a cassação da anistia concedida a militares que se rebelaram contra o golpe de 64.
Acrescente-se a isso a presença de Dilma nas comemorações do jornalão paulista. Péssimo sinal. O evento festejava mais uma vitória da mídia empresarial. Saudava sua capacidade de disfarçar seus interesses particulares e antipopulares com a máscara da liberdade de imprensa. Comemorava a maestria da Folha em esconder seu rabo preso às ditaduras de plantão. As políticas e as econômicas.
A Folha de S. Paulo completou 90 anos no sábado, dia 19 de fevereiro. Nascido em 1921, o jornal só ganhou o nome atual em 1931. Até então, era Folha da Noite. De 1986 a 2010 foi a publicação jornalística de maior circulação do País. Perdeu o primeiro lugar para o tablóide mineiro Super Notícia. Mas, sem dúvida segue sendo um dos mais influentes no País.
Relembrando sua história, o jornal fez uma confissão rara em sua edição do dia 20/02. Assumiu claramente seu apoio ao golpe militar de 1964. Disse que sua redação foi entregue jornalistas “entusiasmados com a linha dura militar” como parte de uma reação da empresa “à atuação clandestina” de militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) nas dependências do próprio jornal. Uma desculpa mais que esfarrapada.
Quanto ao uso de suas caminhonetes de entrega de jornal por agentes da repressão, a Folha atribui o relato a denúncias de presos políticos e não as confirma. Mesmo assim, surpreende a admissão do papel do jornal no apoio à ditadura. Ou não?
Na verdade, esse repentino ataque de franqueza nada tem de contraditório. A Folha fez um movimento inteligente no início dos anos 1980. Pressentindo a crise do regime militar, trocou seu apoio à ditadura dos generais pela militância pela ditadura do mercado. Essa guinada recebeu o nome de Projeto Folha. O próprio histórico publicado no jornal ajuda a esclarecer:
A Folha foi o jornal que mais se associou às Diretas. Seu engajamento é anterior ao das principais lideranças de oposição que, em fins de 1983, ainda não formavam uma frente compacta, deixando prevalecer os interesses partidários. Nessa altura, quando o movimento mal conseguia encher uma praça, o jornal criticou o sectarismo dos políticos e o silêncio da imprensa.Ou seja, sentindo as dificuldades do governo dos generais para se manter no poder, a Folha cobrava da classe dominante unidade em torno de outro projeto. O movimento das Diretas teria sido o “o apogeu do consenso suprapartidário das oposições”. Mas, uma vez derrotada a emenda que propunha eleições diretas para presidente, “cada partido tratou de traçar sua própria estratégia”.
“Respondendo a essa fragmentação, continua o texto da Folha, a direção do jornal elegeu o pluralismo e o apartidarismo (...) como os principais pilares do Projeto Folha”. Segundo o final feliz do histórico do jornalão paulista, “o Projeto Folha transformou-se numa influente escola de jornalismo”. Teria se tornado um veiculo apartidário e comprometido com a sociedade civil. Ou conforme campanha publicitária dos anos 1980, um jornal “de rabo preso com o leitor”.
José Arbex foi um dos jornalistas que acompanhou esse projeto muito de perto. Fazia parte da redação da Folha na época de sua implantação. Em seu livro “Shownarlismo” (Casa Amarela-2001), Arbex diz que o Projeto Folha significou a adoção do discurso para o mercado. Nada mais do que o tratamento da notícia como mercadoria.
A pose da Folha como porta-voz da democracia, escondia uma política interna autoritária. Um rígido controle industrial e ideológico da produção de informação materializado em seu famoso Manual de Redação. Arbex diz que o jornal escolheu “a estratégia de transformar a democracia em marketing”.
Na verdade, trata-se da adoção da “democracia de mercado”, em que o que importa é o funcionamento das leis capitalistas. Se a Folha sobreviveu à censura dos generais, por que não veria com tranqüilidade a implantação de um sistema baseado em eleições e outras liberdades? Afinal, a condição de monopólio da mídia empresarial já lhe garantia poder suficiente para funcionar como um bloqueio econômico à verdadeira liberdade de informação. Foi isso o que a Folha enxergou antes de sua concorrência.
O Projeto Folha implicava uma opção clara. Era pelo fim do apoio da empresa à ditadura política dos militares. Mas também pelo engajamento na defesa do livre funcionamento da ditadura das leis do mercado. Uma postura que ajudava também a reforçar o lado conservador da “transição democrática”. Aquele que tentou e conseguiu manter o essencial dos aparelhos de repressão reforçados pela ditadura militar. Algo que resultou, por exemplo, no tratamento ilegal e violento dispensado pelas polícias e forças de segurança a pobres e negros. Assim como na criminalização dos movimentos sociais.
Essa promessa de fé no império da acumulação do capital ajuda a explicar algumas recaídas que lembram a relação submissa do jornal em relação ao regime militar. Uma delas foi o episódio da “ditabranda”, palavra inventada pela Folha em editorial de fevereiro de 2009. O neologismo procurava dar à ditadura de 64 um caráter moderado.
Esta espécie de ato falho talvez revele disposição em aceitar a volta do uso de medidas ditatoriais. Basta que se mostrem necessárias para garantir a enorme concentração de poder e lucros das grandes corporações.
Mas, a razão mais concreta da recente “confissão” da Folha parece ser mais simples. Por ocasião de seus 90 anos, o jornal colocou à disposição do público seu conteúdo integral desde 1921. São quase 2 milhões de páginas totalmente indexadas. Uma medida que certamente deixa mais óbvias muitas das relações podres da Folha com o poder.
Aí, a melhor política passa a ser confessar logo aquilo que vai ficar claro demais para ser negado. Mais uma amostra da linha flexível do jornal quando se trata de manter o essencial de seu projeto. Além disso, aproveita o momento em que os principais atores políticos do País se recusam a acertar contas com os carrascos da ditadura.
O aniversário da Folha mereceu um discurso da presidenta da República em evento comemorativo. Dilma não nega nem renega sua atuação na resistência à ditadura. Mas, manteve em seu governo Nelson Jobim, figura submissa à cúpula conservadora das Forças Armadas. A última proeza de Jobim foi propor a cassação da anistia concedida a militares que se rebelaram contra o golpe de 64.
Acrescente-se a isso a presença de Dilma nas comemorações do jornalão paulista. Péssimo sinal. O evento festejava mais uma vitória da mídia empresarial. Saudava sua capacidade de disfarçar seus interesses particulares e antipopulares com a máscara da liberdade de imprensa. Comemorava a maestria da Folha em esconder seu rabo preso às ditaduras de plantão. As políticas e as econômicas.
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24 de nov. de 2010
Manifesto Telecomunista: importante contribuição ao debate
O Manifesto Telecomunista, de Dmytri Kleiner, pretende ser uma atualização do Manifesto Comunista para a era da internete. O documento acaba entrando em contradição com alguns princípios defendidos por Marx e Engels. Ainda assim, sua leitura e debate são fundamentais para a luta anticapitalista.
Fazendo uso de categorias marxistas e tendo como referência o Manifesto Comunista, de Marx e Engels, Kleiner procura demonstrar que a internete realmente livre e democrática é incompatível com o capitalismo. Mais do que disso, seria um setor estratégico para a luta pela derrubada do sistema.
O autor começa citando o prefácio à "Contribuição à Crítica da Economia Política", de Marx. Mais precisamente o trecho que diz: "em uma certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em conflito com as relações de produção existentes". Segundo Kleiner:
Portanto, uma situação que ilustraria a afirmação de Marx. Trata-se de uma conclusão a que não é difícil chegar. Basta olhar para a feroz guerra movida pelas empresas do setor cultural e de diversão para acabar com a pirataria de seus produtos. Objetivo destinado ao fracasso devido ao próprio modo de funcionamento do capitalismo atual. A propriedade privada dos direitos de produção e reprodução do conhecimento humano está destinada a entrar em choque com seu caráter coletivo e social, mesmo que disso não resulte sua derrota.
No entanto, num trecho logo a seguir, o autor exagera o alcance dessa contradição:
Sem dúvida a internete tornou-se uma ferramenta que desempenha um papel dos mais estratégicos tanto para a dominação capitalista, quanto para seu próprio funcionamento. A expansão dessa gigantesca rede de terminais de comunicação parece derivar da ampliação do papel desempenhado na atual fase da produção capitalista pelas plataformas digitais. Estas últimas transformaram-se na matriz tecnológica que está presente em praticamente todos os setores da economia.
Da fabricação de computadores à produção de automóveis, do controle de estoques agrícolas ao rastreamento de gado, do gerenciamento de cargas em portos às compras em lojas, da produção de filmes à sua distribuição e divulgação. E, claro, da transferência de bilhões em dinheiro de uma parte do planeta à outra, em segundos. Todas essas e muitas outras atividades dependem de programas de computador em funcionamento integrado.
Com tal peso na vida econômica, o texto de Kleiner constata corretamente o papel estratégico da inovação no setor de comunicações via rede mundial. Daí, também o de seus trabalhadores. Estes são responsáveis pela produção do trabalho vivo que se transforma em trabalho morto ao ser apropriado por seus patrões. Assim, em muitos momentos do processo de produção não apenas o trabalho não pago fica retido pelo capitalista na forma de mais-valia. São seus próprios conhecimentos que são apropriados. De resto, esta é uma regra para o capitalismo desde seu surgimento, como lembra o próprio Kleiner.
Até aí, sem problemas. Mas, as coisas começam a ficar confusas quando o autor defende o que chama de “comunismo de risco”. Este consistiria em:
Em outro trecho, Kleiner também explica que:
Salvo engano, Kleiner está se referindo a uma forma solidária e coletiva de organização da produção. Algo muito parecido com as cooperativas de trabalhadores. A grande diferença em relação a estas estaria na base tecnológica sobre a qual funcionaria o comunismo de risco. A tecnologia oferecida pela comunicação em rede seria muito mais adequada a esse tipo de empreendimento do que ao livre mercado capitalista.
Aqui sim, começam os problemas. As iniciativas de economia solidária são importantes formas de resistência. Funcionam, inclusive, como demonstração de que a produção baseada na cooperação solidária é possível.
Ocorre que a feroz concorrência capitalista impõe dois destinos aos quais dificilmente escapam os empreendimentos solidários. Ou são violentamente derrotados no jogo bruto imposto pelos gigantescos monopólios do mercado. Ou se transformam, eles mesmos, em empresas baseadas na exploração do trabalho, ainda que mantenham sua fachada jurídica. Exceções a esta regra jamais ultrapassam a insignificância econômica que as transformem em referência social de peso.
Assim, se a intenção é “inclinar a balança do poder econômico em favor dos representantes dos interesses da classe trabalhadora”, ótimo. É mais um elemento que pode ajudar na luta anticapitalista. E, ao que parece, um elemento poderoso. Já não é o caso se falarmos em “riqueza acumulada suficiente para atingir uma maior influência social do que aqueles que defendem a exploração”. Nesse momento, é possível dizer que o Kleiner se distancia do marxismo.
Uma coisa é a luta que se faz sob o império das relações capitalistas e do Estado que procura garanti-las, através principalmente do controle privado dos meios de produção. Outra é aquela travada em uma fase de transição, em que o controle dos meios de produção se socializou e o Estado precisa se organizar de forma a se extinguir como instrumento de dominação de classe. Neste momento, sim, uma ferramenta como a internete pode ser valiosa na disseminação de relações menos vulneráveis à hierarquia e à centralização autoritária.
Um dos aspectos mais importantes da elaboração política de Marx e Engels, assumido por muitos de seus seguidores, é a impossibilidade de a classe trabalhadora acumular poder material por dentro da sociedade burguesa. Esta foi uma possibilidade histórica explorada vitoriosamente pela burguesia em sua luta contra o feudalismo. Trata-se de um caminho bloqueado para os trabalhadores, em sua condição de despossuídos de meios próprios de produção. Daí, a insistência marxiana e marxista da luta no nível político, ainda que alimentada por lutas e contradições no nível econômico.
O Estado é o nó que dá consistência e coordenação à anarquia produtiva e à feroz competição reinantes no nível da economia capitalista. Além disso, somente através da luta política os trabalhadores, como classe, conseguem romper com a alienação decorrente do caráter fragmentado e desigual dos vários ramos econômicos em que produzem sob a divisão de trabalho capitalista. Não se trata de priorizar a luta institucional, mas de ocupar com firmeza o campo da disputa pelo poder político.
Não há elementos para afirmar que as tecnologias em rede, por mais propensas às relações de produção socializadas, tenham alterado esse quadro. Quando Marx diz que as relações de produção (ou seja, as relações sociais) tornam-se obstáculo às forças produtivas (formas de trabalho, tecnologias, etc) não há como tirar conclusões políticas quase imediatas do tipo a que chega Kleiner.
No trecho de Marx citado por ele, as contradições entre forças produtivas e relações de produção são sintomas de que teve início uma fase em que as revoluções são possíveis. Se elas se concretizarão ou não, a decisão pertence ao campo da luta de classes. Em especial, da luta pela liderança social e cultural dos explorados, que tem no terreno político seu campo de batalha fundamental.
A internete pode ser um caso típico de tecnologia que funcionaria muito melhor em uma sociedade comunista. Mas, daí não se conclui que seja capaz de instaurar relações produtivas desse tipo na atual sociedade em escala suficiente para subvertê-la. Uma evidência disso pode ser encontrada no próprio texto que estamos discutindo. Trata-se da relação entre a web e a internete.
O trecho em questão chama a atenção para o fato de que a “world wide web” e internete não são a mesma coisa. Ao contrário, a primeira engessa e submete a segunda aos interesses das grandes empresas. Nas origens da rede mundial, as conexões eram feitas e se espalhavam com base nas ligações “pessoa a pessoa” (peer to peer). Nos últimos 10 anos, porém, a quase totalidade das conexões por rede somente se estabelecem através de servidores web, pertencentes a grupos econômicos poderosos.
E não só isso. A chamada Web 2.0, diz o autor, nada mais é que a antiga web transformada em fonte de lucros abundantes graças ao trabalho de dezenas de milhões de internautas. São milhares de postagens por minuto que chegam aos poderosos servidores de empresas que controlam portais como Google, Youtube, Facebook, Orkut, Flickr, etc. Material rico e variado obtido gratuitamente e processado a custos próximos do zero.
Desse modo, a internete submetida à Web transformou-se numa grande vitrine para anúncios. E também num enorme e detalhado banco de dados pronto para ser utilizado na elaboração de estratégias de mercado. É uma esplêndida fonte de mais-valia sem qualquer sinal de vínculo empregatício. Mais do que isso, ela utiliza projetos de código aberto, como Linux, PHP, Apache, para capturar o trabalho coletivo que é feito sobre tais programas. Imensa criatividade apropriada por alguns poucos centros altamente lucrativos.
Ou seja, as relações sociais capitalistas castraram e domesticaram uma força produtiva cujo potencial criativo talvez fosse plenamente aproveitado sob o socialismo e comunismo. Achar que é possível alterar esse quadro com base na persistência das conexões pessoa a pessoa sob a intensa pressão do mercado capitalista é ilusão.
Por outro lado, o texto traz várias sugestões em relação a como organizar a produção social sob “bases comunitárias”. Elas têm por modelo os avanços e o acúmulo conquistados no movimento pelo software livre e contra os copyrights. Estão expressos na revisão dos 10 pontos propostos na seção 2 do Manifesto Comunista. Trata-se de trechos do texto original que são substituídos de forma a atualizá-lo. Propostas que devem ser levadas em consideração por quem pensa uma sociedade mais justa.
São especialmente marcadas pela saudável vontade de deslocar do “Estado” as funções de “mutualizar” as relações sociais. Realmente, parece haver certo exagero na presença do Estado nesta parte do documento de Marx e Engels. No entanto, isso seria muito relativizado nas obras posteriores dos autores do Manifesto. Principalmente, após a experiência da Comuna de Paris, em que povo sublevado busca soluções visando à democratização radical das funções estatais.
De qualquer maneira, a proposta de Kleiner só tem a acrescentar e contribuir para o debate e a ação anticapitalista e revolucionária. Deve merecer a atenção de todos os que estão empenhados nesta luta. Em especial, na trincheira da cultura e da informação.
Nota: Dmytri Kleiner é um desenvolvedor de softwares engajado na luta anticapitalista. Lançou seu documento em outubro de 2010 no blog do Institute of Network Cultures. Ainda não foi traduzido do inglês. Há apenas trechos vertidos por Moisés Sbardelotto, que podem ser acessados aqui.
Leia também: Piratas e fantasmas contra o capitalismo
Fazendo uso de categorias marxistas e tendo como referência o Manifesto Comunista, de Marx e Engels, Kleiner procura demonstrar que a internete realmente livre e democrática é incompatível com o capitalismo. Mais do que disso, seria um setor estratégico para a luta pela derrubada do sistema.
O autor começa citando o prefácio à "Contribuição à Crítica da Economia Política", de Marx. Mais precisamente o trecho que diz: "em uma certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em conflito com as relações de produção existentes". Segundo Kleiner:
“...o que é possível na era da informação está em conflito direto com o que é permitido. Editores, produtores de filmes e a indústria das telecomunicações conspiram junto aos legisladores para reprimir e sabotar as redes livres, para proibir a circulação da informação fora do seu controle”.
Portanto, uma situação que ilustraria a afirmação de Marx. Trata-se de uma conclusão a que não é difícil chegar. Basta olhar para a feroz guerra movida pelas empresas do setor cultural e de diversão para acabar com a pirataria de seus produtos. Objetivo destinado ao fracasso devido ao próprio modo de funcionamento do capitalismo atual. A propriedade privada dos direitos de produção e reprodução do conhecimento humano está destinada a entrar em choque com seu caráter coletivo e social, mesmo que disso não resulte sua derrota.
No entanto, num trecho logo a seguir, o autor exagera o alcance dessa contradição:
“As relações não hierárquicas tornadas possíveis graças a uma rede peer [pessoa a pessoa], como a Internet, são contraditórias com a necessidade do capitalismo de cercamento e controle. É uma batalha até a morte. Ou a Internet como a conhecemos prevalece, ou a vitoria será do capitalismo como nós o conhecemos”.
Sem dúvida a internete tornou-se uma ferramenta que desempenha um papel dos mais estratégicos tanto para a dominação capitalista, quanto para seu próprio funcionamento. A expansão dessa gigantesca rede de terminais de comunicação parece derivar da ampliação do papel desempenhado na atual fase da produção capitalista pelas plataformas digitais. Estas últimas transformaram-se na matriz tecnológica que está presente em praticamente todos os setores da economia.
Da fabricação de computadores à produção de automóveis, do controle de estoques agrícolas ao rastreamento de gado, do gerenciamento de cargas em portos às compras em lojas, da produção de filmes à sua distribuição e divulgação. E, claro, da transferência de bilhões em dinheiro de uma parte do planeta à outra, em segundos. Todas essas e muitas outras atividades dependem de programas de computador em funcionamento integrado.
Com tal peso na vida econômica, o texto de Kleiner constata corretamente o papel estratégico da inovação no setor de comunicações via rede mundial. Daí, também o de seus trabalhadores. Estes são responsáveis pela produção do trabalho vivo que se transforma em trabalho morto ao ser apropriado por seus patrões. Assim, em muitos momentos do processo de produção não apenas o trabalho não pago fica retido pelo capitalista na forma de mais-valia. São seus próprios conhecimentos que são apropriados. De resto, esta é uma regra para o capitalismo desde seu surgimento, como lembra o próprio Kleiner.
Até aí, sem problemas. Mas, as coisas começam a ficar confusas quando o autor defende o que chama de “comunismo de risco”. Este consistiria em:
“...assumirmos o controle de nosso próprio processo produtivo, retendo todo o produto de nosso trabalho, formando nosso próprio capital, em contínua expansão até que, coletivamente, haja riqueza acumulada suficiente para atingir uma maior influência social do que aqueles que defendem a exploração”.
Em outro trecho, Kleiner também explica que:
“O comunismo de risco não deve ser entendido como uma proposta de um novo tipo de sociedade. É uma forma de organização com a qual podemos nos engajar na luta social. Comunas de risco não se destinam a substituir os sindicatos, partidos políticos, ONGs e outros instrumentos de conflito de classe. Mas, deve complementá-los, de modo a inclinar a balança do poder econômico em favor dos representantes dos interesses da classe trabalhadora”.
Salvo engano, Kleiner está se referindo a uma forma solidária e coletiva de organização da produção. Algo muito parecido com as cooperativas de trabalhadores. A grande diferença em relação a estas estaria na base tecnológica sobre a qual funcionaria o comunismo de risco. A tecnologia oferecida pela comunicação em rede seria muito mais adequada a esse tipo de empreendimento do que ao livre mercado capitalista.
Aqui sim, começam os problemas. As iniciativas de economia solidária são importantes formas de resistência. Funcionam, inclusive, como demonstração de que a produção baseada na cooperação solidária é possível.
Ocorre que a feroz concorrência capitalista impõe dois destinos aos quais dificilmente escapam os empreendimentos solidários. Ou são violentamente derrotados no jogo bruto imposto pelos gigantescos monopólios do mercado. Ou se transformam, eles mesmos, em empresas baseadas na exploração do trabalho, ainda que mantenham sua fachada jurídica. Exceções a esta regra jamais ultrapassam a insignificância econômica que as transformem em referência social de peso.
Assim, se a intenção é “inclinar a balança do poder econômico em favor dos representantes dos interesses da classe trabalhadora”, ótimo. É mais um elemento que pode ajudar na luta anticapitalista. E, ao que parece, um elemento poderoso. Já não é o caso se falarmos em “riqueza acumulada suficiente para atingir uma maior influência social do que aqueles que defendem a exploração”. Nesse momento, é possível dizer que o Kleiner se distancia do marxismo.
Uma coisa é a luta que se faz sob o império das relações capitalistas e do Estado que procura garanti-las, através principalmente do controle privado dos meios de produção. Outra é aquela travada em uma fase de transição, em que o controle dos meios de produção se socializou e o Estado precisa se organizar de forma a se extinguir como instrumento de dominação de classe. Neste momento, sim, uma ferramenta como a internete pode ser valiosa na disseminação de relações menos vulneráveis à hierarquia e à centralização autoritária.
Um dos aspectos mais importantes da elaboração política de Marx e Engels, assumido por muitos de seus seguidores, é a impossibilidade de a classe trabalhadora acumular poder material por dentro da sociedade burguesa. Esta foi uma possibilidade histórica explorada vitoriosamente pela burguesia em sua luta contra o feudalismo. Trata-se de um caminho bloqueado para os trabalhadores, em sua condição de despossuídos de meios próprios de produção. Daí, a insistência marxiana e marxista da luta no nível político, ainda que alimentada por lutas e contradições no nível econômico.
O Estado é o nó que dá consistência e coordenação à anarquia produtiva e à feroz competição reinantes no nível da economia capitalista. Além disso, somente através da luta política os trabalhadores, como classe, conseguem romper com a alienação decorrente do caráter fragmentado e desigual dos vários ramos econômicos em que produzem sob a divisão de trabalho capitalista. Não se trata de priorizar a luta institucional, mas de ocupar com firmeza o campo da disputa pelo poder político.
Não há elementos para afirmar que as tecnologias em rede, por mais propensas às relações de produção socializadas, tenham alterado esse quadro. Quando Marx diz que as relações de produção (ou seja, as relações sociais) tornam-se obstáculo às forças produtivas (formas de trabalho, tecnologias, etc) não há como tirar conclusões políticas quase imediatas do tipo a que chega Kleiner.
No trecho de Marx citado por ele, as contradições entre forças produtivas e relações de produção são sintomas de que teve início uma fase em que as revoluções são possíveis. Se elas se concretizarão ou não, a decisão pertence ao campo da luta de classes. Em especial, da luta pela liderança social e cultural dos explorados, que tem no terreno político seu campo de batalha fundamental.
A internete pode ser um caso típico de tecnologia que funcionaria muito melhor em uma sociedade comunista. Mas, daí não se conclui que seja capaz de instaurar relações produtivas desse tipo na atual sociedade em escala suficiente para subvertê-la. Uma evidência disso pode ser encontrada no próprio texto que estamos discutindo. Trata-se da relação entre a web e a internete.
O trecho em questão chama a atenção para o fato de que a “world wide web” e internete não são a mesma coisa. Ao contrário, a primeira engessa e submete a segunda aos interesses das grandes empresas. Nas origens da rede mundial, as conexões eram feitas e se espalhavam com base nas ligações “pessoa a pessoa” (peer to peer). Nos últimos 10 anos, porém, a quase totalidade das conexões por rede somente se estabelecem através de servidores web, pertencentes a grupos econômicos poderosos.
E não só isso. A chamada Web 2.0, diz o autor, nada mais é que a antiga web transformada em fonte de lucros abundantes graças ao trabalho de dezenas de milhões de internautas. São milhares de postagens por minuto que chegam aos poderosos servidores de empresas que controlam portais como Google, Youtube, Facebook, Orkut, Flickr, etc. Material rico e variado obtido gratuitamente e processado a custos próximos do zero.
Desse modo, a internete submetida à Web transformou-se numa grande vitrine para anúncios. E também num enorme e detalhado banco de dados pronto para ser utilizado na elaboração de estratégias de mercado. É uma esplêndida fonte de mais-valia sem qualquer sinal de vínculo empregatício. Mais do que isso, ela utiliza projetos de código aberto, como Linux, PHP, Apache, para capturar o trabalho coletivo que é feito sobre tais programas. Imensa criatividade apropriada por alguns poucos centros altamente lucrativos.
Ou seja, as relações sociais capitalistas castraram e domesticaram uma força produtiva cujo potencial criativo talvez fosse plenamente aproveitado sob o socialismo e comunismo. Achar que é possível alterar esse quadro com base na persistência das conexões pessoa a pessoa sob a intensa pressão do mercado capitalista é ilusão.
Por outro lado, o texto traz várias sugestões em relação a como organizar a produção social sob “bases comunitárias”. Elas têm por modelo os avanços e o acúmulo conquistados no movimento pelo software livre e contra os copyrights. Estão expressos na revisão dos 10 pontos propostos na seção 2 do Manifesto Comunista. Trata-se de trechos do texto original que são substituídos de forma a atualizá-lo. Propostas que devem ser levadas em consideração por quem pensa uma sociedade mais justa.
São especialmente marcadas pela saudável vontade de deslocar do “Estado” as funções de “mutualizar” as relações sociais. Realmente, parece haver certo exagero na presença do Estado nesta parte do documento de Marx e Engels. No entanto, isso seria muito relativizado nas obras posteriores dos autores do Manifesto. Principalmente, após a experiência da Comuna de Paris, em que povo sublevado busca soluções visando à democratização radical das funções estatais.
De qualquer maneira, a proposta de Kleiner só tem a acrescentar e contribuir para o debate e a ação anticapitalista e revolucionária. Deve merecer a atenção de todos os que estão empenhados nesta luta. Em especial, na trincheira da cultura e da informação.
Nota: Dmytri Kleiner é um desenvolvedor de softwares engajado na luta anticapitalista. Lançou seu documento em outubro de 2010 no blog do Institute of Network Cultures. Ainda não foi traduzido do inglês. Há apenas trechos vertidos por Moisés Sbardelotto, que podem ser acessados aqui.
Leia também: Piratas e fantasmas contra o capitalismo
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23 de out. de 2010
Tropa 2: ainda conservador
O novo filme de José Padilha continua conservador. Agora, os políticos corruptos são os grandes vilões, mas aqueles que os corrompem ficam na sombra. As milícias da grande mídia agradecem.
As duas produções de Tropa de Elite são filmes de ação que pretendem fazer denúncia. Mas, não vão à raiz dos problemas que retratam de forma tão explícita. Ao fazer isso, acabam por justificar a forma como a sociedade brasileira está organizada. Com sua injustiça social, violência estatal contra os mais pobres, democracia de fachada e monopólios da grande mídia.
Em Tropa de Elite 2, os vilões são mais numerosos. A corrupção policial e os traficantes de drogas continuam presentes. Mas, a ação das milícias ganhou grande destaque. No filme anterior, boa parte da culpa da violência urbana cabia aos que compram drogas. Estranhamente, dessa vez, a mesma culpa não foi atribuída aos consumidores de TV paga. Um dos serviços vendidos ilegalmente por milicianos.
Tropa 2 chega a uma conclusão que já deveria ser óbvia em sua primeira edição. O único serviço público realmente presente e em funcionamento nas favelas é a polícia. Era questão de tempo para que policiais substituíssem o tráfico e se transformassem em tropa de ocupação com vontade própria. Mercenários dispostos a negociar o acesso às áreas ocupadas com os poderes constituídos. Entre estes, é claro, o poder estatal representado pelos políticos de plantão.
A cena em que Nascimento surra um secretário de estado vem arrancando aplausos nos cinemas. Simboliza a justa revolta popular contra os políticos em geral. O problema é que políticos profissionais não vivem apenas de seus altos salários. Nem se elegeram usando suas economias pessoais. Foram bancados por empresários. Em troca, a grande maioria deles trabalha como facilitadores de negócios para seus financiadores. E muitas vezes, o fazem dentro da lei.
Políticos envolvidos com criminosos comuns são poucos, mas fazem barulho suficiente para esconder ainda mais a já silenciosa ação de seus colegas. Membros das bancadas a serviço de ruralistas, proprietários de meios de comunicação, banqueiros, empreiteiros, mercenários religiosos e empresários de vários setores monopolizados da economia.
O personagem Fraga é uma justa homenagem ao deputado Marcelo Freixo (PSOL). Mas, na vida real, Freixo não apenas é um indivíduo corajoso e com princípios. É uma liderança apoiada em um trabalho de base desenvolvido nas comunidades pobres. Lugares massacrados pela ação conjunta do tráfico, da milícia e da polícia, incluindo o Bope. Ainda assim, Fraga não é o mocinho. Continua a ser Nascimento, com seus métodos violentos.
Mas, o filme de Padilha é conservador principalmente porque mostra a mídia empresarial como defensora da moralidade pública. No filme, a casa da milícia começou a cair porque uma jornalista foi assassinada. Na vida real algo muito parecido aconteceu. Uma equipe do jornal “O Dia” foi seqüestrada e submetida à tortura por milicianos. Até então, as autoridades e a própria imprensa fechavam o olhos para a ação violenta e covarde das milícias. Eram consideradas “formas comunitárias de auto-defesa”.
Na verdade, a responsabilidade da grande imprensa é enorme na montagem do cenário que possibilitou o surgimento das milícias. Cenário que não se limita ao Rio de Janeiro no início do século 21. Inclui um país inteiro vivendo séculos de injustiça social, racismo, truculência policial, criminalização da pobreza, autoritarismo, informação distorcida, preconceitos e corrupção.
Com Tropa de Elite, esquecemos de tudo isso. Vamos ao cinema e nos sentimos vingados pelos murros de Nascimento. Contemplados por denúncias encenadas em ritmo de filme americano. No lugar do debate organizado pela população em associações, partidos, sindicatos, sobram conversas de boteco sobre uma produção da Globo Filmes. No máximo, colóquios de classe média em mega-livrarias.
O final do filme promete uma continuação que chegaria mais fundo em suas denúncias. Difícil acreditar que a mira de Nascimento volte-se para o grande capital. Muitos de seus representantes financiam a vitoriosa produção. Querendo ou não seus realizadores, Tropa 2 trabalha para milícia midiática que justifica um dos sistemas de dominação mais violentos do mundo. E um dos mais inteligentes, também.
Leia também: As armas das tropas da elite não são só as de fogo
As duas produções de Tropa de Elite são filmes de ação que pretendem fazer denúncia. Mas, não vão à raiz dos problemas que retratam de forma tão explícita. Ao fazer isso, acabam por justificar a forma como a sociedade brasileira está organizada. Com sua injustiça social, violência estatal contra os mais pobres, democracia de fachada e monopólios da grande mídia.
Em Tropa de Elite 2, os vilões são mais numerosos. A corrupção policial e os traficantes de drogas continuam presentes. Mas, a ação das milícias ganhou grande destaque. No filme anterior, boa parte da culpa da violência urbana cabia aos que compram drogas. Estranhamente, dessa vez, a mesma culpa não foi atribuída aos consumidores de TV paga. Um dos serviços vendidos ilegalmente por milicianos.
Tropa 2 chega a uma conclusão que já deveria ser óbvia em sua primeira edição. O único serviço público realmente presente e em funcionamento nas favelas é a polícia. Era questão de tempo para que policiais substituíssem o tráfico e se transformassem em tropa de ocupação com vontade própria. Mercenários dispostos a negociar o acesso às áreas ocupadas com os poderes constituídos. Entre estes, é claro, o poder estatal representado pelos políticos de plantão.
A cena em que Nascimento surra um secretário de estado vem arrancando aplausos nos cinemas. Simboliza a justa revolta popular contra os políticos em geral. O problema é que políticos profissionais não vivem apenas de seus altos salários. Nem se elegeram usando suas economias pessoais. Foram bancados por empresários. Em troca, a grande maioria deles trabalha como facilitadores de negócios para seus financiadores. E muitas vezes, o fazem dentro da lei.
Políticos envolvidos com criminosos comuns são poucos, mas fazem barulho suficiente para esconder ainda mais a já silenciosa ação de seus colegas. Membros das bancadas a serviço de ruralistas, proprietários de meios de comunicação, banqueiros, empreiteiros, mercenários religiosos e empresários de vários setores monopolizados da economia.
O personagem Fraga é uma justa homenagem ao deputado Marcelo Freixo (PSOL). Mas, na vida real, Freixo não apenas é um indivíduo corajoso e com princípios. É uma liderança apoiada em um trabalho de base desenvolvido nas comunidades pobres. Lugares massacrados pela ação conjunta do tráfico, da milícia e da polícia, incluindo o Bope. Ainda assim, Fraga não é o mocinho. Continua a ser Nascimento, com seus métodos violentos.
Mas, o filme de Padilha é conservador principalmente porque mostra a mídia empresarial como defensora da moralidade pública. No filme, a casa da milícia começou a cair porque uma jornalista foi assassinada. Na vida real algo muito parecido aconteceu. Uma equipe do jornal “O Dia” foi seqüestrada e submetida à tortura por milicianos. Até então, as autoridades e a própria imprensa fechavam o olhos para a ação violenta e covarde das milícias. Eram consideradas “formas comunitárias de auto-defesa”.
Na verdade, a responsabilidade da grande imprensa é enorme na montagem do cenário que possibilitou o surgimento das milícias. Cenário que não se limita ao Rio de Janeiro no início do século 21. Inclui um país inteiro vivendo séculos de injustiça social, racismo, truculência policial, criminalização da pobreza, autoritarismo, informação distorcida, preconceitos e corrupção.
Com Tropa de Elite, esquecemos de tudo isso. Vamos ao cinema e nos sentimos vingados pelos murros de Nascimento. Contemplados por denúncias encenadas em ritmo de filme americano. No lugar do debate organizado pela população em associações, partidos, sindicatos, sobram conversas de boteco sobre uma produção da Globo Filmes. No máximo, colóquios de classe média em mega-livrarias.
O final do filme promete uma continuação que chegaria mais fundo em suas denúncias. Difícil acreditar que a mira de Nascimento volte-se para o grande capital. Muitos de seus representantes financiam a vitoriosa produção. Querendo ou não seus realizadores, Tropa 2 trabalha para milícia midiática que justifica um dos sistemas de dominação mais violentos do mundo. E um dos mais inteligentes, também.
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