10 de mai de 2010

A cara de pau do Homem de Ferro neoliberal

“Homem de Ferro 2” é conservador. E não esconde isso. Representa bem a união entre indústria, governo e forças armadas em defesa do mercado.

O novo filme do Homem de Ferro começa com um show. O super-herói aterrissa num palco entre dançarinas bonitas e faz um strip-tease de sua armadura para mostrar-se como empresário sucesso.

Em seu elegante terno, Tony Stark esbanja charme enquanto diz em alto e bom som que é o responsável pela paz americana. Diante de milhares de pessoas afirma que graças a ele o Tio Sam pode beber seu “chá gelado tranquilamente em sua cadeira de balanço”. Afinal, não há ninguém “que seja homem suficiente” para derrotá-lo.

Só a ótima atuação de Robert Downing Jr. salva a cena do completo ridículo. Mas, o que importa é a semelhança de seu discurso com aquele do governo americano após a queda da União Soviética, no início dos anos 1990. A diferença é que Ronald Reagan era um péssimo ator.

Tal semelhança não pode ser coincidência quando se revela que o inimigo mais perigoso do Homem de Ferro é um russo. Trata-se de Ivan Vanko (Mickey Rourke), filho de um cientista que trabalhou para os soviéticos. Vanko é inteligente, mas sua grande força física não tem a sutileza e a elegância do Homem de Ferro.

A diferença entre os dois lembra aquela que existia entre as economias soviética e americana. A primeira arrastava-se sob o peso de um capitalismo administrado pelo Estado. A segunda devia sua agilidade a um Estado empurrado pela rapidez com que o mercado ataca os direitos dos trabalhadores.

No filme, Stark representa a avançada indústria moderna. Alta tecnologia em máquinas e programas de computador combinada com armamento pesado. Tudo a ver com os objetivos do império americano.

No entanto, como típico empresário neoliberal, Stark só aceita usar seu poderio tecnológico como quer e segundo seus critérios. Se isso coincidir com os objetivos da sociedade, tudo bem. Claro que sendo um industrial, tais objetivos só podem estar relacionados aos interesses de quem está no poder. Por isso, ele ridiculariza o senado americano, mas no final mostrará que não se trata de coisa séria.

Mesmo as brigas de Stark com o amigo James Rhodes (Don Cheadle) são coisas de antiga camaradagem. Rhodes é coronel do Exército. A parceria entre eles parece representar o complexo industrial-militar que governa os Estados Unidos. Suas diferenças são facilmente superáveis em nome de objetivos parecidos. Dominar o mundo e lucrar muito com isso.

Justin Hammer, muito bem representado por Sam Rockwell, é apenas o empresário que não entendeu bem o jogo do poder. A apresentação de seu exército robótico na feira de Stark é de arrepiar. Monstros de metal, prontos a matar em qualquer parte do mundo. Mas, é de mau gosto apresentá-los dessa forma. E vai contra a lógica individualista, que precisa de um herói de carne e osso para entusiasmar o povo.

Aviões robôs já andam voando por aí, matando inocentes na Palestina, Iraque, Afeganistão. No entanto, não se deve dar mais destaque a sua tecnologia do que aos supostos objetivos a que servem: livrar o mundo do terrorismo para salvar a humanidade. O diabo é que a humanidade também está na linha de tiro. Hammer é derrotado, como são alguns empresários na cada vez mais selvagem competição capitalista.

No final, o super-herói, o coronel e o senador aparecem posando para fotos. A indústria, o exército e o governo abraçados. Meio a contra gosto, é verdade. Nada que não se revolva com muito dinheiro e mísseis.

O maior vencedor é Stark. A vitória é do mercado, dos valores individuais, do executivo que adora uma farra, mulheres bonitas e carrões. Às vezes, de smoking, às vezes, com um pijama de ferro. É o neoliberalismo, na maior cara-de-pau, mostrando que está muito longe de enferrujar.

3 de mai de 2010

Chico Xavier e o espírito conservador

O filme de Daniel Filho confirma a idéia de um Chico Xavier caridoso e dedicado ao bem geral. Pode até ser, mas seus ensinamentos o tornaram querido pela grande mídia e útil aos poderosos.

Não é à toa que Daniel Filho tenha utilizado um programa de TV como eixo em torno do qual gira seu filme sobre Chico Xavier. Trata-se do programa de entrevistas “Pinga Fogo”, que era exibido pela antiga TV Tupi. Em sua edição de 28 de julho de 1971, o convidado foi o médium mineiro. Os responsáveis pelo programa sabiam de sua popularidade. Mas, não esperavam uma audiência tão grande. Dizem que cerca de 30 milhões de pessoas assistiram à atração.

A partir de então, Chico Xavier apareceu várias vezes na grande mídia. Apesar de sua popularidade desagradar a Igreja Católica, ele jamais incomodou os poderosos. Ao contrário, sua doutrina mostrou-se bastante confortável para a ordem dominante.

O filme passa longe dessa relação tranqüila, claro. Mas, dá um recado que certamente o maior líder espírita brasileiro aprovaria. Agüentem firmes os problemas da vida. As dificuldades, por pior que sejam, são penas que devemos cumprir com calma. Tudo faz parte de uma ordem superior, que foge ao nosso controle. Conformismo puro.

Na própria entrevista que prendeu milhões em frente à TV, 40 anos atrás, há trechos que deixam bastante clara essa disposição. Perguntado se sua posição era conformista, por exemplo, Chico Xavier respondeu:

“O espiritismo nos pede paciência para esperar os processos da evolução e as realizações dos homens dignos que presidem os governos, cooperando de nossa parte, tanto quanto possível, para que as leis desses mesmos governos sejam executadas”.


Em plena ditadura militar, o tranqüilo médium pede apenas que as leis em vigor sejam respeitadas. Mesmo que elas permitam ou ordenem censura, perseguições, exílios, torturas e mortes. As vítimas de tais leis certamente cometeram muitos erros em suas encarnações passadas. Ainda bem que estavam sendo devidamente purgadas pelos “homens dignos que presidem os governos”.

O livro “Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” teria sido psicografado pelo médium e assinado pelo espírito do escritor Humberto de Campos. Nele, o Brasil teria sido escolhido por Jesus para ser sede de seus ensinamentos espirituais. A escolha teria sido feita porque o país manteve sua integridade territorial e sua história não teria registrado episódios sangrentos.

Esta é uma lenda muito repetida por setores conservadores, que querem nos convencer de que o povo brasileiro é dócil e ordeiro. E quem discorda disso, está querendo encrenca, fazendo baderna, nem merece ser chamado de brasileiro.

O fato é que a história brasileira está cheia de sangue derramado. Principalmente o do povo. A tal integridade territorial foi garantida ao custo de muitas revoltas populares massacradas. E durante o processo de independência, um dos elementos que uniu a classe dominante em todo o país foi o consenso sobre a necessidade de manter a escravidão.

Falando em escravidão, ainda em sua entrevista ao “Pinga-Fogo”, Chico Xavier deu sua explicação muito particular sobre a questão. Referindo-se aos negros, o médium disse que:

“... buscamos no berço onde nasceram milhões de irmãos nossos reencarnados nas plagas africanas, para que eles servissem nas nossas casas, nas nossas famílias, instituições e organizações, na condição de alimárias (animais de carga)”.


Porém, é preciso deixar claro que os negros merecem tratamento melhor, pois, ainda segundo Chico Xavier:

“... eles renasceram do nosso próprio sangue, nas condições de nossos irmãos, para receberem, de nossa parte, uma compensação que é a compensação chamada de amor, para que eles sejam devidamente educados, encaminhados, tanto quanto nós pretendemos educar-nos e encaminhar-nos para o progresso.”


Como se sabe, a “compensação pelo amor” foi feita por muito tempo através do chicote e do tronco. Hoje, nem tanto. Ela se manifesta pela discriminação mais terrível. O que não impede que os negros continuem a ser vítimas de violência racial.

De qualquer maneira, é preciso serenidade. Afinal, “nós, no Brasil, não conseguimos pensar em termos de cor. Nós todos somos irmãos”.

Deve ser por isso, que o médium afirma que:

“... o espiritismo evangélico não se sente absolutamente inclinado a qualquer participação no partidarismo de ordem política para solucionar os problemas da vida material, conquanto reconheça que todos devemos trabalhar”.


Claro que tais trechos da famosa entrevista não aparecem no filme de Daniel Filho. Parece óbvio que com raciocínios desse tipo, Chico Xavier tenha se mostrado uma atração televisiva popular que não representava o menor perigo para a ditadura militar. Afinal, um povo dócil, trabalhador e distante da política é o que os generais mais queriam.

Não á toa, Chico Xavier também inspirou novelas com temas espíritas. Com seus enredos pregando uma bondade e solidariedade distantes das coisas terrenas. Estas deveriam ser deixadas aos que cuidam da ordem, mesmo que sejam eles os principais responsáveis por cada vez mais tornar impossível uma ordem social solidária e generosa.

Os seguidores do espiritismo merecem todo o respeito, assim como o merecem os devotos das outras religiões. Chico Xavier realmente parece ter dedicado sua vida a ajudar os que precisam de auxílio. Aparentemente, não se aproveitou do respeito que conquistou para fazer fortuna e tornar-se poderoso.

No entanto, nada isso impede que suas ações sejam avaliadas pelos efeitos que causaram socialmente. No caso, trata-se de pregar um conformismo bastante útil aos que mandam e exploram. Por isso, sua vida foi parar nas telas de cinema sob patrocínio da GloboFilmes e da Sony Pictures. E com as bilheterias estourando, os conservadores podem continuar em paz com seus espíritos de porco.