23/11/2009

Governantes heróis? É o fim do mundo, mesmo!

Em 2012, de Roland Emerich, governantes dos países ricos são os mocinhos do filme. Mais fácil acreditar em teorias apocalípticas.

O absurdo de 2012 não é a teoria de que um alinhamento de planetas causaria catástrofes capazes de destruir a Terra. Nem acreditar que o mundo acaba em 2012 por causa de uma profecia maia. As situações de falso suspense também não são tão difíceis de aceitar, pois as conhecemos de outros filmes. Heróis e heroínas sempre escapam das piores enrascadas no último momento.

Absurdo mesmo é ver governantes dos países mais ricos do mundo demonstrando compaixão por seus governados. Depois de gastar bilhões em enormes navios para salvar a si mesmos, seus familiares e auxiliares, presidentes e primeiros-ministros resolvem deixar que o povo entre em suas confortáveis arcas. O pior é que o presidente dos Estados Unidos nem mesmo sobe a bordo. Fica para trás para morrer com seus concidadãos.

O personagem de Oliver Platt é o único que faz algum sentido. Ele é Carl Anheuser, assessor frio e calculista da Casa Branca, que não cansa de dizer que somente alguns podem se salvar para “continuar a espécie”.

É esta a mentalidade reinante hoje e não deverá ser muito diferente daqui a dois anos. É este modo de pensar que prevalece cada vez mais no capitalismo e que ganhou novo impulso com o neoliberalismo dos últimos 30 anos. É esta a lógica que elegeu a grande maioria dos atuais governantes. Principalmente, nos países que mandam no mundo.

Finalmente, é esta a concepção que vem alimentando a corrida da humanidade rumo ao desastre ambiental e social. E se os povos do mundo não impedirem, não será preciso nenhum alinhamento de planetas para que a maior parte da humanidade seja condenada a miséria, fome e doenças.

Acreditar em teorias fantasiosas, tudo bem. Mas, crer em governantes de alma caridosa? Haja imaginação.

Sérgio Domingues – novembro de 2009

26/10/2009

Ficção científica contra o racismo é quase real

“Distrito 9”, de Neill Blomkamp, alia diversão e denúncia. É ótimo. Pena que perto do verdadeiro racismo seja quase um conto de fadas.

Em 2012, alienígenas vêm parar na Terra, mas não chegam invadindo e atirando raios. Também não são seres superiores dando lição de moral a nossa espécie. São milhões de criaturas cuja nave enguiçou sobre a cidade de Joanesburgo, na África do Sul. Resgatados pelos humanos, são colocados numa enorme favela que recebeu o nome de Distrito 9. O aspecto físico dos recém-chegados é desagradável, lembrando uma mistura de inseto com crustáceo. Por isso, recebem o apelido nada carinhoso de camarões.

Não é a primeira vez que um diretor dá aos alienígenas um aspecto repugnante. Em 1997, Paul Verhoeven realizou “Tropas Estelares”. A produção adotou como modelo a estética dos diretores de cinema da Alemanha nazista. Seus heróis eram homens e mulheres jovens, atléticos, bonitos e brancos. Leais e amigos entre si e impiedosos com os inimigos. Nada mais fácil do que ser cruel com vilões que parecem enormes baratas nojentas. Este seria o segredo da estética fascista. Transformar os inimigos em criaturas repugnantes. Não à toa, os nazistas chamavam os judeus de ratos.

Mas, o filme de Blomkamp parte desse ponto de vista para invertê-lo. As primeiras cenas mostram os alienígenas como seres violentos, sujos, viciados em ração de gato e desleais. No final da exibição, nossa simpatia vai toda para a causa dos infelizes aliens em sua luta contra a injustiça.

São vários os aspectos interessantes do filme. A maioria, ligada à denúncia do racismo. Em primeiro lugar, nada mais apropriado do que situar o drama na maior cidade de um país que viveu a vergonha do racismo institucionalizado. O diretor é branco e jovem, mas chegou a ver o Apartheid em pleno funcionamento. Afinal, o odioso regime racista só acabou há 15 anos.

O processo de favelização da colônia extraterrestre mostrado no filme também é parecido com o que ocorre nas grandes cidades do planeta. Populações recém-chegadas são isoladas em bairros distantes, sem estrutura e acesso a direitos básicos. Mas, a inevitável deterioração de suas condições de vida não é vista como conseqüência desse isolamento. Passa a ser entendida como característica natural de sua gente.

Quando uma socióloga considera preconceituoso chamar os alienígenas de camarões, um chefe de polícia diz que não vê preconceito. “Eles realmente se parecem com camarões”, diz ele. Isso é bem típico dos mecanismos que alimentam a discriminação e o racismo. Faz lembrar um trecho do romance “O sorriso do lagarto”, de João Ubaldo Ribeiro. Nele, um personagem diz que a maioria dos macacos tem traços e características que os faz mais parecidos com homens brancos do que com negros. No entanto, o racismo afirma o contrário.

O mesmo acontece quando comportamentos verificados entre populações pobres são considerados próprios de animais. É a tentativa de lhes tirar a condição de seres humanos. São o mesmo que ratos, baratas, camarões, macacos. Se for preciso, se fugirem ao controle e tornarem-se pragas, devem ser contidos ou exterminados. Basta prestar atenção no discurso da classe dominante. Ouvir o que dizem a grande mídia, governantes, parlamentares, empresários. Essa lógica está lá. Às vezes, bem aparente.

Como as idéias da classe dominante dominam a sociedade, o racismo e a discriminação também surgem entre suas próprias vítimas. Por isso, “Distrito 9” mostra negros sul-africanos a favor da perseguição aos alienígenas. Não notam que reproduzem a opressão de que também são vítimas. Afinal, nem da espécie humana eles são, diz um deles. Mas, para o racismo este é só um detalhe. Para transformar um setor da população em seu alvo, não é preciso que seus membros tenham antenas e garras. Basta escolher certas características estranhas ao senso comum e generalizar para aquele setor da população. Aí, é só excluí-lo das pessoas consideradas “corretas” e “civilizadas”.

Uma crítica que poderia ser feita ao filme é o modo como mostra uma gangue de nigerianos. Um bando criminoso cruel, ignorante, supersticioso. Mas, o filme acaba retratando a realidade sul-africana hoje. Há um grande movimento migratório da Nigéria para a África do Sul, país mais desenvolvido do continente e um dos mais injustos do mundo, também. Os nigerianos acabam formando grande parte da população pobre e moradora de favelas. São os mais recentes discriminados em uma sociedade já tão marcada pela injustiça social.

Por fim, é interessante notar como à medida que o filme se aproxima do final, começamos a enxergar os recém-chegados como vítimas. Os estranhos seres se mostram capazes de sentimentos e reações muito parecidas com as nossas. Revelam dominar uma tecnologia avançada e serem capazes de manifestar solidariedade e lealdade.

Isso acontece porque já somos capazes de contextualizar a situação dos alienígenas. Diferente do que acontecia antes, no início do filme, quando a sucessão de imagens era frenética. Imperava o ritmo típico dos diversos telejornais apelativos que mostram situações violentas sem qualquer preocupação em situar histórica e socialmente os conflitos, guerras e dificuldades vividos por explorados e oprimidos no mundo todo. O resultado é mais preconceito e visões distorcidas em relação a povos, etnias ou ao vizinho da favela ou periferia mais próxima. Mais lenha na fogueira do racismo, do ódio aos estrangeiros, da intolerância com o diferente.

O filme vale porque alia diversão e denúncia. Pena que suas cenas chocantes sejam suaves perto dos verdadeiros efeitos do racismo e da exploração capitalista pelo mundo afora. Basta assistir a um documentário como “O pesadelo de Darwin”, de Hubert Sauper, ou ler os relatos de “Planeta favela”, de Mike Davis. Deixam qualquer roteirista de terror apavorado.

07/10/2009

O trator da grande mídia a serviço do agronegócio

Um trator derrubando pés de laranja pode pouco perto da aliança entre os controladores das ondas eletromagnéticas e os modernos latifundiários. É o monopólio do ar apoiando o monopólio da terra.

A imagem de um trator derrubando pés de laranja está em todos os telejornais. A máquina é dirigida por um militante do MST. O local é uma fazenda da Cutrale, empresa gigante do ramo de sucos. Depois de afirmar que a propriedade é produtiva, a reportagem ouve uma representante do Movimento. Ela afirma que os laranjais foram derrubados para que seja plantado feijão: “Ninguém pode viver só de laranja”.

Há uma comoção geral. Um sentimento de escândalo. Por que? Porque a cena toda apareceu fora de contexto. Trata-se de 2,7 mil hectares pertencentes à União e tomadas pela empresa ilegalmente. O plantio de laranja pode ser produtivo do ponto de vista dos lucros que vai gerar para a empresa. Mas não do ponto de vista social. No caso, trata-se de mais um exemplo de atividade típica do agronegócio. Geradora de bilhões em lucros e pouquíssimos empregos. E ainda por cima, fora da lei.

Mas, os grandes meios de comunicação não explicam nada disso. Exibem a imagem do trator derrubando árvores na Cutrale. Não mostram o exército de tratores do agronegócio que derrubam centenas de milhares de hectares de floresta amazônica e cerrado todos os anos. Não questionam o moderno latifúndio, que arrasa matas e animais, destrói comunidades, desvia rios, remove montanhas, abre crateras. Tudo em nome de uma produção para exportação, que gera poucos empregos, quase nenhum alimento e super-lucros para os de sempre.

Tudo isso poucos dias depois da divulgação dos dados do Censo Agropecuário do IBGE. Números que revelam o que já se sabe há muito tempo. O Brasil tem a maior concentração fundiária do mundo. Enquanto propriedades com até 10 hectares representam menos de 3% da área total, a parte ocupada por propriedades com mais de mil hectares concentram mais de 43%. Ao mesmo tempo, a agricultura familiar emprega 75% da força de trabalho no campo e produz 87% da mandioca, 70% do feijão, 58% do leite etc. Tudo com muito pouco apoio oficial.

Mas, nada vale tanto quanto a imagem de um trator derrubando pés de laranja. Comoção parecida ocorreu em março de 2006, quando mulheres da Via Campesina destruíram mudas de um viveiro da Aracruz. Naquela época, como agora, muita gente de esquerda, que apóia a luta dos Sem-Terra e da Via Campesina, condenou a ação. Considerou pouco tática.

Os que mais usam essa argumentação são “nossos aliados” no parlamento e no governo. Sempre tão cautelosos em relação à imagem dos movimentos sociais, não ajudaram a mostrar que as instalações da Aracruz nada tinham de cientificas. Que o plantio de eucaliptos é um dos maiores crimes ambientais e que a grilagem de terra é uma das especialidades dessa gigante do celulose.

O fato é que há questões e momentos em que os poderosos deixam pouco espaço para que a luta adote táticas sutis. Qual é a alternativa do MST à derrubada do laranjal? Distribuir panfletos nas grandes cidades denunciando as práticas de grilagem da Cutrale? Ou esperar que o Incra desaproprie a área tanto quanto espera há 29 anos que os índices de produtividade rural sejam revistos?

Os panfletos poderiam ser distribuídos aos milhões. Teriam pouco efeito frente ao apoio que uma Cutrale tem da grande mídia. Aquela que fala com milhões de pessoas a cada segundo. O caso dos índices de produtividade é um escândalo. Mas, 99,5% da população não sabem o que eles significam. Claro, a grande mídia não pautou a questão. Mal dedica meia dúzia de minutos por semana a ela. Não faz debates. E quando os faz, eles acontecem em horários inacessíveis, em canais fechados, com especialistas entendidos apenas por seus pares acadêmicos.

Enquanto poucos grupos poderosos continuarem a controlar a transmissão de informação pelas ondas eletromagnéticas a situação será esta. O monopólio do ar apóia o monopólio da terra. O monopólio da terra anda de braços dados com o grande capital. E este conta com total apoio dos vários níveis de governo. Todos unidos para manter os níveis extremos de desigualdade social no Brasil. Esta sim uma característica que dá ao Brasil um lugar no olimpo da exploração capitalista.

29/09/2009

Rock bom é rock pirata!

O filme “Os Piratas do Rock” mostra as origens das rádios piratas. E lembra como o rock´n roll foi subversivo. Hoje, virou mercadoria, mas ainda há muitos fazendo música contra as injustiças.

O ano é de 1966. O rock era considerado música perigosa. Afinal, o verbo rock, em inglês, quer dizer balançar. Rock and roll é algo como balançar e girar. Ou melhor, rebolar mesmo. É exatamente esse o movimento que quem dança rock faz. E como sabemos, movimentos com os quadris lembram o ato sexual. E sexo mais música é igual a prazer, não a reprodução da espécie. Um crime para os conservadores. Principalmente quando os maiores fãs da nova música eram jovens.

Por isso o rock foi tratado como algo extremamente subversivo quando nasceu. O novo ritmo só tocava duas horas por dia na maior rádio da Inglaterra, a BBC. Diante dessa censura não declarada, rádios que só tocavam rock começaram a surgir. A perseguição do governo britânico as jogou na ilegalidade. Para escapar à repressão, uma delas se instalou num barco. Como os piratas, ela atacava em alto mar. Longe das leis. Era a Rádio Rock.

Baseado em fatos reais, o filme de Richard Curtis conta a história dessa experiência. A produção passou despercebida por aqui, mas está nas locadoras. O elenco é ótimo: Philip Seymour Hoffman, Kenneth Branagh, Bill Nighy, January Jones, Gemma Arterton, Emma Thompson, Kenneth Branagh, Nick Frost. A história é boa e a trilha, melhor ainda. A caracterização da época também é interessante. Metade da Inglaterra, principalmente jovens e mulheres, ouvia as rádios piratas. Muitas vezes, a audição era feita escondida dos pais, maridos e patrões.

A produção surpreende ao retratar uma sociedade tão conservadora menos de 50 anos atrás. Como mostra o filme, a pílula já era bastante popular. Para o ódio da cúpula católica e conservadores em geral, libertava as mulheres de sua função reprodutiva. Dava a elas o direito de fazer sexo por prazer. O rock era só mais um elemento dessa liberdade. O problema é que o novo ritmo berrava isso aos quatro ventos nos sete mares.

Kenneth Branagh faz um ministro encarregado de acabar com as rádios piratas. Para isso, procura brechas na lei. Tenta usar força bruta. Mas, o que o personagem de Branagh não sabe é que a melhor maneira de acabar com alguns tipos de subversão anti-capitalista é torná-los objetos de consumo. Vivemos numa sociedade que gira em torno da mercadoria. Em que a maioria das coisas deixa de ter valor-de-uso para tornar-se valor-de-troca. Valor-de-uso tem a ver com qualidades. Valor-de-troca, com quantidade.

Manifestações culturais, como o rock, começam a perder suas qualidades subversivas ao se tornarem moda. Ao servirem para ajudar a fazer girar o mercado capitalista do entretenimento. Ao deixar sua dimensão qualitativa ser dominada pela lógica quantitativa. O que era criatividade desafiadora fica estéril e conformista. O mesmo vale para muitas outras coisas.

Che Guevara virou garoto-propaganda há muito tempo. A arte dos primeiros anos da Revolução Russa pode ser achada em comerciais de automóvel. Muita gente acha que Cuba já teria sido derrotada pelos Estados Unidos, se o boicote econômico fosse trocado pela venda de jeans e computadores para a Ilha de Fidel. A fé já tinha sua tabela de preços fixada nas igrejas muito antes dos neopentecostais existirem. E o sexo, tão temido nos anos 1960, hoje movimenta uma indústria de bilhões de dólares no mundo todo. Um ramo econômico que aprisionou em forma de mercadoria o corpo feminino que a pílula havia libertado.

No entanto, como diz o personagem Count (Philip Seymour Hoffman), enquanto houver gente fazendo música, político nenhum vai impedir. Sempre haverá a possibilidade de continuar fabricando subversão. E o próprio rock prova isso. Não são poucas as bandas surgidas para desafiar o capitalismo nos últimos 40 anos. Do “The Clash” ao “Rage Against Machine”. Da luta contra o racismo e o fascismo ao movimento contra a invasão do Iraque. É possível continuar fazendo música contra a injustiça social, a opressão e a exploração.

O grande problema do capitalismo é que ele não pode abrir mão totalmente dos seres humanos porque depende da exploração de sua força de trabalho. E a espécie humana tem a eterna mania de desobedecer leis naturais e sociais. Para o bem e para o mal. E quando se trata de rock contra o capitalismo, é para o bem!

24/08/2009

Tempos de paz no paraíso da tortura

O judeu Clausewitz foge do nazismo e encontra no Brasil outro inferno. Seria uma chance de denunciar o nosso secular terrorismo de Estado. Mas, Daniel Filho desperdiça a oportunidade.

"Tempos de paz" é baseado na peça de teatro “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, de Bosco Brasil. Sua transformação em filme oferecia muitas possibilidades boas. O máximo a que Daniel Filho chegou foi mostrar dois talentosos atores e uma denúncia tímida da ditadura getulista.

A história se passa em 1945, no dia em que a ditadura Vargas liberta seus presos políticos. Fugindo da guerra na Europa, milhares de pessoas chegam ao Rio de Janeiro. Entre elas, está o polonês Clausewitz (Dan Stulbach). Logo que avista a bela paisagem carioca, ele repete a famosa frase do poeta russo Maiakovski: “Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”. Depois, durante o interrogatório a que é submetido pelo funcionário Sigismundo (Tony Ramos), o polonês diz que aprendeu o português porque lhe parecia uma língua falada por bebês. Por gente ainda sem dentes.

Essa imagem do Brasil como paraíso, lugar de inocência e felicidade, parece ser uma constante na mente dos habitantes do Velho Mundo. Remete à famosa carta de Pero Vaz Caminha, que descreve as novas terras como um éden em que “se plantando, tudo dá”. É certo que foi escrita pouco antes da pilhagem que começou e não parou mais. Incluindo o constante estupro das nativas, transformado recentemente em turismo sexual.

Para Clausewitz, artista de teatro, o Brasil era uma promessa de doçura eterna. Onde ele lavraria a terra com suas mãos finas com a mesma facilidade com que declamava textos nos palcos da Europa. O funcionário vivido por Tony Ramos logo quebra suas ilusões. Sem bagagens e bens com que subornar os funcionários, Sigismundo está pronto a fazê-lo voltar ao velho continente. Não o fará se o recém-chegado aceitar um desafio. Fazê-lo chorar contando suas dolorosas lembranças de judeu perseguido.

Clausewitz logo descobre que arrancar lágrimas de Sigismundo é missão quase impossível. O funcionário prestou dedicados e cruéis serviços de torturador para o Estado Novo. No cumprimento do dever, chegou a aleijar as mãos do médico (Daniel Filho) que salvou a vida de sua irmã. Antes disso, foi capanga no interior gaúcho, onde cometia barbaridades ordenadas por seu padrinho.

Desse modo fica claro para o judeu que o mito do paraíso tropical brasileiro foi construído sobre uma história sangrenta. Um genocídio continuado contra índios e negros e estendido aos que ousam desafiar o poder, como os comunistas e lutadores populares em geral. Um jardim sem campos de concentração, mas com os porões lotados de vítimas do terror do Estado. Um território distante da guerra, mas entregando milhares de inocentes à paz dos cemitérios.

Se o filme traz algo de positivo é uma tímida denúncia da sangrenta ditadura de Getúlio Vargas. Foram milhares de presos e torturados pelo homem que costuma ser glorificado até por muitos setores de esquerda. Na verdade um gênio político a serviço dos poderosos. Alguém que aperfeiçoou uma máquina de morte utilizada depois pela ditadura militar e que até hoje funciona em muitas delegacias de polícia, contra pobres e negros. Um dos poucos setores do Estado brasileiro que vem mantendo elevado nível de eficiência. E pronto para ser utilizado novamente contra quem ameaçar os interesses dos que mandam.

O judeu, afinal, arranca lágrimas ao torturador. Não contando suas lembranças, mas encenando o trecho de uma peça. Poderia ser a simbolização de que a arte é tão poderosa que consegue tocar o humano escondido numa besta cruel. Mas, o filme não chega a tanto. E a presença do médico na última cena, tentando intimidar seu carrasco com o olhar, acaba de estragar tudo. Um olhar de reprovação é a punição máxima que as autoridades democráticas de plantão têm coragem de adotar contra os covardes que estiveram a serviço das ditaduras de nossa história.

O inferno tupiniquim continua queimando e sob as ordens da mesma dinastia demoníaca. Às vezes, mudam seus auxiliares. Alguns cumprem suas tarefas de bom grado. Outros, sob a sombra vergonhosa da traição. O jeito é criar condições para que um dia o conflito seja assumido abertamente pelos debaixo. E as diretrizes que passem a valer sejam as da guerra da resistência popular.

15/08/2009

A TV na cesta básica brasileira

Há algum tempo, sabemos que existem mais aparelhos de TV nas residências brasileiras do que geladeiras. Agora, começam a chegar outros meios eletrônicos, como internete e celulares. Aumenta o cerco da vida cotidiana pelos valores capitalistas.

As pesquisas do IBGE vêm demonstrando ano após ano que há residências brasileiras que possuem aparelho de TV, mas nenhuma geladeira. Agora, outras bugigangas eletrônicas também começam a chegar. Em 01 de agosto de 2009, reportagem de O Globo, dizia que o peso dos itens de tecnologia no orçamento das famílias brasileiras vem subindo. São principalmente computadores, celulares e aparelhos de DVD.

Segundo, a reportagem de Bruno Rosa, o maior crescimento aconteceu entre as famílias de classes A e B, com ganho superior a R$ 4.807,00 mensais. Claro que as famílias das chamadas classes A e B são minoria. Mas, reportagem da revista Época de 10 de agosto destaca maior acesso dos segmentos C e D a tecnologias como celulares e computadores pessoais.

Tudo isso seria muito bom. Poderia significar uma democratização no acesso aos meios de comunicação. Não fosse por um enorme detalhe: o monopólio dos meios de comunicação e dos meios de criação de conteúdo em geral. Um setor cujo tamanho explodiu na economia e na vida social. E foi a televisão que abriu caminho. No mundo e aqui, tudo começou com ela.

Aparentemente houve duas grandes explosões de venda de televisores no Brasil. Uma, nos anos 1970. Outra, pouco depois do lançamento do Plano Real. O crédito fácil parece estar na origem dos dois momentos. Porém, da Copa Mundial de Futebol de 94 para cá a TV invadiu também os espaços públicos. Já não há restaurante ou boteco que não tenha sua tela pendurada na parede. O que pode mudar é a programação, mas sempre a cargo de alguma das grandes redes do setor, seja em sinal aberto, seja por assinatura.

Não é preciso fazer um estudo sério, para concluir que tal presença na vida cotidiana da população alterou significativamente sua visão de mundo. É muito difícil que um fato seja conhecido e discutido sem ter passado antes pelas emissoras de TV e seus programas. Quem não assiste TV tem sérias dificuldades para manter algum tipo de conversação com a maioria das pessoas. Daqui a pouco, o mesmo vai acontecer com quem não tem celular e internete.

A internete, o celular e os aparelhos de DVD são bem menos presentes na vida dos brasileiros. Apesar disso, cada um a seu modo complementa o trabalho ideológico da TV.

As promessas de ampla democracia da internete esbarram em seu pouco alcance, mas principalmente em seu domínio por grandes provedores. Sem falar, na pura e simples transposição do material dos grandes produtores de notícias e entretenimentos para a rede mundial de computadores.

Os aparelhos de DVD, por sua vez, são maciçamente utilizados para reproduzir material das mesmas grandes produtoras de filmes. Os celulares nos tornaram trabalhadores em tempo integral. Através deles, ficamos presos ao trabalho quase 24 horas por dia. Mesmo os desempregados precisam de um celular para organizar seus “bicos”.

Marx chamava a predominância da mercadoria no cotidiano capitalista de fetichismo da mercadoria. As coisas ganham vida e controlam os seres humanos. Nossa incapacidade atual de falar uns com os outros sem passar por objetos intermediários, como a TV, o celular e a internete é uma demonstração desse fenômeno.

Pessoas mais idosas devem se lembrar o que era viver sem tudo isso. O espaço do dia que sobrava depois do trabalho não estava necessariamente pautado pelos grandes meios de comunicação. Assistir ao Jornal Nacional e à novela não era um ritual obrigatório. No máximo, já havia o rádio. Mas, sem o apelo arrasador da imagem em movimento.

Claro que também eram raras as reuniões de partido ou assembléias do sindicato. No entanto, relações que envolviam solidariedade e convivência eram mais fortes. Pelo menos, criavam um ambiente de resistência à intensa competição capitalista.

Hoje a TV faz parte da cesta básica. É o que mostram as milhares de antenas de TV espetadas mesmo nos bairros mais pobres. As outras bugigangas eletrônicas ainda estão longe ganhar tanto terreno. Mas, o cerco da vida cotidiana pelos limites impostos pela visão de mundo da classe dominante é cada vez maior.

Nossa sorte é que essa visão de mundo está cheia de furos e contradições. De um lado, os meios de comunicação são obrigados a defender valores como igualdade, justiça, solidariedade, liberdade. Dizer que a organização social que temos é a melhor maneira de conquistar tais valores. Por outro lado, todos os dias acontecem fatos aos montes que desmentem tudo isso. Os próprios meios de comunicação acabam sendo obrigados a mostrar que ter dinheiro, patrimônio e boas relações com o poder está acima da liberdade e da justiça que as novelas e filmes nos ensinam a perseguir.

Cabe à luta contra-hegemônica saber explorar essas contradições. E usar os avançados meios tecnológicos em seu favor. Mas, nessa luta, acabar com o monopólio dos meios de comunicação é fundamental. A mídia empresarial é grande responsável por manter a cesta básica da maioria da população pobre em quantidade e qualidade.

03/08/2009

Trama Internacional poupa o verdadeiro vilão

Um filme que tem como vilão um banco poderia ter mostrado os crimes do capitalismo contra a humanidade. Ficou apenas na denúncia de alguns banqueiros maus.

Tom Twyker diz que não fez Trama Internacional pensando na atual crise capitalista. Segundo ele, as filmagens começaram bem antes do estouro da “bolha das hipotecas” nos Estados Unidos. A própria trama mostra que ele diz a verdade. Está longe de ter algo a ver com a crise.

O vilão da história é um banco internacional que financia organizações de espionagem, traficantes, mafiosos e ditadores de países pobres. Clive Owen é o agente da Interpol, Louis Salinger. Ele está em busca de provas contra o poderoso banco junto com a assistente da promotoria de Manhattan, Eleanor Whitman (Naomi Watts).

Seguindo o rastro de operações ilegais, Salinger e Whitman vão dos Estados Unidos à Turquia, passando por Alemanha e Itália. A cena mais marcante é a do tiroteio no famoso Museu Guggenheim, em Manhattan. São 15 minutos de tiros que transformam o lugar num queijo suíço. Correrias e tiros. O filme quase se reduz a esse tipo de ação.

Há um momento no filme em que um executivo do banco negocia com um militar da Libéria, país africano. O banqueiro oferece ao liberiano armas para a tomada do poder e a instalação de uma ditadura no país. O general africano pergunta quanto o banco cobraria por isso. O executivo diz que não cobraria nada porque dinheiro não é a única moeda de troca de seu banco.

Deveria ter dito que nenhum banco trabalha só com dinheiro. Aliás, nem o capitalismo funciona só com dinheiro. Funciona com capital. Que é dinheiro que se transforma em mais dinheiro. Melhor dizendo, valor-de-troca que se transforma em mais valor-de-troca. E valores-de-troca se diferenciam dos valores-de-uso exatamente por não terem uma finalidade determinada. Só existem para serem trocados.

É assim desde os tempos das primeiras atividades comerciais. Só que no capitalismo, a produção de valor-de-troca passa a dominar a vida social. É por isso que as crises capitalistas são causadas por abundância e não por escassez. Não faltam valores-de-uso. Os estoque estão cheios. Falta gente com valor-de-troca suficiente para comprar os valores-de-uso. Os bolsos estão vazios.

Esse processo de circulação tem invadido a vida humana de forma intensa nos últimos 150 anos. Quase tudo ganhou um preço. Da fé religiosa aos créditos de carbono. Ou seja, o acesso à espiritualidade e ao ar que respiramos torna-se cada vez mais uma questão de possuir valor-de-troca. Pode ser dinheiro, mas aceitam-se cartões, cheques pré-datados e ações na bolsa.

Os bancos são só parte mais aparente desse sistema todo. Afinal, são eles que cuidam da compra e da venda de dinheiro em suas mais variadas formas. No entanto, já não é possível separar bancos de empresas. Capital bancário e capital industrial estão juntos há mais de um século. Bancos têm representantes nas direções das grandes empresas para as quais emprestam dinheiro. Empresas têm seus próprios bancos e financeiras. Não há mais separação entre capital produtivo e "capital parasitário". À medida que o valor-de-troca invadiu a vida humana, espalhou seu "parasitismo".

A verdade é que para a circulação do capital pouco importa se o comércio de drogas é ilegal ou não. Ou se o fornecimento de armas é para governos de ditadores ou não. Tabaco e álcool matam mais do que cocaína e maconha, sem disparar um só tiro. Os governos dos Estados Unidos, Inglaterra e Israel são responsáveis por mais mortes violentas no planeta do que todas as ditaduras estúpidas do mundo pobre. E a produção capitalista de alimentos, plástico, automóveis está ameaçando a vida humana sem praticamente desobedecer nenhuma lei.

Transformar os bancos nos únicos vilões é um bom negócio para o capitalismo. Com isso, parece que um dia o sistema pode funcionar bem. O problema é que o filme de Twyker nem isso faz. Os bandidos são apenas alguns banqueiros maus. O que poderia ser uma denúncia do próprio funcionamento do capitalismo vira só uma história sobre homens maus usando um banco para fins criminosos. O verdadeiro vilão, o sistema, escapa sem arranhões. Talvez, porque seu funcionamento torne possível obras como Trama Internacional. E vice-versa...