15/02/2014

O Lobo de Wall Street: um chacal em pele de predador

Na verdade, o Lobo de Wall Street era apenas um chacal ou uma hiena, que se alimentava da volumosa carniça que lhe sobrava. O filme de Scorcese é diversão nos dois sentidos da palavra.

"O Lobo de Wall Street", de Martin Scorcese, é uma adaptação do livro de memórias de Jordan Belfort, corretor de títulos da bolsa norte-americana. Interpretado por Leonardo DiCaprio, logo no início do filme, o protagonista lista as várias drogas que ingere durante todo o dia para manter o ritmo louco do mundo da especulação financeira.

Na cena que mostra Belfort aspirando uma carreira de pó branco, ele avisa: esta é a mais terrível de todas as drogas. Mas não se trata de cocaína. Ele se refere à nota de dinheiro que utilizou como canudo para inalar a substância. “Esta é a mais poderosa das drogas”, diz ele.

E o filme todo é sobre os efeitos dessa substância que circula pelas veias de praticamente todas as sociedades do mundo atual. Que levou a vida social contemporânea a uma dependência, mais do que química, alquímica. Uma alquimia que não transforma apenas chumbo em ouro, mas converte tanto matéria, como espírito em bens monetizados. Em ativos que podem ser negociados nos mais diversos tipos de mercados em que foram transformadas as várias esferas da vida humana.

Ao mesmo tempo em que as drogas servem como estimulante para manter o ritmo frenético que permite a acumulação de riquezas, a riqueza não é um meio se não para si mesmo. Não há objetivos maiores do que o de possuir mansões, carrões, iates e tudo que esteja em conformidade com os padrões impostos pelo mercado de luxo, inclusive as mulheres.

Belfort e seu time de corretores precisam fazer dinheiro aos montes para ingerir doses cavalares de drogas, alimentos e bebidas, vestir as melhores grifes e fazer sexo em tempo integral. Mas, no fundo, fazem tudo isso apenas para voltar a fazer dinheiro. Este último é o seu verdadeiro mestre. Aquele a quem devem obediência e devoção.

Impossível assistir às cenas que mostram as palestras de motivação de Belfort para seus empregados sem lembrar de cultos religiosos. O uso poderoso da palavra, o discurso emocionado, as metáforas arrebatadoras, os gestos de comunhão histérica, os ataques de choro, os urros de fé e as juras de fidelidade às leis nada divinas da selva capitalista.

Muitos criticaram o filme por tornar simpática uma figura asquerosa. Por transformar em cenas cômicas as armadilhas com que Belfort levava pessoas pobres a apostar suas economias em investimentos furados apenas para que ele ganhasse sua polpuda comissão. Mas, creiam, o maior vilão dessa história não aparece no filme de Scorcese.

Do mesmo modo que o pastor ou o padre são apenas intermediários, Belfort é somente parte de uma matilha que apanha os restos deixados por feras muito maiores e mais vorazes. Não foi à toa que Marx resolveu chamar de “O Capital” sua maior obra, ao invés de “Os Capitalistas” ou “A Burguesia”, por exemplo. O capitalismo funciona como um mecanismo social que aliena até mesmo seus maiores beneficiários.

As cada vez mais recorrentes catástrofes ambientais, as seguidas e agudas crises econômicas, as ameaças de crises alimentares e catástrofes biológicas. Tudo isso é produto do que Marx chamou, não gratuitamente, de “anarquia da produção capitalista”. Um mecanismo que se alimenta de uma concorrência que vem se transformando na corrida para o abismo que Walter Benjamim já temia mais de 70 anos atrás.

Nada disso autoriza a isentar de culpa os poderosos controladores dos meios de produção e de circulação da economia mundial. Nem implica dizer que o modo de produção capitalista torne a todos suas vítimas, indistintamente. Estão aí o luxo e a riqueza para uma minoria minúscula e as limitações materiais mais básicas e os constrangimentos morais mais humilhantes para a gigantesca maioria do planeta.

Belfort não apenas tem culpa, como chegou a quebrar a própria legalidade de um sistema feito para promover a rapina mais cruel. Mas os responsáveis por levar a cabo o grande massacre são outros. São poucos e são patrocinadores e apadrinhados dos poderes políticos e institucionais em todos os cantos do planeta.

Basta que lembremos uma pesquisa da ONG britânica Oxfam divulgada em janeiro passado. O estudo revela que o patrimônio das 85 pessoas mais ricas do mundo equivale às posses de metade da população mundial. Este grupo que não chega a uma centena de indivíduos tem um patrimônio de US$ 1,7 trilhão. Valor que equivale aos bens das 3,5 bilhões de pessoas mais pobres do mundo. O relatório também mostra que a riqueza do 1% das pessoas mais ricas do planeta equivale a US$ 110 trilhões. Ou 65 vezes a riqueza total da metade mais pobre da população mundial.

Muito dificilmente essas pessoas seriam levadas a responder por alguma ilegalidade. Não apenas porque o atual aparato jurídico não foi feito para punir os que o puseram para funcionar. Mas, principalmente, por causa da natureza concentradora do Capital. Uma espécie de atração gravitacional poderosa como a dos buracos negros. Um fenômeno que vem confirmando as previsões nada astrológicas de Marx desde que ele estudou as primeiras crises capitalistas. Este pequeno grupo superprivilegiado poderá ser ainda menor, em pouco tempo.

Nessa imensa carnificina, o Lobo de Wall Street era apenas um chacal ou uma hiena, que se alimentava da volumosa carniça que lhe sobrava. O filme de Scorcese é diversão nos dois sentidos da palavra. Feito para entreter e para despistar.

03/02/2014

Tempos Modernos, de Charles Chaplin

Um olhar humanista que serve aos objetivos da emancipação social

Charles Chaplin criou um personagem que tornou-se ícone da cultura de massa. Apesar disso, como é comum acontecer numa época em que a produção cultural é tanto mais massificada, quanto mais fragmentada, muitas pessoas que juram admiração a Carlitos e seu criador, jamais viram os filmes de Chaplin do começo ao fim. Principalmente os de longa metragem. Por isso o conhecimento que uma parcela mais ampla das pessoas tem da obra do cineasta limita-se às cenas mais cômicas de cada filme. E, às vezes, também às cenas mais emotivas, como o abraço choroso ao menino em O Garoto, e o olhar feliz e ingênuo do vagabundo no final de Luzes da Cidade.

Em Tempo Modernos, a cena mais conhecida é a de Carlitos apertando parafusos no ritmo frenético imposto pela linha de produção até ser arrastado pela esteira e engolido pelo maquinário. O significado mais óbvio do filme aparece nesta cena, em que o homem é tragado pelas entranhas da máquina.

Quem se baseia nesta cena para julgar o filme, pode achar que Tempo Modernos perdeu força em nossa época. Afinal, o método fordista de trabalho já não é predominante e a informatização está tomando conta das fábricas, mantendo relativamente poucos operários e funcionários entre seus quadros profissionais. Mas assim como operários de macacão não são necessariamente os únicos sinônimos adequados para representar os proletários, o objeto do filme de Chaplin não é apenas a tecnologia engolindo o homem. Na verdade este é apenas o lado mais visível do filme. Um aspecto enfatizado pela insistência em representar a obra apenas a partir daquela cena famosa.

Entendo que o que Chaplin aborda aqui é fundamentalmente a alienação do ser humano no mundo. Basta assistir ao filme todo e será possível deslocar seu tema da tecnologia massacrante para a alienação também em outros níveis da vida social. Por exemplo, quando Carlitos sai do manicômio onde foi internado após enlouquecer na linha de produção, encontra uma situação de grande desemprego devido à crise de 29. Fica, então, perambulando pelas ruas.

É quando lhe acontece ver cair uma bandeira de sinalização (obviamente, de cor vermelha) de um caminhão em movimento. Tentando ajudar, pega a bandeira e começa a perseguir o caminhão agitando-a para o motorista. Imediatamente, uma passeata aparece por trás do personagem de modo que Carlitos parece estar à frente da manifestação. Logo a polícia aparece para dispersar o movimento. Na confusão Carlitos vai parar num bueiro de onde é retirado pela polícia, ainda com a comprometedora bandeira na mão.

A prisão é inevitável. Como é inevitável a conclusão de que Chaplin utiliza esta cena para fazer uma sutil crítica aos socialistas. Será que muitos dos que estão envolvidos na contestação ao capitalismo, não estariam também eles agitando uma bandeira de forma ingênua? Não estariam se iludindo ao pensar que sua postura de contestação os livra da alienação?

Mas essa crítica não implica que Chaplin seja um anti-comunista. Ele apenas não é comunista.

Quando perseguido pela paranóia mackhartista, declarou ser um humanista. E como tal, dizia que os comunistas também eram seres humanos. Um avanço para a época. "A mãe de um comunista chora tanto quanto as outras mães, ao receber notícias trágicas sobre seu filho", teria dito.

Se respeitarmos a avaliação do próprio Chaplin sobre sua postura política, veremos que Tempos Modernos é uma expressão bastante coerente de seu humanismo. Afinal, se ele faz a crítica sutil aos socialistas, no restante do filme é o capitalismo que se torna objeto de uma crítica mordaz. Carlitos é jogado de um lado para o outro em todo o decorrer do filme. Na prisão, acaba ingerindo cocaína pensando que é sal (aliás, uma das cenas mais hilariantes da história do cinema). Agora, é a droga que o priva do controle de sua vontade. Mas, o irônico é que sob o efeito da cocaína, o personagem acaba debelando uma rebelião do presídio e ganha uma cela com regalias, como jornais e cafezinho servido pelo carcereiro. A droga o colocou ao lado da paz e da ordem.

A saída da prisão é dolorosa para o vagabundo. Não quer voltar ao mundo sem emprego e cheio de agitações. Mas, de novo é obrigado a fazer o que o sistema manda, mesmo que seja ao retomar sua liberdade.

De volta às ruas, conhece a linda orfã abandonada pelas ruas vivida por Paulette Goddard, mulher de Chaplin na vida real. Apaixonam-se e o amor agora lhe dá novo ânimo. Consegue um emprego de vigia noturno de uma loja de departamento Novamente, o que parecia ser uma ocupação tranqüila transforma-se em uma grande confusão. Primeiro, a loja de departamentos revela-se um grande play-ground. Um lugar para se ir e imaginar-se adquirindo coisas bonitas e luxuosas. Aqui, Chaplin parece querer dizer que quanto menor o poder aquisitivo do indivíduo, maior sua fascinação com esse parque de diversões em que os brinquedos são as mercadorias.

Depois, assaltantes invadem o local e Carlitos é obrigado a tentar impedir. É claro que o vagabundo é dominado, mas acaba descobrindo que um dos assaltantes foi seu colega de trabalho na linha de produção. Bill foi demitido e rouba para viver. A classe operária se reencontra na loja. Um em ocupação precária, recém saído da prisão, o outro entregue ao crime. Mas ambos vítimas das circunstâncias. Carlitos perdeu o emprego na fábrica por ser sensível demais à tecnologia. Seu colega de fábrica era mais resistente ao ritmo de trabalho industrial, mas não teve destino melhor.

Tal como aconteceu com Carlitos, Bill também acabou escorregando para a ilegalidade. Só que o primeiro acabou na prisão sem ter premeditado qualquer ato ilegal, enquanto Bill teria feito uma opção consciente pelo crime. Mas o que interessa aqui não é o nível de consciência. E sim o peso massacrante das circunstâncias.

Nesse sentido, nenhum nível de consciência é suficiente para libertar os seres humanos do grande mecanismo social que os engole e cospe de volta em condições ainda piores.

Desse ponto de vista, o filme poderia ser acusado de ser conformista. Até de ajudar na manutenção do sistema ao mostrar a impossibilidade de transformá-lo ou derrubá-lo.

No entanto, a força do personagem Carlitos está em sua capacidade de mostrar que mesmo no pior dos mundos, a contraditória condição humana mantém os olhos fixos na esperança. É por isso que sempre no final de seus filmes, Chaplin mostra o vagabundo sumindo em direção ao horizonte, após uma pequena sacudidela nos andrajos, como a deixar para trás todos os dissabores e renovar a vontade de viver.

A diferença é que em Tempos Modernos, após consolar sua companheira, Carlitos parte pela última vez. O vagabundo não seria mais utilizado por Chaplin em seus filmes seguintes, num sinal de que os tempos modernos já não teriam lugar para o vagabundo lírico.

Talvez estejam aí explicitados os limites da visão política de Chaplin. O humanismo não consegue avançar para além da denúncia da alienação massacrante da vida moderna. Uma espécie de nostalgia toma lugar de toda outra possibilidade de vida social. O vagabundo era um personagem perfeito para dizer que o estilo de vida burguês não é aceitável, mas ao mesmo tempo tinha apenas um caráter de negação anárquica. Negava sem afirmar uma outra forma de viver. Ficava à margem da vida social, contentando-se com alguns expedientes de sobrevivência, assim como lhe bastava catar algumas bitucas de cigarro.

Por outro lado, é aí que está a genialidade da obra de Chaplin e de seu personagem. Quando critica sutilmente o movimento socialista e fortemente o sistema capitalista, Chaplin está apenas alertando. Mesmo nos limites de seu humanismo, que politicamente pode ser considerado piegas, ele nos diz: cuidado, bandeiras se agitando, gente se manifestando, tudo isso é pouco perto da grande fábrica social, cheia de engrenagens que engolem pessoas todas as horas.

A escolha do vagabundo rico em malandragens que é Carlitos permite a Chaplin evitar que sua obra torne-se uma denúncia simplória das mazelas do homem moderno e diga algo como "nada do que é humano me é estranho". Uma frase que não destoaria da chacoalhada de ombros e do caminhar tranqüilo de Carlitos, na cena final de seus filmes.

É nesse sentido que o humanismo de Chaplin pode ser muito útil aos que pensam a emancipação humana sob o ponto de vista da ação coletiva, organizada e consciente. Dos que pretendem, não apenas denunciar e lamentar a atual sociedade, mas construir uma nova forma de viver a partir das contradições da atual. Chaplin não era um comunista ou socialista, mas sua obra pode fornecer elementos importantes para que socialistas e comunistas incorporem o humanismo com elemento fundamental para qualquer estratégia de transformação social.

Agosto de 1999

29/01/2014

A comunicação contra-hegemônica contra a ditadura dos algoritmos

Algoritmo é um conjunto de instruções muito precisas para a execução de certas tarefas. Uma receita culinária é bom exemplo desse tipo de operação. E, acreditem, ela foi inventada por Al Khwarizami, um árabe do século 9, considerado um dos criadores da Álgebra.

Até o século 19, os algoritmos eram usados para coisas tão inofensivas quanto assar bolos. Com sua integração à produção capitalista, a coisa mudou. Como vivemos sob a ditadura da circulação das mercadorias, os algoritmos começaram a mandar em nossa vida cotidiana. Primeiro, ao estabelecer rotinas que domesticavam nosso dia-a-dia. Da linha de montagem ao deslocamento pelas grandes cidades. Mas quando foram parar dentro dos computadores e tornaram-se softwares, a receita desandou de vez.

Foi aí que começaram a ter pesada influência em nossas vidas, incluindo formas de pensar, gostos, raciocínios. O Google, por exemplo, pesquisa aquilo que buscamos, mas também sugere respostas que não solicitamos. Nossas compras registradas nas redes bancárias avisam os fornecedores sobre nossas preferências. Logo, passamos a receber ofertas e propagandas que seriam correspondentes a nossos gostos pessoais. Mas, na verdade, induzem a mantermos os mesmos hábitos, preferências, convicções. Logo, reforçam nossos preconceitos e condicionamentos sociais.

Um artigo esclarecedor e assustador sobre o tema é “Abracadabra: os algoritmos estão dominando o mundo”, de Paulo Nogueira, publicado no site Rede Brasil Atual, em 21/07/2013. A leitura é mais do que recomendável por várias razões. Mas uma delas nos afeta diretamente. Trata-se da chegada dos algoritmos à imprensa. Vejam o que diz Nogueira:
“... a Narrative Science é uma empresa que, sem um único jornalista ou repórter, produz noticiários montados a partir de dados recolhidos na internet pelos algoritmos. Na revista Forbes, por exemplo, muitas matérias já são assinadas ‘by Narrative Science’. Kristian Hammond, o criador do treco, prevê: ‘Dentro de 15 anos, 90% dos textos da imprensa serão escritos por computadores’”.
Na verdade, o problema não está apenas nos algoritmos. Está na geração da informação. O processo todo se tornou bastante previsível. As possibilidades da combinação entre criação semântica e gramatical são infinitas. Mas para os níveis de automação e massificação da imprensa atual, um programa de computador mais do que basta. Pudera! A vida humana automatizou-se, padronizou-se, massificou-se. Com a imprensa, não seria diferente.

É nesse momento que entram as manifestações de junho, os black-blocs, as marchas das vadias, as ocupações de terra, os “rolezinhos”, as greves e mobilizações populares em geral. São eventos que estão fora da ordem padronizada e automatizada da sociedade dominada pelo mercado. Eles podem fugir aos algoritmos e negar a ordem que os produz.

O mesmo pode acontecer com os textos e outras produções que descrevem, apoiam e são produto da participação de seus autores nesses eventos. Eles também podem garantir a sobrevivência da comunicação humana como criação, não como metabolismo cibernético. É a comunicação contra-hegemônica contra a ditadura dos algoritmos!