23 de jan. de 2009

Se eu fosse de classe média

A comédia “Se Eu Fosse Você 2” é um sucesso. Assim como faz sucesso a idéia de conseguir sair da pobreza mesmo ficando longe da riqueza. Enquanto isso, o andar de cima fica tranqüilo.

Nas três primeiras semanas de exibição a comédia "Se Eu Fosse Você 2" já havia ultrapassado 1,5 milhão de espectadores. À frente de filmes nacionais de sucesso como "Tropa de Elite" e "Meu Nome Não é Johnny".

Boa parte desse sucesso se deve ao talento dos dois atores principais. A idéia de fazer um casal trocar de corpos é muito bem aproveitada por Tony Ramos e Glória Pires. A direção de Daniel Filho também é competente.

Mas ajuda muito o tipo de vida levado pelo casal principal da estória. Helena e Cláudio são de classe média. De classe média, mesmo. Com direito a um belo casarão, piano de cauda na sala e piscina. É daqueles que curam depressões e tristezas consumindo num shopping luxuoso.

Os apartamentos são decorados segundo “o melhor bom gosto” urbano brasileiro. As cenas de rua têm as praias do Rio como cenário. Ninguém usa a mesma roupa mais de uma vez. O casamento da filha do casal custou algumas centenas de milhares de reais.

Na verdade, nada disso fica muito distante da realidade mostrada pelas novelas da Globo. A diferença é que o único personagem pobre é a empregada (Maria Gladys). Sempre a postos para fazer tudo o que os patrões querem.

É antiga a tese de que a chamada “classe média” serve como elemento amortecedor entre a pobreza e a riqueza. Queiram ou não seus realizadores, o filme defende aquilo que as classes dominantes acham que deve ser o ideal de vida para todos. É impossível que a maioria venha a se tornar parte do clube dos milionários. Porém, não é tão difícil que muitos cheguem à metade do caminho. Do ponto de vista ideológico, isso sempre acalma os mais pobres e faz com que os nem tão pobres tentem se aproximar dos mais ricos. Estes últimos agradecem. Enquanto uns e outros brigam para subir, tudo fica bem no andar de cima.

O interessante é que ultimamente fala-se muito sobre o crescimento da classe média brasileira. Em setembro passado, por exemplo, um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) dizia que de 2001 para 2007, cerca de 10 milhões de pessoas teriam saltado “da camada de baixa renda para a de renda média”.

O detalhe é que essa “subida” significou superar a faixa de renda familiar que fica entre R$ 545,66 e R$ 1.350,92. E o problema é que passar a ganhar pouco mais que R$ 1.350,00 não permite a ninguém ter um estilo de vida parecido com o de Helena e Cláudio. Por outro lado, se não é fácil ser de classe média, hoje em dia ficou mais fácil recorrer à imitação. Afinal, o que não faltam são vendedores ambulantes oferecendo bolsas, óculos escuros, relógios, roupas em geral, de marcas famosas. Todos falsos, mas a preços bem melhores que as altas quantias pagas pelos originais.

Ou seja, longe de ser definida pela renda, a idéia de pertencer à classe média tem a ver com muitas outras coisas. Os hábitos de consumo, a cor da pele, o vocabulário. E principalmente, as idéias. Diferente do que pode parecer, a sociedade ideal não seria composta só de pessoas de classe média.

É muito bom ter uma casa própria, com piscina, poder jantar fora todas as semanas e viajar todos os anos. Melhor do que morar de aluguel e ter um orçamento que não cabe no salário. Mas, basta olhar para as neuroses que Cláudio e Helena deixam transparecer. Cláudio é machista, egoísta e autoritário. Helena é consumista, fútil e vive às custas do marido. Só se agüentam porque de vez em quando um vai passear com o corpo do outro. Pertencem ao pedaço do meio de uma sociedade que é inteiramente doente.

Como no filme, não adianta trocar de corpo se a cabeça continua a mesma. Pouco muda se permanecemos escravos do horizonte ideológico que a classe dominante nos impõe.