17 de jan. de 2001

Ken Parker: um caubói politicamente correto


Desculpem pelo título, mas na verdade, Ken Parker não é um caubói. É um scout. Uma espécie de batedor que ia à frente das incursões dos pioneiros norte-americanos pelo oeste longínquo (o farwest). Sua função era encontrar caminhos mais acessíveis e evitar animais selvagens e índios. Aliás, estes dois últimos representavam a mesma coisa para o branco conquistador de 1868, ano em que começam as aventuras de Parker. 

É a partir desta condição que nosso herói coloca seu olhar crítico sobre o mundo ao seu redor. O massacre dos indígenas, o racismo, a construção do mito da democracia americana e até temas como a prostituição, o machismo e a homossexualidade estão presentes. 

Pais italianos, cara ianque

Mas, antes de qualquer coisa, é preciso dizer que Ken Parker é de origem italiana. Não no enredo, obviamente, mas na paternidade. Seus criadores são a imaginação inteligente de Giancarlo Berardi e o traço simples e expressivo de Ivo Milazzo. Foram eles que o trouxeram à luz em 1977 (no Brasil viu a luz apenas em 1978), mas o rebento nasceu com a cara de Robert Redford. A utilização de atores de cinema será um recurso constante e divertido nas aventuras de Parker. David Niven, Lee Van Cleef, Clint Eastwood, Marylin Monroe e até Stan Laurel e Oliver Hardy são algumas das celebridades convidadas especialmente para abrilhantar a série. Além das estrelas cinematográficas, figuras importantes da história norte-americana também dão o ar de sua presença, como o general Lee e o presidente Ulysses Grant.

Como íamos dizendo, Ken Parker é politicamente correto. Lê Walt Wittman, Shakespeare e é chamado de Rifle Comprido pelos índios porque carrega uma velha espingarda Kentucky, cuja recarga é feita pelo cano. Dotada de pontaria certeira, a arma é adequada para caça, evidenciando as pretensões absolutamente pacifistas de seu dono. O que não impede que, vez por outra, ele a utilize para dar uma lição em algum vilão.

No decorrer de suas aventuras, Parker acaba vivendo durante algum tempo em uma tribo indígena, depois de ter sido acometido por uma amnésia passageira que fez o favor de presentear-lhe com alguns dos valores indígenas: honra, solidariedade, amor e respeito à natureza. Recuperada a memória, o personagem volta a viver entre os brancos, mas fica da experiência um grande respeito mútuo. Para dar um exemplo do tratamento dado à questão indígena, o episódio mais interessante é Homicídio em Washington (número 4).

Homicídio em Washington

Nesta aventura, a questão indígena é focalizada com perspectiva crítica através da história de Ely Donehogawa, comissário para assuntos indígenas nomeado pelo presidente Ulysses Grant, em 1870. Donehogawa enfrenta corajosamente a empáfia e o racismo dos brancos. No que é auxiliado por Parker. Em uma passagem, Ken vai até o Parlamento e, diante de toda a má vontade dos parlamentares faz um discurso curto e inflamado, denunciando o palavrório vazio e o desprezo pelos direitos dos índios. Sai da sessão marchando só de meias, já que pouco antes havia tirado os sapatos, muito desconfortáveis para pés acostumados a desbravar as vastidões do Oeste. Logo depois, Donehogawa é morto devido à sua insistência em defender a causa indígena. Parker acaba sendo acusado do assassinato, e sofrerá muito antes de provar sua inocência. Ely Donehogawa realmente existiu. Mas, seu assassínio é uma invenção dos autores. O Comissário morreu em 1895, de morte natural. O respeito pela cultura indígena não se limita a histórias como estas. Nas contra-capas de muitas edições aparecem publicados poemas e cantos dos nativos norte-americanos.

Mas talvez o episódio mais bonito da série seja o intitulado Adah (número 46). É nele que estão presentes a maioria das qualidades que levaram esta história em quadrinhos a ser cultuada pelos amantes do gênero.

Adah: mulher, negra, escrava, prostituta...

A violência contra os negros e contra as mulheres é denunciada através desta história. Mulher negra, nascida no sul dos Estados Unidos antes da emancipação dos escravos, Adah sofre as mazelas da Guerra de Secessão, apaixona-se e casa com Horace, um jovem negro que a rouba e a abandona na miséria. Torna-se prostituta para sobreviver e depois de anos satisfazendo as taras dos senhores brancos sulistas, junta dinheiro suficiente para voltar à cidade em que nasceu, onde planeja reconstruir a vida junto ao irmão. Chega a tempo de presenciar a Ku-Klux-Klan assassiná-lo covardemente. Descobre que entre os assassinos da Klan está um filho de seus antigos senhores. Vai até a casa do ‘patrãozinho’ e mata-o a sangue frio. Mas seu ato coloca a polícia local em seu rastro por todo o país. A partir daí, sua vida é uma constante fuga, até que ela encontra, adivinhem quem? Acertaram. Ken Parker. Nosso herói logo ganha a confiança de Adah, que lhe confessa seus problemas. Parker a conforta, dizendo que seu crime deve ter prescrito juntamente com os delitos cometidos no período final da Guerra Civil. Após uma noite de amor, cujos efeitos reparadores devem ter sido valiosos para ambos, Parker dá cabo dos perseguidores de Adah, sem muitos exageros de violência. Depois, conforme Ken havia previsto, Adah constata que seus crimes já haviam prescrito. Ela parte para uma nova vida, cheia de gratidão pelo homem branco, compreensivo e heróico. Deixou para trás algumas das condições que a oprimiam: a de escrava, prostituta, foragida. Ficou sendo apenas mulher e negra, o que já não é pouco em termos de discriminação. 

Apesar da qualidade ordinária deste meu resumo, acredito que é possível ver como as histórias de Ken Parker têm qualidades perfeitas para agradar um público politicamente correto, ao mesmo tempo em que é desfrutável como só as boas histórias o são. Neste caso, o charme está no aparecimento de Parker apenas no finalzinho da história. Adah é o personagem principal. Adah e a questão negra, com brancos racistas, negros pilantras, mulheres corajosas e violência gerando violência. O herói salva tudo no final porque ninguém é de ferro. É certo que esta história acontece quando a série está mais do que consolidada. Berardi e Milazzo já sabiam que tinham um público fiel o suficiente para retardar a entrada do herói até que quase 4/5 da história já houvessem transcorridos.

Homem atual, problemas atuais

A história de Adah mostra bem os objetivos dos autores. Berardi dizia que queria abordar coisas sérias de maneira simples e atraente. Mas não é só isso. Citemos uma definição do argumentista para seu herói: “Ken Parker é um homem atual, com problemas atuais. Não tem certezas, nem garantias. Vive um dia após o outro com os ideais que construiu, procurando febril, desesperada, corajosa e dolorosamente ser corente.” Ora, as temáticas abordadas na série realmente pertencem muito mais aos dias atuais do que ao velho oeste. Dificilmente, um caubói, muito menos um scout, teria motivos, capacidade, tempo e interesse em defender causas de indígenas, negros, homossexuais e mulheres. 

Portanto, o que interessa para os autores é abordar coisas sérias e atuais. E o mais interessante é que fazem isso usando um dos maiores mitos do imaginário moderno: o bangue-bangue, o cavalheiro solitário, as paisagens do farwest. Claro que ao escolher um tal cenário, os autores estavam procurando apoiar-se na linguagem do cinema. O ritmo das histórias, o aparecimento de atores hollywoodianos, o traço de Milazzo (que, infelizmente não está presente em todos os episódios), cuja a elegância, sutileza e domínio das expressões gestuais são raros. Tudo isso dá à série italiana uma capacidade enorme de atrair aqueles que gostam de grandes fazedores de histórias como John Ford, Sam Peckimpah, Clint Eastwood, Sérgio Leone. Ao mesmo tempo, os autores realmente abordam temas que levam o leitor à reflexão. Com isso, Milazzo e Berardi dão uma grande colaboração para nos fazer compreender o que Will Eisner queria dizer quando definiu os quadrinhos como a arte seqüencial. E, ao mesmo tempo, abrem combate aos preconceitos e discriminações. É claro que não são todos os números da série que apresentam temas tão densos. Alguns deles dão maior espaço para a diversão, seja apelando para situações violentas, seja para contar histórias simples, bonitas e cômicas. 

Humor e metalinguagem

O humor, aliás, é uma constante. Em Homens, Feras e Heróis (número 15), há até um exercício de metalinguagem. Num lugar chamado Saloom de Descanso dos Heróis, Parker encontra seu companheiros de prateleira, Tex, Zagor, Cisco Kid e Lucky Luke, entre outros. Mas também se depara com dois personagens que não poderíamos chamar propriamente de heróis. São os próprios Berardi e Milazzo trajados a caráter.

A série durou até 1982, com 59 números editados. Depois disso, o herói voltou a aparecer intermitentemente, em edições especiais luxuosas, em formato grande. As histórias continuam boas, mas as edições são limitadas e têm preços menos acessíveis. 

No Brasil, a publicação foi suspensa em 1983, com apenas 53 números publicados e retomada em 1990, com mais duas edições. No ano passado, a editora Mythos, numa iniciativa digna de todos os elogios, publicou uma mini-série em três partes, no tradicional formato pequeno, com preço baixo. Anunciou que vai reeditar toda a série desde o início. O que seria maravilhoso. Quem sabe Rifle Comprido ainda consiga capturar alguns milhares de leitores jovens e os desperte para problemas importantes e que, infelizmente, vão continuar atuais por muito tempo.

Na rede, o material mais completo está no sítio da UBC (http://www.ubcfumetti.com), com biografias dos autores, resumos dos episódios, reprodução das capas, curiosidades etc. O problema é que está em italiano. Mas com um pouco de boa vontade, qualquer amante dos fumetti pode aprender mais sobre este caubói politicamente correto.

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