13 de abr de 2009

“Rebobine” parece besteira, mas é denúncia

Michel Gondry fez um filme com cara de besteirol. Mas é só prestar atenção, para ver que é uma denúncia contra a indústria do cinema. E um chamado à resistência cultural popular.

“Rebobine, por favor” acaba de sair em DVD. Foi mal de bilheteria nos cinemas. O filme parece uma comédia sem pretensões, mas pode ser entendido como denúncia da indústria do cinema. De um modo ou de outro, a tendência é ficar esquecido nas prateleiras das locadoras. É uma pena.

O cenário do filme é Passaic, uma pequena cidade perto de Nova Iorque. É lá que lroy Fletcher (Danny Glover) tem sua locadora de fitas de vídeo. Num prédio em que nasceu o cantor de jazz Fats Waller. Pelo menos é o que ele diz. O problema é que Fletcher deve uma fortuna em impostos e o local está para ser desapropriado pela prefeitura. Será demolido se a dívida não for paga. Além disso, a locadora está às moscas. A clientela procura cada vez mais os DVDs das grandes lojas.

Fletcher resolve passar uma temporada em Nova Iorque para pensar em soluções para o problema. Deixa a loja aos cuidados de Mike (Mos Def), seu dedicado empregado. Mas, as coisas complicam quando o melhor amigo de Mike entra em cena. Trata-se de um maluco chamado Jerry (Jack Black).

Jerry acha que uma estação de energia próxima de sua casa está cozinhando seu cérebro. Ao tentar sabotá-la, leva uma tremenda descarga elétrica. O acidente magnetiza seu corpo. Ainda tonto, ele entra na locadora e o magnetismo acaba apagando todas as fitas. Desesperado, Mike resolve filmar novamente as produções mais procuradas pela clientela.

Seguem-se cenas de reproduções caseiras de filmes como “Caça-Fantasmas”, “Robocop”, “Conduzindo Miss Daisy”. Tudo com uma velha câmera de vídeo, péssimos efeitos especiais, maquiagem e figurino de dar dó. Mas, as adaptações começam a fazer sucesso. Quando Fletcher retorna encontra uma enorme fila na porta de sua locadora.

Quando tudo parece estar melhorando, Fletcher é processado e condenado. As grandes produtoras de filmes consideram que as adaptações caracterizam crime de pirataria. Exigem o pagamento de milhões de dólares em direitos autorais. As fitas são destruídas. É marcada a data para a demolição do prédio. O desânimo é geral.

Mas Jerry tem uma idéia. Por que eles não produzem seu próprio filme? Por que não filmam a vida de Fats Waller, famoso morador do prédio que está para ser demolido? Ele e Mike fazem a proposta ao dono da locadora. Mas ele confessa que Waller nunca havia morado no local. Nesse momento, uma amiga e cliente interpretada por Mia Farrow responde: “E daí? O passado é nosso. Podemos modificá-lo”. É como se dissesse: os empresários da indústria cultural contam a história segundo o ponto de vista de seus interesses. Por que não podemos fazer o mesmo?

As filmagens começam. Muita gente da cidade se envolve. Quase sem dinheiro, a produção utiliza recursos pobres, mas criativos. A estréia é um sucesso e um acaso leva a um final feliz típico de Hollywood.

O recado do filme de Gondry parece claro. Por que a criatividade das pessoas tem que se limitar ao que a indústria da diversão oferece? Quando Mike e Jerry refilmam os clássicos, o resultado é ridículo. Mas colocam nele seu toque pessoal. É isso que atrai os clientes. Além disso, a própria vizinhança começa a participar das adaptações, fazendo pontas e colaborando para os “efeitos especiais”. Sentem a enorme diferença entre olhar e fazer. Os espectadores tornam-se produtores. É tosco, grosseiro, ridículo, mas é feito por eles.

Isso fica mais claro na produção do filme sobre Waller. Já não se trata de refazer uma grande produção. Agora, contam sua própria história. Escolheram seu próprio herói para homenagear. Um artista do jazz, arte de resistência popular. Tornaram o ato de filmar um trabalho coletivo. Deixaram de ter vergonha do que são capazes de fazer.

Ainda tentam imitar o “cinemão”, seus truques, ritmo e efeitos? Sim, é inevitável. Mas já deram um passo em direção a um caminho diferente. Isso acontece com mais freqüência do que parece. São manifestações que vão do grafite nos muros a filmes caseiros colocados na internete.

Para tornar esses produtos elementos de resistência, é preciso fazer como no filme. Seus personagens finalmente reconheceram que têm o direito de contar seu próprio passado. Por que não pensar mudar o futuro, também?

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2 comentários:

Jana disse...

Cheguei estranhamente nesse blog procurando informações sobre o diretor Ari Folman e acabei lendo algumas coisas. Dizer que esse filme "Rebobine" é bom, soa como absurdo. Alguém que goste realmente de cinema, vai perceber que esse filme é uma merda, do roteiro, aos atores, nem o engraçadinho do Jack Black salva. Como não é o seu caso, e também o blog é seu (o que quer dizer que a a merda já tá feita), então falou.

Sérgio Domingues disse...

Valeu!