4 de abr de 2009

Che: entre a revolução e a auto-ajuda

O maior problema do filme de Soderbergh não é o que ele mostra. É o que a maioria do público tende a ver. A revolução pode parecer mais questão de empenho individual do que resultado da ação coletiva.

Os admiradores de Che Guevara e socialistas em geral não têm o que reclamar de “Che: uma vida revolucionária”. Trata-se da primeira parte de uma produção do ator porto-riquenho Benicio del Toro, sob direção do norte-americano Steven Soderbergh. Essa primeira metade das quatro horas totais mostra a luta que levaria Guevara, Fidel e seus companheiros ao poder em Cuba.

Para começar, é preciso coragem para fazer um filme simpático a Guevara nos Estados Unidos. O país acaba de eleger para presidente um negro de nome muçulmano. Mas, a grande maioria de sua população continua considerando Che e Fidel nada mais que terroristas. Seguem o que diz a o governo e a mídia empresarial do país.

A produção também é bastante fiel aos relatos que o próprio Che fez da guerrilha na Sierra Maestra. Assim como de suas relações com Fidel. Guevara é retratado como homem justo, coerente com os valores que defendia e muito duro quando necessário. A cena do fuzilamento de dois traidores e a do episódio do automóvel conversível são exemplos de sua moral revolucionária.

Como explicar, então, que um filme simpático à luta do Che chegue ao grande público? Talvez, a resposta esteja no tom heróico que a produção acaba ganhando. São as cenas que mostram as terríveis condições da luta nas matas. As dificuldades de Guevara com a asma. Sua enorme força de vontade e certeza quanto à justiça da luta em que se envolveu. Os conflitos armados contra as forças militares muito superiores do governo.

Claro que os líderes da Revolução Cubana foram responsáveis por atos de coragem e grandeza. Mas, processos revolucionários não são feitos só de momentos gloriosos. Ao contrário, grande parte da atividade de quem quer transformar a sociedade é feita de trabalho cotidiano. De atividade paciente, cheia de contratempos, grandes derrotas contra pequenas vitórias. Junto aos setores sociais mais explorados, desorganizados e com pouca formação política e teórica.

Por outro lado, não é o poder militar que decide um processo revolucionário. Se fosse assim, as revoluções estariam todas condenadas a morrer antes de nascer. O arsenal e as tropas à disposição dos poderosos são muito superiores a qualquer capacidade militar popular. Quanto a conquistar o apoio de generais para a causa socialista, basta lembrar a experiência desastrosa de Allende, em 73. Seu homem de confiança nas Forças Armadas chamava-se Pinochet.

Não há dúvida de que a dimensão militar foi fundamental no processo cubano. No entanto, uma cena do próprio filme mostra que muito mais importante foi a autoridade moral da causa. Trata-se do momento em que um revolucionário entra num quartel das forças do governo, em Santa Clara. Com algumas poucas palavras enérgicas, ele convence os soldados a abandonarem suas armas e apoiarem a rebelião. Eles sabiam que estavam lutando do lado errado.

A necessidade de conquistar o apoio dos camponeses e ganhá-los para a luta. As costuras com forças políticas das cidades feitas pelo habilidoso Fidel. A capacidade de tornar-se alternativa real para todo o descontentamento popular com um governo corrupto e violento. Tudo isso também recebeu atenção no filme.

Mas, o que se destaca mesmo é a determinação de Che, o herói. São os guerrilheiros armados com sua coragem. Tem-se a impressão de que à gente comum, resta assistir e apoiar, admirada e agradecida. Isso tudo acaba servindo à lógica do típico heroísmo burguês. Quem vai mudar o mundo? Algumas pessoas dedicadas, com fortes convicções, grande inteligência e muitas habilidades. Ao restante, sobra o papel de platéia. E a existência de uma platéia em política faz parte da lógica que mantém todas as dominações.

Além disso, para o capitalismo não há terreno sagrado. Há muito tempo, Guevara transformou-se em marca publicitária. Recentemente, começou a ser veiculada na TV uma propaganda da lanchonete Habib’s. O anúncio mostra atores imitando Fidel e seus companheiros anunciando promoções. Nas lojas da rede, estão expostos folhetos com esfihas e quibes usando a boina do Che e o boné de Castro.

Na final de março, o Jornal do Brasil anunciou na capa de sua revista o que seria a nova moda carioca. Ouvir músicas, consumir bebidas e fumar charutos de origem cubana. Tudo embalado pelo lançamento do filme. Só falta aparecer gente que dá palestra sobre motivação profissional usando a Revolução Cubana como exemplo.

Em tal contexto, o filme de Soderbegh, faz pouco efeito do ponto de vista da propaganda do socialismo. Claro que é possível utilizá-lo como elemento provocador de debates. Até porque são raras as boas produções que abordem de maneira positiva a Revolução Cubana. No entanto, o movimento anticapitalista precisa produzir seus próprios materiais de divulgação e formação política. Produtos de mídia que mostrem que é a ação coletiva dos explorados que orienta suas lideranças revolucionárias e não o contrário.

Sérgio Domingues – abril de 2009

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3 comentários:

Araca disse...

Prezado Sérgio,
Muito interessante a sua análise do filme. Entretanto, mesmo no filme Che, ele e Fidel advertem o perigo do uso da imagem pessoal em detrimento da causa coletiva, em pelo menos 3 momentos. No filme, senti falta da epopéia do Granma, onde houve um isto de erros de inexperientes e acertos de persistentes.

Sérgio Domingues disse...

Sim, há momentos assim no filme. Mas, acho que se perdem no efeito geral de espetacularização em que o cinema nos moldes de Hollywood acaba caindo.
Abraço

Mario disse...

Serginho,

Pois é, retornando a revolução cubana? Lembro de quando conversamos sobre o filme Soy Cuba. Você escreveu que não tinha assistido, que estava meio cansado de falar de Cuba, mas... É, estar falando de Cuba, pode ser até um problema que mereceria uma melhor análise. Mas, cá estás tu, novamente.

Só um pequeno comentário a acrescentar ao filme. Achei que ele tem uma abordagem sóbria. Parece pouco, mas é muito. Falar em Che já sugere algo grandiloquente: para o bem ou para o mal. O filme consegue evitar a armadilha ufanista de transformá-lo em mito ou de crucificá-lo no sujo a serviço de Fidel, como fez recentemente a nossa querida Veja.

Estava receoso do que iria ver, principalmente se tratando de um filme feito nos Estados Unidos; apesar de ter na direção Soderbergh e no papel principal Benicio Del Toro.

Lembrei de mais um aspecto que merece destaque: o estereótipo em que filmes sobre revolucionários são tratados. Este filme evita estes esteriótipos. Não temos a figura do revolucionário de fala dura, inflexível; enfim, caricatural. Ele traz todos estas características necessárias para a atividade revolucionária, embora não de forma empostada. Quando ocorre de vestir a personagem com esta camada, o filme acaba por tornar-se falso, e portanto irreal. Nada pior se o filme for ainda sobre determinada personalidade histórica. Para mim o filme Olga peca neste ponto.

Enfim, este filme evita os excessos, e aí está o seu mérito.

Em relação a sua crítica, só uma coisa a destacar. Aliás, em todas as suas críticas. Você sempre pondera em relação as coisas que não foram mostradas, que não foram ditas etc. Para não ampliar e confundir, vamos nos ater só a este filme.

O processo revolucionário jamais vai conseguir ser abordado em todas as suas variáveis, em todas suas matizes, em um único filme, em todos os filmes, ou em toda arte. Ele é mais amplo e rico que isto. Lógico que você sabe disto. Sei que utiliza a arte como alavanca (no melhor sentido) para discutir a revolução e o socialismo. O problema que vejo, é que você fica por exigir que o filme contemple multiplos aspectos com os quais ele não pode dar conta. Para mim ficaria melhor separar o momento da crítica da obra em relação ao das necessidades revolucionárias. Acho importante que a crítica não fique circunscrita a estrutura da obra, que ela possa suscitar a discussão do seu material principal: a realidade. Entretando, um filme é só um filme. Reducionismo? Não sei, talvez entenda como uma abordagem mais realista: da arte e da revolução.