15 de mar de 2009

Quando os quadrinhos são superiores ao cinema

Zack Snyder não conseguiu adaptar "Watchmen" para as telas mantendo toda a riqueza da versão original. Pelo menos, chamou a atenção para uma obra-prima dos quadrinhos.

Adaptar Watchmen para as telas era um fracasso anunciado. O escritor Alan Moore e o desenhista Dave Gibbons exploraram possibilidades que só os quadrinhos permitem. A obra é dividida em doze partes. Cada uma tem um motivo dominante que se repete da primeira à ultima página. As capas, a disposição dos quadrinhos, estórias paralelas, elementos gráficos. Tudo contribui para criar um quebra-cabeças que se revela aos poucos. Características que muito dificilmente seriam traduzidas para a linguagem cinematográfica.

Mas, quem quiser saber mais sobre esse aspecto da obra, clique aqui. Vamos ao filme.

Os Watchmen (Vigilantes) são justiceiros mascarados que surgiram nos anos 1930. Na verdade, são um bando de pessoas fortes e ágeis com todos os problemas de gente normal. Desde alcoolismo até violências sexuais. E são conservadoras, também. Durante uma greve de policiais, por exemplo, os mascarados assumem a manutenção da ordem, incluindo repressão a uma passeata.

Mas, como não fazem parte do aparelho de Estado, também não contam com a confiança do poder institucional. Por isso, são colocados na ilegalidade. Todos menos o Dr. Manhatann, um cientista que por acidente tornou-se uma criatura azul e poderosa. Tanto que ganhou a Guerra do Vietnã para os Estados Unidos e, com isso, garantiu várias reeleições para Nixon.

Moore escreveu a obra em 1986. Reagan estava no poder. Os pesadelos que pareciam ter sido enterrados com o governo Nixon estavam de volta: conservadorismo, menos serviços públicos e impostos menores para os ricos, repressão aos movimentos populares, ameaça de guerra mundial e financiamento de guerrilhas de direita, incluindo a de Bin-Laden.

Já o filme de Snyder foi produzido durante mais uma edição do pesadelo americano: o governo Bush. Aquele que foi eleito dizendo que os Estados Unidos são os vigilantes do mundo. Na versão em quadrinhos uma pichação aparece nas paredes várias vezes. Ela pergunta: “Quem vigia os vigilantes?” Uma questão que deveria receber mais atenção na versão filmada.

Manhatann é quase um deus e se afasta cada vez mais das paixões humanas. Mas, não vacila na hora de matar por sua pátria. A cena em que o gigante azul pulveriza vietnamitas disparando raios de seus dedos é assustadora. Parece simbolizar uma ciência que se pretende neutra e superior, mas está a serviço de um poder imperial. Não à toa, Manhatann ganhou o nome do projeto que criou a bomba atômica.

Outra figura marcante é Rorschach. O sombrio personagem tem um forte código de moral. Não tem dúvidas sobre o que é certo e errado. Por isso, também não vacila na hora de quebrar alguns ossos e rachar cabeças. Acaba lutando pela justiça em nome dela mesma. Não em nome das pessoas a quem ela deveria servir. Um pouco como a extrema-direita americana. Não gosta de governo, menos ainda do povo.

Os dois parecem representar a classe dominante americana. Um e outro usam papéis de cores diferentes para embrulhar a mesma intolerância. O democrata Truman atacou Hiroshima. Kennedy, seu colega de partido, começou a guerra do Vietnã. A política de terror dos republicanos dispensa maiores comentários.

A trama de Moore retrata um momento tenso da Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética estão cada vez mais próximos da terceira guerra mundial. Para evitar o apocalipse um plano está em andamento. Um susto para impedir o pior. O truque inclui a morte de milhões de pessoas. Mas o que são alguns milhões de vidas a menos quando se trata de salvar toda a população mundial, pergunta o idealizador de tudo.

Diante disso, o que restou dos Watchmen resolvem colaborar. Menos Rorschach. Com toda seu desprezo pelas pessoas, prefere os velhos métodos. Se a humanidade é podre, a única saída é afogá-la na própria podridão. Nada de jogos de ilusão. Um republicano legítimo.

O plano funciona. Mas, o sucesso é provisório. Logo tudo deve recomeçar. Daí, a grandeza da obra de Moore e Gibbons. Eles usam os quadrinhos, seus super-heróis e estórias fantásticas para denunciar a própria indústria de diversão. Mostrar como uma linguagem cheia de possibilidades transforma-se em mais um elemento de reprodução de uma lógica destruidora.

O mal, o crime, a crueldade parecem cada vez mais assustadores. Mas, não serão justiceiros, mascarados ou não, que vão eliminá-los. Ao contrário, é a crença nesse tipo de solução que os tornam cada vez mais presentes. O final do filme não é tão explícito em relação a isso. A mensagem perde força. Mas, se ajudar a redescobrir essa obra-prima em quadrinhos, valeu a intenção.

Um comentário:

carina.lucion@hotmail.com disse...

olá!!!!!
Estou fazendo um trabalho sobre por que os adultos olham desenhos animados, aqueles ditos infantis, gostaria de saber se tens algum material?
Estou pesquisando sobre mídia, sociedade de controle...
Desde já agradeço!