26 de out de 2009

Ficção científica contra o racismo é quase real

“Distrito 9”, de Neill Blomkamp, alia diversão e denúncia. É ótimo. Pena que perto do verdadeiro racismo seja quase um conto de fadas.

Em 2012, alienígenas vêm parar na Terra, mas não chegam invadindo e atirando raios. Também não são seres superiores dando lição de moral a nossa espécie. São milhões de criaturas cuja nave enguiçou sobre a cidade de Joanesburgo, na África do Sul. Resgatados pelos humanos, são colocados numa enorme favela que recebeu o nome de Distrito 9. O aspecto físico dos recém-chegados é desagradável, lembrando uma mistura de inseto com crustáceo. Por isso, recebem o apelido nada carinhoso de camarões.

Não é a primeira vez que um diretor dá aos alienígenas um aspecto repugnante. Em 1997, Paul Verhoeven realizou “Tropas Estelares”. A produção adotou como modelo a estética dos diretores de cinema da Alemanha nazista. Seus heróis eram homens e mulheres jovens, atléticos, bonitos e brancos. Leais e amigos entre si e impiedosos com os inimigos. Nada mais fácil do que ser cruel com vilões que parecem enormes baratas nojentas. Este seria o segredo da estética fascista. Transformar os inimigos em criaturas repugnantes. Não à toa, os nazistas chamavam os judeus de ratos.

Mas, o filme de Blomkamp parte desse ponto de vista para invertê-lo. As primeiras cenas mostram os alienígenas como seres violentos, sujos, viciados em ração de gato e desleais. No final da exibição, nossa simpatia vai toda para a causa dos infelizes aliens em sua luta contra a injustiça.

São vários os aspectos interessantes do filme. A maioria, ligada à denúncia do racismo. Em primeiro lugar, nada mais apropriado do que situar o drama na maior cidade de um país que viveu a vergonha do racismo institucionalizado. O diretor é branco e jovem, mas chegou a ver o Apartheid em pleno funcionamento. Afinal, o odioso regime racista só acabou há 15 anos.

O processo de favelização da colônia extraterrestre mostrado no filme também é parecido com o que ocorre nas grandes cidades do planeta. Populações recém-chegadas são isoladas em bairros distantes, sem estrutura e acesso a direitos básicos. Mas, a inevitável deterioração de suas condições de vida não é vista como conseqüência desse isolamento. Passa a ser entendida como característica natural de sua gente.

Quando uma socióloga considera preconceituoso chamar os alienígenas de camarões, um chefe de polícia diz que não vê preconceito. “Eles realmente se parecem com camarões”, diz ele. Isso é bem típico dos mecanismos que alimentam a discriminação e o racismo. Faz lembrar um trecho do romance “O sorriso do lagarto”, de João Ubaldo Ribeiro. Nele, um personagem diz que a maioria dos macacos tem traços e características que os faz mais parecidos com homens brancos do que com negros. No entanto, o racismo afirma o contrário.

O mesmo acontece quando comportamentos verificados entre populações pobres são considerados próprios de animais. É a tentativa de lhes tirar a condição de seres humanos. São o mesmo que ratos, baratas, camarões, macacos. Se for preciso, se fugirem ao controle e tornarem-se pragas, devem ser contidos ou exterminados. Basta prestar atenção no discurso da classe dominante. Ouvir o que dizem a grande mídia, governantes, parlamentares, empresários. Essa lógica está lá. Às vezes, bem aparente.

Como as idéias da classe dominante dominam a sociedade, o racismo e a discriminação também surgem entre suas próprias vítimas. Por isso, “Distrito 9” mostra negros sul-africanos a favor da perseguição aos alienígenas. Não notam que reproduzem a opressão de que também são vítimas. Afinal, nem da espécie humana eles são, diz um deles. Mas, para o racismo este é só um detalhe. Para transformar um setor da população em seu alvo, não é preciso que seus membros tenham antenas e garras. Basta escolher certas características estranhas ao senso comum e generalizar para aquele setor da população. Aí, é só excluí-lo das pessoas consideradas “corretas” e “civilizadas”.

Uma crítica que poderia ser feita ao filme é o modo como mostra uma gangue de nigerianos. Um bando criminoso cruel, ignorante, supersticioso. Mas, o filme acaba retratando a realidade sul-africana hoje. Há um grande movimento migratório da Nigéria para a África do Sul, país mais desenvolvido do continente e um dos mais injustos do mundo, também. Os nigerianos acabam formando grande parte da população pobre e moradora de favelas. São os mais recentes discriminados em uma sociedade já tão marcada pela injustiça social.

Por fim, é interessante notar como à medida que o filme se aproxima do final, começamos a enxergar os recém-chegados como vítimas. Os estranhos seres se mostram capazes de sentimentos e reações muito parecidas com as nossas. Revelam dominar uma tecnologia avançada e serem capazes de manifestar solidariedade e lealdade.

Isso acontece porque já somos capazes de contextualizar a situação dos alienígenas. Diferente do que acontecia antes, no início do filme, quando a sucessão de imagens era frenética. Imperava o ritmo típico dos diversos telejornais apelativos que mostram situações violentas sem qualquer preocupação em situar histórica e socialmente os conflitos, guerras e dificuldades vividos por explorados e oprimidos no mundo todo. O resultado é mais preconceito e visões distorcidas em relação a povos, etnias ou ao vizinho da favela ou periferia mais próxima. Mais lenha na fogueira do racismo, do ódio aos estrangeiros, da intolerância com o diferente.

O filme vale porque alia diversão e denúncia. Pena que suas cenas chocantes sejam suaves perto dos verdadeiros efeitos do racismo e da exploração capitalista pelo mundo afora. Basta assistir a um documentário como “O pesadelo de Darwin”, de Hubert Sauper, ou ler os relatos de “Planeta favela”, de Mike Davis. Deixam qualquer roteirista de terror apavorado.

3 comentários:

Anônimo disse...

Excelente comentário que nos incentiva a ver ou rever este belo e cruel filme de ficção científica, aterrorizante por nos colocar de frente para o espelho dos nossos próprios medos, preconceitos e inseguranças. Bravo, Sergio!
FRANCISCO NASCIMENTO

Sérgio Domingues disse...

Muito obrigado, Francisco.
Abraço

Anônimo disse...

Nossa, excelente crítica! Parabéns!