8 de jan de 2010

Avatar ajuda a luta ecológica. E atrapalha

O “filmão” de Cameron ajuda ao defender a causa ambiental. Mas sua condição de espetáculo simplifica e distorce questões importantes. Aí, atrapalha.

Avatar é uma festa para os olhos. Principalmente para quem assiste em terceira dimensão. Muito movimento, belas cores, efeitos especiais de primeira. O roteiro não tem maiores surpresas, mas procura denunciar a destruição ecológica e o desrespeito a populações indefesas por parte do grande capital.

A história trata de uma poderosa empresa em busca de um minério valioso no planeta Pandora. O problema é que sobre as ricas jazidas vivem os Na'vi, povo que se recusa a deixar o que considera ser seu solo sagrado.

A empresa tenta duas saídas para o impasse. Uma, é a do convencimento, através do trabalho de cientistas, que criaram “avatares”. Seres feitos à imagem e semelhança dos nativos e que são “encarnados” por membros da equipe terrestre. “Vestidos” em corpos alienígenas, os humanos são capazes de fazer contato com a população local, enfrentando menor resistência.

A outra saída é a repressão. Neste caso, entram em ação soldados veteranos, contratados para colocar a população nativa para correr, se for necessário. Mas, Parker (Giovanni Ribisi), um dos administradores da empresa, não esconde suas prioridades. Para os acionistas, diz ele, pior que a mídia mostrando a repressão aos nativos, são balanços financeiros exibindo prejuízos.

O filme é bastante didático ao explicar a ligação entre os nativos e o sistema ecológico do planeta. A cientista, interpretada por Sigourney Weaver, explica que a vida em todo o planeta faz parte de uma rede. A destruição de algumas de suas partes afeta todo o conjunto.

O mesmo vale para o meio ambiente de nosso planeta. A luta em defesa dos povos atingidos por grandes obras não diz respeito apenas aos direitos e tradições de indígenas, quilombolas, caiçaras etc. Também não se trata somente de preservar a vida animal e vegetal.

Além de tudo isso, ainda há o desequilíbrio causado pela destruição ambiental. Só agora começamos a sentir as terríveis conseqüências de 200 anos de pesada exploração capitalista. E ela não afeta apenas povos isolados em regiões distantes. Chega cada vez mais perto e com maior força às grandes cidades. Seja na forma de catástrofes naturais, seja como veneno jogado no ar, matas, mares e rios.

No entanto, se a produção de Cameron ajuda a luta ambientalista ao iluminar esses aspectos, em outros ela atrapalha. Afinal, estamos falando de um mega produto da poderosa indústria de cinema. Aí, dificilmente tem ponto sem nó.

Em primeiro lugar, o filme faz dos cientistas os mocinhos da história. Não é bem assim. O que não falta são cientistas pagos a peso de ouro por gigantes multinacionais para desenvolver seus venenos e justificar seu poder. A ciência pode ser usada na luta contra o capitalismo, mas o inverso é muito mais freqüente.

Outro problema é a ausência da dimensão política. Alguns filmes de denúncia de Hollywood colocam toda a culpa em governantes e esquecem os capitalistas. Em Avatar, os políticos não aparecem. O lado mau é representado por uma grande companhia e um militar sanguinário.

No entanto, a produção é um protesto contra os republicanos, não contra o capitalismo. A empresa sem escrúpulos é uma mineradora. Pertence ao ramo econômico privilegiado pelo governo Bush. A “Árvore Sagrada” dos Na´vi é bombardeada em um “ataque preventivo”. Até a cena das cinzas da grande árvore se espalhando pela floresta lembra os momentos seguintes ao ataque às Torres Gêmeas.

Por outro lado, Parker, o executivo, em alguns momentos parece ser assaltado por dúvidas e arrependimento. Então, o verdadeiro vilão do filme é o coronel Quaritch (Stephen Lang), encarregado das operações militares. Este, sabe bem o que quer: o sangue dos nativos.

Este é o problema das denúncias feitas pelo cinemão americano. Nunca mostra o todo. Apenas suas partes. O resultado é uma visão fragmentada que, ora deixa de lado os interesses econômicos, ora esconde os interesses políticos. Quando falam de exploração econômica, por exemplo, não relacionam com machismo, racismo, homofobia etc. Enquanto isso, o sistema vai funcionando com um todo, ameaçando a existência de grande parte da humanidade e da vida na Terra.

É por isso que o final do filme, apesar de feliz e bem resolvido, é improvável. Pelo menos para nosso humilde planeta. A resistência das populações ameaçadas pelo “progresso destruidor” é fundamental. A luta ecológica é importantíssima. Mas nem uma nem outra, sozinhas, podem deter a destruição em andamento.

Do jeito que o filme acaba, muitas pessoas devem sair do cinema pensando: “tomara que nossos indígenas façam o mesmo”. Ou seja, eles que lutem lá a luta deles. “Nós daremos todo o nosso apoio moral. De preferência, de bem longe”.

Sem o envolvimento dos explorados e oprimidos das grandes cidades de todo o mundo, estas lutas continuarão a ser isoladas e derrotadas. E sem dar um caráter anticapitalista para a luta ambiental, os grandes empresários continuarão a nos enganar com “produtos verdes” e selos de “responsabilidade social”, enquanto destroem a vida no planeta. Os governos continuarão a permitir e financiar esta destruição usando a “marcha do progresso” como desculpa.

Este combate tem que ser global como é a natureza. Precisa se basear em valores solidários, como é a vida organizada em muitas comunidades e sociedades tribais. Tem que ser ecossocialista.

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