19 de set de 2010

O conformismo em “Nosso Lar”

Walter Assis produziu uma obra em defesa do espiritismo. Até aí, nada demais. O problema é que sua interpretação defende a passividade diante das injustiças terrenas.

O filme de Walter Assis é uma boa peça de propaganda do espiritismo. Como tal, seu sucesso depende de da resposta do público-alvo. E este parece ter respondido bem. As bilheterias já ultrapassaram os dois milhões de pagantes. Pouco menos que o número estimado de 2,3 milhões de adeptos do espiritismo no Brasil.

Por outro lado, o filme não deve entusiasmar o público em geral. O visual lembra anúncios de condomínio. O lar espiritual idealizado só agradaria a quem gosta de música clássica, roupas brancas e jardins bonitinhos. Por outro lado, os valores que o filme defende podem ser compartilhados por quem não compartilha da fé espírita. E aí, prevalece o conservadorismo.

Em primeiro lugar, há o apelo constante à família. Algo a que o próprio título da obra remete. O lar em questão é sinônimo de família nuclear tradicional. Em especial, quando a família retratada desfruta a privilegiada condição de classe média em plenos anos 1930 e mora em uma casa ampla e bem mobiliada, com direito a criados que incluem uma mucama negra.

A modernidade capitalista causou alterações sociais profundas e desastrosas. Mas, o alívio do peso familiar sobre os indivíduos foi uma mudança bem-vinda. A lógica do mercado dissolve o poder das ligações de sangue. Coloca a possibilidade de trocar relações impostas por laços de parentesco pela escolha baseadas em afinidades.

É a diferença entre o casamento por amor e o matrimônio arranjado, por exemplo. O primeiro não é certeza de felicidade. O segundo é quase garantia de tristeza. Ambos ainda dobram-se a convenções sociais sufocantes em que a família tem papel decisivo. Acontece que a superação definitiva das amarras baseadas nas ligações de sangue continua bloqueada pelo conservadorismo burguês de que o sistema necessita para se reproduzir.

Em uma sociedade realmente livre, até a paternidade seria cada vez mais uma questão de escolha. As relações amorosas entre parentes jamais foram regra. Ao contrário, a imagem da família tradicional harmoniosa esconde o mais extremo autoritarismo patriarcal. O filme mostra que André Luis cometeu muitos os erros em vida. No entanto, nenhum deles coloca em dúvida sua autoridade de chefe de família, apenas os exageros dela.

Além disso, a doutrina defendida pelo filme concentra-se na superação de defeitos que afetariam a busca da felicidade pessoal. É verdade que egoísmo, inveja, arrogância, intolerância são posturas e sentimentos negativos. Mas, a busca de sua superação de forma isolada do contexto social e histórico presta um serviço a um sistema social que vive desses valores. Ser egoísta e intolerante pode ser bastante recompensador sob o capitalismo. É o que mostra a vida tranqüila e a morte serena de muitos ditadores sanguinários e exploradores gananciosos.

Ao mesmo tempo, o filme mostra como no espiritismo a separação entre matéria e espírito parece chegar ao extremo. As sucessivas encarnações seriam uma forma de purificar o espírito até que ele pudesse continuar em seu estado imaterial permanentemente. Até que não mais tivesse que abandonar o “nosso lar”. Ou seja, a matéria seria considerada um estado imperfeito, mesmo que necessário, do qual todos devem tentar se livrar.

Não é o caso de discutir os pressupostos filosóficos dessa concepção. No entanto, uma doutrina como essa pode ser utilizada para incentivar a passividade em relação à miséria muito material que afeta bilhões de pessoas. Também pode contribuir para simplificar as complexidades da alma humana, transformando-as em simples jogos de “ação e reação”. Os que aqui sofrem, são eles mesmos culpados disso. Precisam se “depurar” para serem recompensados.

Nesse caso, a conclusão quase obrigatória é a adoção de uma paciência infinita com a injustiça terrena. Algo bastante conveniente para os principais responsáveis por ela. Os exploradores e opressores, com suas existências muito terrenas e luxuosas. Defensores encarniçados de interesses muito materiais.

Tais convicções não podem ser atribuídas a muitos dos adeptos do espiritismo. Isso não impede que o espírito da superprodução em cartaz esteja contaminado por um forte conformismo social.

6 comentários:

Ana Lucia Vaz disse...

Sérgio querido, é a segunda vez!
Não assisti o filme sobre Chico Xavier nem este, agora, sobre André Luis. Mas essa tua insistência em criticar o "conformismo" do espiritismo me perturba!
Sou médium num centro de umbanda e, embora goste muito do kardecismo, meu principal problema com ele é, provavelmente, o moralismo conservador de que você identifica muito bem neste texto. Os valores de família etc.
Mas, sobre o tal do "conformismo", acho que você está cometendo aquele velho erro de analisar uma realidade, utilizando paradigmas que lhe são estranhos.
É claro que, em nossa sociedade (talvez em qualquer sociedade capaz de sobreviver!), o discurso conservador é mais visível que o revolucionário. Dentro das religiões, bem como dentro da academia, dos partidos ou em qualquer outro lugar. Pessoalmente, hoje prefiro a militância no terreiro e nos centros de meditação que no partido, porque a política partidária me parece conservadora demais. Para os meus paradigmas e utopias, claro. Imagino que não para os seus.
E um dos princípios revolucionários que me são mais caros, tanto no budismo quanto na umabanda é o da não-violência. Que inclui o aprendizado de substituir a indignação e revolta pelo amor e acolhimento. Não para que as coisa continuem como estão. Mas para que elas possam mudar verdadeiramente.
Para mim, a luta partidária já deu provas suficientes, ao longo da história, de sua incapacidade de promover transformações profundas. Entre seus limites está o "conformismo" profundo com a lógica judaico-cristã do eterno confronto entre o bem e o mal que, promete a doutrina, será solucionada quando o bem "finalmente" vencer o mal. Quando o socialismo "finalmente" vencer o capitalismo...
... viu como utilizando paradigmas que lhe são estranhos, qualquer doutrina pode parecer estúpida?

um super abraço,
Ana Lucia Vaz

Sérgio Domingues disse...

Ana, desculpe. Pensei que meu texto tivesse deixado claro que, tanto no caso do filme sobre Chico, como em Nosso Lar, minha crítica foi a uma determinada interpretação do espiritismo. Ainda mais quando ela vem a partir de mega-produções feitas por monopólios da comunicação.
Não tenho a menor condição de avaliar o espiritismo enquanto tal. Assim como respeito opções religiosas e filosóficas. Por isso, o texto diz que as convicções criticadas ali "não podem ser atribuídas a muitos dos adeptos do espiritismo".
Concordo com você quanto à estupidez da dicotomia judaico-cristã que impera em partidos políticos. O problema é que ela impera em muitos outros lugares. Portanto, é mais um combate (não violento) que é preciso fazer.
Valeu o comentário.
Beijo

Maira disse...

É a primeira vez que posto nesse blog, mas o assunto em questão me é bastante familiar...
Fui esírita e cristã a maior parte da minha vida, li toda a doutrina do codificador, todos os livros do André luiz e muitos outros... Posso dizer que perdi grande tempo da minha vida e poderia ter lido outra coisas,não que eu não tenha lido outra coisas mas sabe como é poderia ter lido mais.
Concordo com o fato de que a doutrina estpírita traz um conformismo, talvez pelo fato de estarmos inconscinetemente adaptados as questões cármicas, isso traz um certo alívio diante de tantos problemas sociais e econômicos que evidenciamos. Tb traz um alívio no que diz respeito a própria raça humana com suas enormes mazelas.
Quando vemos os políticos que a maioria eleje, quando vivemos a enorme dificuldade de mobilização social e o descaso dessa classe média conformada e hipócrita, cada dia mais cúmplice inconsciente de um processo midiática que me parace sem volta...
Ser religioso nos traz um pouco de conforto para a alma quando vemos ou quando a lucidez nos arrebata e não temos como nos esconder dela. Eu entendo, durante anos amorteci meu coração com a acerteza de que no final, tudo iria acabar bem, que estávamos no caminho da evolução para melhor e que este caminho não teria volta.
Análise tola, postura avestruz, necesidade de sobrevivência e adaptação nada mais, é pra isso que serve a religião, nortear conceitos morais, manter a ordem social e amortecer o nosso coração.
Me desculpem os religiosos de plantão mas isso não é uma crítica é uma autoreflexão!

Anônimo disse...

Concordo com algumas opiniões acima. Nasci numa família espírita e fui abandonando a religião (porque sim: Espiritismo é uma religião, embora muitos neguem) aos poucos. Foi um processo interno bastante natural, mas externamente (as reações da família etc.) bastante doloroso e, confesso, até um pouco injusto, porque me senti julgada. Existe sim conformismo e também a visão patriarcal no Espiritismo, embora muitos também neguem isso com muita veemência. A minha situação foi bastante peculiar: envolveu membros espíritas de famílias disfuncionais usando a doutrina para, digamos, como desculpa para "não colocar a família de volta nos eixos". Muitas pessoas se adaptam imediatamente ao Espiritismo. Principalmente porque o que muitos deles acham que deve ser feito para resolver qualquer problema é "nada". É bastante cômodo. Eu inclusive nem interpreto a doutrina assim. Mas é conveniente para muitos, de fato, usá-la para manter a ordem social. Aliás, como muitas outras religiões. Conheço famílias espíritas extremamente problemáticas, tanto quanto em outras religiões. Me pareceu aos poucos apenas mais uma tentativa de explicar as mazelas da vida de uma forma que absolutamente nada deva ser feito por elas por ninguém.

Vintage 72 disse...

Olá Sérgio, eu não assisti ao filme mas notei uma grande incoerência já no trailer.
Em nosso lar, havia uma família de judeus ortodoxos bem caracterizados pelos trajes e corte de cabelo.
Indaguei eu: Como pode esses espíritos estarem em nosso lar e se manterem fieis ao judaismo ortodoxo? Uma das mais marcantes caracteristicas das três grandes religiões monoteistas é a crença na ressurreição e não na reencarnação.
Sincretismo religioso é uma coisa, samba do criolo doido é outra. kkkk

Sergio Domingues disse...

É isso aí!
Abraço