12 de out de 2010

Wall Street: o dinheiro não dorme. Está morto

Mais uma vez, Gordon Gekko deve ganhar a simpatia do público no novo filme de Oliver Stone. É que diante do mundo finado do dinheiro, o vilão é o que mais se parece com algo vivo.

“Wall Street: o dinheiro nunca dorme” faz um retrato cru do capitalismo. Mas, padece do mesmo mal que atacou o filme do qual é continuação. Aquele que era para ser o vilão, acaba sendo o personagem que mais atrai a simpatia do público.

Gordon Gekko (Michael Douglas) com todo seu cinismo mostra-se bem adaptado a um ambiente extremamente competitivo. A selvageria da disputa capitalista fica bem clara nas cenas do pregão da bolsa. Como não sentir fascínio pelo leão na savana? Ou pelo tubarão no mar? Aprendemos a ter pena dos antílopes e dos peixinhos. Mas, séculos de pedagogia do canibalismo de mercado nos ensinou a admirar as feras.

Logo no início do filme, Gekko refere-se às famosas bolhas econômicas do capitalismo. E as compara à explosão cambriana. Trata-se de um fenômeno biológico ocorrido há uns 500 milhões de anos. Nessa época, houve o maior surgimento de novas espécies vivas de que se tem notícia.

Ao utilizar esse exemplo, Gekko defende o que pensa a maioria dos ideólogos da burguesia. É a idéia de que o capitalismo é resultado da evolução natural. Veio para ficar. E quem quiser se dar bem, tem que aceitar seu jogo bruto e disputá-lo seguindo suas regras violentas.

Gekko é bom nisso. Depois de anos de prisão, parece arrependido. Escreve um livro que desvendaria os segredos do sistema. Mostra-se arrependido do que fez com sua vida familiar. Desenvolve uma relação afetiva com seu genro, substituto ideal para o filho morto.

Nada disso impede que acabe dando o bote no final. Age como o escorpião que não consegue negar sua natureza. A reaproximação com a filha é apenas um modo de recuperar o dinheiro escondido na Suíça. Suas denúncias do sistema são uma forma de se manter em evidência. Um jeito de reatar antigas relações e vingar-se de seus velhos inimigos. Talvez sua única ação boa tenha sido colocar o genro para fora daquele meio cruel aos chutes e pontapés.

No final do filme, é possível sentir alguma pena de Gekko. Seu rosto olhando as imagens do neto na barriga da filha é como o pedido de socorro de um dependente químico. Gekko simboliza a humanidade presa num circuito estéril.

É o império do valor de troca, que há séculos vem seqüestrando todos os domínios da vida humana. Já não se trata de dinheiro apenas. São papéis de todo tipo. O que se negocia nos mercados do mundo não são bens, mas direitos sobre eles. E estes crescem numa proporção muito maior que a produção daqueles.

É o contrário da explosão cambriana. Nesta, a vida explodiu dando origem a praticamente todas as atuais formas vivas. O mercado capitalista parece estar cheio de diversidade. De fato, marcas, modelos, tamanhos, formas não passam de metamorfoses da mesma coisa: trabalho humano reduzido a mercadoria. Criatividade levada a óbito.

O filme de Stone faz a denúncia disso só até certo ponto. No fim, fica a sensação de que não há muita escapatória a não ser manter uma postura ética. Escolher a qualidade no lugar da quantidade. Saída individualista que conta com a boa consciência daqueles que estão que estão no topo da cadeia alimentar dos negócios.

Por outro lado, o filme deixa claro que a esperança no capitalismo ecologicamente correto está condenada ao fracasso. “A próxima bolha será verde”, diz Gekko. Esta sentença faz mais do que prever uma nova catástrofe. Acende o alerta de que o capital está atingindo o limite não só da vida social humana. Envolve, cada vez mais, o conjunto da vida no planeta em seu abraço de morte.

Felizmente, a vida costuma reagir mesmo nas crises mais fatais. Contra o instinto suicida do capital, só a reação ferida de milhões de explorados e humilhados pode ser a resposta. Perto deles, Gekko é só um morto-vivo à procura de descanso eterno.

2 comentários:

Flávio disse...

Exelente crônica abordando o assunto de forma atual e realista. Esperamos que a bolha verde não venha a acontecer.
Parabéns.
Flávio Ribeiro

Bruna disse...

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