20 de fev de 2009

O nazismo, de farda e à paisana

Vários filmes denunciando o nazismo foram lançados nos últimos meses. Mostram pessoas comuns colaborando com o regime de Hitler. Também podem servir para mostrar que o fascismo não anda apenas vestido de farda.

“O menino do pijama listrado”, “Um homem bom”, “Operação Valquíria”, “O leitor”. Todos estes filmes lançados recentemente têm relação com a Alemanha nazista. Todos mostram os dramas de pessoas que de um jeito ou outro colaboraram com o regime de Hitler.

Um pai tenta manter sua família longe da crueldade do regime em relação aos judeus. Mas, vê seu próprio filho tornar-se vítima da máquina de morte para a qual trabalha. Um escritor tenta subir na vida fingindo concordar com os ideais nazistas. Acaba cúmplice da morte de seu melhor amigo. Oficiais do alto-comando alemão tramam o assassinato de Hitler para antecipar uma rendição menos vergonhosa frente aos aliados. Acabam fuzilados. No Pós-Guerra, um adolescente tem um belo caso amoroso com uma mulher mais velha. Depois de alguns anos, descobre que ela trabalhou em um campo-de-concentração, auxiliando na matança de centenas de pessoas.

Essas produções mostram uma aparente contradição. Pessoas honradas, amorosas, sensíveis, leais, bons cidadãos e pais de família colaboraram com um dos maiores exemplos de crueldade da história da humanidade. Como diz um personagem de “O leitor”, no campo de Auschwitz trabalhavam 8 mil pessoas. Somente 19 delas foram processadas. Afinal, condenar todas as outras implicaria condenar a grande maioria do próprio povo alemão.

Na verdade, honra, lealdade, amor familiar não são valores que estão acima das sujeiras do mundo. Ao contrário, podem estar a serviço do que há de mais conservador e autoritário. Para se manter no poder toda classe dominante reproduz e mantém antigos e novos preconceitos. Faz isso para manter acesos os ódios e intolerâncias entre os dominados. É o antigo truque de dividir para governar.

Os regimes nazistas e fascistas revelam esse tipo de mecanismo à luz do dia. Eles incentivam as piores taras sociais. Permitem que elas se espalhem entre amplos setores da população. Estimulam a ocorrência de ações violentas entre os próprios setores populares. Procuram desviar a revolta popular para longe do sistema de dominação e exploração da burguesia. Culpam conspiradores quase satânicos pelas misérias em que a maioria das pessoas vive sob o capitalismo. Principalmente, judeus, negros, homossexuais, ciganos, contestadores em geral.

Não é pouca a diferença entre um governo ditatorial e governos com liberdades políticas. Mas, os valores dominantes são praticamente os mesmos. Um cidadão pacato pode tratar cordialmente pessoas que despreza em um momento. Sob um governo de extrema direita, esse mesmo cidadão torna-se o feroz defensor da eliminação desses “seres inferiores”.

Além disso, aprendemos desde cedo a cumprir ordens. Se elas partem de governos democráticos ou de ditaduras é coisa que pode ficar confusa em determinadas épocas e lugares. E na confusão, somos treinados a escolher a obediência quase cega.

Estamos vivendo uma das maiores crises econômicas de todos os tempos. Muito desemprego, salários baixos, desesperança e revolta. Uma situação bastante favorável ao fascismo. É o ovo da cobra sendo chocado.

O problema é que a intolerância fascista não anda por aí fardada e usando bigodes ridículos. Pode assumir várias formas. Também não precisa aprovar leis contra pessoas que se “desviam do padrão”, como fizeram os nazistas em relação a judeus, comunistas e ciganos. Basta que consigam tornar suas perseguições e agressões aceitáveis para a maioria da sociedade.

Contra isso não adianta confiar só nas leis, nos governos e nas autoridades. Hitler e Mussolini tomaram o poder sem quebrar a lei. E o Estado já se mostrou preguiçoso e incompetente várias vezes quando se tratou de reprimir a extrema-direita.

Somente a resistência popular organizada e baseada na luta dos explorados pode matar essa serpente. Convencer as pessoas comuns a desobedecer aos senhores de sempre para defender a dignidade e a liberdade da vida humana. Impedir que milhares de pequenos ditadores sejam usados por alguns poucos e poderosos tiranos de farda.

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