6 de out de 2013

O apoio do Globo às trevas da ditadura getulista

Depois de quase 50 anos, todos vimos como o Globo resolveu pedir desculpas por seu apoio à ditadura militar de 1964. Alguns comentaristas chegaram a notar que o jornalão carioca só se mostrou mais ágil que o Vaticano no reconhecimento de seus erros.

Mas o diário da família Marinho também deveria lembrar outra ditadura que contou com seu apoio. Trata-se do chamado “Estado Novo”, decretado em novembro de 1937 por Getúlio Vargas.

O golpe getulista determinou o fechamento do Congresso Nacional e a extinção dos partidos políticos. Foi imposta uma nova constituição, inspirada no nazifascismo. O presidente ditador passou a ter total controle do poder executivo.

Foram nomeados interventores nos estados em lugar de governadores eleitos. As eleições presidenciais previstas para 1938 jamais foram realizadas. O legislativo tornou-se decorativo, pois Getúlio governou por decretos-lei até 1945, quando foi expulso do poder na onda antifascista do final da 2ª Guerra.

Milhares de trabalhadores, militantes políticos, sindicais e sociais foram jogados na cadeia, torturados, desaparecidos e mortos. Verdadeira carnificina, provavelmente ainda mais cruel e sangrenta que a cometida pelo regime militar de 64.

Uma das medidas adotadas foi a censura aos meios de comunicação pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). E esta foi uma boa desculpa para que os jornais da burguesia apoiassem a ditadura sem se comprometer abertamente. A única exceção foi o jornal “O Estado de S. Paulo”.

Em seu acervo eletrônico, O Globo afirma: “Na ditadura do Estado Novo, a censura impedia o posicionamento aberto da imprensa”. Mas não foi bem assim. Em sua ótima biografia sobre Getúlio Vargas, Lira Neto cita um episódio vergonhoso *.

Em julho de 1939, em pleno Estado Novo, Alzira Vargas casou-se com Ernani do Amaral Peixoto, na época interventor federal no estado do Rio de Janeiro. A cerimônia teria sido simples, mas a lua de mel foi nos Estados Unidos.

Uma nota publicada pelo jornalista Mario Tarquínio de Souza em O Globo dizia que a viagem fora paga com dinheiro público. Não há registro de que tenha havido um desmentido categórico das informações publicadas. Mas a reação do governo foi imediata. O jornalista foi demitido e preso.

O dono do jornal que publicou a denúncia também foi rápido. Segundo o que escreveu Lira Neto na página 366 de seu livro, Roberto Marinho publicou um pedido de desculpas a Getúlio, na primeira página do jornal com o seguinte teor:

“Sinto o dever de me apressar em externar a vossa excelência a minha profunda e sincera revolta contra o embuste de que foi vítima a direção de O Globo, e a própria censura policial, com a publicação de notícia estampada em alguns exemplares de uma das edições de hoje”.

Que o jornal fosse obrigado a publicar o que a ditadura determinava é uma coisa. Que seu proprietário tomasse a iniciativa de lamber as botas do ditador e de seu serviço de censura é outra.

Jorge Amado escreveu um romance sobre esta época terrível da história brasileira. Chama-se “Os subterrâneos da liberdade”. Foi nestes subterrâneos que o Globo se refugiou. Dele jamais saiu. Do interior de seu esconderijo tenebroso, continua tentando nos roubar a luz.

* “Getúlio (1930-1945): Do governo provisório à ditadura do Estado Novo”, segundo volume da trilogia biográfica sobre Getúlio Vargas, escrita por Lira Neto, Companhia das Letras, 2013.

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