A comédia “Se Eu Fosse Você 2” é um sucesso. Assim como faz sucesso a idéia de conseguir sair da pobreza mesmo ficando longe da riqueza. Enquanto isso, o andar de cima fica tranqüilo.
Nas três primeiras semanas de exibição a comédia "Se Eu Fosse Você 2" já havia ultrapassado 1,5 milhão de espectadores. À frente de filmes nacionais de sucesso como "Tropa de Elite" e "Meu Nome Não é Johnny".
Boa parte desse sucesso se deve ao talento dos dois atores principais. A idéia de fazer um casal trocar de corpos é muito bem aproveitada por Tony Ramos e Glória Pires. A direção de Daniel Filho também é competente.
Mas ajuda muito o tipo de vida levado pelo casal principal da estória. Helena e Cláudio são de classe média. De classe média, mesmo. Com direito a um belo casarão, piano de cauda na sala e piscina. É daqueles que curam depressões e tristezas consumindo num shopping luxuoso.
Os apartamentos são decorados segundo “o melhor bom gosto” urbano brasileiro. As cenas de rua têm as praias do Rio como cenário. Ninguém usa a mesma roupa mais de uma vez. O casamento da filha do casal custou algumas centenas de milhares de reais.
Na verdade, nada disso fica muito distante da realidade mostrada pelas novelas da Globo. A diferença é que o único personagem pobre é a empregada (Maria Gladys). Sempre a postos para fazer tudo o que os patrões querem.
É antiga a tese de que a chamada “classe média” serve como elemento amortecedor entre a pobreza e a riqueza. Queiram ou não seus realizadores, o filme defende aquilo que as classes dominantes acham que deve ser o ideal de vida para todos. É impossível que a maioria venha a se tornar parte do clube dos milionários. Porém, não é tão difícil que muitos cheguem à metade do caminho. Do ponto de vista ideológico, isso sempre acalma os mais pobres e faz com que os nem tão pobres tentem se aproximar dos mais ricos. Estes últimos agradecem. Enquanto uns e outros brigam para subir, tudo fica bem no andar de cima.
O interessante é que ultimamente fala-se muito sobre o crescimento da classe média brasileira. Em setembro passado, por exemplo, um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) dizia que de 2001 para 2007, cerca de 10 milhões de pessoas teriam saltado “da camada de baixa renda para a de renda média”.
O detalhe é que essa “subida” significou superar a faixa de renda familiar que fica entre R$ 545,66 e R$ 1.350,92. E o problema é que passar a ganhar pouco mais que R$ 1.350,00 não permite a ninguém ter um estilo de vida parecido com o de Helena e Cláudio. Por outro lado, se não é fácil ser de classe média, hoje em dia ficou mais fácil recorrer à imitação. Afinal, o que não faltam são vendedores ambulantes oferecendo bolsas, óculos escuros, relógios, roupas em geral, de marcas famosas. Todos falsos, mas a preços bem melhores que as altas quantias pagas pelos originais.
Ou seja, longe de ser definida pela renda, a idéia de pertencer à classe média tem a ver com muitas outras coisas. Os hábitos de consumo, a cor da pele, o vocabulário. E principalmente, as idéias. Diferente do que pode parecer, a sociedade ideal não seria composta só de pessoas de classe média.
É muito bom ter uma casa própria, com piscina, poder jantar fora todas as semanas e viajar todos os anos. Melhor do que morar de aluguel e ter um orçamento que não cabe no salário. Mas, basta olhar para as neuroses que Cláudio e Helena deixam transparecer. Cláudio é machista, egoísta e autoritário. Helena é consumista, fútil e vive às custas do marido. Só se agüentam porque de vez em quando um vai passear com o corpo do outro. Pertencem ao pedaço do meio de uma sociedade que é inteiramente doente.
Como no filme, não adianta trocar de corpo se a cabeça continua a mesma. Pouco muda se permanecemos escravos do horizonte ideológico que a classe dominante nos impõe.
23 de jan. de 2009
7 de nov. de 2008
Dois filmes diferentes e iguais sobre a cegueira
"Ensaio sobre a cegueira" e "Nevoeiro" falam sobre a cegueira que ataca as pessoas na ausência de regras sociais. O primeiro é otimista, o segundo, não. Mas, sob a lógica do cinema para multidões, ambos acabam fazendo o jogo pessimista que interessa a quem manda.
São dois filmes diferentes. Mas também parecidos. "Ensaio sobre a cegueira", de Fernando Meirelles, adapta a obra de José Saramago. É filme para o Oscar e agrada aos mais exigentes amantes do cinema. O outro é "Nevoeiro", de Frank Darabont, baseado em livro de Stephen King. É quase um filme B, não deve receber indicação para o Oscar e ficará longe dos cinemas de arte.
Ambos mostram a convivência humana em situações-limite. No filme baseado em Saramago, uma epidemia de cegueira ataca a sociedade. A confusão se instala. Não há mais regras, leis, moral, governo. Os primeiros atingidos pela epidemia são isolados em uma espécie de asilo. Lá são deixados por sua conta e risco. O caos se instala. Preconceitos e neuroses explodem. Alguns usam de força física para se beneficiar. Comportam-se como criminosos. As mulheres chegam a ser usadas como moeda em troca de comida.
O mesmo pode ser dito da produção de Darabont. No filme, um denso nevoeiro se espalha por uma pequena cidade americana. Em meio à névoa estão criaturas terríveis, que devoram pessoas em poucos segundos. Um grupo fica preso em supermercado. Porém, há tanto perigo dentro como fora do lugar. As pessoas se desentendem. Suas vaidades e discordâncias vêm à tona. Uma religiosa fanática diz que se trata do apocalipse. Exige que alguns dentre eles sejam sacrificados, pois fazem parte dos pecadores que provocaram a maldição.
Claro que os dois filmes trazem "mensagens" diferentes. Saramago diz que seu livro queria mostrar que o ser humano é um animal doente. Mas sua obra e seus posicionamentos políticos mostram que ele acredita numa cura, ainda que não seja garantida. Já o terror de King parece dizer que a doença é incurável. O modo como os dois filmes terminam deixa transparecer essa diferença de pontos de vista. O final do filme de Meirelles é otimista, o desfecho do outro, não.
No entanto, essa interpretação diferenciada pode não ser consenso. Ao contrário, a leitura pessimista do filme de Meirelles pode tornar-se majoritária.
Quem conhece os livros de King, sabe que ele não tem preocupações de caráter político e social. Por isso mesmo, quem assistir a "Nevoeiro" tenderá a interpretá-lo de maneira mais fiel em relação à obra do escritor. Tudo indica que filme e livro apontam para as mesmas conclusões.
No caso da obra de Meirelles, a adaptação cinematográfica também é coerente com o livro. O próprio autor aprovou. Mas, para que tal interpretação se confirme seria preciso que os espectadores tivessem lido o romance. A obra de Saramago traz inúmeras reflexões, ironias, pistas sobre o que ele pensa do mundo. Seu alvo é a forma de vida social atual, sob o império do capital e do poder burguês, mesmo que não o diga explicitamente.
O problema é que a grande maioria do público do filme de Meirelles não teve e não terá contato com o livro. O próprio ritmo cinematográfico pode fazer as pessoas pensarem que o ser humano não tem jeito, mesmo. É cruel e egoísta por natureza. Basta uma situação anormal para mostrar isso.
Infelizmente, esse tipo de conclusão faz o jogo daqueles que estão nas posições de comando. Afinal, se os seres humanos deixados à sua própria sorte só sabem guerrear entre si como bestas-feras, melhor manter tudo como está. Com sua ordem, regras e leis injustas. E quanto mais rígidas, melhor.
O fato é que a doença dos seres humanos é o modo como ele se organiza socialmente. Hoje, sob a concorrência selvagem do capitalismo, o que os dois filmes mostram é o mais provável. Treinados para nos tratar como competidores e inimigos em potencial, as situações extremas realmente nos empurram para a crueldade, o egoísmo, a exploração, a violência sobre os mais fracos.
Só que, na verdade, situações extremas já são parte de nosso dia-a-dia. Se quisermos superar a cegueira que reina no mundo, precisaremos quebrar as regras atuais. Negar a lógica egoísta e de competição selvagem do capitalismo. Os valores que realmente importam não nos são ensinados pela ordem que hoje impera. Ao contrário, eles foram sendo fortalecidos na luta contra o capitalismo. São a solidariedade, a justiça, o respeito pela vida e a obrigação de agir contra as injustiças.
Em geral, filmes como "Nevoeiro" querem nos fazer crer que se o mundo é ruim como está, ficaria pior se deixasse de ser como é. Este não seria o caso do filme de Meirelles, se toda a lógica do cinema para grandes públicos não o empurrasse nessa direção. O diretor está de parabéns pela adaptação, mas a mensagem presente no livro não deve sobreviver a sua exibição para milhões de pessoas nas telas. Deve ser por isso que está lá.
Sérgio Domingues
São dois filmes diferentes. Mas também parecidos. "Ensaio sobre a cegueira", de Fernando Meirelles, adapta a obra de José Saramago. É filme para o Oscar e agrada aos mais exigentes amantes do cinema. O outro é "Nevoeiro", de Frank Darabont, baseado em livro de Stephen King. É quase um filme B, não deve receber indicação para o Oscar e ficará longe dos cinemas de arte.
Ambos mostram a convivência humana em situações-limite. No filme baseado em Saramago, uma epidemia de cegueira ataca a sociedade. A confusão se instala. Não há mais regras, leis, moral, governo. Os primeiros atingidos pela epidemia são isolados em uma espécie de asilo. Lá são deixados por sua conta e risco. O caos se instala. Preconceitos e neuroses explodem. Alguns usam de força física para se beneficiar. Comportam-se como criminosos. As mulheres chegam a ser usadas como moeda em troca de comida.
O mesmo pode ser dito da produção de Darabont. No filme, um denso nevoeiro se espalha por uma pequena cidade americana. Em meio à névoa estão criaturas terríveis, que devoram pessoas em poucos segundos. Um grupo fica preso em supermercado. Porém, há tanto perigo dentro como fora do lugar. As pessoas se desentendem. Suas vaidades e discordâncias vêm à tona. Uma religiosa fanática diz que se trata do apocalipse. Exige que alguns dentre eles sejam sacrificados, pois fazem parte dos pecadores que provocaram a maldição.
Claro que os dois filmes trazem "mensagens" diferentes. Saramago diz que seu livro queria mostrar que o ser humano é um animal doente. Mas sua obra e seus posicionamentos políticos mostram que ele acredita numa cura, ainda que não seja garantida. Já o terror de King parece dizer que a doença é incurável. O modo como os dois filmes terminam deixa transparecer essa diferença de pontos de vista. O final do filme de Meirelles é otimista, o desfecho do outro, não.
No entanto, essa interpretação diferenciada pode não ser consenso. Ao contrário, a leitura pessimista do filme de Meirelles pode tornar-se majoritária.
Quem conhece os livros de King, sabe que ele não tem preocupações de caráter político e social. Por isso mesmo, quem assistir a "Nevoeiro" tenderá a interpretá-lo de maneira mais fiel em relação à obra do escritor. Tudo indica que filme e livro apontam para as mesmas conclusões.
No caso da obra de Meirelles, a adaptação cinematográfica também é coerente com o livro. O próprio autor aprovou. Mas, para que tal interpretação se confirme seria preciso que os espectadores tivessem lido o romance. A obra de Saramago traz inúmeras reflexões, ironias, pistas sobre o que ele pensa do mundo. Seu alvo é a forma de vida social atual, sob o império do capital e do poder burguês, mesmo que não o diga explicitamente.
O problema é que a grande maioria do público do filme de Meirelles não teve e não terá contato com o livro. O próprio ritmo cinematográfico pode fazer as pessoas pensarem que o ser humano não tem jeito, mesmo. É cruel e egoísta por natureza. Basta uma situação anormal para mostrar isso.
Infelizmente, esse tipo de conclusão faz o jogo daqueles que estão nas posições de comando. Afinal, se os seres humanos deixados à sua própria sorte só sabem guerrear entre si como bestas-feras, melhor manter tudo como está. Com sua ordem, regras e leis injustas. E quanto mais rígidas, melhor.
O fato é que a doença dos seres humanos é o modo como ele se organiza socialmente. Hoje, sob a concorrência selvagem do capitalismo, o que os dois filmes mostram é o mais provável. Treinados para nos tratar como competidores e inimigos em potencial, as situações extremas realmente nos empurram para a crueldade, o egoísmo, a exploração, a violência sobre os mais fracos.
Só que, na verdade, situações extremas já são parte de nosso dia-a-dia. Se quisermos superar a cegueira que reina no mundo, precisaremos quebrar as regras atuais. Negar a lógica egoísta e de competição selvagem do capitalismo. Os valores que realmente importam não nos são ensinados pela ordem que hoje impera. Ao contrário, eles foram sendo fortalecidos na luta contra o capitalismo. São a solidariedade, a justiça, o respeito pela vida e a obrigação de agir contra as injustiças.
Em geral, filmes como "Nevoeiro" querem nos fazer crer que se o mundo é ruim como está, ficaria pior se deixasse de ser como é. Este não seria o caso do filme de Meirelles, se toda a lógica do cinema para grandes públicos não o empurrasse nessa direção. O diretor está de parabéns pela adaptação, mas a mensagem presente no livro não deve sobreviver a sua exibição para milhões de pessoas nas telas. Deve ser por isso que está lá.
Sérgio Domingues
3 de out. de 2008
“Linha de passe” fica longe de quem interessa
O filme pode ajudar na denúncia da triste realidade da vida na periferia das grandes cidades. Mas é uma obra que não vai chegar à maioria dos pobres urbanos. Superar esta distância não é uma tarefa do cinema comercial. É dos próprios explorados e oprimidos.
O título da obra de Walter Salles e Daniela Thomas refere-se à brincadeira em que vários jogadores controlam uma bola com os pés entre si sem deixá-la cair no chão. Simboliza bem a situação que o filme mostra. São quatro jovens da periferia paulistana, cuja mãe é solteira, trabalha como empregada doméstica e está grávida do quinto filho. Em meio aos problemas típicos da juventude pobre, os quatro tentam manter a bola no alto. Ou seja, ficar longe do crime, das drogas, da miséria e da apatia.
As dificuldades para arranjar emprego, melhorar o salário ou apenas consumir são enormes. Um deles é motoboy e fazer isso em São Paulo significa ganhar a vida com uma das ocupações mais violentas, cansativas e mal pagas do mundo. O outro é aspirante a jogador de futebol. Tem talento, mas não consegue entrar nos grandes clubes porque não tem dinheiro para pagar o “jabá”. O terceiro é evangélico e trabalha num posto de gasolina, agüentando todo tipo de humilhação por parte do patrão. O caçula, ainda criança, vive atormentado por não saber quem é seu pai.
“Linha de passe” é muito bem feito. Com ótimo elenco e direção. Mas, se o filme tem uma grande qualidade é a denúncia da realidade cruel da vida na periferia das grandes cidades brasileiras. Principalmente, para jovens e mulheres. Para quem cobra um cinema mais ligado à realidade e à necessidade de sua transformação, é um bom filme. Poderia até ser útil na luta contra a hegemonia dominante.
Mas, não é bem assim. Em primeiro lugar, ele deve ficar restrito a um público pequeno. Mais da metade da população brasileira nunca foi ao cinema. E a maioria dos que vão ao cinema, gastam seus trocados em filmões americanos e assemelhados. O público de estréia da obra de Salles e Thomas foi de 33 mil espectadores. Na mesma época, a estréia do americano “Hellboy” atraiu quase 150 mil. Por outro lado, 98% das casas brasileiras possuem pelo menos um aparelho de TV. Ou seja, é possível dizer que o cinema não atinge as multidões brasileiras.
Em segundo lugar, está a própria reação do público que seria o mais interessado. Estamos falando dos pobres das periferias urbanas. A Folha de São Paulo e a Unicef organizaram uma sessão do filme para 250 pessoas moradores da periferia pobre de São Paulo. Segundo o jornal, as reações não foram muito positivas. Os convidados disseram não ter gostado do clima triste. Reclamaram da imagem sempre negativa da periferia. Argumentaram que comunidades pobres têm muitos momentos de alegria, de solidariedade e é rica em iniciativas culturais e festivas. E nada disso apareceu em “Linha de passe”.
É impossível saber se essas opiniões correspondem ao que pensaria a maioria da população pobre de uma cidade, caso assistisse ao filme. Mas, é muito provável que a produção realmente não agradasse esse tipo de público. É bem possível que as pessoas que não gostaram de “Linha de Passe” na sessão especial estejam acostumadas a assistir filmes, seriados e novelas com o padrão Globo “de realidade”.
Estamos falando de obras de ficção que podem até apresentar algum tipo de problema social. Denunciar os preconceitos, a violência e outras questões que fazem parte da realidade da maioria. Mas, tais iniciativas acabam neutralizadas pelos esquemas do final feliz. Pela sensação de que a vida é assim mesmo. Pela idéia de que de um modo ou de outro, tudo vai se encaixar. Enfim, de que basta sermos perseverantes, pacíficos e, principalmente, respeitadores da ordem e dos poderes constituídos para tudo dar certo.
É possível afirmar que a grande maioria dos espectadores de “Linha de passe” é formada por pessoas com escolaridade alta, bom nível de informação e cultura e senso crítico em relação à realidade social. Trocando em miúdos, gente que já está ganha para uma certa sensibilidade em relação aos problemas da realidade social. A questão é que este tipo de público ou é muito pequeno para tentar mudar essa realidade, ou nem tem interesse em fazê-lo.
Claro que “Linha de passe” vai chegar à TV, um dia. Mas, será mostrado em meio a novelas, séries, filmes e outros programas que incentivam o conformismo. Além disso, deverá ser exibido tarde da noite, para um público parecido ao que já o teria visto no cinema.
Em outras palavras, “Linha de passe” não é um elemento típico da grande mídia. Não atinge multidões e não defende idéias que procuram levar à comodidade social. Mas também não tem os elementos necessários para ser utilizado na luta contra a hegemonia dominante por si só.
Como ele, há centenas de filmes, talvez. Mas, são exibidos em pequenas salas, freqüentadas por gente de classe média das metrópoles. Nesse circuito ficam inofensivos e servem mais para aliviar a consciência dos mais preocupados socialmente.
O fato é que à medida que os grandes monopólios da mídia invadem a vida cotidiana, mais isola as pessoas em suas salas e quartos. Mais afasta de contatos comunitários e associativos. De tal modo que até a TV pode se dar ao luxo de falar de problemas sociais em alguns de seus programas. Seus controladores sabem que a maior parte dos telespectadores permanecerá apática. A grande mídia não determina apenas aquilo que se vê, mas também o modo como se vê.
Apesar disso tudo, não se trata de fazermos filmes no estilo da Globo ou de Hollywood para chegar às multidões. O ideal mesmo é que os próprios setores explorados e abandonados das grandes cidades produzam seus próprios bens culturais. Não adianta cobrar dos filmes comerciais que mostrem a resistência, a solidariedade e a riqueza cultural das periferias. Eles não são feitos para isso. Quem deve começar a fazer cinema e outros produtos audiovisuais são os setores organizados das próprias comunidades pobres.
Infelizmente, não adianta esperar financiamentos governamentais para esse tipo de atividade. Isso seria entrar num terreno que já pertence aos grandes meios de comunicação e de produção cultural. E é mais fácil fazer uma revolução social no Brasil do que desmontar esses monopólios. Uma produção desse tipo só poderá surgir da iniciativa das organizações populares. De preferência, unidas em redes.
Por outro lado, a tecnologia atual barateou a produção áudio-visual. Continua difícil, mas já não é impossível produzir material que seja atraente, inteligente e contra-hegemônico. Que combine denúncia, diversão, poesia, beleza e qualidade técnica. E o uso da internete permite alcançar públicos maiores.
As organizações e entidades populares de esquerda devem se manter na luta pela democratização dos meios de comunicação. Devem exigir políticas públicas de apoio à cultura popular. Mas, faz parte dessa luta a produção de seus próprios bens e armas culturais. Seu próprio arsenal de comunicação, educação e formação. A partir das lutas e da vida dos explorados. E isso inclui aproveitar algumas lições do trabalho de bons diretores, como Walter Salles, Daniela Thomaz e outros profissionais do cinema comercial.
Sérgio Domingues
O título da obra de Walter Salles e Daniela Thomas refere-se à brincadeira em que vários jogadores controlam uma bola com os pés entre si sem deixá-la cair no chão. Simboliza bem a situação que o filme mostra. São quatro jovens da periferia paulistana, cuja mãe é solteira, trabalha como empregada doméstica e está grávida do quinto filho. Em meio aos problemas típicos da juventude pobre, os quatro tentam manter a bola no alto. Ou seja, ficar longe do crime, das drogas, da miséria e da apatia.
As dificuldades para arranjar emprego, melhorar o salário ou apenas consumir são enormes. Um deles é motoboy e fazer isso em São Paulo significa ganhar a vida com uma das ocupações mais violentas, cansativas e mal pagas do mundo. O outro é aspirante a jogador de futebol. Tem talento, mas não consegue entrar nos grandes clubes porque não tem dinheiro para pagar o “jabá”. O terceiro é evangélico e trabalha num posto de gasolina, agüentando todo tipo de humilhação por parte do patrão. O caçula, ainda criança, vive atormentado por não saber quem é seu pai.
“Linha de passe” é muito bem feito. Com ótimo elenco e direção. Mas, se o filme tem uma grande qualidade é a denúncia da realidade cruel da vida na periferia das grandes cidades brasileiras. Principalmente, para jovens e mulheres. Para quem cobra um cinema mais ligado à realidade e à necessidade de sua transformação, é um bom filme. Poderia até ser útil na luta contra a hegemonia dominante.
Mas, não é bem assim. Em primeiro lugar, ele deve ficar restrito a um público pequeno. Mais da metade da população brasileira nunca foi ao cinema. E a maioria dos que vão ao cinema, gastam seus trocados em filmões americanos e assemelhados. O público de estréia da obra de Salles e Thomas foi de 33 mil espectadores. Na mesma época, a estréia do americano “Hellboy” atraiu quase 150 mil. Por outro lado, 98% das casas brasileiras possuem pelo menos um aparelho de TV. Ou seja, é possível dizer que o cinema não atinge as multidões brasileiras.
Em segundo lugar, está a própria reação do público que seria o mais interessado. Estamos falando dos pobres das periferias urbanas. A Folha de São Paulo e a Unicef organizaram uma sessão do filme para 250 pessoas moradores da periferia pobre de São Paulo. Segundo o jornal, as reações não foram muito positivas. Os convidados disseram não ter gostado do clima triste. Reclamaram da imagem sempre negativa da periferia. Argumentaram que comunidades pobres têm muitos momentos de alegria, de solidariedade e é rica em iniciativas culturais e festivas. E nada disso apareceu em “Linha de passe”.
É impossível saber se essas opiniões correspondem ao que pensaria a maioria da população pobre de uma cidade, caso assistisse ao filme. Mas, é muito provável que a produção realmente não agradasse esse tipo de público. É bem possível que as pessoas que não gostaram de “Linha de Passe” na sessão especial estejam acostumadas a assistir filmes, seriados e novelas com o padrão Globo “de realidade”.
Estamos falando de obras de ficção que podem até apresentar algum tipo de problema social. Denunciar os preconceitos, a violência e outras questões que fazem parte da realidade da maioria. Mas, tais iniciativas acabam neutralizadas pelos esquemas do final feliz. Pela sensação de que a vida é assim mesmo. Pela idéia de que de um modo ou de outro, tudo vai se encaixar. Enfim, de que basta sermos perseverantes, pacíficos e, principalmente, respeitadores da ordem e dos poderes constituídos para tudo dar certo.
É possível afirmar que a grande maioria dos espectadores de “Linha de passe” é formada por pessoas com escolaridade alta, bom nível de informação e cultura e senso crítico em relação à realidade social. Trocando em miúdos, gente que já está ganha para uma certa sensibilidade em relação aos problemas da realidade social. A questão é que este tipo de público ou é muito pequeno para tentar mudar essa realidade, ou nem tem interesse em fazê-lo.
Claro que “Linha de passe” vai chegar à TV, um dia. Mas, será mostrado em meio a novelas, séries, filmes e outros programas que incentivam o conformismo. Além disso, deverá ser exibido tarde da noite, para um público parecido ao que já o teria visto no cinema.
Em outras palavras, “Linha de passe” não é um elemento típico da grande mídia. Não atinge multidões e não defende idéias que procuram levar à comodidade social. Mas também não tem os elementos necessários para ser utilizado na luta contra a hegemonia dominante por si só.
Como ele, há centenas de filmes, talvez. Mas, são exibidos em pequenas salas, freqüentadas por gente de classe média das metrópoles. Nesse circuito ficam inofensivos e servem mais para aliviar a consciência dos mais preocupados socialmente.
O fato é que à medida que os grandes monopólios da mídia invadem a vida cotidiana, mais isola as pessoas em suas salas e quartos. Mais afasta de contatos comunitários e associativos. De tal modo que até a TV pode se dar ao luxo de falar de problemas sociais em alguns de seus programas. Seus controladores sabem que a maior parte dos telespectadores permanecerá apática. A grande mídia não determina apenas aquilo que se vê, mas também o modo como se vê.
Apesar disso tudo, não se trata de fazermos filmes no estilo da Globo ou de Hollywood para chegar às multidões. O ideal mesmo é que os próprios setores explorados e abandonados das grandes cidades produzam seus próprios bens culturais. Não adianta cobrar dos filmes comerciais que mostrem a resistência, a solidariedade e a riqueza cultural das periferias. Eles não são feitos para isso. Quem deve começar a fazer cinema e outros produtos audiovisuais são os setores organizados das próprias comunidades pobres.
Infelizmente, não adianta esperar financiamentos governamentais para esse tipo de atividade. Isso seria entrar num terreno que já pertence aos grandes meios de comunicação e de produção cultural. E é mais fácil fazer uma revolução social no Brasil do que desmontar esses monopólios. Uma produção desse tipo só poderá surgir da iniciativa das organizações populares. De preferência, unidas em redes.
Por outro lado, a tecnologia atual barateou a produção áudio-visual. Continua difícil, mas já não é impossível produzir material que seja atraente, inteligente e contra-hegemônico. Que combine denúncia, diversão, poesia, beleza e qualidade técnica. E o uso da internete permite alcançar públicos maiores.
As organizações e entidades populares de esquerda devem se manter na luta pela democratização dos meios de comunicação. Devem exigir políticas públicas de apoio à cultura popular. Mas, faz parte dessa luta a produção de seus próprios bens e armas culturais. Seu próprio arsenal de comunicação, educação e formação. A partir das lutas e da vida dos explorados. E isso inclui aproveitar algumas lições do trabalho de bons diretores, como Walter Salles, Daniela Thomaz e outros profissionais do cinema comercial.
Sérgio Domingues
18 de ago. de 2008
Nem Batman, nem Coringa
"Batman, o cavaleiro das trevas" mostra que o Homem-Morcego e o Coringa sofrem da mesma doença. São criaturas violentas que se relacionam com a violência das grandes cidades. Mas, na vida real, tanto mocinhos como bandidos acabam servindo aos interesses dos poderosos.
Desde sua criação, Batman teve várias fases. Bob Kane e Bill Finger criaram o personagem em 1939. Eram tempos de guerra, crise econômica e desespero social. Em Gotham City, a criminalidade estava à solta e a corrupção era generalizada. O Homem-Morcego era violento e cruel. Quase um marginal.
Mais tarde, o clima de otimismo do pós-Guerra parece ter deixado o super-herói menos implacável. Surgiu Robin, um parceiro mais jovem que dava um toque paternal ao personagem. Nos alegres anos 60, Batman virou comédia de TV. Muitas cores no lugar das sombras. Batman virou o cidadão que respeitava o sinal vermelho até quando perseguia bandidos.
Nos final dos anos 80, imperavam as sombras do neoliberalismo vitorioso. Frank Miller lança a HQ "O cavaleiro das trevas". Resgata a origem escura de Batman. O cinema tentou aproveitar o sucesso. Tim Burton fez a primeira adaptação. Vieram mais três seqüências. O problema é que em todas elas ainda havia uma mistura mal resolvida entre a versão do Batman dos anos 30 e a colorida, dos anos 60.
Só em 2005, "Batman Begins" acerta no ponto. O diretor Chris Nolan baseou seu filme em "Batman: Ano Um" (1988), outra obra-prima de Frank Miller, com desenhos de David Mazzuchelli. Dessa vez, a adaptação foi fiel ao jeito noturno do Homem-Morcego. Talvez, porque já vivíamos a era Bush, com sua violência e intolerância.
Em 2008, Nolan repete a dose com "Batman, o cavaleiro das trevas". O filme tem vida própria, mas inspira-se em "A Piada Mortal" (1988), escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons. A obra procura mostrar que não há grandes diferenças entre o Coringa e o homem fantasiado de morcego. Ambos são doentios.
É este o clima do filme de Nolan. Parece que há algo de muito errado em uma sociedade que precisa dos serviços de um vingador fantasiado. Uma prova disso é o surgimento de imitadores de Batman, que tentam ajudá-lo no combate ao crime, mas só tornam as coisas mais complicadas.
Um diálogo entre Bruce Wayne (Christian Bale) e o promotor público, Harvey Dent (Aaron Eckhart), é revelador. Wayne questiona as ações de Batman. Ao invés de um vingador vestido de negro, ele gostaria de ver em ação um cavaleiro branco da Justiça. E este seria o próprio Dent, conhecido por ser incorruptível e funcionário exemplar. Mas, o promotor defende o Homem-Morcego. Diz que situações de emergência pedem medidas de emergência.
Já o Coringa, interpretado com talento por Heath Ledger, nega que seja um criminoso comum. Ele não está atrás de dinheiro. Só quer se divertir com suas bombas. Não está na vida criminosa porque precisa, nem porque quer. Ele parece ter passado por um trauma que o prendeu naquele papel. "Sou como aqueles cachorros que correm atrás de um carro. Se ele parar, não sei o que fazer", diz o vilão.
Ora, Wayne também passou por um trauma. Quando criança, viu seus pais serem mortos por um ladrão. Daí, resolveu virar um combatente do crime. Uma escolha aparentemente mais saudável do que a de Coringa. No entanto, está sempre a um passo de se tornar violento e arbitrário no mesmo grau. Como Coringa, Wayne também está preso em seu papel.
Em Gotham City, tanto Batman quanto Harvey Dent querem derrotar o crime. Mas, se as leis não forem suficientes para isso, não vacilam em tentar fazê-lo à margem delas. Na vida real, as grandes cidades também têm seus Coringas. São os traficantes de drogas ou bandos organizados, como o PCC. De outro lado, uma polícia violenta, que muitas vezes age ilegalmente em defesa da lei. Por fim, há os grupos de extermínio. As famosas milícias. Grupos violentos que dizem proteger a população das favelas, enquanto arrancam dinheiro dela. No Rio de Janeiro, um deles adotou o nome de "Liga da Justiça". Uma referência a um grupo de super-heróis integrado por Batman e Robin.
No final do filme, o comissário Gordon (Gary Oldman) diz que Batman não é bandido, nem mocinho: “é apenas o Cavaleiro das Trevas”. A escuridão da vida social justificaria os métodos ilegais e violentos do mascarado. No cinema, isso é promessa de mais diversão. Na vida real, é sinal de perigo.
Milícias, crime organizado, polícia violenta, tudo isso é parte da mesma lógica de dominação. A criminalidade toma conta. Mas o combate a ela é pretexto para atingir vítimas bem definidas: pobres, negros, lutadores sociais e cidadãos sem direitos.
Não estamos em Gotham City. Entre Batman, Dent e Coringa, não ficamos com nenhum. Nossas alternativas somente surgirão da consciência de que a violência social é resultado de um conflito de classes. E que se houver alguma saída, ela virá da luta dos de baixo contra os de cima.
Sérgio Domingues
Desde sua criação, Batman teve várias fases. Bob Kane e Bill Finger criaram o personagem em 1939. Eram tempos de guerra, crise econômica e desespero social. Em Gotham City, a criminalidade estava à solta e a corrupção era generalizada. O Homem-Morcego era violento e cruel. Quase um marginal.
Mais tarde, o clima de otimismo do pós-Guerra parece ter deixado o super-herói menos implacável. Surgiu Robin, um parceiro mais jovem que dava um toque paternal ao personagem. Nos alegres anos 60, Batman virou comédia de TV. Muitas cores no lugar das sombras. Batman virou o cidadão que respeitava o sinal vermelho até quando perseguia bandidos.
Nos final dos anos 80, imperavam as sombras do neoliberalismo vitorioso. Frank Miller lança a HQ "O cavaleiro das trevas". Resgata a origem escura de Batman. O cinema tentou aproveitar o sucesso. Tim Burton fez a primeira adaptação. Vieram mais três seqüências. O problema é que em todas elas ainda havia uma mistura mal resolvida entre a versão do Batman dos anos 30 e a colorida, dos anos 60.
Só em 2005, "Batman Begins" acerta no ponto. O diretor Chris Nolan baseou seu filme em "Batman: Ano Um" (1988), outra obra-prima de Frank Miller, com desenhos de David Mazzuchelli. Dessa vez, a adaptação foi fiel ao jeito noturno do Homem-Morcego. Talvez, porque já vivíamos a era Bush, com sua violência e intolerância.
Em 2008, Nolan repete a dose com "Batman, o cavaleiro das trevas". O filme tem vida própria, mas inspira-se em "A Piada Mortal" (1988), escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons. A obra procura mostrar que não há grandes diferenças entre o Coringa e o homem fantasiado de morcego. Ambos são doentios.
É este o clima do filme de Nolan. Parece que há algo de muito errado em uma sociedade que precisa dos serviços de um vingador fantasiado. Uma prova disso é o surgimento de imitadores de Batman, que tentam ajudá-lo no combate ao crime, mas só tornam as coisas mais complicadas.
Um diálogo entre Bruce Wayne (Christian Bale) e o promotor público, Harvey Dent (Aaron Eckhart), é revelador. Wayne questiona as ações de Batman. Ao invés de um vingador vestido de negro, ele gostaria de ver em ação um cavaleiro branco da Justiça. E este seria o próprio Dent, conhecido por ser incorruptível e funcionário exemplar. Mas, o promotor defende o Homem-Morcego. Diz que situações de emergência pedem medidas de emergência.
Já o Coringa, interpretado com talento por Heath Ledger, nega que seja um criminoso comum. Ele não está atrás de dinheiro. Só quer se divertir com suas bombas. Não está na vida criminosa porque precisa, nem porque quer. Ele parece ter passado por um trauma que o prendeu naquele papel. "Sou como aqueles cachorros que correm atrás de um carro. Se ele parar, não sei o que fazer", diz o vilão.
Ora, Wayne também passou por um trauma. Quando criança, viu seus pais serem mortos por um ladrão. Daí, resolveu virar um combatente do crime. Uma escolha aparentemente mais saudável do que a de Coringa. No entanto, está sempre a um passo de se tornar violento e arbitrário no mesmo grau. Como Coringa, Wayne também está preso em seu papel.
Em Gotham City, tanto Batman quanto Harvey Dent querem derrotar o crime. Mas, se as leis não forem suficientes para isso, não vacilam em tentar fazê-lo à margem delas. Na vida real, as grandes cidades também têm seus Coringas. São os traficantes de drogas ou bandos organizados, como o PCC. De outro lado, uma polícia violenta, que muitas vezes age ilegalmente em defesa da lei. Por fim, há os grupos de extermínio. As famosas milícias. Grupos violentos que dizem proteger a população das favelas, enquanto arrancam dinheiro dela. No Rio de Janeiro, um deles adotou o nome de "Liga da Justiça". Uma referência a um grupo de super-heróis integrado por Batman e Robin.
No final do filme, o comissário Gordon (Gary Oldman) diz que Batman não é bandido, nem mocinho: “é apenas o Cavaleiro das Trevas”. A escuridão da vida social justificaria os métodos ilegais e violentos do mascarado. No cinema, isso é promessa de mais diversão. Na vida real, é sinal de perigo.
Milícias, crime organizado, polícia violenta, tudo isso é parte da mesma lógica de dominação. A criminalidade toma conta. Mas o combate a ela é pretexto para atingir vítimas bem definidas: pobres, negros, lutadores sociais e cidadãos sem direitos.
Não estamos em Gotham City. Entre Batman, Dent e Coringa, não ficamos com nenhum. Nossas alternativas somente surgirão da consciência de que a violência social é resultado de um conflito de classes. E que se houver alguma saída, ela virá da luta dos de baixo contra os de cima.
Sérgio Domingues
30 de jul. de 2008
Era uma vez ... o apartheid brasileiro
O filme de Breno Silveira tem muito de novela ou minissérie da Globo. Desse ponto de vista, não vale grande coisa. Por outro lado, é possível enxergar nele uma denúncia da forte divisão entre ricos e pobres no Brasil.
A estória de "Era uma vez..." é convencional. Dé (Thiago Martins) é um jovem criado na favela de Cantagalo. Nina (Vitória Frate) é a garota de classe média alta, branca e de olhos claros. Ambos moram em Ipanema.
Tudo começou porque Dé trabalha num quiosque em frente ao apartamento luxuoso de Nina. Mas, eles só se conhecem quando ela atravessa a avenida em direção à praia e senta num banco. Já é tarde da noite. Um grupo de crianças negras e pobres se aproxima ameaçadoramente. Dé salva a garota de um possível assalto. E leva a "princesa" de volta a seu "castelo". Nina entrou sem querer no mundo dele. Dé aproveitou a chance.
Dé não é negro. Agora que se aproximou de Nina, tenta se passar por rico. Em uma festa na praia avista a garota. Mal se aproxima, é expulso por um segurança. A famosa democracia que reina na praia, não reina para todos. Quando finalmente consegue entrar na festa, é porque se fez passar por vendedor de bebidas.
Mas, Dé reconhece um surfista com quem fez amizade em seu trabalho no quiosque. Através dele, consegue permanecer na festa sem precisar fingir que é vendedor. Agora, é ele que está no mundo dela. Vai tudo bem até que Dé beija Nina. Aí, o surfista coloca o favelado em seu lugar. Avisa a garota que ele é apenas o vendedor de cachorro-quente. Conversa, gentileza, dividir um baseado, é uma coisa. Namorar uma garota da turma é outra bem diferente.
O porteiro do prédio em que mora Nina avisa ao "doutor" que a filha está namorando um garoto do morro. Primeiro, tranqüiliza. Diz que o rapaz é honesto e trabalhador. Depois, assusta. É preciso cuidado para que não venha uma gravidez indesejada: "sabe como são esses jovens", diz ele. Afinal, ele é porteiro. Há muito tempo, aprendeu a ficar no lugar que lhe cabe na sociedade.
O pai se assusta. Ser pobre não é problema. Vender cachorro-quente é honesto. Mas, atravessar a avenida para namorar sua filha, já é muito abuso.
Quando Nina vai visitar o morro, Dé mostra o prédio em que ela mora. É possível ver a área de serviço dali. Ele diz que sempre esperou que ela aparecesse para poder vê-la. Mas, ela nunca foi à área de serviço. Claro. Não é um lugar da casa que ela freqüente. É onde fica a criadagem.
Dé quer estudar para melhorar de vida. Quer sair do morro e merecer a princesa loira. Quer vir pro lado de cá. Quem está do lado de lá, mesmo, é seu irmão de adoção. É Carlão (Rocco Pitanga), que foi preso sem cometer crime algum. Mas, é negro. Foi para a cadeia e ficou por lá. Se entrou inocente, saiu criminoso. Aderiu ao tráfico. Era o jeito de ficar vivo, disse ele ao irmão.
Carlão não tem dúvidas sobre seu destino. Se quiser melhorar de vida, será do jeito que lhe sobrou. Tomando o morro e controlando o tráfico. Quando se endivida com outros traficantes e policiais corruptos, Carlão apela. Ele não tinha ilusões sobre a possibilidade de entrar no mundo dos brancos e ricos. Por isso, não vacilou. Seqüestrou a namorada rica de seu próprio irmão. Na confusão, acaba morrendo. Carlão nasceu do lado de lá e por lá ficou.
Apesar de tudo isso, o casal continua firme. Acham que o amor vencerá todas as barreiras. Tentam fugir para viver juntos e felizes. O apartheid não permite e o final é trágico.
Apartheid é uma palavra que veio da África do Sul e quer dizer separação. No Brasil, não existe apartheid oficial. Nunca houve leis proibindo a convivência de brancos e negros. Mas, não é preciso. No Brasil, os pobres são quase todos negros. Só isso já é suficiente para lhes mostrar onde é seu lugar. Mas, se houver dúvidas, a polícia e o Estado em geral se encarregam de deixar bem claro. Os pobres que não são negros sofrem menos discriminação. Mas, sofrem. É assim que funciona o apartheid brasileiro.
Cumprimentar e ser gentil com porteiros, empregadas, motoristas, garçons e balconistas é uma coisa. Dividir a mesma mesa, acolher em casa, ver a irmã ou a filha casar com um deles? Ah, isso já é uma coisa bem diferente.
A grande diferença é que estamos no Rio de Janeiro. A pobreza fica logo ali, no alto e em volta. Em seus morros, ela se debruça sobre a riqueza e o luxo. A vista do mar e das montanhas lá de cima é linda. Mas, das lajes e quintais das favelas também é possível ver as piscinas das coberturas luxuosas. Onde trabalham os que vivem nos morros.
O final do filme é decepcionante. Só se explica por uma razão. O que interessa ao diretor não é o conto de fadas que o título sugere. Mas, mostrar uma sociedade dividida. O apartheid de um jeito muito brasileiro. Se o filme de Breno Silveira vale alguma coisa, é por isso.
Sérgio Domingues
A estória de "Era uma vez..." é convencional. Dé (Thiago Martins) é um jovem criado na favela de Cantagalo. Nina (Vitória Frate) é a garota de classe média alta, branca e de olhos claros. Ambos moram em Ipanema.
Tudo começou porque Dé trabalha num quiosque em frente ao apartamento luxuoso de Nina. Mas, eles só se conhecem quando ela atravessa a avenida em direção à praia e senta num banco. Já é tarde da noite. Um grupo de crianças negras e pobres se aproxima ameaçadoramente. Dé salva a garota de um possível assalto. E leva a "princesa" de volta a seu "castelo". Nina entrou sem querer no mundo dele. Dé aproveitou a chance.
Dé não é negro. Agora que se aproximou de Nina, tenta se passar por rico. Em uma festa na praia avista a garota. Mal se aproxima, é expulso por um segurança. A famosa democracia que reina na praia, não reina para todos. Quando finalmente consegue entrar na festa, é porque se fez passar por vendedor de bebidas.
Mas, Dé reconhece um surfista com quem fez amizade em seu trabalho no quiosque. Através dele, consegue permanecer na festa sem precisar fingir que é vendedor. Agora, é ele que está no mundo dela. Vai tudo bem até que Dé beija Nina. Aí, o surfista coloca o favelado em seu lugar. Avisa a garota que ele é apenas o vendedor de cachorro-quente. Conversa, gentileza, dividir um baseado, é uma coisa. Namorar uma garota da turma é outra bem diferente.
O porteiro do prédio em que mora Nina avisa ao "doutor" que a filha está namorando um garoto do morro. Primeiro, tranqüiliza. Diz que o rapaz é honesto e trabalhador. Depois, assusta. É preciso cuidado para que não venha uma gravidez indesejada: "sabe como são esses jovens", diz ele. Afinal, ele é porteiro. Há muito tempo, aprendeu a ficar no lugar que lhe cabe na sociedade.
O pai se assusta. Ser pobre não é problema. Vender cachorro-quente é honesto. Mas, atravessar a avenida para namorar sua filha, já é muito abuso.
Quando Nina vai visitar o morro, Dé mostra o prédio em que ela mora. É possível ver a área de serviço dali. Ele diz que sempre esperou que ela aparecesse para poder vê-la. Mas, ela nunca foi à área de serviço. Claro. Não é um lugar da casa que ela freqüente. É onde fica a criadagem.
Dé quer estudar para melhorar de vida. Quer sair do morro e merecer a princesa loira. Quer vir pro lado de cá. Quem está do lado de lá, mesmo, é seu irmão de adoção. É Carlão (Rocco Pitanga), que foi preso sem cometer crime algum. Mas, é negro. Foi para a cadeia e ficou por lá. Se entrou inocente, saiu criminoso. Aderiu ao tráfico. Era o jeito de ficar vivo, disse ele ao irmão.
Carlão não tem dúvidas sobre seu destino. Se quiser melhorar de vida, será do jeito que lhe sobrou. Tomando o morro e controlando o tráfico. Quando se endivida com outros traficantes e policiais corruptos, Carlão apela. Ele não tinha ilusões sobre a possibilidade de entrar no mundo dos brancos e ricos. Por isso, não vacilou. Seqüestrou a namorada rica de seu próprio irmão. Na confusão, acaba morrendo. Carlão nasceu do lado de lá e por lá ficou.
Apesar de tudo isso, o casal continua firme. Acham que o amor vencerá todas as barreiras. Tentam fugir para viver juntos e felizes. O apartheid não permite e o final é trágico.
Apartheid é uma palavra que veio da África do Sul e quer dizer separação. No Brasil, não existe apartheid oficial. Nunca houve leis proibindo a convivência de brancos e negros. Mas, não é preciso. No Brasil, os pobres são quase todos negros. Só isso já é suficiente para lhes mostrar onde é seu lugar. Mas, se houver dúvidas, a polícia e o Estado em geral se encarregam de deixar bem claro. Os pobres que não são negros sofrem menos discriminação. Mas, sofrem. É assim que funciona o apartheid brasileiro.
Cumprimentar e ser gentil com porteiros, empregadas, motoristas, garçons e balconistas é uma coisa. Dividir a mesma mesa, acolher em casa, ver a irmã ou a filha casar com um deles? Ah, isso já é uma coisa bem diferente.
A grande diferença é que estamos no Rio de Janeiro. A pobreza fica logo ali, no alto e em volta. Em seus morros, ela se debruça sobre a riqueza e o luxo. A vista do mar e das montanhas lá de cima é linda. Mas, das lajes e quintais das favelas também é possível ver as piscinas das coberturas luxuosas. Onde trabalham os que vivem nos morros.
O final do filme é decepcionante. Só se explica por uma razão. O que interessa ao diretor não é o conto de fadas que o título sugere. Mas, mostrar uma sociedade dividida. O apartheid de um jeito muito brasileiro. Se o filme de Breno Silveira vale alguma coisa, é por isso.
Sérgio Domingues
1 de jul. de 2008
Disputando nossos símbolos com a direita
“Personal Che” mostra como Guevara virou santo, garoto-propaganda e até ídolo de neonazistas. Mas, os símbolos dos socialistas estão em disputa. Cabe a nós não perdê-los para os inimigos.
Para fazer seu documentário, Douglas Duarte e Adriana Marino viajaram por vários países do mundo. Seu objetivo era ver o que Che Guevara representava para as pessoas, mais de 40 anos depois de sua morte. Estiveram na Bolívia, China, Alemanha, Estados Unidos, Líbano e Cuba.
Na pequena vila boliviana de La Higuera, Guevara foi covardemente assassinado pelo exército daquele país com ajuda da CIA. A maioria de seus habitantes passou a considerá-lo um santo, com direito a velas e oratório. Em Cuba, o filme dá destaque a um admirador bem mais informado. Conhece muitos detalhes da vida e da morte do Che. Só não conhecia as famosas fotos de Guevara morto. Aparentemente proibidas ou de circulação restrita em Cuba.
No Líbano, a vida de Guevara é tema de um musical. O ator que o interpreta também mostra conhecer bem o personagem. Mas, coloca-o no mesmo nível de seus ídolos religiosos islâmicos. Em Hong Kong, um deputado é voz isolada no parlamento local. Inspirado no revolucionário argentino, ele se reivindica marxista e denuncia a repressão e exploração do regime de seu país.
Um porto-riquenho que mora nos Estados Unidos tem enorme coleção de camisetas, pôsteres, quadros de seu ídolo. É mais um fã do que um seguidor político de Guevara. O filme também mostra o Che adotado pelo mundo da moda. A famosa foto de Alberto Korda virou estampa em roupas usadas por pessoas de todas as classes sociais. Mas, a maioria mal sabe dizer quem foi ele.
Da Alemanha vem o exemplo mais chocante. Um grupo neonazista adotou Guevara e Hitler como seus ídolos. Ambos teriam sido “revolucionários que lutaram pela liberdade de suas pátrias”.
Tudo isso mostra que Che Guevara tornou-se uma grande figura simbólica. Alguns elementos foram determinantes para isso. Um deles foi ter vivido em uma época que começava a ser marcada pela expansão mundial dos meios-de-comunicação. Sua figura correu o mundo facilmente. E sua opção pela luta armada também ajudou a torná-lo popular junto a um público acostumado pela própria indústria cultural a admirar ações heróicas a cargo de indivíduos corajosos.
O problema é que os mesmos meios que o tornaram popular se encarregaram de apagar e embaralhar muitos detalhes sobre sua vida. Com isso, muitos de seus admiradores encaixam sua figura no que lhes parecem ser causa dignas por que lutar. Mesmo que algumas acabem pertencendo à vergonhosa sujeira fascista. Este é o grande risco que envolve as figuras simbólicas.
Não há como nos livrarmos dos símbolos. Os seres humanos tornaram-se simbólicos desde que aprenderam a dar nome às coisas. Por outro lado, os símbolos não são neutros, nem são fixos. Menos ainda em uma sociedade de classes. A classe dominante transforma tudo em mercadoria e utiliza valores a seu favor. É só ver o uso que a propaganda voltada para os jovens faz do Maio de 68, por exemplo. Ou a transformação de lutas populares em episódios românticos de novelas, filmes e minisséries.
Claro que transformar a vida e a obra de revolucionários socialistas em símbolos de luta é importante. No entanto, cada vez que tornamos um deles um herói quase santo, abrimos brechas para que nossos inimigos se aproveitem.
Marx, Engels e Lênin também se tornaram alvo de um culto quase religioso. Stalin foi o maior dos coveiros da revolução de 1917. Mas para melhor enterrá-la inventou uma mitologia revolucionária. Transformou o pensamento marxista em um evangelho. Alguns de seus formuladores em apóstolos. Outros, em Judas a serem perseguidos, como fez com Trotski e quase todos os líderes da Revolução Russa. E para si mesmo, Stalin reservou a função de grande sacerdote. Algo muito parecido ocorreu em Cuba, onde Che também virou um santo oficial.
Quando escolhemos fazer tal uso dos símbolos, adotamos o campo de batalha do inimigo. As religiões não são necessariamente conservadoras. Apenas quando são usadas para justificar a dominação e a exploração. Os camponeses de La Higuera cultuam Guevara como a um santo. Mas, pelo menos, é positivo que vejam nele alguém que lutou por justiça.
Já os santos inventados por Stálin, foram utilizados para reforçar o poder da classe que dominava o Estado soviético. Sua função era conservadora. A construção do socialismo passa a ser coisa de uns poucos iluminados. As ações e escritos de grandes lutadores viram fórmulas que são repetidas automaticamente. Partidos e organizações tornam-se seitas dominadas por cardeais. Nossos símbolos e idéias somem na circulação geral das mercadorias e valores da burguesia.
O documentário dá a entender que o verdadeiro Che já se perdeu. Não é o caso. De Guevara, temos a obra escrita, as ações políticas, biografias e estudos sobre sua atuação. Elementos que permitem entender como pensava e o que defendeu. Possibilitam tirar lições, seguir exemplos e evitar erros. O Che é uma importante referência para quem luta pelo socialismo. Aceitá-lo como santo ou infalível é entregá-lo ao inimigo.
Sérgio Domingues – Julho de 2008
Para fazer seu documentário, Douglas Duarte e Adriana Marino viajaram por vários países do mundo. Seu objetivo era ver o que Che Guevara representava para as pessoas, mais de 40 anos depois de sua morte. Estiveram na Bolívia, China, Alemanha, Estados Unidos, Líbano e Cuba.
Na pequena vila boliviana de La Higuera, Guevara foi covardemente assassinado pelo exército daquele país com ajuda da CIA. A maioria de seus habitantes passou a considerá-lo um santo, com direito a velas e oratório. Em Cuba, o filme dá destaque a um admirador bem mais informado. Conhece muitos detalhes da vida e da morte do Che. Só não conhecia as famosas fotos de Guevara morto. Aparentemente proibidas ou de circulação restrita em Cuba.
No Líbano, a vida de Guevara é tema de um musical. O ator que o interpreta também mostra conhecer bem o personagem. Mas, coloca-o no mesmo nível de seus ídolos religiosos islâmicos. Em Hong Kong, um deputado é voz isolada no parlamento local. Inspirado no revolucionário argentino, ele se reivindica marxista e denuncia a repressão e exploração do regime de seu país.
Um porto-riquenho que mora nos Estados Unidos tem enorme coleção de camisetas, pôsteres, quadros de seu ídolo. É mais um fã do que um seguidor político de Guevara. O filme também mostra o Che adotado pelo mundo da moda. A famosa foto de Alberto Korda virou estampa em roupas usadas por pessoas de todas as classes sociais. Mas, a maioria mal sabe dizer quem foi ele.
Da Alemanha vem o exemplo mais chocante. Um grupo neonazista adotou Guevara e Hitler como seus ídolos. Ambos teriam sido “revolucionários que lutaram pela liberdade de suas pátrias”.
Tudo isso mostra que Che Guevara tornou-se uma grande figura simbólica. Alguns elementos foram determinantes para isso. Um deles foi ter vivido em uma época que começava a ser marcada pela expansão mundial dos meios-de-comunicação. Sua figura correu o mundo facilmente. E sua opção pela luta armada também ajudou a torná-lo popular junto a um público acostumado pela própria indústria cultural a admirar ações heróicas a cargo de indivíduos corajosos.
O problema é que os mesmos meios que o tornaram popular se encarregaram de apagar e embaralhar muitos detalhes sobre sua vida. Com isso, muitos de seus admiradores encaixam sua figura no que lhes parecem ser causa dignas por que lutar. Mesmo que algumas acabem pertencendo à vergonhosa sujeira fascista. Este é o grande risco que envolve as figuras simbólicas.
Não há como nos livrarmos dos símbolos. Os seres humanos tornaram-se simbólicos desde que aprenderam a dar nome às coisas. Por outro lado, os símbolos não são neutros, nem são fixos. Menos ainda em uma sociedade de classes. A classe dominante transforma tudo em mercadoria e utiliza valores a seu favor. É só ver o uso que a propaganda voltada para os jovens faz do Maio de 68, por exemplo. Ou a transformação de lutas populares em episódios românticos de novelas, filmes e minisséries.
Claro que transformar a vida e a obra de revolucionários socialistas em símbolos de luta é importante. No entanto, cada vez que tornamos um deles um herói quase santo, abrimos brechas para que nossos inimigos se aproveitem.
Marx, Engels e Lênin também se tornaram alvo de um culto quase religioso. Stalin foi o maior dos coveiros da revolução de 1917. Mas para melhor enterrá-la inventou uma mitologia revolucionária. Transformou o pensamento marxista em um evangelho. Alguns de seus formuladores em apóstolos. Outros, em Judas a serem perseguidos, como fez com Trotski e quase todos os líderes da Revolução Russa. E para si mesmo, Stalin reservou a função de grande sacerdote. Algo muito parecido ocorreu em Cuba, onde Che também virou um santo oficial.
Quando escolhemos fazer tal uso dos símbolos, adotamos o campo de batalha do inimigo. As religiões não são necessariamente conservadoras. Apenas quando são usadas para justificar a dominação e a exploração. Os camponeses de La Higuera cultuam Guevara como a um santo. Mas, pelo menos, é positivo que vejam nele alguém que lutou por justiça.
Já os santos inventados por Stálin, foram utilizados para reforçar o poder da classe que dominava o Estado soviético. Sua função era conservadora. A construção do socialismo passa a ser coisa de uns poucos iluminados. As ações e escritos de grandes lutadores viram fórmulas que são repetidas automaticamente. Partidos e organizações tornam-se seitas dominadas por cardeais. Nossos símbolos e idéias somem na circulação geral das mercadorias e valores da burguesia.
O documentário dá a entender que o verdadeiro Che já se perdeu. Não é o caso. De Guevara, temos a obra escrita, as ações políticas, biografias e estudos sobre sua atuação. Elementos que permitem entender como pensava e o que defendeu. Possibilitam tirar lições, seguir exemplos e evitar erros. O Che é uma importante referência para quem luta pelo socialismo. Aceitá-lo como santo ou infalível é entregá-lo ao inimigo.
Sérgio Domingues – Julho de 2008
Mídia Vigiada em novo endereço
Depois de que minha página sumiu do Kit.net, cá estamos num blog do Google. Antes era o monopólio da Globo. Agora, é o da Google. É assim que ficamos sempre muito perto da grande mídia.
Aparentemente, um vírus atacou o site da Globo.
Aparentemente, um vírus atacou o site da Globo.
16 de abr. de 2006
Os inteligentes quadrinhos italianos
Que tal um gibi de estórias policiais cuja personagem principal cita Durkheim para afirmar que o crime é um fato social? Ou um gibi de aventuras do velho oeste que mostra como os “heróis” americanos massacraram os indígenas. São os sofisticados e inteligentes quadrinhos italianos.
Os gibis mais vendidos são geralmente feitos em formato grande, coloridos, com heróis cheios de super-poderes, vilões monstruosos e estórias em que bem e mal são resultado de opções morais. Não é caso dos gibis que vamos comentar abaixo. Eles são publicados em formato pequeno, em branco e preto, e procuram explicar a maldade do ponto de vista histórico e social.
Pra começar, que tal um gibi de estórias policiais cuja personagem principal cita Durkheim para afirmar que o crime é um fato social? E se em outra aventura houver uma citação de Paulo Freire, que consta em um documento dos índios iroqueses apresentada em uma conferência da ONU, em 1977? Estamos falando de “Aventuras de uma criminóloga”, história em quadrinhos que tem como heroína Julia Kendall. Ela é criação do talentoso roteirista italiano Giancarlo Berardi.
Junto com o desenhista Ivo Milazzo, Berardi ficou famoso pela criação do caubói politicamente correto, Ken Parker (clique aqui para saber mais sobre Parker). E tal como nas tramas que inventou para Parker, Berardi procura dar à Julia um perfil progressista. Alguém que não se dobra a idéias conservadoras sobre as razões que levam alguém a cometer crimes. E diante do pior assassino em série, tenta compreender as razões psicológicas e sociais que o levaram a cometer seus atos terríveis.
Agora, imagine um gibi de aventuras do velho oeste que denuncia a corrupção envolvendo agentes governamentais atuando em reservas indígenas, por exemplo. Mostrando toda a sujeira dos “heróis” brancos norte-americanos. Uma trama em que democratas e republicanos, nortistas e sulistas tem lá suas brigas, mas se entendiam muito bem na hora de garantir lucros pela exploração e massacre de indígenas. Trata-se de “Mágico Vento”. Uma revista de HQ criada pelo também italiano Gianfranco Manfredi. O personagem principal do gibi é Ned Ellis. Um soldado que foi o único a sobreviver a um massacre que o deixou desmemoriado e com poderes místicos. Por isso, recebeu dos índios Sioux que o resgataram o nome que dá título ao gibi.
Mas ao contrário do que muitos podem pensar, as aventuras de Júlia e Ned não são chatas. Tanto Berardi como Manfredi conseguem dar às estórias que escrevem um ritmo digno dos melhores filmes de ação e suspense.
As duas publicações são editadas na Itália pela Bonelli e, no Brasil, pela Mythos. As duas editoras também são responsáveis por outros títulos de boa qualidade. É o caso de Dylan Dog, um detetive muito peculiar. Ele se dedica a investigar casos ligados ao sobrenatural. Presta seus serviços no combate a vampiros, lobisomens, fantasmas e alienígenas. Mas é outro herói cujas estórias também abordam a violência doméstica, racismo, autoritarismo etc. Outra característica que o iguala à criminóloga e ao soldado místico é seu auxiliar. Dylan Dog tem como parceiro de aventuras nada menos do que Groucho Marx, sempre pronto a soltar as piadas mais infames. A parceira de Júlia, por sua vez, é uma empregada chamada Emily, cujo tipo físico lembra o da atriz Woopi Goldberg. Emily protege a patroa como se fosse sua filha mas nunca deixa de fazer seus discursos furiosos e engraçados contra o racismo dos brancos e o machismo dos homens. Já Ned Ellis tem como aliado fiel ninguém mais do que Edgar Allan Poe, cujo o amor pela bebida só é superado pela revolta contra as injustiças.
Um problema que poderia ser levantado contra nossos heróis é o fato de nenhum deles viver suas aventuras na Itália. As estórias de Julia e Ellis se ambientam nos Estados Unidos. Dylan atua na Inglaterra. Pode ser fruto de colonialismo. Mas, também é uma forma de falar mais universalmente. Quer coisa mais universal do que bangue-bangue e tramas policiais e de terror? E tudo isso em quadrinhos?
Em seu auge, os limites do Império Romano eram os mesmos do mundo conhecido pelos europeus. No mundo do século 20, os limites geográficos dos novos e antigos impérios capitalistas ficaram bem definidos. Mas a dominação cultural da língua e dos usos anglo-saxões ultrapassaram as fronteiras e atingem o planeta inteiro. Os artistas italianos podem estar seguindo a velha máxima imposta por seus ancestrais: “Quando em Roma, faça como os romanos”. É uma forma de resistir. Usar os bonitos cenários deles para deixar ver os pilares podres que os sustentam: uma sociedade doente que leva seus integrantes a cometer crimes bárbaros. Heróis que não passaram de assassinos dos povos e dos animais originais das terras americanas.
Marcadores:
quadrinhos
8 de ago. de 2004
Asterix ajuda a entender o capitalismo
Comparar Obelix e Companhia, de Goscinny e Uderzo, às obras de Marx, Engels, Lênin, Rosa, Trotski, Gramsci, não tem nenhum sentido. Mas, essa pequena obra-prima em quadrinhos merece a atenção de quem luta contra o capitalismo.
“Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum, e Petibonum...”.
A apresentação acima
acompanha todos os álbuns de Asterix, personagem do italiano Albert
Uderzo e do francês René Goscinny. A série de 31 álbuns é um dos
exemplos do que há de melhor na literatura em quadrinhos.
O que a introdução não
explica é que os “irredutíveis” gauleses devem sua
invencibilidade a uma poção mágica. A bebida dá aos aldeões uma
enorme força física e seus efeitos duram o suficiente para destruir
qualquer tentativa romana de conquistar a aldeia. Esta, na verdade,
simboliza o nacionalismo francês.
Cada álbum da dupla é uma
obra-prima feita de belos traços e cores, humor, roteiro, ironia,
conhecimento histórico e muita inteligência. Mas um deles é tudo
isso e ainda pode ser usado para mostrar como as relações
capitalistas podem corroer laços comunitários de convivência.
Trata-se de Obelix e
Companhia.
A história começa com a
imagem da fortificação de Babaorum, a mais próxima da aldeia
gaulesa (Prancha 1-A). As legiões romanas, famosas por sua
disciplina e dedicação, estão entregues à mais terrível
indisciplina e ao mais completo ócio. Só esperam a chegada das
legiões que ficarão em seu lugar. As razões? A desmoralização
diante das sucessivas surras tomadas dos gauleses.
Vou fazer algumas observações
a que chamarei de parênteses.
Os leitores que os acharem desnecessários ou quiserem tirar suas
próprias conclusões, podem seguir o texto principal sem prejuízos
para a compreensão da história.
Enquanto isso, César, em
Roma, está desesperado por uma saída para o impasse diante da
aldeia de Asterix. Convocou senadores e patriarcas para aconselhá-lo
na tarefa. Dentre estes, está Regius Velhacus, recém formado pelo
“reformatório de ensino superior”. Ele propõe a César derrotar
os gauleses por meios não militares. Através da corrupção pelo
ouro. César se interessa.
Mas, um dos presentes
discorda. Diz que o melhor ainda é a boa e velha força bruta. Ao
ouvir isso, César diz a ele: “Sim, Pediculus, eu me lembro! Você
era um jovem tribuno corajoso, audaz, até pensava nos problemas do
povo...Agora, com o ouro dos saques, veja em que você se
transformou!” Depois, dirigindo-se a todos: “Sim! Vejam o que o
ouro, as vilas, as orgias, as comissões na compra de armas fizeram
de vocês! Gordos e decadentes!...” (Prancha 9-A)
César vira-se para Velhacus e
pergunta: “Você acha que pode transformar aqueles gauleses em algo
parecido com isso?”, apontando para os gordos patriarcas. A
resposta: “Pode crer! Eles vão lutar por outra coisa e nunca mais
para defender sua aldeia!” (9-B).
Os primeiros parênteses:
há, nos Estados Unidos, quem defenda um modo mais eficiente de
acabar com o regime cubano do que o embargo econômico. Bastaria
estabelecer as mais amplas relações comerciais com a ilha. O efeito
corrosivo da presença dos produtos capitalistas mais avançados
colocaria por terra um sistema de poder que usa como pretexto a
penúria a que o povo cubano foi condenado pela brutalidade
norte-americana. Esta aventura de Asterix parece dar razão à tese.
Velhacus parte para a Gália.
Por acaso, encontra Obelix na floresta que separa a fortificação
romana da aldeia gaulesa. Como sempre, o grande gaulês carrega um
menir 1
de sua própria fabricação. Velhacus encontra o pretexto para por
seu plano em ação. Compra o menir e pede para entregar mais um na
fortificação romana no dia seguinte. Obelix faz mais um menir e o
leva a Velhacus. Este lhe diz que vai pagar o dobro do que pagara
pelo anterior. Diante do espanto de Obelix, o romano explica as
razões do aumento nos seguintes termos: “... problemas de da
economia, fluxo de oferta e demanda...reversão atípica das
expectativas. Flutuação cambial...é complicado” (13-A).
Javali é o prato preferido na
aldeia e o único item na gordurosa dieta de Obelix. Mas com o
aumento das encomendas de menires, Obelix já não tem tempo para
caçar. Se vê obrigado a oferecer dinheiro a um outro aldeão,
Analgesix, para caçar javalis para ele.
Asterix estranha a intensa
produção de menires e questiona Obelix. Este dá sua explicação
nos termos em que aprendeu a pensar com Velhacus: “...Se a demanda
for igual à quantidade de bens produzidos, divididos pela quantidade
de moeda boa, multiplicada pela quantidade de moeda má que sai de
circulação, os preços cairão” (15-B).
A vida da aldeia começa a
entrar em colapso. Obelix recebe cada vez mais dinheiro de Velhacus.
Passa a contratar gente para ajudá-lo na fabricação de menires. Ao
mesmo tempo, outros aldeões são desviados de suas funções normais
para caçar javalis. Estes são vendidos para quem não tem tempo de
caçar por estar trabalhando para Obelix.
Ao sair para caçar, Asterix
descobre que a floresta está apinhada de caçadores de javalis
devido ao surgimento da troca de javalis por dinheiro.
As relações conjugais também
não vão bem. Uma das mulheres da aldeia se insinua para Obelix, uma
vez que ele comprou todo os belos tecidos do mercador que visita a
aldeia regularmente. Obelix a contrata para fazer-lhe uma roupa. O
marido cobra o almoço. Mas ela se nega a preparar a refeição
porque está costurando para Obelix. “Como não posso contar com
você, preciso arranjar um meio de ganhar dinheiro”, diz ela. (23-B
e 24-A).
Mais parênteses:
o enredo mostra como a forma de troca de mercadorias entre os aldeões
vai se alterando. Antes eram trocas entre produtores diferentes. O
peixeiro comprava do ferreiro, mas este também seria fornecedor do
peixeiro, quando ele precisasse de uma nova balança ou de facas. O
dinheiro está presente, mas seu caráter intermediário é mais
claro. Com a especialização da aldeia na fabricação de menires,
todo o resto começa a girar em sua órbita. Já não circulam
produtos e serviços através do dinheiro, mas dinheiro através de
produtos e serviços. Há uma passagem de O Capital, de Marx que diz:
“... uma mercadoria não se torna dinheiro somente porque todas as
outras nela representam seu valor, mas, ao contrário, todas as
demais nela expressam seus valores, porque ela é dinheiro. Ao se
atingir o resultado final, a fase intermediária desaparece sem
deixar vestígios. (...) Ouro e prata já saem das entranhas da terra
como encarnação direta de todo trabalho humano. Daí a magia do
dinheiro.”
Asterix sente que está em
andamento um plano para desunir a aldeia. Prepara a reação.
Estimula todos os moradores a entrar no negócio dos menires para
concorrer com Obelix. A confusão aumenta. O ferreiro, o peixeiro, o
quitandeiro, todos largam suas tarefas tradicionais para também
fabricar menires. Ao entusiasmo geral pela nova atividade, Asterix
adiciona um aumento de produtividade através do uso da mais avançada
“tecnologia” local: a poção mágica. O resultado são entregas
cada vez maiores ao acampamento romano.
A conseqüência é que César
começa a se desesperar com a quantidade de menires que chega a Roma.
Velhacus o tranqüiliza. Diz que vai estimular a compra de menires,
usando um márquetim todo específico: “As pessoas compram, diz
ele, A – o que é útil, B – o que é confortável, C – o que é
agradável, D – o que causa inveja nos vizinhos. Está no item D o
ponto básico da campanha.” Propõe a massificação. Cita as
qualidades que devem ser ressaltadas: “A – durabilidade, B –
ineditismo e C – outras qualidades que ainda vou descobrir”
(32-A).
A prancha 34-A mostra Velhacus
apresentando a César os produtos que inventou para transformar a
posse de menires em moda: Togas com menires bordados, relógios
solares com ponteiros em forma de menir, jóias com o mesmo motivo e
um estojo “faça você mesmo” com martelo e talhadeira para uso
familiar.
Parênteses:
É uma idéia comum a de que o capitalismo inventa coisas
desnecessárias para serem vendidas. No entanto, esta é uma
discussão complexa. Qual o limite entre o que é estritamente
necessário e o que passa a ser supérfluo? Muito difícil de
determinar. Claro que alimento, vestuário e habitação poderiam ser
considerados o nível mais básico. Mas em regiões muito quentes, a
nudez total seria a regra? Não é o que se verifica. Mesmo entre
indígenas em regiões tropicais, os adereços e acessórios
simbólicos fazem parte da vida social. Não há uma relação direta
entre necessidade e uso. Além disso, hoje já é muito comum ver
tribos inteiras vestidas com roupas urbanas, mesmo que não sejam
necessárias devido ao clima. Aí, já entra o fator da dominação
cultural.
Em O
Capital, ao
discutir quanto deve ser a soma dos meios necessários para manter a
vida normal de um trabalhador, Marx diz que “a soma dos meios de
subsistência deve ser (...) suficiente para manter no nível de vida
normal do trabalhador”. Mas, adverte que um elemento histórico e
moral entra na determinação desse valor. É o caso de indígenas
vestidos com camisas do Flamengo, usando relógios de pulso e
consumindo bebidas e comidas estranhas à sua tradição e,
teoricamente, inadequadas ao ambiente em que vivem.
Mas nem tudo dá certo.
Começam a aparecer contradições. Um fabricante romano de menires
inicia um movimento protecionista. O fabricante, que se chama
Malentendidus, é questionado por César: “Que história é essa?”
O fabricante responde: “Os menires gauleses estão colocando em
risco a sobrevivência da classe empresarial”. César discorda:
“Mas quem fabrica são os escravos”. Malentendidus: “Justamente!
O trabalho duro é o único direito do escravo! Não podemos lhes
tirar esse direito!” (34-B e 35-A).
A situação evolui para ações
concretas. Uma barreira é colocada na entrada de Roma. Numa faixa
está escrito “Menires Gauleses Go Home” (35-B).
Parênteses:
Um momento muito feliz dos autores. Primeiro, antecipam em pelo menos
15 anos (o álbum é de 1976) as contradições entre a globalização
e os interesses de setores nacionais burgueses. Um famoso
representante desses setores é José Bové2,
que é francês e lembra Asterix. Em segundo lugar, os escravos
romanos não poderiam ter direitos, pois eram considerados coisas. Do
ponto de vista formal e real, equivaliam a animais de tração.
Portanto, Goscinny e Uderzo devem estar se referindo aos proletários
atuais. Estes acreditam ter direitos. Mas só os têm do ponto de
vista formal. Do ponto de vista real, seu único grande direito é o
trabalho duro. Basta notar que em tempos de ditadura ou de ataque aos
trabalhadores, direitos como o voto ou o salário-desemprego podem
ser rapidamente suprimidos. Mas o direito a ser explorado continua
valendo, nem que seja de modo informal e precário.
As táticas consumistas de
Velhacus perdem fôlego. Menires começam encalhar nos estoques e a
ser vendidos em liquidação. “Em cada compra de um escravo, dois
menires de graça”, diz um anúncio talhado em mármore (37-A).
César pega Velhacus pelos
colarinhos, chacoalha e diz: “Foi por sua causa que quase abri
falência e quase entramos em guerra civil! Nem mesmo Brutus me
prejudicou tanto!” (37-B). Despacha o marqueteiro para a Gália
para resolver o problema. Lá chegando, Velhacus simplesmente
suspende a compra de menires.
Ao descobrir que os romanos já
não querem comprar mais menires, os gauleses começam a se
desentender. Uns acusando os outros de concorrência desleal. Mas
Asterix lhes faz notar que os verdadeiros culpados são os romanos.
Convida-os a acertar tudo com eles. A prancha 43-A mostra Os gauleses
entrando numa coluna arrasadora pela fortificação de Babaorum,
destruindo tudo e colocando os romanos em fuga. Inclusive, Velhacus.
A
cena final é aquela que fecha todas as aventuras de Asterix. Um
grande banquete, com muito vinho, os inevitáveis javalis e muita
diversão. Só não há música porque o único bardo da aldeia tem
uma voz horrível. Durante os banquetes, fica amordaçado e amarrado
a uma árvore.
Parênteses de
encerramento:
Podemos entender a vitória gaulesa sobre a estratégia de Velhacus
como a impossibilidade de que relações capitalistas se
estabelecessem naquele momento histórico. Ainda citando O Capital,
Marx diz que “só aparece o capital quando o possuidor de meios de
produção e de subsistência encontra o trabalhador livre no mercado
vendendo sua força de trabalho, e esta única condição histórica
determina um período da História da humanidade.” Essas condições
não aparecem nem em Roma, em que a força de trabalho é escrava,
nem na aldeia, em que os moradores possuem seus próprios meios de
produção (ou de subsistência através da caça e da coleta).
Voltando ao exemplo cubano, a ilha governada por Fidel apresenta as
duas condições. Força de trabalho assalariada e meios de produção
controlados pelo Estado e não pelos trabalhadores.
Mas é claro que os geniais
criadores de Asterix não pretendiam qualquer exatidão histórica. O
domínio do formato satírico lhes deu liberdade para fazer a crítica
de aspectos da atual sociedade capitalista em plena antiguidade
romana. E o fizeram de forma magistral através de um material
bonito, divertido e fácil de assimilar. Que tal usá-lo em cursos de
formação?
1
Segundo o dicionário
Houaiss, menir é um monumento megalítico do período neolítico,
geralmente de forma alongada, altura variável (até cerca de 11 m)
e fixado verticalmente no solo. Podia servir de marco astronômico.
Também pode representar o totem ou outros espíritos,
freqüentemente apresentando traços figurativos.
2
José Bové é criador de ovelhas e líder da Confederação
Camponesa da França. Tornou-se conhecido em 1999 ao liderar a
invasão de uma lanchonete McDonald's na França em protesto contra
a globalização econômica. No final do mesmo ano, em Seattle, nos
Estados Unidos, Bové participou de manifestações contra a
Organização Mundial do Comércio (OMC). Participa dos Fóruns
Sociais Mundiais.
Marcadores:
quadrinhos
17 de jan. de 2001
Ken Parker: um caubói politicamente correto
Desculpem pelo título, mas na verdade, Ken Parker não é um caubói. É um scout. Uma espécie de batedor que ia à frente das incursões dos pioneiros norte-americanos pelo oeste longínquo (o farwest). Sua função era encontrar caminhos mais acessíveis e evitar animais selvagens e índios. Aliás, estes dois últimos representavam a mesma coisa para o branco conquistador de 1868, ano em que começam as aventuras de Parker.
É a partir desta condição que nosso herói coloca seu olhar crítico sobre o mundo ao seu redor. O massacre dos indígenas, o racismo, a construção do mito da democracia americana e até temas como a prostituição, o machismo e a homossexualidade estão presentes.
Pais italianos, cara ianque
Mas, antes de qualquer coisa, é preciso dizer que Ken Parker é de origem italiana. Não no enredo, obviamente, mas na paternidade. Seus criadores são a imaginação inteligente de Giancarlo Berardi e o traço simples e expressivo de Ivo Milazzo. Foram eles que o trouxeram à luz em 1977 (no Brasil viu a luz apenas em 1978), mas o rebento nasceu com a cara de Robert Redford. A utilização de atores de cinema será um recurso constante e divertido nas aventuras de Parker. David Niven, Lee Van Cleef, Clint Eastwood, Marylin Monroe e até Stan Laurel e Oliver Hardy são algumas das celebridades convidadas especialmente para abrilhantar a série. Além das estrelas cinematográficas, figuras importantes da história norte-americana também dão o ar de sua presença, como o general Lee e o presidente Ulysses Grant.
Como íamos dizendo, Ken Parker é politicamente correto. Lê Walt Wittman, Shakespeare e é chamado de Rifle Comprido pelos índios porque carrega uma velha espingarda Kentucky, cuja recarga é feita pelo cano. Dotada de pontaria certeira, a arma é adequada para caça, evidenciando as pretensões absolutamente pacifistas de seu dono. O que não impede que, vez por outra, ele a utilize para dar uma lição em algum vilão.
No decorrer de suas aventuras, Parker acaba vivendo durante algum tempo em uma tribo indígena, depois de ter sido acometido por uma amnésia passageira que fez o favor de presentear-lhe com alguns dos valores indígenas: honra, solidariedade, amor e respeito à natureza. Recuperada a memória, o personagem volta a viver entre os brancos, mas fica da experiência um grande respeito mútuo. Para dar um exemplo do tratamento dado à questão indígena, o episódio mais interessante é Homicídio em Washington (número 4).
Homicídio em Washington
Nesta aventura, a questão indígena é focalizada com perspectiva crítica através da história de Ely Donehogawa, comissário para assuntos indígenas nomeado pelo presidente Ulysses Grant, em 1870. Donehogawa enfrenta corajosamente a empáfia e o racismo dos brancos. No que é auxiliado por Parker. Em uma passagem, Ken vai até o Parlamento e, diante de toda a má vontade dos parlamentares faz um discurso curto e inflamado, denunciando o palavrório vazio e o desprezo pelos direitos dos índios. Sai da sessão marchando só de meias, já que pouco antes havia tirado os sapatos, muito desconfortáveis para pés acostumados a desbravar as vastidões do Oeste. Logo depois, Donehogawa é morto devido à sua insistência em defender a causa indígena. Parker acaba sendo acusado do assassinato, e sofrerá muito antes de provar sua inocência. Ely Donehogawa realmente existiu. Mas, seu assassínio é uma invenção dos autores. O Comissário morreu em 1895, de morte natural. O respeito pela cultura indígena não se limita a histórias como estas. Nas contra-capas de muitas edições aparecem publicados poemas e cantos dos nativos norte-americanos.
Mas talvez o episódio mais bonito da série seja o intitulado Adah (número 46). É nele que estão presentes a maioria das qualidades que levaram esta história em quadrinhos a ser cultuada pelos amantes do gênero.
Adah: mulher, negra, escrava, prostituta...
A violência contra os negros e contra as mulheres é denunciada através desta história. Mulher negra, nascida no sul dos Estados Unidos antes da emancipação dos escravos, Adah sofre as mazelas da Guerra de Secessão, apaixona-se e casa com Horace, um jovem negro que a rouba e a abandona na miséria. Torna-se prostituta para sobreviver e depois de anos satisfazendo as taras dos senhores brancos sulistas, junta dinheiro suficiente para voltar à cidade em que nasceu, onde planeja reconstruir a vida junto ao irmão. Chega a tempo de presenciar a Ku-Klux-Klan assassiná-lo covardemente. Descobre que entre os assassinos da Klan está um filho de seus antigos senhores. Vai até a casa do ‘patrãozinho’ e mata-o a sangue frio. Mas seu ato coloca a polícia local em seu rastro por todo o país. A partir daí, sua vida é uma constante fuga, até que ela encontra, adivinhem quem? Acertaram. Ken Parker. Nosso herói logo ganha a confiança de Adah, que lhe confessa seus problemas. Parker a conforta, dizendo que seu crime deve ter prescrito juntamente com os delitos cometidos no período final da Guerra Civil. Após uma noite de amor, cujos efeitos reparadores devem ter sido valiosos para ambos, Parker dá cabo dos perseguidores de Adah, sem muitos exageros de violência. Depois, conforme Ken havia previsto, Adah constata que seus crimes já haviam prescrito. Ela parte para uma nova vida, cheia de gratidão pelo homem branco, compreensivo e heróico. Deixou para trás algumas das condições que a oprimiam: a de escrava, prostituta, foragida. Ficou sendo apenas mulher e negra, o que já não é pouco em termos de discriminação.
Apesar da qualidade ordinária deste meu resumo, acredito que é possível ver como as histórias de Ken Parker têm qualidades perfeitas para agradar um público politicamente correto, ao mesmo tempo em que é desfrutável como só as boas histórias o são. Neste caso, o charme está no aparecimento de Parker apenas no finalzinho da história. Adah é o personagem principal. Adah e a questão negra, com brancos racistas, negros pilantras, mulheres corajosas e violência gerando violência. O herói salva tudo no final porque ninguém é de ferro. É certo que esta história acontece quando a série está mais do que consolidada. Berardi e Milazzo já sabiam que tinham um público fiel o suficiente para retardar a entrada do herói até que quase 4/5 da história já houvessem transcorridos.
Homem atual, problemas atuais
A história de Adah mostra bem os objetivos dos autores. Berardi dizia que queria abordar coisas sérias de maneira simples e atraente. Mas não é só isso. Citemos uma definição do argumentista para seu herói: “Ken Parker é um homem atual, com problemas atuais. Não tem certezas, nem garantias. Vive um dia após o outro com os ideais que construiu, procurando febril, desesperada, corajosa e dolorosamente ser corente.” Ora, as temáticas abordadas na série realmente pertencem muito mais aos dias atuais do que ao velho oeste. Dificilmente, um caubói, muito menos um scout, teria motivos, capacidade, tempo e interesse em defender causas de indígenas, negros, homossexuais e mulheres.
Portanto, o que interessa para os autores é abordar coisas sérias e atuais. E o mais interessante é que fazem isso usando um dos maiores mitos do imaginário moderno: o bangue-bangue, o cavalheiro solitário, as paisagens do farwest. Claro que ao escolher um tal cenário, os autores estavam procurando apoiar-se na linguagem do cinema. O ritmo das histórias, o aparecimento de atores hollywoodianos, o traço de Milazzo (que, infelizmente não está presente em todos os episódios), cuja a elegância, sutileza e domínio das expressões gestuais são raros. Tudo isso dá à série italiana uma capacidade enorme de atrair aqueles que gostam de grandes fazedores de histórias como John Ford, Sam Peckimpah, Clint Eastwood, Sérgio Leone. Ao mesmo tempo, os autores realmente abordam temas que levam o leitor à reflexão. Com isso, Milazzo e Berardi dão uma grande colaboração para nos fazer compreender o que Will Eisner queria dizer quando definiu os quadrinhos como a arte seqüencial. E, ao mesmo tempo, abrem combate aos preconceitos e discriminações. É claro que não são todos os números da série que apresentam temas tão densos. Alguns deles dão maior espaço para a diversão, seja apelando para situações violentas, seja para contar histórias simples, bonitas e cômicas.
Humor e metalinguagem
O humor, aliás, é uma constante. Em Homens, Feras e Heróis (número 15), há até um exercício de metalinguagem. Num lugar chamado Saloom de Descanso dos Heróis, Parker encontra seu companheiros de prateleira, Tex, Zagor, Cisco Kid e Lucky Luke, entre outros. Mas também se depara com dois personagens que não poderíamos chamar propriamente de heróis. São os próprios Berardi e Milazzo trajados a caráter.
A série durou até 1982, com 59 números editados. Depois disso, o herói voltou a aparecer intermitentemente, em edições especiais luxuosas, em formato grande. As histórias continuam boas, mas as edições são limitadas e têm preços menos acessíveis.
No Brasil, a publicação foi suspensa em 1983, com apenas 53 números publicados e retomada em 1990, com mais duas edições. No ano passado, a editora Mythos, numa iniciativa digna de todos os elogios, publicou uma mini-série em três partes, no tradicional formato pequeno, com preço baixo. Anunciou que vai reeditar toda a série desde o início. O que seria maravilhoso. Quem sabe Rifle Comprido ainda consiga capturar alguns milhares de leitores jovens e os desperte para problemas importantes e que, infelizmente, vão continuar atuais por muito tempo.
Na rede, o material mais completo está no sítio da UBC (http://www.ubcfumetti.com), com biografias dos autores, resumos dos episódios, reprodução das capas, curiosidades etc. O problema é que está em italiano. Mas com um pouco de boa vontade, qualquer amante dos fumetti pode aprender mais sobre este caubói politicamente correto.
Marcadores:
quadrinhos
Assinar:
Postagens (Atom)


