(Texto de novembro de 2006)
A chamada análise de conjuntura é um instrumento importante para definir os rumos mais acertados para a atuação da esquerda socialista. Qual é o peso da grande mídia tanto nela, como na própria realidade? Como dar combate a seu monopólio buscando disputar a hegemonia usando nossos próprios meios de comunicação?
Nos últimos 50 anos, a burguesia aperfeiçoou a grande mídia como um de seus aparelhos de hegemonia mais poderosos. Se as igrejas perderam força em sua influência direta, elas a vêm retomando utilizando-se exatamente das TVs, rádios e jornais próprios. Se a família e a escola formavam os futuros adultos, agora divide com desvantagem esse papel com a programação de rádios, tevês, filmes, publicações. Instrumentos que impõem verdadeiros padrões de consumo, comportamento e formas de enxergar a realidade. Por outro lado, sindicatos, partidos, associações e outras organizações que tentam questionar a dominação burguesa estão cada vez mais reduzidos à impotência diante da enorme concentração do controle das comunicações nas mãos de poucos empresários do setor.
Segundo alguns autores, as empresas de meios de comunicação são aparelhos privados de hegemonia que ficaram tão poderosos que atualmente agem como tendências de um grande partido de apoio à burguesia (Venício A. de Lima). E para isso ela conta com uma característica fundamental. Trata-se de sua capacidade de monopolizar a distribuição de praticamente toda a informação que chega à sociedade. Como vivemos numa sociedade em que a vida social depende muito da informação em grande escala, a grande mídia controla esta última de maneira esmagadora. Ao mesmo tempo, os lucros dessa verdadeira indústria dependem do funcionamento tranqüilo do capitalismo. E é para isso que ela trabalha.
É nesse sentido que em uma análise de conjuntura teremos que levar em conta três aspectos relacionados entre si. Primeiro, as informações que chegam à maioria das pessoas estão carregadas de valor ideológico. Segundo, sendo assim, elas podem não ser verdadeiras, ou podem estar distorcidas ou incompletas, mas sua própria presença acaba colaborando para moldar a realidade segundo seus interesses. Uma notícia sobre algum evento pode ser falsa, mas as conseqüências causadas por essa falsidade serão muito reais. Terceiro, uma parte dessas informações não pode ser totalmente falsa sob pena de confundir até mesmo setores da burguesia. É o caso dos números da economia. Estes não podem ser falsificados sem que sejam afetados os investimentos de vários setores da burguesia. No máximo, o que se permite é destacar algumas cifras e esconder outras. Mas, essa manobra precisa ficar evidente a quem interessa.
Como fazer análise de conjuntura ou como trabalhar com a comunicação para fazer a disputa da hegemonia
A análise da realidade não pode deixar de levar em conta o enorme peso ideológico das informações socialmente conhecidas com todas as suas conseqüências. Mas é preciso distinguir dentre todas essas informações, aquelas que são apenas tendenciosas e as que mostram com mais proximidade os movimentos da economia, das relações sociais e das posições políticas que interessam à burguesia. Esta diferenciação fica mais clara se pensarmos em publicações como a revista Veja e o jornal Valor Econômico. A primeira comporta-se como um panfleto, cujas informações são distorcidas ao máximo em favor dos interesses dos capitalistas. Seu público é basicamente formado por pessoas de classe média, cujas consciências a burguesia procura ganhar para pontos de vista conservadores. O segundo, defende os mesmos interesses, mas o faz com análises e informações o mais precisas possível pois se dirige a um público específico. São empresários, financistas, formadores de opinião, que dependem da exatidão tanto dos dados, como do foco apresentados. O Valor Econômico, por exemplo, não deu qualquer destaque ao caso da morte de João Hélio, em 2006. E não o fez porque entendeu que o fato não se mostrou relevante para alterar o quadro social e político mais geral. Enquanto isso, quase todo os outros veículos de comunicação tentaram fazer o contrário. Tentaram aumentar o peso do fato para que fizesse efeito sobre o quadro político em favor de valores e medidas conservadores. Se conseguissem, aí, sim, provavelmente, o Valor talvez tivesse apresentado suas análises sobre o caso.
Para usar mais um exemplo, vejamos o caso das mudanças nas regras de exploração do gás na Bolívia, em maio de 2006. Jornais como O Globo, JB, Folha, e as revistas Veja e Isto É e seus colunistas fizeram um grande alarde sobre desrespeito a contratos, encampação de propriedades brasileiras etc. Mas, os colunistas e editorialistas do jornal Valor Econômico deram a esses fatos uma dimensão bem menos assustadora. Não porque apoiassem o governo boliviano e suas medidas. Mas, porque sabiam que o governo brasileiro teria que agir com calma para não comprometer a estabilidade política do país vizinho. Melhor um governo constituído e estável adotando medidas heterodoxas, do que novas revoltas de mineiros e indígenas colocando em verdadeiro risco os investimentos de empresas brasileiras.
Nos dois casos, o de João Hélio e o da Bolívia, temos que aprender a enxergar como está atuando a grande mídia. Sua atuação é o melhor indicador dos movimentos pretendidos pela burguesia. Sem isso não é possível dar combate no terreno certo, no momento correto e com as armas adequadas.
Em resumo, não é possível fazer análise de conjuntura sem identificar por onde está se dando a disputa de hegemonia. Não é possível identificar por onde se está dando tal disputa sem acompanhar os movimentos da grande mídia. A análise de conjuntura, por sua vez, de nada servirá se não fornecer orientações para alterar a realidade a favor dos setores populares. Mas, se tais orientações não chegarem ao nível da disputa da hegemonia não passarão de intenções, por melhores que elas sejam. Por fim, para chegar ao nível da disputa da hegemonia, quaisquer orientações saídas de uma análise de conjuntura devem se concretizar na forma de elementos de comunicação. Estes devem ser ideológicos, organizativos, de formação, comportamentais, culturais e morais. Este é o nível mais concreto.
Ou seja:
- Primeiro, escolher e hierarquizar as ferramentas a serem utilizadas: panfletos, boletins, jornais, internete, rádio, TV, caminhão-de-som etc.
- Segundo, o que dizer com cada uma delas e/ou com todas.
- Terceiro, avaliar a eficiência do uso dessas ferramentas.
- Quarto, mudar ou corrigir ou aprofundar orientações e as ações concretas delas resultantes.
25 de ago. de 2010
28 de jul. de 2010
Campeões de bilheteria e de caretice
Toy Story 3, Encontro Explosivo e Eclipse. Três boas bilheterias. Três exemplos do conservadorismo de Hollywood.
“Toy Story 3” é dirigido por John Lasseter. A animação competente e os efeitos em três dimensões não salvam o filme. Os divertidos brinquedos animados, liderados por Wood, estão em apuros. Seu dono cresceu e vai para a universidade. Estão entre serem esquecidos no sótão da casa ou jogados no lixo. Na confusão para escapar a tais destinos, acabam numa creche.
Poderia ser um bom pretexto para mostrar as vantagens da educação infantil em ambientes coletivos. A necessidade da diversidade social como elemento de educação e formação. A importância da posse comum de brinquedos. Talvez, a luta dos donos da creche para manterem-na aberta.
Ao invés disso, a situação é de pesadelo. O que parecia um paraíso de crianças acolhedoras mostra-se um inferno de pestinhas destruidoras. Longe dos pais protetores, os pequenos viram um bando incontrolável. Para completar, o líder do pedaço é um urso de pelúcia que não passa de um uma mistura de ditador com mafioso. Se a liberdade e a vida coletiva representam esses riscos todos, melhor se contentar com o bom e velho sótão.
O final feliz é a doação dos brinquedos a um novo lar. Tornam-se mascotes de uma garotinha gracinha, em um belo subúrbio americano. A menininha é pobre, mas isolada em sua casinha agradável está longe dos problemas que a vida comunitária causa.
Tudo muito fofinho. Tudo muito convidativo e atraente. É só sair da sala de cinema e se dirigir à loja mais próxima para comprar mais produtos da franquia. É a felicidade fácil, cara e curta na forma de bonecos sorridentes, em embalagens coloridas.
Em “Encontro explosivo”, James Mangold coloca Cameron Diaz e Tom Cruise nas mais variadas confusões. Variadas sem sair da mesmice. Muita perseguição, acrobacias, efeitos especiais e cenas que poderiam ser engraçadas mas não são.
Tudo para mostrar uma personagem feminina bancando a pateta em 90% das cenas. Caidinha pelo bonitão, que sabe tudo e vence a todos, sem tirar o sorriso cheio de dentes branqueados da cara. No final, a garota revela grande habilidade ao volante de um automóvel antigo. Mas, utiliza seus talentos única e exclusivamente para agarrar o bom partido que apareceu em sua vida chata.
Em “Eclipse”, de David Slade, a juventude está mais careta do que nunca. A começar por um vampiro bonzinho que faria Drácula querer morrer se já não fosse defunto há séculos. Neste parte da saga “Crepúsculo”, Bella está sendo disputada por seu namorado sanguessuga e seu amigo lobisomem. Nessa condição, vive sendo carregada de um canto para o outro como uma boneca.
O pior é que o jovem vampiro se recusa a transar com sua noiva antes do casamento. Ele se desculpa dizendo que é um cavaleiro do século 17. Do tipo que precisa fazer a corte à dama por meses antes de beijá-la. Mas, está mais para um adolescente do século 21 nos Estados Unidos de Bush. Aquele que recomenda não fazer sexo como a única forma de evitar Aids, gravidez indesejada, etc.
Filmes como esses deixam bem clara a principal função do cinema empresarial inspirado por Hollywood. Em meio a risadas, lágrimas, pipocas e refrigerantes nossas mentes vão sendo amaciadas. Amolecem suas defesas contra os valores mais conservadores e imbecilizantes.
“Toy Story 3” é dirigido por John Lasseter. A animação competente e os efeitos em três dimensões não salvam o filme. Os divertidos brinquedos animados, liderados por Wood, estão em apuros. Seu dono cresceu e vai para a universidade. Estão entre serem esquecidos no sótão da casa ou jogados no lixo. Na confusão para escapar a tais destinos, acabam numa creche.
Poderia ser um bom pretexto para mostrar as vantagens da educação infantil em ambientes coletivos. A necessidade da diversidade social como elemento de educação e formação. A importância da posse comum de brinquedos. Talvez, a luta dos donos da creche para manterem-na aberta.
Ao invés disso, a situação é de pesadelo. O que parecia um paraíso de crianças acolhedoras mostra-se um inferno de pestinhas destruidoras. Longe dos pais protetores, os pequenos viram um bando incontrolável. Para completar, o líder do pedaço é um urso de pelúcia que não passa de um uma mistura de ditador com mafioso. Se a liberdade e a vida coletiva representam esses riscos todos, melhor se contentar com o bom e velho sótão.
O final feliz é a doação dos brinquedos a um novo lar. Tornam-se mascotes de uma garotinha gracinha, em um belo subúrbio americano. A menininha é pobre, mas isolada em sua casinha agradável está longe dos problemas que a vida comunitária causa.
Tudo muito fofinho. Tudo muito convidativo e atraente. É só sair da sala de cinema e se dirigir à loja mais próxima para comprar mais produtos da franquia. É a felicidade fácil, cara e curta na forma de bonecos sorridentes, em embalagens coloridas.
Em “Encontro explosivo”, James Mangold coloca Cameron Diaz e Tom Cruise nas mais variadas confusões. Variadas sem sair da mesmice. Muita perseguição, acrobacias, efeitos especiais e cenas que poderiam ser engraçadas mas não são.
Tudo para mostrar uma personagem feminina bancando a pateta em 90% das cenas. Caidinha pelo bonitão, que sabe tudo e vence a todos, sem tirar o sorriso cheio de dentes branqueados da cara. No final, a garota revela grande habilidade ao volante de um automóvel antigo. Mas, utiliza seus talentos única e exclusivamente para agarrar o bom partido que apareceu em sua vida chata.
Em “Eclipse”, de David Slade, a juventude está mais careta do que nunca. A começar por um vampiro bonzinho que faria Drácula querer morrer se já não fosse defunto há séculos. Neste parte da saga “Crepúsculo”, Bella está sendo disputada por seu namorado sanguessuga e seu amigo lobisomem. Nessa condição, vive sendo carregada de um canto para o outro como uma boneca.
O pior é que o jovem vampiro se recusa a transar com sua noiva antes do casamento. Ele se desculpa dizendo que é um cavaleiro do século 17. Do tipo que precisa fazer a corte à dama por meses antes de beijá-la. Mas, está mais para um adolescente do século 21 nos Estados Unidos de Bush. Aquele que recomenda não fazer sexo como a única forma de evitar Aids, gravidez indesejada, etc.
Filmes como esses deixam bem clara a principal função do cinema empresarial inspirado por Hollywood. Em meio a risadas, lágrimas, pipocas e refrigerantes nossas mentes vão sendo amaciadas. Amolecem suas defesas contra os valores mais conservadores e imbecilizantes.
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13 de jul. de 2010
Walt Disney, mas pode chamar de Capitão Gancho
Disney foi um dos primeiros grandes piratas da indústria de diversão. É o que revela o livro Desconstruindo a “Propriedade Intelectual”, de Jorge Machado. Uma obra que ajuda a mostrar que o capitalismo é um beco sem saída.
A Disney é uma das mais poderosas indústrias de diversão do mundo. Além do estúdio que leva seu nome, controla as empresas Touchstone, Hollywood Pictures e Miramax. Também opera os canais de TV ABC, Disney Channel e ESPN, mais centenas de emissoras de TV e rádios.
Com tanto poder acumulado nesse tipo de produção, a corporação é grande interessada no combate à pirataria de seus produtos. Mas, o fundador desse reino nada encantado dificilmente escaparia da acusação de pirataria.
Afinal, personagens como Pinóquio, Bela Adormecida, Cinderela, Alice e Peter Pan são todos de autoria conhecida. Disney produziu belos filmes a partir deles. Sua organização vem ganhando milhões há décadas graças a eles. Mas seus autores ou os sucessores deles nunca receberam um centavo por isso.
Ao mesmo tempo, Walt Disney nunca abriu mão de cobrar cada tostão pelo uso das criações que considerava sua propriedade. Mickey é a mais famosa delas. Mas até o ratinho foi baseado em um personagem do comediante David Keaton.
Por falar em Mickey, o personagem foi responsável pela alteração da lei dos direitos autorais por onze vezes nos Estados Unidos. Cada vez que os direitos sobre sua imagem iam vencer, o Congresso americano mudava os prazos para longe.
Até que em 1998, o período ficou fixado em 120 anos. Tudo isso beneficiou não apenas Disney, mas a Paramount Pictures, Time Warner, Viacom e Universal. Empresas que agradeceram aos senadores que apresentaram a lei com mais de 1,4 milhão de dólares em doações.
Tudo isso está no excelente livro de Machado. Mas, o autor também faz uma discussão importante sobre a idéia de propriedade intelectual. Segundo ele, esse conceito já nasceu equivocado. Pertence ao mundo das mercadorias físicas. Quando falamos de produtos como criações intelectuais, culturais, artísticas, o beco sem saída é o destino mais provável.
Machado lembra a definição clássica da Economia como ciência para a administração da escassez. No capitalismo, diz ele, essa escassez precisa ser produzida artificialmente. Até porque as crises capitalistas acontecem devido à abundância, lembraríamos. Elas surgem quando não há compradores para as mercadorias e não o contrário.
O problema é que propriedade intelectual diz respeito à comercialização de idéias. E a produção artificial de escassez de idéias está fora do alcance até do todo poderoso capitalismo. Para explicar melhor, Machado utiliza a famosa frase em que Thomas Jefferson refere-se à diferença entre a natureza das idéias a dos bens materiais:
O autor cita o caso da empresa Corbis, de Bill Gates. Através dela, Gates passou a cobrar direitos de exibição digital de imagens de museus e coleções públicas e privadas. Estamos falando de acervos de instituições como Galeria Nacional de Londres, Museu Hermitage de S. Petersburgo, Museu de Arte da Filadelfia, Fundação Andy Warhol, etc.
Ou seja, a rigor, qualquer um só pode utilizar uma imagem presente nessas coleções se comprar os direitos de uso junto à empresa de Gates. E trata-se de imagens de obras que pertencem ao patrimônio criativo da humanidade. O acesso a ele está bloqueado pelo “pedágio” do grande capital. Como se vê, propriedade intelectual é o nome dourado para apropriação privada do que deveria ser público.
Mas, nem tudo são facilidades para os capitalistas. A mesma tecnologia que lhes possibilita seqüestrar idéias e criações também facilita amplo acesso a elas. A internete nasceu de um projeto militar. Foi desenvolvida por universidades públicas. É explorada no mundo todo por grandes corporações voltadas para o lucro. Mas, é igualmente uma ameaça à propriedade intelectual.
Isso acontece porque a lógica da rede mundial é a do compartilhamento. De outro modo, não faria tanto sucesso. É por isso que as tentativas de impedir completamente a troca desautorizada de arquivos na rede lembram o esforço de enxugar gelo. As empresas querem produzir escassez de idéias através do controle monopolista de suas cópias. No entanto, a própria competição comercial estimula um avanço tecnológico que torna o ato de copiar cada vez mais simples e barato. E seus caminhos cada vez mais imateriais, intangíveis.
Já não são fitas-cassetes, discos de vinil, CDs e DVDs que suportam as informações. São arquivos circulando pela internete. As idéias, lembra o autor, além de intangíveis, são inesgotáveis. Por mais originais que sejam, são produto de outras idéias. E, logo que são transmitidas, socializadas, sofrem modificações sobre as quais seus pretensos autores originais não têm muito controle.
Para dar conta desta realidade, Machado propõe o conceito de co-produção, no sentido de que toda a criação é social. Em relação aos limites da concepção de “propriedade intelectual”, o autor propõe a adoção da figura dos “direitos de uso”. Um conceito que regula a posse entre sociedades sem propriedade privada, como as tribos indígenas ou antigas comunas. A posse só existe em relação àquilo que se está usando. Findo o uso, a posse volta a ser comum.
Na verdade, a indústria já utiliza esse conceito. Já não vende seus programas, mas os direitos de uso. A grande diferença é que cobra por eles. E o faz periodicamente. Uma demonstração de que os próprios capitalistas encontram dificuldades para continuar lidando com a idéia de propriedade. Ela escapa por entre seus dedos gananciosos.
A conclusão a que o autor chega merece ser transcrita:
A propriedade privada dos meios de produção social tem que dar lugar a sua posse compartilhada em todos os níveis. Para que a produção abundante do sistema capitalista pare de se transformar em escassez para a maioria e fartura para a minoria. E a criatividade humana seja libertada das correntes econômicas que a prendem.
Não é preciso dizer que o livro de Jorge Machado pode ser facilmente encontrado na internete e baixado gratuitamente.
Leia também:
Piratas e fantasmas contra o capitalismo
Rock bom é rock pirata!
A Disney é uma das mais poderosas indústrias de diversão do mundo. Além do estúdio que leva seu nome, controla as empresas Touchstone, Hollywood Pictures e Miramax. Também opera os canais de TV ABC, Disney Channel e ESPN, mais centenas de emissoras de TV e rádios.
Com tanto poder acumulado nesse tipo de produção, a corporação é grande interessada no combate à pirataria de seus produtos. Mas, o fundador desse reino nada encantado dificilmente escaparia da acusação de pirataria.
Afinal, personagens como Pinóquio, Bela Adormecida, Cinderela, Alice e Peter Pan são todos de autoria conhecida. Disney produziu belos filmes a partir deles. Sua organização vem ganhando milhões há décadas graças a eles. Mas seus autores ou os sucessores deles nunca receberam um centavo por isso.
Ao mesmo tempo, Walt Disney nunca abriu mão de cobrar cada tostão pelo uso das criações que considerava sua propriedade. Mickey é a mais famosa delas. Mas até o ratinho foi baseado em um personagem do comediante David Keaton.
Por falar em Mickey, o personagem foi responsável pela alteração da lei dos direitos autorais por onze vezes nos Estados Unidos. Cada vez que os direitos sobre sua imagem iam vencer, o Congresso americano mudava os prazos para longe.
Até que em 1998, o período ficou fixado em 120 anos. Tudo isso beneficiou não apenas Disney, mas a Paramount Pictures, Time Warner, Viacom e Universal. Empresas que agradeceram aos senadores que apresentaram a lei com mais de 1,4 milhão de dólares em doações.
Tudo isso está no excelente livro de Machado. Mas, o autor também faz uma discussão importante sobre a idéia de propriedade intelectual. Segundo ele, esse conceito já nasceu equivocado. Pertence ao mundo das mercadorias físicas. Quando falamos de produtos como criações intelectuais, culturais, artísticas, o beco sem saída é o destino mais provável.
Machado lembra a definição clássica da Economia como ciência para a administração da escassez. No capitalismo, diz ele, essa escassez precisa ser produzida artificialmente. Até porque as crises capitalistas acontecem devido à abundância, lembraríamos. Elas surgem quando não há compradores para as mercadorias e não o contrário.
O problema é que propriedade intelectual diz respeito à comercialização de idéias. E a produção artificial de escassez de idéias está fora do alcance até do todo poderoso capitalismo. Para explicar melhor, Machado utiliza a famosa frase em que Thomas Jefferson refere-se à diferença entre a natureza das idéias a dos bens materiais:
Aquele que recebe de mim uma idéia tem aumentada sua instrução, sem que eu tenha diminuído a minha. Como aquele que acende sua vela na minha, recebe luz sem apagar a minha.Talvez Jefferson não desconfiasse que num futuro nem tão distante, também as idéias, o saber, a informação viriam a ser negociadas no mercado.
O autor cita o caso da empresa Corbis, de Bill Gates. Através dela, Gates passou a cobrar direitos de exibição digital de imagens de museus e coleções públicas e privadas. Estamos falando de acervos de instituições como Galeria Nacional de Londres, Museu Hermitage de S. Petersburgo, Museu de Arte da Filadelfia, Fundação Andy Warhol, etc.
Ou seja, a rigor, qualquer um só pode utilizar uma imagem presente nessas coleções se comprar os direitos de uso junto à empresa de Gates. E trata-se de imagens de obras que pertencem ao patrimônio criativo da humanidade. O acesso a ele está bloqueado pelo “pedágio” do grande capital. Como se vê, propriedade intelectual é o nome dourado para apropriação privada do que deveria ser público.
Mas, nem tudo são facilidades para os capitalistas. A mesma tecnologia que lhes possibilita seqüestrar idéias e criações também facilita amplo acesso a elas. A internete nasceu de um projeto militar. Foi desenvolvida por universidades públicas. É explorada no mundo todo por grandes corporações voltadas para o lucro. Mas, é igualmente uma ameaça à propriedade intelectual.
Isso acontece porque a lógica da rede mundial é a do compartilhamento. De outro modo, não faria tanto sucesso. É por isso que as tentativas de impedir completamente a troca desautorizada de arquivos na rede lembram o esforço de enxugar gelo. As empresas querem produzir escassez de idéias através do controle monopolista de suas cópias. No entanto, a própria competição comercial estimula um avanço tecnológico que torna o ato de copiar cada vez mais simples e barato. E seus caminhos cada vez mais imateriais, intangíveis.
Já não são fitas-cassetes, discos de vinil, CDs e DVDs que suportam as informações. São arquivos circulando pela internete. As idéias, lembra o autor, além de intangíveis, são inesgotáveis. Por mais originais que sejam, são produto de outras idéias. E, logo que são transmitidas, socializadas, sofrem modificações sobre as quais seus pretensos autores originais não têm muito controle.
Para dar conta desta realidade, Machado propõe o conceito de co-produção, no sentido de que toda a criação é social. Em relação aos limites da concepção de “propriedade intelectual”, o autor propõe a adoção da figura dos “direitos de uso”. Um conceito que regula a posse entre sociedades sem propriedade privada, como as tribos indígenas ou antigas comunas. A posse só existe em relação àquilo que se está usando. Findo o uso, a posse volta a ser comum.
Na verdade, a indústria já utiliza esse conceito. Já não vende seus programas, mas os direitos de uso. A grande diferença é que cobra por eles. E o faz periodicamente. Uma demonstração de que os próprios capitalistas encontram dificuldades para continuar lidando com a idéia de propriedade. Ela escapa por entre seus dedos gananciosos.
A conclusão a que o autor chega merece ser transcrita:
O casamento entre “propriedade intelectual” e meios digitais não tem como dar certo. Pois, enquanto um fala em bloqueio, o outro fala em fluxo. Um quer vender, o outro quer compartilhar. Um fala que tudo tem um “proprietário”, outro mostra que não tem. Um quer cobrar, o outro não acha justo pagar. Um quer reter, o outro quer liberdade! E o pior, um está enamorado das corporações, outro procura alguém mais “descolado”.Ao mesmo tempo, não se trata de desconhecer os direitos autorais. Segundo Machado:
Deve-se garantir ao (co-)criador, além do reconhecimento da contribuição original, o direito exclusivo sobre o comércio da mesma, sempre que houver. Isso não impediria o fluxo da informação amigável, sem fins lucrativos.Esta pode ser uma saída provisória. Uma forma de regular o mercado enquanto não nos livrarmos dele. Pois, diferente do que parece entender o autor, o conceito de propriedade privada não está caducando apenas no âmbito da criação intelectual. Esta é apenas a área em que fica mais clara a senilidade de todo o sistema capitalista.
A propriedade privada dos meios de produção social tem que dar lugar a sua posse compartilhada em todos os níveis. Para que a produção abundante do sistema capitalista pare de se transformar em escassez para a maioria e fartura para a minoria. E a criatividade humana seja libertada das correntes econômicas que a prendem.
Não é preciso dizer que o livro de Jorge Machado pode ser facilmente encontrado na internete e baixado gratuitamente.
Leia também:
Piratas e fantasmas contra o capitalismo
Rock bom é rock pirata!
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29 de jun. de 2010
Contra a mídia safada, LUTARMADA!
O grupo O Levante, do coletivo LUTARMADA acaba de lançar mais um CD. É o hip-hop contra a injustiça social e a exploração. Denunciando a grande mídia como principal arma dos poderosos.
Nos anos 1980, Chuck D, membro do Public Enemy, disse que o rap era uma espécie de CNN da comuna negra. A proposta era a de que os movimentos de resistência construíssem seus próprios canais de comunicação. Mas, fazer isso é também denunciar e combater a mídia dos poderosos. As CNNs e Globos do planeta.
Desde que foi criado, o coletivo LUTARMADA tem sido fiel a este combate. Faz a denúncia da violência policial, do racismo, da exploração capitalista, dos governos e do estado capitalista. Mas, sempre teve a preocupação de colocar a grande mídia na alça de sua mira. Sabe que ela é fundamental para fazer a cabeça da maioria da população. Em especial, dos que têm pouco ou nenhum acesso à informação crítica. Daqueles a quem a própria esquerda tradicional dá pouca ou nenhuma atenção.
O coletivo adotou um nome que faz parte da realidade das comunidades pobres das grandes cidades. O braço armado do Estado e do crime são uma constante na vida delas. Ainda que quase 100% de sua população nada tenham a ver com polícias e bandidos.
Mas, o nome vem acompanhado de símbolos que explicam tudo. O logotipo do coletivo é uma criança negra lendo um livro. A arma que o LUTARMADA utiliza é o microfone. É também o grafite, a dança de rua. É cada vez mais a formação política, a educação para a luta, recuperando as lições das lutas dos povos de todo o mundo. Dando cada vez mais atenção aos corajosos combates do povo brasileiro.
O novo CD não poderia deixar de reafirmar essas preocupações e é coerente com a denúncia do poder da mídia capitalista. A primeira faixa de Estado de direito. Estado de direita é uma sequência de trechos de noticiários da grande mídia. Sempre mostrando a violência cotidiana da polícia contra os pobres, explorados, negros. Violência quase sempre sustentada e apoiada pelos chamados veículos de comunicação. Nada mais do que aparelhos a serviço da ideologia dominante.
Seguem-se outras músicas, como Faça a revolução ou morra lutando, Rimador radical, Combativo e internacionalista. Elas não deixam dúvidas quanto ao compromisso do coletivo com a luta mais radical. Em Abalando as estruturas globais, a denúncia da Globo, suas mentiras, manipulações, truculência cultural, simboliza a crítica a todo ao poderoso aparato midiático. Mas, em várias outras faixas do CD, o alerta quanto ao terrível papel da mídia empresarial é constante.
Ao mesmo tempo, não escapam à metralhadora de O Levante setores da esquerda que acabam fazendo o jogo do inimigo. É o caso da faixa Partidos Comunistas por Apolônio de Carvalho. Nela, a voz do velho e respeitado revolucionário comunista define os PCs de todo mundo como monumentos de autoritarismo e elitismo. Compostos de membros que se relacionam de forma fria e impessoal, entre eles mesmos e com os explorados.
Em Graças ao hip hop, a voz de Gas-PA explica porque o hip-hop faz a cabeça de muitos lutadores negros e explorados. Trata-se de uma opção de classe. Dizendo não ao crime, à religião como fonte de renda, à vaidade alimentada pelo consumismo capitalista. Dizendo sim à resistência contra o Estado. Usando a poesia, a arte, mas também o panfleto, a passeata, manifestações, o apoio às ocupações urbanas e rurais.
É o hip-hop como “salvação” sem alienação. No lugar da arma de fogo, o microfone incendiário, o livro revelador, a poesia libertadora, belas imagens de luta e resistência estampadas nos muros. É o hip-hop classista e de combate do LUTARMADA!
Como toda mídia alternativa, o coletivo precisa de apoio. Como mídia alternativa combativa, o LUTARMADA merece esse apoio ainda mais. Compre o CD. Contatos: o_levante@yahoo.com.br
Clique aqui e ouça uma das músicas do novo CD: Abalando as estruturas globais
Nos anos 1980, Chuck D, membro do Public Enemy, disse que o rap era uma espécie de CNN da comuna negra. A proposta era a de que os movimentos de resistência construíssem seus próprios canais de comunicação. Mas, fazer isso é também denunciar e combater a mídia dos poderosos. As CNNs e Globos do planeta.
Desde que foi criado, o coletivo LUTARMADA tem sido fiel a este combate. Faz a denúncia da violência policial, do racismo, da exploração capitalista, dos governos e do estado capitalista. Mas, sempre teve a preocupação de colocar a grande mídia na alça de sua mira. Sabe que ela é fundamental para fazer a cabeça da maioria da população. Em especial, dos que têm pouco ou nenhum acesso à informação crítica. Daqueles a quem a própria esquerda tradicional dá pouca ou nenhuma atenção.
O coletivo adotou um nome que faz parte da realidade das comunidades pobres das grandes cidades. O braço armado do Estado e do crime são uma constante na vida delas. Ainda que quase 100% de sua população nada tenham a ver com polícias e bandidos.
Mas, o nome vem acompanhado de símbolos que explicam tudo. O logotipo do coletivo é uma criança negra lendo um livro. A arma que o LUTARMADA utiliza é o microfone. É também o grafite, a dança de rua. É cada vez mais a formação política, a educação para a luta, recuperando as lições das lutas dos povos de todo o mundo. Dando cada vez mais atenção aos corajosos combates do povo brasileiro.
O novo CD não poderia deixar de reafirmar essas preocupações e é coerente com a denúncia do poder da mídia capitalista. A primeira faixa de Estado de direito. Estado de direita é uma sequência de trechos de noticiários da grande mídia. Sempre mostrando a violência cotidiana da polícia contra os pobres, explorados, negros. Violência quase sempre sustentada e apoiada pelos chamados veículos de comunicação. Nada mais do que aparelhos a serviço da ideologia dominante.
Seguem-se outras músicas, como Faça a revolução ou morra lutando, Rimador radical, Combativo e internacionalista. Elas não deixam dúvidas quanto ao compromisso do coletivo com a luta mais radical. Em Abalando as estruturas globais, a denúncia da Globo, suas mentiras, manipulações, truculência cultural, simboliza a crítica a todo ao poderoso aparato midiático. Mas, em várias outras faixas do CD, o alerta quanto ao terrível papel da mídia empresarial é constante.
Ao mesmo tempo, não escapam à metralhadora de O Levante setores da esquerda que acabam fazendo o jogo do inimigo. É o caso da faixa Partidos Comunistas por Apolônio de Carvalho. Nela, a voz do velho e respeitado revolucionário comunista define os PCs de todo mundo como monumentos de autoritarismo e elitismo. Compostos de membros que se relacionam de forma fria e impessoal, entre eles mesmos e com os explorados.
Em Graças ao hip hop, a voz de Gas-PA explica porque o hip-hop faz a cabeça de muitos lutadores negros e explorados. Trata-se de uma opção de classe. Dizendo não ao crime, à religião como fonte de renda, à vaidade alimentada pelo consumismo capitalista. Dizendo sim à resistência contra o Estado. Usando a poesia, a arte, mas também o panfleto, a passeata, manifestações, o apoio às ocupações urbanas e rurais.
É o hip-hop como “salvação” sem alienação. No lugar da arma de fogo, o microfone incendiário, o livro revelador, a poesia libertadora, belas imagens de luta e resistência estampadas nos muros. É o hip-hop classista e de combate do LUTARMADA!
Como toda mídia alternativa, o coletivo precisa de apoio. Como mídia alternativa combativa, o LUTARMADA merece esse apoio ainda mais. Compre o CD. Contatos: o_levante@yahoo.com.br
Clique aqui e ouça uma das músicas do novo CD: Abalando as estruturas globais
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5 de jun. de 2010
Um Robin Hood bem classe média
No filme de Ridley Scott, o príncipe dos ladrões parece mais um barão de classe média. Talvez, porque roubar dos ricos para dar aos pobres dependa de que ambos continuem a existir.
“Em tempos de tirania e injustiça, quando a lei oprime o povo, o fora-da-lei assume o seu papel na História. Isso aconteceu com a Inglaterra na virada do século 12”. A mensagem que inicia o filme era um dos princípios defendidos pelos burgueses quando surgiram como classe social.
A burguesia atual não gosta de lembrar isso. Em sua maturidade esclerosada prefere esquecer as loucuras da juventude, quando chegou a cortar cabeças coroadas. De qualquer maneira, o princípio refere-se à troca de governos no interior de um Estado de classe, não à extinção do próprio Estado. Este último é o objetivo dos socialistas revolucionários, incluindo os anarquistas. Aquele é o dos que querem manter a exploração de uns sobre os outros, incluindo muitos dos que se dizem socialistas.
No filme estrelado por Russell Crowe, o herói da floresta de Sherwood quase não aparece como o príncipe dos ladrões. Está mais para um barão de classe média. Nem é rei, nem é servo. Só quer um governo justo, não o fim de toda dominação e exploração, base das injustiças cometidas por todo governo.
O filme começa com o retorno de Ricardo Coração de Leão, após 10 anos de ausência. Entre os soldados de sua tropa, está Robin Hood, ainda conhecido como Robin Longstride. Diferente das versões mais conhecidas da história, o rei Ricardo morre logo no início. Durante o assalto a um castelo francês é atingido pela flecha certeira disparada por um cozinheiro. Talvez, uma brincadeira sobre a superioridade gastronômica do inimigo.
Morto o rei, Robin deserta do exército. Pretende cuidar da própria vida. Mas, o destino não deixa. Entre idas e vindas, acaba envolvido no combate a uma conspiração. Um nobre inglês alia-se ao rei da França para conquistar a Inglaterra.
Ao mesmo tempo, conhece Lady Marion (Cate Blanchett). Viúva, ela cuida de sua propriedade sozinha. Passa maus bocados com os impostos reais de um lado e o dízimo da Igreja, do outro. Só falta fazer um discurso sobre o peso da carga tributária. Tudo muito classe média.
Na versão de Scott, o maldoso Xerife de Nottingham fica em segundo plano. O vilão mesmo é Lorde Godfrey (Mark Strong), que colabora com os franceses. Outro vilão é o rei João (Oscar Isaac). Egoísta, maldoso, cheio de ambição e preguiça, ainda tem a péssima idéia de aumentar os impostos para fazer guerra aos franceses. O que deixa os barões furiosos. Querem derrubar o rei. Nem que para isso seja preciso apoiar uma invasão francesa.
São convencidos do contrário por Robin. O inimigo são os franceses, diz ele. Derrotados estes, cuidariam do rei João. E é o que acontece. Em troca de terem livrado o país dos invasores, os barões impõem ao soberano a assinatura de um documento que limita seus poderes. É a famosa Magna Carta, que seria o marco do início da monarquia constitucional inglesa.
Seria mas não foi. João coloca fogo no documento pouco depois de assiná-lo. Compra a maior briga com os barões. Só aí, Robin torna-se o fora-da-lei de que fala a mensagem do início do filme. Veste o capuz (o hood) dos bandoleiros e foge para a floresta.
O fato é que a simples assinatura de um rei nunca garantiu o respeito a direitos plebeus. Na vida real, o rei João não queimou a Magna Carta. Apenas deixou de cumpri-la. Foram necessários mais de quatro séculos até que a monarquia passasse a respeitar leis. Não com assinaturas em documentos, mas com a decapitação de Carlos I. Um ato que a burguesia nascente foi obrigada a cometer, pressionada pela luta de classes e não pela revolta com impostos altos.
Mas nada disso interessa a nosso herói. Junto com Marion, Robin parte para a floresta, onde não há “impostos, nem dízimos”. Lá, eles podem fazer um pouco de justiça social. A cena final parece comercial de ONG. Cercados por crianças sorridentes, eles cumprem sua missão de roubar dos ricos para dar aos pobres. Só que para isso, é preciso que uns e outros continuem a existir. E esta não é a principal razão de ser de muitas ONGs? Bem classe média.
“Em tempos de tirania e injustiça, quando a lei oprime o povo, o fora-da-lei assume o seu papel na História. Isso aconteceu com a Inglaterra na virada do século 12”. A mensagem que inicia o filme era um dos princípios defendidos pelos burgueses quando surgiram como classe social.
A burguesia atual não gosta de lembrar isso. Em sua maturidade esclerosada prefere esquecer as loucuras da juventude, quando chegou a cortar cabeças coroadas. De qualquer maneira, o princípio refere-se à troca de governos no interior de um Estado de classe, não à extinção do próprio Estado. Este último é o objetivo dos socialistas revolucionários, incluindo os anarquistas. Aquele é o dos que querem manter a exploração de uns sobre os outros, incluindo muitos dos que se dizem socialistas.
No filme estrelado por Russell Crowe, o herói da floresta de Sherwood quase não aparece como o príncipe dos ladrões. Está mais para um barão de classe média. Nem é rei, nem é servo. Só quer um governo justo, não o fim de toda dominação e exploração, base das injustiças cometidas por todo governo.
O filme começa com o retorno de Ricardo Coração de Leão, após 10 anos de ausência. Entre os soldados de sua tropa, está Robin Hood, ainda conhecido como Robin Longstride. Diferente das versões mais conhecidas da história, o rei Ricardo morre logo no início. Durante o assalto a um castelo francês é atingido pela flecha certeira disparada por um cozinheiro. Talvez, uma brincadeira sobre a superioridade gastronômica do inimigo.
Morto o rei, Robin deserta do exército. Pretende cuidar da própria vida. Mas, o destino não deixa. Entre idas e vindas, acaba envolvido no combate a uma conspiração. Um nobre inglês alia-se ao rei da França para conquistar a Inglaterra.
Ao mesmo tempo, conhece Lady Marion (Cate Blanchett). Viúva, ela cuida de sua propriedade sozinha. Passa maus bocados com os impostos reais de um lado e o dízimo da Igreja, do outro. Só falta fazer um discurso sobre o peso da carga tributária. Tudo muito classe média.
Na versão de Scott, o maldoso Xerife de Nottingham fica em segundo plano. O vilão mesmo é Lorde Godfrey (Mark Strong), que colabora com os franceses. Outro vilão é o rei João (Oscar Isaac). Egoísta, maldoso, cheio de ambição e preguiça, ainda tem a péssima idéia de aumentar os impostos para fazer guerra aos franceses. O que deixa os barões furiosos. Querem derrubar o rei. Nem que para isso seja preciso apoiar uma invasão francesa.
São convencidos do contrário por Robin. O inimigo são os franceses, diz ele. Derrotados estes, cuidariam do rei João. E é o que acontece. Em troca de terem livrado o país dos invasores, os barões impõem ao soberano a assinatura de um documento que limita seus poderes. É a famosa Magna Carta, que seria o marco do início da monarquia constitucional inglesa.
Seria mas não foi. João coloca fogo no documento pouco depois de assiná-lo. Compra a maior briga com os barões. Só aí, Robin torna-se o fora-da-lei de que fala a mensagem do início do filme. Veste o capuz (o hood) dos bandoleiros e foge para a floresta.
O fato é que a simples assinatura de um rei nunca garantiu o respeito a direitos plebeus. Na vida real, o rei João não queimou a Magna Carta. Apenas deixou de cumpri-la. Foram necessários mais de quatro séculos até que a monarquia passasse a respeitar leis. Não com assinaturas em documentos, mas com a decapitação de Carlos I. Um ato que a burguesia nascente foi obrigada a cometer, pressionada pela luta de classes e não pela revolta com impostos altos.
Mas nada disso interessa a nosso herói. Junto com Marion, Robin parte para a floresta, onde não há “impostos, nem dízimos”. Lá, eles podem fazer um pouco de justiça social. A cena final parece comercial de ONG. Cercados por crianças sorridentes, eles cumprem sua missão de roubar dos ricos para dar aos pobres. Só que para isso, é preciso que uns e outros continuem a existir. E esta não é a principal razão de ser de muitas ONGs? Bem classe média.
10 de mai. de 2010
A cara de pau do Homem de Ferro neoliberal
“Homem de Ferro 2” é conservador. E não esconde isso. Representa bem a união entre indústria, governo e forças armadas em defesa do mercado.
O novo filme do Homem de Ferro começa com um show. O super-herói aterrissa num palco entre dançarinas bonitas e faz um strip-tease de sua armadura para mostrar-se como empresário sucesso.
Em seu elegante terno, Tony Stark esbanja charme enquanto diz em alto e bom som que é o responsável pela paz americana. Diante de milhares de pessoas afirma que graças a ele o Tio Sam pode beber seu “chá gelado tranquilamente em sua cadeira de balanço”. Afinal, não há ninguém “que seja homem suficiente” para derrotá-lo.
Só a ótima atuação de Robert Downing Jr. salva a cena do completo ridículo. Mas, o que importa é a semelhança de seu discurso com aquele do governo americano após a queda da União Soviética, no início dos anos 1990. A diferença é que Ronald Reagan era um péssimo ator.
Tal semelhança não pode ser coincidência quando se revela que o inimigo mais perigoso do Homem de Ferro é um russo. Trata-se de Ivan Vanko (Mickey Rourke), filho de um cientista que trabalhou para os soviéticos. Vanko é inteligente, mas sua grande força física não tem a sutileza e a elegância do Homem de Ferro.
A diferença entre os dois lembra aquela que existia entre as economias soviética e americana. A primeira arrastava-se sob o peso de um capitalismo administrado pelo Estado. A segunda devia sua agilidade a um Estado empurrado pela rapidez com que o mercado ataca os direitos dos trabalhadores.
No filme, Stark representa a avançada indústria moderna. Alta tecnologia em máquinas e programas de computador combinada com armamento pesado. Tudo a ver com os objetivos do império americano.
No entanto, como típico empresário neoliberal, Stark só aceita usar seu poderio tecnológico como quer e segundo seus critérios. Se isso coincidir com os objetivos da sociedade, tudo bem. Claro que sendo um industrial, tais objetivos só podem estar relacionados aos interesses de quem está no poder. Por isso, ele ridiculariza o senado americano, mas no final mostrará que não se trata de coisa séria.
Mesmo as brigas de Stark com o amigo James Rhodes (Don Cheadle) são coisas de antiga camaradagem. Rhodes é coronel do Exército. A parceria entre eles parece representar o complexo industrial-militar que governa os Estados Unidos. Suas diferenças são facilmente superáveis em nome de objetivos parecidos. Dominar o mundo e lucrar muito com isso.
Justin Hammer, muito bem representado por Sam Rockwell, é apenas o empresário que não entendeu bem o jogo do poder. A apresentação de seu exército robótico na feira de Stark é de arrepiar. Monstros de metal, prontos a matar em qualquer parte do mundo. Mas, é de mau gosto apresentá-los dessa forma. E vai contra a lógica individualista, que precisa de um herói de carne e osso para entusiasmar o povo.
Aviões robôs já andam voando por aí, matando inocentes na Palestina, Iraque, Afeganistão. No entanto, não se deve dar mais destaque a sua tecnologia do que aos supostos objetivos a que servem: livrar o mundo do terrorismo para salvar a humanidade. O diabo é que a humanidade também está na linha de tiro. Hammer é derrotado, como são alguns empresários na cada vez mais selvagem competição capitalista.
No final, o super-herói, o coronel e o senador aparecem posando para fotos. A indústria, o exército e o governo abraçados. Meio a contra gosto, é verdade. Nada que não se revolva com muito dinheiro e mísseis.
O maior vencedor é Stark. A vitória é do mercado, dos valores individuais, do executivo que adora uma farra, mulheres bonitas e carrões. Às vezes, de smoking, às vezes, com um pijama de ferro. É o neoliberalismo, na maior cara-de-pau, mostrando que está muito longe de enferrujar.
O novo filme do Homem de Ferro começa com um show. O super-herói aterrissa num palco entre dançarinas bonitas e faz um strip-tease de sua armadura para mostrar-se como empresário sucesso.
Em seu elegante terno, Tony Stark esbanja charme enquanto diz em alto e bom som que é o responsável pela paz americana. Diante de milhares de pessoas afirma que graças a ele o Tio Sam pode beber seu “chá gelado tranquilamente em sua cadeira de balanço”. Afinal, não há ninguém “que seja homem suficiente” para derrotá-lo.
Só a ótima atuação de Robert Downing Jr. salva a cena do completo ridículo. Mas, o que importa é a semelhança de seu discurso com aquele do governo americano após a queda da União Soviética, no início dos anos 1990. A diferença é que Ronald Reagan era um péssimo ator.
Tal semelhança não pode ser coincidência quando se revela que o inimigo mais perigoso do Homem de Ferro é um russo. Trata-se de Ivan Vanko (Mickey Rourke), filho de um cientista que trabalhou para os soviéticos. Vanko é inteligente, mas sua grande força física não tem a sutileza e a elegância do Homem de Ferro.
A diferença entre os dois lembra aquela que existia entre as economias soviética e americana. A primeira arrastava-se sob o peso de um capitalismo administrado pelo Estado. A segunda devia sua agilidade a um Estado empurrado pela rapidez com que o mercado ataca os direitos dos trabalhadores.
No filme, Stark representa a avançada indústria moderna. Alta tecnologia em máquinas e programas de computador combinada com armamento pesado. Tudo a ver com os objetivos do império americano.
No entanto, como típico empresário neoliberal, Stark só aceita usar seu poderio tecnológico como quer e segundo seus critérios. Se isso coincidir com os objetivos da sociedade, tudo bem. Claro que sendo um industrial, tais objetivos só podem estar relacionados aos interesses de quem está no poder. Por isso, ele ridiculariza o senado americano, mas no final mostrará que não se trata de coisa séria.
Mesmo as brigas de Stark com o amigo James Rhodes (Don Cheadle) são coisas de antiga camaradagem. Rhodes é coronel do Exército. A parceria entre eles parece representar o complexo industrial-militar que governa os Estados Unidos. Suas diferenças são facilmente superáveis em nome de objetivos parecidos. Dominar o mundo e lucrar muito com isso.
Justin Hammer, muito bem representado por Sam Rockwell, é apenas o empresário que não entendeu bem o jogo do poder. A apresentação de seu exército robótico na feira de Stark é de arrepiar. Monstros de metal, prontos a matar em qualquer parte do mundo. Mas, é de mau gosto apresentá-los dessa forma. E vai contra a lógica individualista, que precisa de um herói de carne e osso para entusiasmar o povo.
Aviões robôs já andam voando por aí, matando inocentes na Palestina, Iraque, Afeganistão. No entanto, não se deve dar mais destaque a sua tecnologia do que aos supostos objetivos a que servem: livrar o mundo do terrorismo para salvar a humanidade. O diabo é que a humanidade também está na linha de tiro. Hammer é derrotado, como são alguns empresários na cada vez mais selvagem competição capitalista.
No final, o super-herói, o coronel e o senador aparecem posando para fotos. A indústria, o exército e o governo abraçados. Meio a contra gosto, é verdade. Nada que não se revolva com muito dinheiro e mísseis.
O maior vencedor é Stark. A vitória é do mercado, dos valores individuais, do executivo que adora uma farra, mulheres bonitas e carrões. Às vezes, de smoking, às vezes, com um pijama de ferro. É o neoliberalismo, na maior cara-de-pau, mostrando que está muito longe de enferrujar.
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3 de mai. de 2010
Chico Xavier e o espírito conservador
O filme de Daniel Filho confirma a idéia de um Chico Xavier caridoso e dedicado ao bem geral. Pode até ser, mas seus ensinamentos o tornaram querido pela grande mídia e útil aos poderosos.
Não é à toa que Daniel Filho tenha utilizado um programa de TV como eixo em torno do qual gira seu filme sobre Chico Xavier. Trata-se do programa de entrevistas “Pinga Fogo”, que era exibido pela antiga TV Tupi. Em sua edição de 28 de julho de 1971, o convidado foi o médium mineiro. Os responsáveis pelo programa sabiam de sua popularidade. Mas, não esperavam uma audiência tão grande. Dizem que cerca de 30 milhões de pessoas assistiram à atração.
A partir de então, Chico Xavier apareceu várias vezes na grande mídia. Apesar de sua popularidade desagradar a Igreja Católica, ele jamais incomodou os poderosos. Ao contrário, sua doutrina mostrou-se bastante confortável para a ordem dominante.
O filme passa longe dessa relação tranqüila, claro. Mas, dá um recado que certamente o maior líder espírita brasileiro aprovaria. Agüentem firmes os problemas da vida. As dificuldades, por pior que sejam, são penas que devemos cumprir com calma. Tudo faz parte de uma ordem superior, que foge ao nosso controle. Conformismo puro.
Na própria entrevista que prendeu milhões em frente à TV, 40 anos atrás, há trechos que deixam bastante clara essa disposição. Perguntado se sua posição era conformista, por exemplo, Chico Xavier respondeu:
Em plena ditadura militar, o tranqüilo médium pede apenas que as leis em vigor sejam respeitadas. Mesmo que elas permitam ou ordenem censura, perseguições, exílios, torturas e mortes. As vítimas de tais leis certamente cometeram muitos erros em suas encarnações passadas. Ainda bem que estavam sendo devidamente purgadas pelos “homens dignos que presidem os governos”.
O livro “Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” teria sido psicografado pelo médium e assinado pelo espírito do escritor Humberto de Campos. Nele, o Brasil teria sido escolhido por Jesus para ser sede de seus ensinamentos espirituais. A escolha teria sido feita porque o país manteve sua integridade territorial e sua história não teria registrado episódios sangrentos.
Esta é uma lenda muito repetida por setores conservadores, que querem nos convencer de que o povo brasileiro é dócil e ordeiro. E quem discorda disso, está querendo encrenca, fazendo baderna, nem merece ser chamado de brasileiro.
O fato é que a história brasileira está cheia de sangue derramado. Principalmente o do povo. A tal integridade territorial foi garantida ao custo de muitas revoltas populares massacradas. E durante o processo de independência, um dos elementos que uniu a classe dominante em todo o país foi o consenso sobre a necessidade de manter a escravidão.
Falando em escravidão, ainda em sua entrevista ao “Pinga-Fogo”, Chico Xavier deu sua explicação muito particular sobre a questão. Referindo-se aos negros, o médium disse que:
Porém, é preciso deixar claro que os negros merecem tratamento melhor, pois, ainda segundo Chico Xavier:
Como se sabe, a “compensação pelo amor” foi feita por muito tempo através do chicote e do tronco. Hoje, nem tanto. Ela se manifesta pela discriminação mais terrível. O que não impede que os negros continuem a ser vítimas de violência racial.
De qualquer maneira, é preciso serenidade. Afinal, “nós, no Brasil, não conseguimos pensar em termos de cor. Nós todos somos irmãos”.
Deve ser por isso, que o médium afirma que:
Claro que tais trechos da famosa entrevista não aparecem no filme de Daniel Filho. Parece óbvio que com raciocínios desse tipo, Chico Xavier tenha se mostrado uma atração televisiva popular que não representava o menor perigo para a ditadura militar. Afinal, um povo dócil, trabalhador e distante da política é o que os generais mais queriam.
Não á toa, Chico Xavier também inspirou novelas com temas espíritas. Com seus enredos pregando uma bondade e solidariedade distantes das coisas terrenas. Estas deveriam ser deixadas aos que cuidam da ordem, mesmo que sejam eles os principais responsáveis por cada vez mais tornar impossível uma ordem social solidária e generosa.
Os seguidores do espiritismo merecem todo o respeito, assim como o merecem os devotos das outras religiões. Chico Xavier realmente parece ter dedicado sua vida a ajudar os que precisam de auxílio. Aparentemente, não se aproveitou do respeito que conquistou para fazer fortuna e tornar-se poderoso.
No entanto, nada isso impede que suas ações sejam avaliadas pelos efeitos que causaram socialmente. No caso, trata-se de pregar um conformismo bastante útil aos que mandam e exploram. Por isso, sua vida foi parar nas telas de cinema sob patrocínio da GloboFilmes e da Sony Pictures. E com as bilheterias estourando, os conservadores podem continuar em paz com seus espíritos de porco.
Não é à toa que Daniel Filho tenha utilizado um programa de TV como eixo em torno do qual gira seu filme sobre Chico Xavier. Trata-se do programa de entrevistas “Pinga Fogo”, que era exibido pela antiga TV Tupi. Em sua edição de 28 de julho de 1971, o convidado foi o médium mineiro. Os responsáveis pelo programa sabiam de sua popularidade. Mas, não esperavam uma audiência tão grande. Dizem que cerca de 30 milhões de pessoas assistiram à atração.
A partir de então, Chico Xavier apareceu várias vezes na grande mídia. Apesar de sua popularidade desagradar a Igreja Católica, ele jamais incomodou os poderosos. Ao contrário, sua doutrina mostrou-se bastante confortável para a ordem dominante.
O filme passa longe dessa relação tranqüila, claro. Mas, dá um recado que certamente o maior líder espírita brasileiro aprovaria. Agüentem firmes os problemas da vida. As dificuldades, por pior que sejam, são penas que devemos cumprir com calma. Tudo faz parte de uma ordem superior, que foge ao nosso controle. Conformismo puro.
Na própria entrevista que prendeu milhões em frente à TV, 40 anos atrás, há trechos que deixam bastante clara essa disposição. Perguntado se sua posição era conformista, por exemplo, Chico Xavier respondeu:
“O espiritismo nos pede paciência para esperar os processos da evolução e as realizações dos homens dignos que presidem os governos, cooperando de nossa parte, tanto quanto possível, para que as leis desses mesmos governos sejam executadas”.
Em plena ditadura militar, o tranqüilo médium pede apenas que as leis em vigor sejam respeitadas. Mesmo que elas permitam ou ordenem censura, perseguições, exílios, torturas e mortes. As vítimas de tais leis certamente cometeram muitos erros em suas encarnações passadas. Ainda bem que estavam sendo devidamente purgadas pelos “homens dignos que presidem os governos”.
O livro “Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” teria sido psicografado pelo médium e assinado pelo espírito do escritor Humberto de Campos. Nele, o Brasil teria sido escolhido por Jesus para ser sede de seus ensinamentos espirituais. A escolha teria sido feita porque o país manteve sua integridade territorial e sua história não teria registrado episódios sangrentos.
Esta é uma lenda muito repetida por setores conservadores, que querem nos convencer de que o povo brasileiro é dócil e ordeiro. E quem discorda disso, está querendo encrenca, fazendo baderna, nem merece ser chamado de brasileiro.
O fato é que a história brasileira está cheia de sangue derramado. Principalmente o do povo. A tal integridade territorial foi garantida ao custo de muitas revoltas populares massacradas. E durante o processo de independência, um dos elementos que uniu a classe dominante em todo o país foi o consenso sobre a necessidade de manter a escravidão.
Falando em escravidão, ainda em sua entrevista ao “Pinga-Fogo”, Chico Xavier deu sua explicação muito particular sobre a questão. Referindo-se aos negros, o médium disse que:
“... buscamos no berço onde nasceram milhões de irmãos nossos reencarnados nas plagas africanas, para que eles servissem nas nossas casas, nas nossas famílias, instituições e organizações, na condição de alimárias (animais de carga)”.
Porém, é preciso deixar claro que os negros merecem tratamento melhor, pois, ainda segundo Chico Xavier:
“... eles renasceram do nosso próprio sangue, nas condições de nossos irmãos, para receberem, de nossa parte, uma compensação que é a compensação chamada de amor, para que eles sejam devidamente educados, encaminhados, tanto quanto nós pretendemos educar-nos e encaminhar-nos para o progresso.”
Como se sabe, a “compensação pelo amor” foi feita por muito tempo através do chicote e do tronco. Hoje, nem tanto. Ela se manifesta pela discriminação mais terrível. O que não impede que os negros continuem a ser vítimas de violência racial.
De qualquer maneira, é preciso serenidade. Afinal, “nós, no Brasil, não conseguimos pensar em termos de cor. Nós todos somos irmãos”.
Deve ser por isso, que o médium afirma que:
“... o espiritismo evangélico não se sente absolutamente inclinado a qualquer participação no partidarismo de ordem política para solucionar os problemas da vida material, conquanto reconheça que todos devemos trabalhar”.
Claro que tais trechos da famosa entrevista não aparecem no filme de Daniel Filho. Parece óbvio que com raciocínios desse tipo, Chico Xavier tenha se mostrado uma atração televisiva popular que não representava o menor perigo para a ditadura militar. Afinal, um povo dócil, trabalhador e distante da política é o que os generais mais queriam.
Não á toa, Chico Xavier também inspirou novelas com temas espíritas. Com seus enredos pregando uma bondade e solidariedade distantes das coisas terrenas. Estas deveriam ser deixadas aos que cuidam da ordem, mesmo que sejam eles os principais responsáveis por cada vez mais tornar impossível uma ordem social solidária e generosa.
Os seguidores do espiritismo merecem todo o respeito, assim como o merecem os devotos das outras religiões. Chico Xavier realmente parece ter dedicado sua vida a ajudar os que precisam de auxílio. Aparentemente, não se aproveitou do respeito que conquistou para fazer fortuna e tornar-se poderoso.
No entanto, nada isso impede que suas ações sejam avaliadas pelos efeitos que causaram socialmente. No caso, trata-se de pregar um conformismo bastante útil aos que mandam e exploram. Por isso, sua vida foi parar nas telas de cinema sob patrocínio da GloboFilmes e da Sony Pictures. E com as bilheterias estourando, os conservadores podem continuar em paz com seus espíritos de porco.
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8 de abr. de 2010
Capitalismo e Michael Moore: um caso mal resolvido
Capitalismo: uma história de amor é mais um ótimo filme de Michael Moore. Mas, o próprio diretor parece ter dificuldades em romper radicalmente com aquilo que denuncia tão bem.
Lançado cerca de um ano após a crise que derrubou a economia norte-americana, o filme tem como alvo principal a ajuda bilionária dada pelo governo americano a bancos falidos.
A crise de 2008 causou a maior quebra de empresas, perda de empregos e aumento da pobreza nos Estados Unidos desde 1929. Moore retrata o desespero de famílias perdendo suas casas e o desemprego causando tragédias pessoais. Tudo isso naquele que é considerado o país mais rico e poderoso do mundo.
O filme mostra como os causadores de toda essa desgraça ainda saíram com lucro. Os bancos receberam 700 bilhões de dólares do governo, sem precisar prestar contas de seu uso. Resultado: as demissões continuaram, os altos executivos mantiveram seus salários milionários e a roleta do cassino de Wall Street ganhou novo impulso.
Apesar de tudo isso, os Estados Unidos vivem uma antiga “love story” com o capitalismo, diz Moore. E ele quer saber por que. No entanto, a própria visão que o cineasta tem do capitalismo parece ser parte da resposta. Algumas vezes, ele dá a entender que o capitalismo já foi bom. Mais precisamente, quando havia maior concorrência. E valores como liberdade e igualdade eram respeitados.
Moore cita pessoas e valores que respeita. É o caso do presidente Franklin Roosevelt e sua “segunda declaração dos direitos”, de 1944. O documento, que reconhecia direitos sociais mínimos para todos os americanos, foi anunciado pouco antes de seu autor morrer. Por isso jamais teria sido colocada em prática.
Outra referência positiva para Moore são os “pais fundadores da nação americana”. Homens como George Washington, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin. Autores da famosa e elogiada Declaração de Independência dos Estados Unidos.
Roosevelt pode até parecer alguém “do bem” entre tantos presidentes estadunidenses diabólicos. Seu famoso “New Deal” melhorou a situação de milhões de trabalhadores em meio à depressão econômica dos anos 1930. Trata-se de um pacote de medidas que geraram mais empregos e asseguraram alguma assistência social para os pobres.
No entanto, a recuperação econômica só veio mesmo com os gastos em armamentos. A entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra reaqueceu a indústria americana. Roosevelt sabia disso e não vacilou em mandar muita gente pra morte na Europa para fazer a alegria de seus amigos industriais.
Além disso, de bonzinho, Roosevelt não tinha nada. Foi ele que deu início à fabricação da bomba atômica. Morreu antes que a terrível arma ficasse pronta. Antes disso, autorizou bombardeios aéreos sobre cidades japonesas que mataram mais civis do que as explosões de Hiroxima e Nagasaki.
Roosevelt também foi o responsável pela construção de campos de concentração em terras americanas. Prisões em que foram jogados mais de 100 mil homens, mulheres e crianças cujo maior crime era sua origem japonesa.
Moore diz no filme que as coisas só melhoraram na Europa, depois da guerra, porque a equipe de Roosevelt foi para lá. Eles teriam sido responsáveis pela adoção de bons serviços públicos na Alemanha, por exemplo. Explicação simplista. O chamado “Estado de Bem-Estar Social” é produto muito mais do medo dos governantes e patrões europeus diante da imagem positiva que os comunistas conquistaram com sua resistência heroica ao fascismo.
Quanto aos “pais fundadores”, a independência em relação à Inglaterra que promoveram foi muito mais um movimento de elite em que a bucha de canhão foi o povo. Washington e Franklin estavam entre os homens mais ricos da colônia. Jefferson foi um grande proprietário de escravos. Estes, os índios, os brancos pobres e as mulheres jamais foram objeto da preocupação dos criadores da “grande pátria americana”.
Em relação à boa e velha concorrência, nos anos posteriores à independência, cerca 2/3 das terras pertenciam a uns 3% da população. Entre estes, estavam, claro, os queridos “papais” da nação ianque. O nome disso era monopólio já naquela época.
No filme, Moore lê alguns trechos da Declaração de Independência. Cita os princípios de justiça e igualdade que encontra escritos ali. Mas, nada diz sobre um trecho que faz referência aos indígenas como seres “selvagens e impiedosos, que adotavam como regra de guerra a destruição sem distinção de idade, sexo e condições”.
Com uma certidão de nascimento como essa não é difícil entender como o capitalismo funciona tão bem em terras americanas. Moore chega a dizer que o capitalismo representa o mal. Não tem como ser regulado. Deve ser eliminado e substituído pela democracia. Ele evita citar o socialismo. Refere-se ao conceito como “aquela palavra que também termina em ‘ismo’”.
Ao que parece, o cineasta é a favor de algo parecido com o que estaria em vigor na Europa e Canadá. Um sistema público decente. Um Estado que cuidasse também das necessidades e interesses dos mais pobres. É compreensível num país em que defender um sistema universal de saúde pública é tratado como proposta de comunistas ou fascistas.
Mas, o espaço para políticas públicas que realmente atendam os mais pobres é cada vez menor nos aparelhos estatais. E jamais foram tão eficientes e amplos em mais do que uma dúzia de países.
Moore cita as experiências cooperativistas como uma possível saída. É preciso democratizar os locais de trabalho. Permitir aos trabalhadores que controlem a produção, diz ele. No entanto, o nome que se costuma dar para isso é exatamente socialismo.
E a pré-condição para o socialismo é o fim da propriedade privada dos meios de produção. Sem isso, experiências solidárias de produção continuarão a ser marginais. Cooperativas são iniciativas que dificilmente sobrevivem à feroz concorrência capitalista. Ou morrem, ou tornam-se empresas que exploram seus trabalhadores como fazem as outras.
Arrancar dos patrões o enorme controle que têm sobre tais meios somente é possível através da tomada do poder pelos pobres e explorados. Não para reformar o Estado atual nem para montar outro que seja autoritário e centralizador. Mas aí já seria pedir demais para o genial documentarista estadunidense.
Moore já colabora bastante ao expor as mazelas do capitalismo em pleno centro do poder mundial. Quem sabe nosso avantajado amigo ainda se convença de que a tal história de amor sempre foi uma longa novela de terror.
Quem quiser conhecer melhor a história do império americano e das lutas de seu povo deve ler: “A história dos Estados Unidos, das origens ao século XXI” de Leandro Karnal, Sean Purdy, Luiz Estevam Fernandes e Marcus Vinícius de Morais e “Uma história do povo dos Estados Unidos” de Howard Zinn.
Leia também:
Clooney deseja boa sorte à ditadura perfeita
Lançado cerca de um ano após a crise que derrubou a economia norte-americana, o filme tem como alvo principal a ajuda bilionária dada pelo governo americano a bancos falidos.
A crise de 2008 causou a maior quebra de empresas, perda de empregos e aumento da pobreza nos Estados Unidos desde 1929. Moore retrata o desespero de famílias perdendo suas casas e o desemprego causando tragédias pessoais. Tudo isso naquele que é considerado o país mais rico e poderoso do mundo.
O filme mostra como os causadores de toda essa desgraça ainda saíram com lucro. Os bancos receberam 700 bilhões de dólares do governo, sem precisar prestar contas de seu uso. Resultado: as demissões continuaram, os altos executivos mantiveram seus salários milionários e a roleta do cassino de Wall Street ganhou novo impulso.
Apesar de tudo isso, os Estados Unidos vivem uma antiga “love story” com o capitalismo, diz Moore. E ele quer saber por que. No entanto, a própria visão que o cineasta tem do capitalismo parece ser parte da resposta. Algumas vezes, ele dá a entender que o capitalismo já foi bom. Mais precisamente, quando havia maior concorrência. E valores como liberdade e igualdade eram respeitados.
Moore cita pessoas e valores que respeita. É o caso do presidente Franklin Roosevelt e sua “segunda declaração dos direitos”, de 1944. O documento, que reconhecia direitos sociais mínimos para todos os americanos, foi anunciado pouco antes de seu autor morrer. Por isso jamais teria sido colocada em prática.
Outra referência positiva para Moore são os “pais fundadores da nação americana”. Homens como George Washington, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin. Autores da famosa e elogiada Declaração de Independência dos Estados Unidos.
Roosevelt pode até parecer alguém “do bem” entre tantos presidentes estadunidenses diabólicos. Seu famoso “New Deal” melhorou a situação de milhões de trabalhadores em meio à depressão econômica dos anos 1930. Trata-se de um pacote de medidas que geraram mais empregos e asseguraram alguma assistência social para os pobres.
No entanto, a recuperação econômica só veio mesmo com os gastos em armamentos. A entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra reaqueceu a indústria americana. Roosevelt sabia disso e não vacilou em mandar muita gente pra morte na Europa para fazer a alegria de seus amigos industriais.
Além disso, de bonzinho, Roosevelt não tinha nada. Foi ele que deu início à fabricação da bomba atômica. Morreu antes que a terrível arma ficasse pronta. Antes disso, autorizou bombardeios aéreos sobre cidades japonesas que mataram mais civis do que as explosões de Hiroxima e Nagasaki.
Roosevelt também foi o responsável pela construção de campos de concentração em terras americanas. Prisões em que foram jogados mais de 100 mil homens, mulheres e crianças cujo maior crime era sua origem japonesa.
Moore diz no filme que as coisas só melhoraram na Europa, depois da guerra, porque a equipe de Roosevelt foi para lá. Eles teriam sido responsáveis pela adoção de bons serviços públicos na Alemanha, por exemplo. Explicação simplista. O chamado “Estado de Bem-Estar Social” é produto muito mais do medo dos governantes e patrões europeus diante da imagem positiva que os comunistas conquistaram com sua resistência heroica ao fascismo.
Quanto aos “pais fundadores”, a independência em relação à Inglaterra que promoveram foi muito mais um movimento de elite em que a bucha de canhão foi o povo. Washington e Franklin estavam entre os homens mais ricos da colônia. Jefferson foi um grande proprietário de escravos. Estes, os índios, os brancos pobres e as mulheres jamais foram objeto da preocupação dos criadores da “grande pátria americana”.
Em relação à boa e velha concorrência, nos anos posteriores à independência, cerca 2/3 das terras pertenciam a uns 3% da população. Entre estes, estavam, claro, os queridos “papais” da nação ianque. O nome disso era monopólio já naquela época.
No filme, Moore lê alguns trechos da Declaração de Independência. Cita os princípios de justiça e igualdade que encontra escritos ali. Mas, nada diz sobre um trecho que faz referência aos indígenas como seres “selvagens e impiedosos, que adotavam como regra de guerra a destruição sem distinção de idade, sexo e condições”.
Com uma certidão de nascimento como essa não é difícil entender como o capitalismo funciona tão bem em terras americanas. Moore chega a dizer que o capitalismo representa o mal. Não tem como ser regulado. Deve ser eliminado e substituído pela democracia. Ele evita citar o socialismo. Refere-se ao conceito como “aquela palavra que também termina em ‘ismo’”.
Ao que parece, o cineasta é a favor de algo parecido com o que estaria em vigor na Europa e Canadá. Um sistema público decente. Um Estado que cuidasse também das necessidades e interesses dos mais pobres. É compreensível num país em que defender um sistema universal de saúde pública é tratado como proposta de comunistas ou fascistas.
Mas, o espaço para políticas públicas que realmente atendam os mais pobres é cada vez menor nos aparelhos estatais. E jamais foram tão eficientes e amplos em mais do que uma dúzia de países.
Moore cita as experiências cooperativistas como uma possível saída. É preciso democratizar os locais de trabalho. Permitir aos trabalhadores que controlem a produção, diz ele. No entanto, o nome que se costuma dar para isso é exatamente socialismo.
E a pré-condição para o socialismo é o fim da propriedade privada dos meios de produção. Sem isso, experiências solidárias de produção continuarão a ser marginais. Cooperativas são iniciativas que dificilmente sobrevivem à feroz concorrência capitalista. Ou morrem, ou tornam-se empresas que exploram seus trabalhadores como fazem as outras.
Arrancar dos patrões o enorme controle que têm sobre tais meios somente é possível através da tomada do poder pelos pobres e explorados. Não para reformar o Estado atual nem para montar outro que seja autoritário e centralizador. Mas aí já seria pedir demais para o genial documentarista estadunidense.
Moore já colabora bastante ao expor as mazelas do capitalismo em pleno centro do poder mundial. Quem sabe nosso avantajado amigo ainda se convença de que a tal história de amor sempre foi uma longa novela de terror.
Quem quiser conhecer melhor a história do império americano e das lutas de seu povo deve ler: “A história dos Estados Unidos, das origens ao século XXI” de Leandro Karnal, Sean Purdy, Luiz Estevam Fernandes e Marcus Vinícius de Morais e “Uma história do povo dos Estados Unidos” de Howard Zinn.
Leia também:
Clooney deseja boa sorte à ditadura perfeita
22 de fev. de 2010
Invictus: belas vitórias em batalhas perdidas
Clint Eastwood fez homenagem merecida a Nelson Mandela. Mas, as vitórias do grande líder negro jamais foram suficientes para vencer a batalha contra a injustiça e o racismo na África do Sul.
Invictus começa com a imagem de um treino de rúgbi. Os jogadores são brancos e utilizam um campo bem cuidado. No outro lado da rua, crianças e jovens negros jogam uma pelada num terreno esburacado.
Surge uma caravana de automóveis. Vinha escoltando Nelson Mandela, que havia acabado de ser libertado após 27 anos de prisão. Os “peladeiros” vibram. Os atletas brancos não sabem o que pensar. Perguntam ao seu técnico o que significa aquilo. A resposta é clara: “significa que nosso país está sendo entregue aos cães”.
Em 1994, quatro anos depois, Mandela assumiria a presidência do país. A resposta do técnico de rúgbi mostra o tamanho da encrenca que isso significava num país em que o racismo tinha força de lei.
O temor dos brancos era a vingança por parte daqueles a quem dominaram de forma impiedosa. A vontade da maioria dos negros era fazer justiça depois de tantos anos de sofrimento. Sair da miséria e humilhação em que foram jogados.
O presidente recém-eleito não queria confrontos. Pretendia mostrar que governaria para todos. Precisava dar demonstrações de boa vontade aos antigos senhores sem decepcionar seus velhos companheiros de luta e a população que votara nele. Uma tarefa nada fácil. Mas, se havia alguém capaz de cumpri-la, era Mandela. Invictus é sobre um episódio em que ele mostra toda o seu carisma e habilidade política.
Logo que toma posse, Mandela fica sabendo que a Copa Mundial de rúgbi acontecerá na África do Sul. O esporte é muito popular no país. Mas, tem a cara dos brancos. Por isso, a maioria negra torce contra a seleção sul-africana. Para piorar, o time esta em má fase e coleciona fracassos.
Apesar de tudo isso, Mandela vê no evento uma grande chance para unir o país. Ele não quer apenas o título mundial para a África do Sul. Quer ver os negros torcendo pelo time dos brancos. Consegue tudo o que queria. O país inteiro torce por sua seleção e comemora a conquista do título mundial. Clint Eastwood, Morgan Freeman e Matt Damon contam a história desta vitória com muito talento e emoção.
Infelizmente, é só metade da missa. Em 2010, Completam-se 20 anos da libertação de Mandela. São 16 anos desde sua eleição à presidência. Mas, não é possível dizer que a situação dos negros melhorou. Ao contrário, a concentração de renda aumentou.
Em 1990, 38% da riqueza produzida ficavam com os empresários na forma de lucros. Em 2005, essa proporção cresceu para 42%. Hoje, a África do Sul está entre os 10 países com pior distribuição de renda no mundo, fazendo companhia ao Brasil.
O número de pessoas vivendo em favelas cresceu 26% entre 1999 e 2001. Em 2005, havia 2,4 milhões de pessoas vivendo nesse tipo de habitação. São quase 5% da população. Uma em cada três pessoas em idade de trabalhar está desempregada.
Surgiu uma pequena classe média negra. Mas, 95% dos pobres continuam sendo negros. E os poucos que conseguiram subir na vida, estão longe de pertencer ao clube dos que controlam as grandes empresas do país. Qualquer crise econômica mais séria pode jogá-los de volta para baixo.
Um novo grande evento esportivo acontecerá este ano na África do Sul. É a Copa Mundial de Futebol. Como já aconteceu em muitos outros países, populações pobres estão sendo expulsas de seus bairros para dar lugar à construção de estádios enormes, luxuosos e caros.
Muitos moradores estão sendo transferidos para lugares distantes de seus locais de trabalho e com transporte público precário. Uma dessas áreas recebeu o nome de “Blikkiesdorp”, que quer dizer cidade de lata. Suas casas são feitas de zinco e cada família tem apenas 18 metros quadrados para morar.
Tudo isso é produto de 20 anos de aplicação rigorosa e obediente das políticas neoliberais recomendadas pelo FMI e outros organismos internacionais.
O Apartheid está morto e enterrado. Mandela é sem dúvida o maior responsável por isso. Não é pouca coisa acabar com um sistema de racismo legalizado. Mas, não é o bastante também. Afinal, leis racistas estragam o discurso da liberdade e igualdade que a burguesia usa para justificar seu poder.
Mandela fez como muitos outros filhos da resistência popular ao chegarem ao poder. Procurou governar para todos. Mas, não se governa para todos a partir de um Estado moldado para funcionar a serviço dos interesses de uma minoria. Não é um esporte, com regras justas e forças semelhantes se enfrentando.
Às vezes, raras vezes, é possível arrancar algumas conquistas. Serviços públicos de saúde, educação, moradia etc. Estas conquistas são outro exemplo de vitórias muito provisórias. Na maioria dos casos, elas viram pó ou vão sendo restringidas até perderem efeito para a maior parte da população.
Mandela, nem isso fez. Ele e seus sucessores jamais avançaram na construção de serviços públicos. Limitaram-se a deixar o capitalismo agir. E o simples funcionamento do capitalismo concentra cada vez mais riqueza e produz injustiça social. As vítimas da discriminação racial sentem o peso disso mais do que o restante dos explorados. Hoje, na África do Sul, o racismo vence pela livre concorrência.
Mandela merece todo o respeito por suas vitórias. Pena que elas tenham sido insuficientes para vencer as batalhas mais importantes. Aquelas contra a injustiça e a exploração na feroz guerra de classes com que o domínio do capital vem arrasando os povos do planeta. Os poderosos continuarão a vencer se nos limitarmos a jogar em seu campo, seguindo as regras injustas que inventaram para permanecer invictos.
Sérgio Domingues – fevereiro de 2010
Algumas informações deste texto podem ser encontradas em:
South Africa’s World Cup stadium of slums
South Africa: revolution delayed
Invictus começa com a imagem de um treino de rúgbi. Os jogadores são brancos e utilizam um campo bem cuidado. No outro lado da rua, crianças e jovens negros jogam uma pelada num terreno esburacado.
Surge uma caravana de automóveis. Vinha escoltando Nelson Mandela, que havia acabado de ser libertado após 27 anos de prisão. Os “peladeiros” vibram. Os atletas brancos não sabem o que pensar. Perguntam ao seu técnico o que significa aquilo. A resposta é clara: “significa que nosso país está sendo entregue aos cães”.
Em 1994, quatro anos depois, Mandela assumiria a presidência do país. A resposta do técnico de rúgbi mostra o tamanho da encrenca que isso significava num país em que o racismo tinha força de lei.
O temor dos brancos era a vingança por parte daqueles a quem dominaram de forma impiedosa. A vontade da maioria dos negros era fazer justiça depois de tantos anos de sofrimento. Sair da miséria e humilhação em que foram jogados.
O presidente recém-eleito não queria confrontos. Pretendia mostrar que governaria para todos. Precisava dar demonstrações de boa vontade aos antigos senhores sem decepcionar seus velhos companheiros de luta e a população que votara nele. Uma tarefa nada fácil. Mas, se havia alguém capaz de cumpri-la, era Mandela. Invictus é sobre um episódio em que ele mostra toda o seu carisma e habilidade política.
Logo que toma posse, Mandela fica sabendo que a Copa Mundial de rúgbi acontecerá na África do Sul. O esporte é muito popular no país. Mas, tem a cara dos brancos. Por isso, a maioria negra torce contra a seleção sul-africana. Para piorar, o time esta em má fase e coleciona fracassos.
Apesar de tudo isso, Mandela vê no evento uma grande chance para unir o país. Ele não quer apenas o título mundial para a África do Sul. Quer ver os negros torcendo pelo time dos brancos. Consegue tudo o que queria. O país inteiro torce por sua seleção e comemora a conquista do título mundial. Clint Eastwood, Morgan Freeman e Matt Damon contam a história desta vitória com muito talento e emoção.
Infelizmente, é só metade da missa. Em 2010, Completam-se 20 anos da libertação de Mandela. São 16 anos desde sua eleição à presidência. Mas, não é possível dizer que a situação dos negros melhorou. Ao contrário, a concentração de renda aumentou.
Em 1990, 38% da riqueza produzida ficavam com os empresários na forma de lucros. Em 2005, essa proporção cresceu para 42%. Hoje, a África do Sul está entre os 10 países com pior distribuição de renda no mundo, fazendo companhia ao Brasil.
O número de pessoas vivendo em favelas cresceu 26% entre 1999 e 2001. Em 2005, havia 2,4 milhões de pessoas vivendo nesse tipo de habitação. São quase 5% da população. Uma em cada três pessoas em idade de trabalhar está desempregada.
Surgiu uma pequena classe média negra. Mas, 95% dos pobres continuam sendo negros. E os poucos que conseguiram subir na vida, estão longe de pertencer ao clube dos que controlam as grandes empresas do país. Qualquer crise econômica mais séria pode jogá-los de volta para baixo.
Um novo grande evento esportivo acontecerá este ano na África do Sul. É a Copa Mundial de Futebol. Como já aconteceu em muitos outros países, populações pobres estão sendo expulsas de seus bairros para dar lugar à construção de estádios enormes, luxuosos e caros.
Muitos moradores estão sendo transferidos para lugares distantes de seus locais de trabalho e com transporte público precário. Uma dessas áreas recebeu o nome de “Blikkiesdorp”, que quer dizer cidade de lata. Suas casas são feitas de zinco e cada família tem apenas 18 metros quadrados para morar.
Tudo isso é produto de 20 anos de aplicação rigorosa e obediente das políticas neoliberais recomendadas pelo FMI e outros organismos internacionais.
O Apartheid está morto e enterrado. Mandela é sem dúvida o maior responsável por isso. Não é pouca coisa acabar com um sistema de racismo legalizado. Mas, não é o bastante também. Afinal, leis racistas estragam o discurso da liberdade e igualdade que a burguesia usa para justificar seu poder.
Mandela fez como muitos outros filhos da resistência popular ao chegarem ao poder. Procurou governar para todos. Mas, não se governa para todos a partir de um Estado moldado para funcionar a serviço dos interesses de uma minoria. Não é um esporte, com regras justas e forças semelhantes se enfrentando.
Às vezes, raras vezes, é possível arrancar algumas conquistas. Serviços públicos de saúde, educação, moradia etc. Estas conquistas são outro exemplo de vitórias muito provisórias. Na maioria dos casos, elas viram pó ou vão sendo restringidas até perderem efeito para a maior parte da população.
Mandela, nem isso fez. Ele e seus sucessores jamais avançaram na construção de serviços públicos. Limitaram-se a deixar o capitalismo agir. E o simples funcionamento do capitalismo concentra cada vez mais riqueza e produz injustiça social. As vítimas da discriminação racial sentem o peso disso mais do que o restante dos explorados. Hoje, na África do Sul, o racismo vence pela livre concorrência.
Mandela merece todo o respeito por suas vitórias. Pena que elas tenham sido insuficientes para vencer as batalhas mais importantes. Aquelas contra a injustiça e a exploração na feroz guerra de classes com que o domínio do capital vem arrasando os povos do planeta. Os poderosos continuarão a vencer se nos limitarmos a jogar em seu campo, seguindo as regras injustas que inventaram para permanecer invictos.
Sérgio Domingues – fevereiro de 2010
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7 de fev. de 2010
Guerra ao terror. Ao terror imperialista
O filme de Kathryn Bigelow denuncia os terríveis efeitos da ocupação do Iraque em soldados americanos. Não mostra o sofrimento do povo iraquiano. Acaba justificando o terror imperialista.
Guerra ao terror conta a história de soldados americanos que estão a poucos dias de deixar o Iraque. Eles formam uma equipe anti-bombas. Desempenham uma atividade que envolve enorme tensão. Não só pelo trabalho em si, mas porque deixa claro o enorme ódio que cerca a presença das tropas invasoras.
Não se trata de combate aberto diante de tropas armadas. São ameaças que partem de civis. Gente aparentemente pacata, desarmada, ocupada com suas tarefas cotidianas. São pessoas que podem fazer um gesto e pôr abaixo um prédio. Acelerar um automóvel e destruir um quarteirão. Largar uma sacola e despedaçar alguns soldados. Explodir o próprio corpo e matar um pelotão inteiro.
A câmera agitada e a imagem com cores apagadas dão ao filme um clima de documentário. O cenário é árido e seco. Sem árvores. “Sem grama”, como diz um dos personagens. Quando não estão em combate, os soldados dividem um ambiente de desesperada violência masculina. Tudo isso torna o filme um belo trabalho de suspense e ação.
A produção também poderia ser uma denúncia radical do crime que representa a ocupação do Iraque. Não é. Não é principalmente porque o ponto de vista adotado é o mesmo das tropas invasoras. Um olhar cego à violência que sofre um povo dominado por estrangeiros. Por isso, há pouco espaço para entender algo tão desesperado como a ação dos homens-bomba.
No entanto, algo parecido ocorreu em vários momentos da história de outros povos sob ataque. Ou seriam menos suicidas as ações do povo francês em defesa da República de 1789 contra as poderosas monarquias da época? Ou dos russos, defendendo sua revolução contra exércitos de 14 países? E o combate da Comuna de Paris contra os exércitos franceses e alemães unidos? Sem falar na heróica luta dos vietnamitas.
Na falta de um contexto para o comportamento dos iraquianos, muitos de nós podem adotar a estranheza com que os soldados invasores olham para eles. Fica difícil entender porque aquele povo odeia tanto aqueles que o libertaram do diabólico Saddam Hussein.
O fato é que tal ponto de vista não dá conta de uma grande contradição. Se Saddam era um ditador sanguinário, não poderia ser derrubado por aqueles que o tornaram poderoso. Aqueles que armaram sua ditadura e aprovaram sua brutalidade não podem ser melhores do que ele.
E isto ficou mais do que provado. Hoje, o Iraque não passa de uma possessão dos Estados Unidos. É seu campo de petróleo mais produtivo. Um dos melhores investimentos para suas grandes empresas. Um campo de extermínio humano para testar suas modernas armas.
Pior que isso, os invasores não respeitam suas tradições, seus costumes, suas crenças. Só lhes têm desprezo. Diante disso, a resistência iraquiana utiliza todas as suas armas. E a principal delas é a consciência de que lutam uma guerra justa. Guerra ao terror não mostra este lado.
Num dos momentos mais tensos do filme, surge um homem em cujo corpo foram colocadas bombas contra sua vontade. Em outra cena, a equipe descobre uma bomba dentro do cadáver de um garoto.
Claro que ações desse tipo ocorrem no Iraque. Mas, não podem ser muito freqüentes. Ou não deveriam. Do contrário, a resistência iraquiana perderia apoio rapidamente. Também ela se tornaria tão ruim quanto os invasores que combate.
Quanto às tropas invasoras, muitos de seus membros também julgam lutar por valores justos. Liberdade, democracia, justiça. Nada disso é confirmado pela realidade. Querer impor liberdade, justiça e democracia só leva a mais opressão, desigualdade e autoritarismo.
No entanto, soldados não são treinados para entender as razões de uma guerra. São adestrados para vencê-la a qualquer custo. No caso dos soldados americanos, diante do enorme poder de seu exército, o maior prejuízo tem sido a perda de sua saúde mental.
Denunciar essa situação parece ser o principal objetivo do filme de Bigelow. A disposição com que o personagem principal desarma bombas e manipula explosivos mostra que para ele a guerra funciona como uma droga.
É isso o que diz o letreiro inicial do filme: “A emoção da batalha costuma ser um vício forte e letal, pois a guerra é uma droga”. Trata-se de uma frase do correspondente de guerra, Chris Hedges. Guerras nunca são boas. Mesmo quem passou por conflitos militares convicto de que foram necessários, com certeza teria preferido viver sem essa terrível experiência.
Mas, há guerras que precisam ser travadas. Aquelas de libertação nacional. As que combatem a dominação e a exploração. Impedem o avanço do fascismo. Defendem um mundo livre da destruição capitalista.
O final do filme de Kathryn Bigelow parece dizer que, apesar de tudo, a guerra travada no Iraque merece ser lutada. Até admite que seus motivos são duvidosos, mas, como diria Obama, “nossos rapazes estão lá e precisam de uma saída honrosa”. Ainda que isso implique aterrorizar um povo inteiro. São as razões de quem lidera o imperialismo mundial. Por isso Guerra ao Terror vem recebendo o reconhecimento de sua indústria.
Guerra ao terror conta a história de soldados americanos que estão a poucos dias de deixar o Iraque. Eles formam uma equipe anti-bombas. Desempenham uma atividade que envolve enorme tensão. Não só pelo trabalho em si, mas porque deixa claro o enorme ódio que cerca a presença das tropas invasoras.
Não se trata de combate aberto diante de tropas armadas. São ameaças que partem de civis. Gente aparentemente pacata, desarmada, ocupada com suas tarefas cotidianas. São pessoas que podem fazer um gesto e pôr abaixo um prédio. Acelerar um automóvel e destruir um quarteirão. Largar uma sacola e despedaçar alguns soldados. Explodir o próprio corpo e matar um pelotão inteiro.
A câmera agitada e a imagem com cores apagadas dão ao filme um clima de documentário. O cenário é árido e seco. Sem árvores. “Sem grama”, como diz um dos personagens. Quando não estão em combate, os soldados dividem um ambiente de desesperada violência masculina. Tudo isso torna o filme um belo trabalho de suspense e ação.
A produção também poderia ser uma denúncia radical do crime que representa a ocupação do Iraque. Não é. Não é principalmente porque o ponto de vista adotado é o mesmo das tropas invasoras. Um olhar cego à violência que sofre um povo dominado por estrangeiros. Por isso, há pouco espaço para entender algo tão desesperado como a ação dos homens-bomba.
No entanto, algo parecido ocorreu em vários momentos da história de outros povos sob ataque. Ou seriam menos suicidas as ações do povo francês em defesa da República de 1789 contra as poderosas monarquias da época? Ou dos russos, defendendo sua revolução contra exércitos de 14 países? E o combate da Comuna de Paris contra os exércitos franceses e alemães unidos? Sem falar na heróica luta dos vietnamitas.
Na falta de um contexto para o comportamento dos iraquianos, muitos de nós podem adotar a estranheza com que os soldados invasores olham para eles. Fica difícil entender porque aquele povo odeia tanto aqueles que o libertaram do diabólico Saddam Hussein.
O fato é que tal ponto de vista não dá conta de uma grande contradição. Se Saddam era um ditador sanguinário, não poderia ser derrubado por aqueles que o tornaram poderoso. Aqueles que armaram sua ditadura e aprovaram sua brutalidade não podem ser melhores do que ele.
E isto ficou mais do que provado. Hoje, o Iraque não passa de uma possessão dos Estados Unidos. É seu campo de petróleo mais produtivo. Um dos melhores investimentos para suas grandes empresas. Um campo de extermínio humano para testar suas modernas armas.
Pior que isso, os invasores não respeitam suas tradições, seus costumes, suas crenças. Só lhes têm desprezo. Diante disso, a resistência iraquiana utiliza todas as suas armas. E a principal delas é a consciência de que lutam uma guerra justa. Guerra ao terror não mostra este lado.
Num dos momentos mais tensos do filme, surge um homem em cujo corpo foram colocadas bombas contra sua vontade. Em outra cena, a equipe descobre uma bomba dentro do cadáver de um garoto.
Claro que ações desse tipo ocorrem no Iraque. Mas, não podem ser muito freqüentes. Ou não deveriam. Do contrário, a resistência iraquiana perderia apoio rapidamente. Também ela se tornaria tão ruim quanto os invasores que combate.
Quanto às tropas invasoras, muitos de seus membros também julgam lutar por valores justos. Liberdade, democracia, justiça. Nada disso é confirmado pela realidade. Querer impor liberdade, justiça e democracia só leva a mais opressão, desigualdade e autoritarismo.
No entanto, soldados não são treinados para entender as razões de uma guerra. São adestrados para vencê-la a qualquer custo. No caso dos soldados americanos, diante do enorme poder de seu exército, o maior prejuízo tem sido a perda de sua saúde mental.
Denunciar essa situação parece ser o principal objetivo do filme de Bigelow. A disposição com que o personagem principal desarma bombas e manipula explosivos mostra que para ele a guerra funciona como uma droga.
É isso o que diz o letreiro inicial do filme: “A emoção da batalha costuma ser um vício forte e letal, pois a guerra é uma droga”. Trata-se de uma frase do correspondente de guerra, Chris Hedges. Guerras nunca são boas. Mesmo quem passou por conflitos militares convicto de que foram necessários, com certeza teria preferido viver sem essa terrível experiência.
Mas, há guerras que precisam ser travadas. Aquelas de libertação nacional. As que combatem a dominação e a exploração. Impedem o avanço do fascismo. Defendem um mundo livre da destruição capitalista.
O final do filme de Kathryn Bigelow parece dizer que, apesar de tudo, a guerra travada no Iraque merece ser lutada. Até admite que seus motivos são duvidosos, mas, como diria Obama, “nossos rapazes estão lá e precisam de uma saída honrosa”. Ainda que isso implique aterrorizar um povo inteiro. São as razões de quem lidera o imperialismo mundial. Por isso Guerra ao Terror vem recebendo o reconhecimento de sua indústria.
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20 de jan. de 2010
Lula, filho do PT, adota o Brasil do PMDB
“Lula, o filho do Brasil” conta a história do presidente do País sem mostrar sua carreira política. Vai direto do sindicalista ao estadista que abraça o Brasil do PMDB.
“Você sabe quem é esse homem, mas não conhece sua história”. Este é a frase estampada nos cartazes do filme de Fábio Barreto. E que história conta a produção sobre Lula da Silva?
Até uns 15 anos atrás, a resposta era clara. A maioria da população considerava Lula um sindicalista radical, grevista, presidente de um partido de baderneiros. Podia ser também um ignorante, analfabeto, nordestino da ralé, fantoche na mão de subversivos. Mas, antes de tudo, Lula era a cara do PT.
Este Lula praticamente não aparece no filme de Barreto. A criação e a trajetória do PT são ignoradas. Com isso, 23 anos de história política do País são apagados. E sem esse elemento, a produção vira mito, relato de auto-ajuda, roteiro de novela, conto de Natal. No entanto, o filme acaba trazendo implícitas as atuais opções políticas de Lula.
O filme mostra o início da carreira pública de Lula. Eleito para uma diretoria de pelegos no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o filho de dona Lindu começou sua vida sindical sem enfrentar a ditadura de 64. Mas, com sua grande inteligência e faro políticos, sentiu que vivia um momento histórico decisivo. A agonia do regime dos generais se aproximava. As decisões tomadas naquele momento definiriam quem iria dirigir o trem da história e quem seria atropelado por ele.
A maior e mais corajosa decisão de Lula foi dizer sim à proposta de criar e presidir um novo partido de oposição. Uma organização formada por militantes católicos de base, sindicalistas, grupos que combateram a ditadura clandestinamente e milhares de jovens. E que afirmava claramente sua opção pelo socialismo.
A fundação do PT desagradou a oposição oficial da época. Eram os políticos tradicionais e engravatados do MDB. Os doutores Tancredo, Ulysses, Fernando Henrique e alguns outros, queriam os trabalhadores e estudantes sob suas ordens. E com certeza viam em Lula apenas uma liderança intuitiva, de segundo escalão, pronta a obedecer seus chefes diplomados.
O PT era uma panela de pressão que fervia sobre o fogo das lutas sindicais e populares. Lula mal conseguia manter a temperatura do partido longe do ponto de explosão. Suas posições políticas pessoais sempre foram bastante moderadas. Ele e seu grupo eram favoráveis a alianças mais amplas, a tratar com menos hostilidade patrões e governos e a afastar o partido de posições radicais.
Se dependesse de Lula e seus aliados, o PT teria se tornado um partido da ordem muito mais cedo. Para a sorte dele, as bases do PT não deixaram. Somente assim, Lula viria a se destacar como alguém que não se deixava enganar pelos politiqueiros. Somente assim, o PT foi se credenciando como partido coerente, duro em suas posições, classista e sem medo da cara feia da extrema direita.
A própria figura de Lula colaborava para manter a radicalidade do PT. Ele representa tudo o que a classe dominante brasileira mais odeia. Um pernambucano do sertão, sem diploma universitário, falando errado, incendiando assembléias e comícios. E essa rejeição contaminou os trabalhadores e pobres em geral durante muito tempo. Acostumado a doutores, o povo não queria um operário no poder.
A classe dominante brasileira também ajudou a tornar o PT radical. Se não era a repressão dos militares, era o jogo sujo da oposição do MDB que tornava difícil o caminho da moderação.
Basta lembrar das Diretas Já. Foi o PT que iniciou esse movimento. Rapidamente, multidões encheram as ruas e praças das grandes cidades para exigir eleições diretas para presidente. O MDB não perdeu tempo. Assumiu a direção do movimento e o usou para barganhar uma saída honrosa para a ditadura.
Com isso, o golpe fatal contra o regime dos generais seria dado no Colégio Eleitoral. Longe das ruas e sob controle das classes dominantes. O PT se recusou a participar desse acórdão entre as elites. Foi chamado de obscuro, infantil, incendiário. Mas, ampliava seu patrimônio de coerência e respeito à vontade popular.
Com o fim da ditadura, a vitória de Collor e 10 anos de ataques neoliberais, finalmente o PT começou a trilhar o caminho que Lula sempre defendeu. Por dentro do sistema, fazendo alianças, moderando o discurso, procurando o diálogo com empresários e latifundiários, aceitando medidas neoliberais como um mal menor.
A crise do neoliberalismo no final dos anos 1990 abriu a “janela de oportunidade” que Lula e a maioria da direção do PT souberam aproveitar. Todo o patrimônio de lutas e resistência do PT foi colocado a serviço da vitória nas eleições presidenciais. Com a vitória em 2002, Lula voltava a fazer política por dentro do sistema. Tal como fazia no ABC até ser obrigado a convocar greves contra o regime e não apenas por melhores salários.
O PT foi definhando durante o governo Lula. Não como estrutura. Esta está mais forte do que nunca. Mas como partido de luta e organização com vocação socialista. Para a população, o PT é cada vez mais a caricatura criada pela grande mídia. É o “partido dos aloprados corruptos, dos barbudos agarrados a seus cargos, dos esbanjadores do dinheiro público”.
Tudo isso para quê? Os números oficiais dizem que a renda dos mais pobres aumentou. No entanto, isso vinha acontecendo desde o final da década de 90. O capitalismo não vive só de miséria. Em certos casos, precisa desenvolver um mercado interno mínimo para gerar seus lucros. É possível que seja isso que venha acontecendo há mais de 10 anos no Brasil.
O governo Lula parece ter acelerado esse processo. A melhor maneira de fazer isso é aumentar a renda entre os mais pobres. Por isso, o governo petista foi o que melhor colocou em prática programas sociais. Mas, gente do próprio PT admite que a divisão do bolo tem sido feita entre os que vivem de salário.
A minoria que vive da exploração do trabalho alheio continua intocável. Grande parte da riqueza produzida pelos trabalhadores permanece sob controle de uma elite que representa 1% da população brasileira.
As melhoras econômicas do povo jamais colocaram sob ameaça aqueles que o exploram há mais de 500 anos. A classe dominante agradece penhorada. É o que mostra a lista de patrocinadores do filme sobre a vida de Lula. São milhões de reais da OAS, Odebrecht, Vale, Camargo Corrêa, Oi, Volkswagen. Enormes empresas generosamente amamentadas pelo Estado brasileiro.
Antes, a estrela do PT radicalizava Lula, mesmo contra a vontade dele. Hoje, Lula amaciou o PT sob sua sombra de estadista conciliador. E a candidatura petista para 2010 vem embrulhada numa aliança com o PMDB, o mais fisiológico dos partidos.
Tudo isso é muito complexo para caber num texto sobre cinema. Mas, o filme de Barreto foi explícito demais ao apagar o PT da vida de Lula. Dá graves sinais sobre o que pode acontecer na política nacional em 2010.
Tudo indica que as eleições presidenciais devem se dividir entre duas grandes opções. Ambas, muito tranqüilas para a burguesia. De um lado, o PMDB mandando no País, com o PT enfeitando o trono. Do outro lado, toda a porcaria tucana querendo voltar ao poder. Lula está fazendo tudo para que a primeira opção vença, mas já disse que não ficaria muito triste se perdesse a parada.
Afinal, o Brasil atual é o país dos sonhos daquele Lula enfiado na direção pelega dos metalúrgicos do ABC. Um paraíso do grande capital, em que a explosão de lucros para os de cima faz sobrar migalhas suficientes para os debaixo. É coerente com uma frase que Lula costumava dizer e está presente no filme de Barreto: “Não vou chamar de inimigo quem paga meu salário”. A conseqüência maior dessa política é a manutenção da injustiça e da exploração para a grande maioria dos outros filhos do Brasil.
“Você sabe quem é esse homem, mas não conhece sua história”. Este é a frase estampada nos cartazes do filme de Fábio Barreto. E que história conta a produção sobre Lula da Silva?
Até uns 15 anos atrás, a resposta era clara. A maioria da população considerava Lula um sindicalista radical, grevista, presidente de um partido de baderneiros. Podia ser também um ignorante, analfabeto, nordestino da ralé, fantoche na mão de subversivos. Mas, antes de tudo, Lula era a cara do PT.
Este Lula praticamente não aparece no filme de Barreto. A criação e a trajetória do PT são ignoradas. Com isso, 23 anos de história política do País são apagados. E sem esse elemento, a produção vira mito, relato de auto-ajuda, roteiro de novela, conto de Natal. No entanto, o filme acaba trazendo implícitas as atuais opções políticas de Lula.
O filme mostra o início da carreira pública de Lula. Eleito para uma diretoria de pelegos no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o filho de dona Lindu começou sua vida sindical sem enfrentar a ditadura de 64. Mas, com sua grande inteligência e faro políticos, sentiu que vivia um momento histórico decisivo. A agonia do regime dos generais se aproximava. As decisões tomadas naquele momento definiriam quem iria dirigir o trem da história e quem seria atropelado por ele.
A maior e mais corajosa decisão de Lula foi dizer sim à proposta de criar e presidir um novo partido de oposição. Uma organização formada por militantes católicos de base, sindicalistas, grupos que combateram a ditadura clandestinamente e milhares de jovens. E que afirmava claramente sua opção pelo socialismo.
A fundação do PT desagradou a oposição oficial da época. Eram os políticos tradicionais e engravatados do MDB. Os doutores Tancredo, Ulysses, Fernando Henrique e alguns outros, queriam os trabalhadores e estudantes sob suas ordens. E com certeza viam em Lula apenas uma liderança intuitiva, de segundo escalão, pronta a obedecer seus chefes diplomados.
O PT era uma panela de pressão que fervia sobre o fogo das lutas sindicais e populares. Lula mal conseguia manter a temperatura do partido longe do ponto de explosão. Suas posições políticas pessoais sempre foram bastante moderadas. Ele e seu grupo eram favoráveis a alianças mais amplas, a tratar com menos hostilidade patrões e governos e a afastar o partido de posições radicais.
Se dependesse de Lula e seus aliados, o PT teria se tornado um partido da ordem muito mais cedo. Para a sorte dele, as bases do PT não deixaram. Somente assim, Lula viria a se destacar como alguém que não se deixava enganar pelos politiqueiros. Somente assim, o PT foi se credenciando como partido coerente, duro em suas posições, classista e sem medo da cara feia da extrema direita.
A própria figura de Lula colaborava para manter a radicalidade do PT. Ele representa tudo o que a classe dominante brasileira mais odeia. Um pernambucano do sertão, sem diploma universitário, falando errado, incendiando assembléias e comícios. E essa rejeição contaminou os trabalhadores e pobres em geral durante muito tempo. Acostumado a doutores, o povo não queria um operário no poder.
A classe dominante brasileira também ajudou a tornar o PT radical. Se não era a repressão dos militares, era o jogo sujo da oposição do MDB que tornava difícil o caminho da moderação.
Basta lembrar das Diretas Já. Foi o PT que iniciou esse movimento. Rapidamente, multidões encheram as ruas e praças das grandes cidades para exigir eleições diretas para presidente. O MDB não perdeu tempo. Assumiu a direção do movimento e o usou para barganhar uma saída honrosa para a ditadura.
Com isso, o golpe fatal contra o regime dos generais seria dado no Colégio Eleitoral. Longe das ruas e sob controle das classes dominantes. O PT se recusou a participar desse acórdão entre as elites. Foi chamado de obscuro, infantil, incendiário. Mas, ampliava seu patrimônio de coerência e respeito à vontade popular.
Com o fim da ditadura, a vitória de Collor e 10 anos de ataques neoliberais, finalmente o PT começou a trilhar o caminho que Lula sempre defendeu. Por dentro do sistema, fazendo alianças, moderando o discurso, procurando o diálogo com empresários e latifundiários, aceitando medidas neoliberais como um mal menor.
A crise do neoliberalismo no final dos anos 1990 abriu a “janela de oportunidade” que Lula e a maioria da direção do PT souberam aproveitar. Todo o patrimônio de lutas e resistência do PT foi colocado a serviço da vitória nas eleições presidenciais. Com a vitória em 2002, Lula voltava a fazer política por dentro do sistema. Tal como fazia no ABC até ser obrigado a convocar greves contra o regime e não apenas por melhores salários.
O PT foi definhando durante o governo Lula. Não como estrutura. Esta está mais forte do que nunca. Mas como partido de luta e organização com vocação socialista. Para a população, o PT é cada vez mais a caricatura criada pela grande mídia. É o “partido dos aloprados corruptos, dos barbudos agarrados a seus cargos, dos esbanjadores do dinheiro público”.
Tudo isso para quê? Os números oficiais dizem que a renda dos mais pobres aumentou. No entanto, isso vinha acontecendo desde o final da década de 90. O capitalismo não vive só de miséria. Em certos casos, precisa desenvolver um mercado interno mínimo para gerar seus lucros. É possível que seja isso que venha acontecendo há mais de 10 anos no Brasil.
O governo Lula parece ter acelerado esse processo. A melhor maneira de fazer isso é aumentar a renda entre os mais pobres. Por isso, o governo petista foi o que melhor colocou em prática programas sociais. Mas, gente do próprio PT admite que a divisão do bolo tem sido feita entre os que vivem de salário.
A minoria que vive da exploração do trabalho alheio continua intocável. Grande parte da riqueza produzida pelos trabalhadores permanece sob controle de uma elite que representa 1% da população brasileira.
As melhoras econômicas do povo jamais colocaram sob ameaça aqueles que o exploram há mais de 500 anos. A classe dominante agradece penhorada. É o que mostra a lista de patrocinadores do filme sobre a vida de Lula. São milhões de reais da OAS, Odebrecht, Vale, Camargo Corrêa, Oi, Volkswagen. Enormes empresas generosamente amamentadas pelo Estado brasileiro.
Antes, a estrela do PT radicalizava Lula, mesmo contra a vontade dele. Hoje, Lula amaciou o PT sob sua sombra de estadista conciliador. E a candidatura petista para 2010 vem embrulhada numa aliança com o PMDB, o mais fisiológico dos partidos.
Tudo isso é muito complexo para caber num texto sobre cinema. Mas, o filme de Barreto foi explícito demais ao apagar o PT da vida de Lula. Dá graves sinais sobre o que pode acontecer na política nacional em 2010.
Tudo indica que as eleições presidenciais devem se dividir entre duas grandes opções. Ambas, muito tranqüilas para a burguesia. De um lado, o PMDB mandando no País, com o PT enfeitando o trono. Do outro lado, toda a porcaria tucana querendo voltar ao poder. Lula está fazendo tudo para que a primeira opção vença, mas já disse que não ficaria muito triste se perdesse a parada.
Afinal, o Brasil atual é o país dos sonhos daquele Lula enfiado na direção pelega dos metalúrgicos do ABC. Um paraíso do grande capital, em que a explosão de lucros para os de cima faz sobrar migalhas suficientes para os debaixo. É coerente com uma frase que Lula costumava dizer e está presente no filme de Barreto: “Não vou chamar de inimigo quem paga meu salário”. A conseqüência maior dessa política é a manutenção da injustiça e da exploração para a grande maioria dos outros filhos do Brasil.
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8 de jan. de 2010
Avatar ajuda a luta ecológica. E atrapalha
O “filmão” de Cameron ajuda ao defender a causa ambiental. Mas sua condição de espetáculo simplifica e distorce questões importantes. Aí, atrapalha.
Avatar é uma festa para os olhos. Principalmente para quem assiste em terceira dimensão. Muito movimento, belas cores, efeitos especiais de primeira. O roteiro não tem maiores surpresas, mas procura denunciar a destruição ecológica e o desrespeito a populações indefesas por parte do grande capital.
A história trata de uma poderosa empresa em busca de um minério valioso no planeta Pandora. O problema é que sobre as ricas jazidas vivem os Na'vi, povo que se recusa a deixar o que considera ser seu solo sagrado.
A empresa tenta duas saídas para o impasse. Uma, é a do convencimento, através do trabalho de cientistas, que criaram “avatares”. Seres feitos à imagem e semelhança dos nativos e que são “encarnados” por membros da equipe terrestre. “Vestidos” em corpos alienígenas, os humanos são capazes de fazer contato com a população local, enfrentando menor resistência.
A outra saída é a repressão. Neste caso, entram em ação soldados veteranos, contratados para colocar a população nativa para correr, se for necessário. Mas, Parker (Giovanni Ribisi), um dos administradores da empresa, não esconde suas prioridades. Para os acionistas, diz ele, pior que a mídia mostrando a repressão aos nativos, são balanços financeiros exibindo prejuízos.
O filme é bastante didático ao explicar a ligação entre os nativos e o sistema ecológico do planeta. A cientista, interpretada por Sigourney Weaver, explica que a vida em todo o planeta faz parte de uma rede. A destruição de algumas de suas partes afeta todo o conjunto.
O mesmo vale para o meio ambiente de nosso planeta. A luta em defesa dos povos atingidos por grandes obras não diz respeito apenas aos direitos e tradições de indígenas, quilombolas, caiçaras etc. Também não se trata somente de preservar a vida animal e vegetal.
Além de tudo isso, ainda há o desequilíbrio causado pela destruição ambiental. Só agora começamos a sentir as terríveis conseqüências de 200 anos de pesada exploração capitalista. E ela não afeta apenas povos isolados em regiões distantes. Chega cada vez mais perto e com maior força às grandes cidades. Seja na forma de catástrofes naturais, seja como veneno jogado no ar, matas, mares e rios.
No entanto, se a produção de Cameron ajuda a luta ambientalista ao iluminar esses aspectos, em outros ela atrapalha. Afinal, estamos falando de um mega produto da poderosa indústria de cinema. Aí, dificilmente tem ponto sem nó.
Em primeiro lugar, o filme faz dos cientistas os mocinhos da história. Não é bem assim. O que não falta são cientistas pagos a peso de ouro por gigantes multinacionais para desenvolver seus venenos e justificar seu poder. A ciência pode ser usada na luta contra o capitalismo, mas o inverso é muito mais freqüente.
Outro problema é a ausência da dimensão política. Alguns filmes de denúncia de Hollywood colocam toda a culpa em governantes e esquecem os capitalistas. Em Avatar, os políticos não aparecem. O lado mau é representado por uma grande companhia e um militar sanguinário.
No entanto, a produção é um protesto contra os republicanos, não contra o capitalismo. A empresa sem escrúpulos é uma mineradora. Pertence ao ramo econômico privilegiado pelo governo Bush. A “Árvore Sagrada” dos Na´vi é bombardeada em um “ataque preventivo”. Até a cena das cinzas da grande árvore se espalhando pela floresta lembra os momentos seguintes ao ataque às Torres Gêmeas.
Por outro lado, Parker, o executivo, em alguns momentos parece ser assaltado por dúvidas e arrependimento. Então, o verdadeiro vilão do filme é o coronel Quaritch (Stephen Lang), encarregado das operações militares. Este, sabe bem o que quer: o sangue dos nativos.
Este é o problema das denúncias feitas pelo cinemão americano. Nunca mostra o todo. Apenas suas partes. O resultado é uma visão fragmentada que, ora deixa de lado os interesses econômicos, ora esconde os interesses políticos. Quando falam de exploração econômica, por exemplo, não relacionam com machismo, racismo, homofobia etc. Enquanto isso, o sistema vai funcionando com um todo, ameaçando a existência de grande parte da humanidade e da vida na Terra.
É por isso que o final do filme, apesar de feliz e bem resolvido, é improvável. Pelo menos para nosso humilde planeta. A resistência das populações ameaçadas pelo “progresso destruidor” é fundamental. A luta ecológica é importantíssima. Mas nem uma nem outra, sozinhas, podem deter a destruição em andamento.
Do jeito que o filme acaba, muitas pessoas devem sair do cinema pensando: “tomara que nossos indígenas façam o mesmo”. Ou seja, eles que lutem lá a luta deles. “Nós daremos todo o nosso apoio moral. De preferência, de bem longe”.
Sem o envolvimento dos explorados e oprimidos das grandes cidades de todo o mundo, estas lutas continuarão a ser isoladas e derrotadas. E sem dar um caráter anticapitalista para a luta ambiental, os grandes empresários continuarão a nos enganar com “produtos verdes” e selos de “responsabilidade social”, enquanto destroem a vida no planeta. Os governos continuarão a permitir e financiar esta destruição usando a “marcha do progresso” como desculpa.
Este combate tem que ser global como é a natureza. Precisa se basear em valores solidários, como é a vida organizada em muitas comunidades e sociedades tribais. Tem que ser ecossocialista.
Avatar é uma festa para os olhos. Principalmente para quem assiste em terceira dimensão. Muito movimento, belas cores, efeitos especiais de primeira. O roteiro não tem maiores surpresas, mas procura denunciar a destruição ecológica e o desrespeito a populações indefesas por parte do grande capital.
A história trata de uma poderosa empresa em busca de um minério valioso no planeta Pandora. O problema é que sobre as ricas jazidas vivem os Na'vi, povo que se recusa a deixar o que considera ser seu solo sagrado.
A empresa tenta duas saídas para o impasse. Uma, é a do convencimento, através do trabalho de cientistas, que criaram “avatares”. Seres feitos à imagem e semelhança dos nativos e que são “encarnados” por membros da equipe terrestre. “Vestidos” em corpos alienígenas, os humanos são capazes de fazer contato com a população local, enfrentando menor resistência.
A outra saída é a repressão. Neste caso, entram em ação soldados veteranos, contratados para colocar a população nativa para correr, se for necessário. Mas, Parker (Giovanni Ribisi), um dos administradores da empresa, não esconde suas prioridades. Para os acionistas, diz ele, pior que a mídia mostrando a repressão aos nativos, são balanços financeiros exibindo prejuízos.
O filme é bastante didático ao explicar a ligação entre os nativos e o sistema ecológico do planeta. A cientista, interpretada por Sigourney Weaver, explica que a vida em todo o planeta faz parte de uma rede. A destruição de algumas de suas partes afeta todo o conjunto.
O mesmo vale para o meio ambiente de nosso planeta. A luta em defesa dos povos atingidos por grandes obras não diz respeito apenas aos direitos e tradições de indígenas, quilombolas, caiçaras etc. Também não se trata somente de preservar a vida animal e vegetal.
Além de tudo isso, ainda há o desequilíbrio causado pela destruição ambiental. Só agora começamos a sentir as terríveis conseqüências de 200 anos de pesada exploração capitalista. E ela não afeta apenas povos isolados em regiões distantes. Chega cada vez mais perto e com maior força às grandes cidades. Seja na forma de catástrofes naturais, seja como veneno jogado no ar, matas, mares e rios.
No entanto, se a produção de Cameron ajuda a luta ambientalista ao iluminar esses aspectos, em outros ela atrapalha. Afinal, estamos falando de um mega produto da poderosa indústria de cinema. Aí, dificilmente tem ponto sem nó.
Em primeiro lugar, o filme faz dos cientistas os mocinhos da história. Não é bem assim. O que não falta são cientistas pagos a peso de ouro por gigantes multinacionais para desenvolver seus venenos e justificar seu poder. A ciência pode ser usada na luta contra o capitalismo, mas o inverso é muito mais freqüente.
Outro problema é a ausência da dimensão política. Alguns filmes de denúncia de Hollywood colocam toda a culpa em governantes e esquecem os capitalistas. Em Avatar, os políticos não aparecem. O lado mau é representado por uma grande companhia e um militar sanguinário.
No entanto, a produção é um protesto contra os republicanos, não contra o capitalismo. A empresa sem escrúpulos é uma mineradora. Pertence ao ramo econômico privilegiado pelo governo Bush. A “Árvore Sagrada” dos Na´vi é bombardeada em um “ataque preventivo”. Até a cena das cinzas da grande árvore se espalhando pela floresta lembra os momentos seguintes ao ataque às Torres Gêmeas.
Por outro lado, Parker, o executivo, em alguns momentos parece ser assaltado por dúvidas e arrependimento. Então, o verdadeiro vilão do filme é o coronel Quaritch (Stephen Lang), encarregado das operações militares. Este, sabe bem o que quer: o sangue dos nativos.
Este é o problema das denúncias feitas pelo cinemão americano. Nunca mostra o todo. Apenas suas partes. O resultado é uma visão fragmentada que, ora deixa de lado os interesses econômicos, ora esconde os interesses políticos. Quando falam de exploração econômica, por exemplo, não relacionam com machismo, racismo, homofobia etc. Enquanto isso, o sistema vai funcionando com um todo, ameaçando a existência de grande parte da humanidade e da vida na Terra.
É por isso que o final do filme, apesar de feliz e bem resolvido, é improvável. Pelo menos para nosso humilde planeta. A resistência das populações ameaçadas pelo “progresso destruidor” é fundamental. A luta ecológica é importantíssima. Mas nem uma nem outra, sozinhas, podem deter a destruição em andamento.
Do jeito que o filme acaba, muitas pessoas devem sair do cinema pensando: “tomara que nossos indígenas façam o mesmo”. Ou seja, eles que lutem lá a luta deles. “Nós daremos todo o nosso apoio moral. De preferência, de bem longe”.
Sem o envolvimento dos explorados e oprimidos das grandes cidades de todo o mundo, estas lutas continuarão a ser isoladas e derrotadas. E sem dar um caráter anticapitalista para a luta ambiental, os grandes empresários continuarão a nos enganar com “produtos verdes” e selos de “responsabilidade social”, enquanto destroem a vida no planeta. Os governos continuarão a permitir e financiar esta destruição usando a “marcha do progresso” como desculpa.
Este combate tem que ser global como é a natureza. Precisa se basear em valores solidários, como é a vida organizada em muitas comunidades e sociedades tribais. Tem que ser ecossocialista.
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23 de nov. de 2009
Governantes heróis? É o fim do mundo, mesmo!
Em 2012, de Roland Emerich, governantes dos países ricos são os mocinhos do filme. Mais fácil acreditar em teorias apocalípticas.
O absurdo de 2012 não é a teoria de que um alinhamento de planetas causaria catástrofes capazes de destruir a Terra. Nem acreditar que o mundo acaba em 2012 por causa de uma profecia maia. As situações de falso suspense também não são tão difíceis de aceitar, pois as conhecemos de outros filmes. Heróis e heroínas sempre escapam das piores enrascadas no último momento.
Absurdo mesmo é ver governantes dos países mais ricos do mundo demonstrando compaixão por seus governados. Depois de gastar bilhões em enormes navios para salvar a si mesmos, seus familiares e auxiliares, presidentes e primeiros-ministros resolvem deixar que o povo entre em suas confortáveis arcas. O pior é que o presidente dos Estados Unidos nem mesmo sobe a bordo. Fica para trás para morrer com seus concidadãos.
O personagem de Oliver Platt é o único que faz algum sentido. Ele é Carl Anheuser, assessor frio e calculista da Casa Branca, que não cansa de dizer que somente alguns podem se salvar para “continuar a espécie”.
É esta a mentalidade reinante hoje e não deverá ser muito diferente daqui a dois anos. É este modo de pensar que prevalece cada vez mais no capitalismo e que ganhou novo impulso com o neoliberalismo dos últimos 30 anos. É esta a lógica que elegeu a grande maioria dos atuais governantes. Principalmente, nos países que mandam no mundo.
Finalmente, é esta a concepção que vem alimentando a corrida da humanidade rumo ao desastre ambiental e social. E se os povos do mundo não impedirem, não será preciso nenhum alinhamento de planetas para que a maior parte da humanidade seja condenada a miséria, fome e doenças.
Acreditar em teorias fantasiosas, tudo bem. Mas, crer em governantes de alma caridosa? Haja imaginação.
Sérgio Domingues – novembro de 2009
O absurdo de 2012 não é a teoria de que um alinhamento de planetas causaria catástrofes capazes de destruir a Terra. Nem acreditar que o mundo acaba em 2012 por causa de uma profecia maia. As situações de falso suspense também não são tão difíceis de aceitar, pois as conhecemos de outros filmes. Heróis e heroínas sempre escapam das piores enrascadas no último momento.
Absurdo mesmo é ver governantes dos países mais ricos do mundo demonstrando compaixão por seus governados. Depois de gastar bilhões em enormes navios para salvar a si mesmos, seus familiares e auxiliares, presidentes e primeiros-ministros resolvem deixar que o povo entre em suas confortáveis arcas. O pior é que o presidente dos Estados Unidos nem mesmo sobe a bordo. Fica para trás para morrer com seus concidadãos.
O personagem de Oliver Platt é o único que faz algum sentido. Ele é Carl Anheuser, assessor frio e calculista da Casa Branca, que não cansa de dizer que somente alguns podem se salvar para “continuar a espécie”.
É esta a mentalidade reinante hoje e não deverá ser muito diferente daqui a dois anos. É este modo de pensar que prevalece cada vez mais no capitalismo e que ganhou novo impulso com o neoliberalismo dos últimos 30 anos. É esta a lógica que elegeu a grande maioria dos atuais governantes. Principalmente, nos países que mandam no mundo.
Finalmente, é esta a concepção que vem alimentando a corrida da humanidade rumo ao desastre ambiental e social. E se os povos do mundo não impedirem, não será preciso nenhum alinhamento de planetas para que a maior parte da humanidade seja condenada a miséria, fome e doenças.
Acreditar em teorias fantasiosas, tudo bem. Mas, crer em governantes de alma caridosa? Haja imaginação.
Sérgio Domingues – novembro de 2009
26 de out. de 2009
Ficção científica contra o racismo é quase real
“Distrito 9”, de Neill Blomkamp, alia diversão e denúncia. É ótimo. Pena que perto do verdadeiro racismo seja quase um conto de fadas.
Em 2012, alienígenas vêm parar na Terra, mas não chegam invadindo e atirando raios. Também não são seres superiores dando lição de moral a nossa espécie. São milhões de criaturas cuja nave enguiçou sobre a cidade de Joanesburgo, na África do Sul. Resgatados pelos humanos, são colocados numa enorme favela que recebeu o nome de Distrito 9. O aspecto físico dos recém-chegados é desagradável, lembrando uma mistura de inseto com crustáceo. Por isso, recebem o apelido nada carinhoso de camarões.
Não é a primeira vez que um diretor dá aos alienígenas um aspecto repugnante. Em 1997, Paul Verhoeven realizou “Tropas Estelares”. A produção adotou como modelo a estética dos diretores de cinema da Alemanha nazista. Seus heróis eram homens e mulheres jovens, atléticos, bonitos e brancos. Leais e amigos entre si e impiedosos com os inimigos. Nada mais fácil do que ser cruel com vilões que parecem enormes baratas nojentas. Este seria o segredo da estética fascista. Transformar os inimigos em criaturas repugnantes. Não à toa, os nazistas chamavam os judeus de ratos.
Mas, o filme de Blomkamp parte desse ponto de vista para invertê-lo. As primeiras cenas mostram os alienígenas como seres violentos, sujos, viciados em ração de gato e desleais. No final da exibição, nossa simpatia vai toda para a causa dos infelizes aliens em sua luta contra a injustiça.
São vários os aspectos interessantes do filme. A maioria, ligada à denúncia do racismo. Em primeiro lugar, nada mais apropriado do que situar o drama na maior cidade de um país que viveu a vergonha do racismo institucionalizado. O diretor é branco e jovem, mas chegou a ver o Apartheid em pleno funcionamento. Afinal, o odioso regime racista só acabou há 15 anos.
O processo de favelização da colônia extraterrestre mostrado no filme também é parecido com o que ocorre nas grandes cidades do planeta. Populações recém-chegadas são isoladas em bairros distantes, sem estrutura e acesso a direitos básicos. Mas, a inevitável deterioração de suas condições de vida não é vista como conseqüência desse isolamento. Passa a ser entendida como característica natural de sua gente.
Quando uma socióloga considera preconceituoso chamar os alienígenas de camarões, um chefe de polícia diz que não vê preconceito. “Eles realmente se parecem com camarões”, diz ele. Isso é bem típico dos mecanismos que alimentam a discriminação e o racismo. Faz lembrar um trecho do romance “O sorriso do lagarto”, de João Ubaldo Ribeiro. Nele, um personagem diz que a maioria dos macacos tem traços e características que os faz mais parecidos com homens brancos do que com negros. No entanto, o racismo afirma o contrário.
O mesmo acontece quando comportamentos verificados entre populações pobres são considerados próprios de animais. É a tentativa de lhes tirar a condição de seres humanos. São o mesmo que ratos, baratas, camarões, macacos. Se for preciso, se fugirem ao controle e tornarem-se pragas, devem ser contidos ou exterminados. Basta prestar atenção no discurso da classe dominante. Ouvir o que dizem a grande mídia, governantes, parlamentares, empresários. Essa lógica está lá. Às vezes, bem aparente.
Como as idéias da classe dominante dominam a sociedade, o racismo e a discriminação também surgem entre suas próprias vítimas. Por isso, “Distrito 9” mostra negros sul-africanos a favor da perseguição aos alienígenas. Não notam que reproduzem a opressão de que também são vítimas. Afinal, nem da espécie humana eles são, diz um deles. Mas, para o racismo este é só um detalhe. Para transformar um setor da população em seu alvo, não é preciso que seus membros tenham antenas e garras. Basta escolher certas características estranhas ao senso comum e generalizar para aquele setor da população. Aí, é só excluí-lo das pessoas consideradas “corretas” e “civilizadas”.
Uma crítica que poderia ser feita ao filme é o modo como mostra uma gangue de nigerianos. Um bando criminoso cruel, ignorante, supersticioso. Mas, o filme acaba retratando a realidade sul-africana hoje. Há um grande movimento migratório da Nigéria para a África do Sul, país mais desenvolvido do continente e um dos mais injustos do mundo, também. Os nigerianos acabam formando grande parte da população pobre e moradora de favelas. São os mais recentes discriminados em uma sociedade já tão marcada pela injustiça social.
Por fim, é interessante notar como à medida que o filme se aproxima do final, começamos a enxergar os recém-chegados como vítimas. Os estranhos seres se mostram capazes de sentimentos e reações muito parecidas com as nossas. Revelam dominar uma tecnologia avançada e serem capazes de manifestar solidariedade e lealdade.
Isso acontece porque já somos capazes de contextualizar a situação dos alienígenas. Diferente do que acontecia antes, no início do filme, quando a sucessão de imagens era frenética. Imperava o ritmo típico dos diversos telejornais apelativos que mostram situações violentas sem qualquer preocupação em situar histórica e socialmente os conflitos, guerras e dificuldades vividos por explorados e oprimidos no mundo todo. O resultado é mais preconceito e visões distorcidas em relação a povos, etnias ou ao vizinho da favela ou periferia mais próxima. Mais lenha na fogueira do racismo, do ódio aos estrangeiros, da intolerância com o diferente.
O filme vale porque alia diversão e denúncia. Pena que suas cenas chocantes sejam suaves perto dos verdadeiros efeitos do racismo e da exploração capitalista pelo mundo afora. Basta assistir a um documentário como “O pesadelo de Darwin”, de Hubert Sauper, ou ler os relatos de “Planeta favela”, de Mike Davis. Deixam qualquer roteirista de terror apavorado.
Em 2012, alienígenas vêm parar na Terra, mas não chegam invadindo e atirando raios. Também não são seres superiores dando lição de moral a nossa espécie. São milhões de criaturas cuja nave enguiçou sobre a cidade de Joanesburgo, na África do Sul. Resgatados pelos humanos, são colocados numa enorme favela que recebeu o nome de Distrito 9. O aspecto físico dos recém-chegados é desagradável, lembrando uma mistura de inseto com crustáceo. Por isso, recebem o apelido nada carinhoso de camarões.
Não é a primeira vez que um diretor dá aos alienígenas um aspecto repugnante. Em 1997, Paul Verhoeven realizou “Tropas Estelares”. A produção adotou como modelo a estética dos diretores de cinema da Alemanha nazista. Seus heróis eram homens e mulheres jovens, atléticos, bonitos e brancos. Leais e amigos entre si e impiedosos com os inimigos. Nada mais fácil do que ser cruel com vilões que parecem enormes baratas nojentas. Este seria o segredo da estética fascista. Transformar os inimigos em criaturas repugnantes. Não à toa, os nazistas chamavam os judeus de ratos.
Mas, o filme de Blomkamp parte desse ponto de vista para invertê-lo. As primeiras cenas mostram os alienígenas como seres violentos, sujos, viciados em ração de gato e desleais. No final da exibição, nossa simpatia vai toda para a causa dos infelizes aliens em sua luta contra a injustiça.
São vários os aspectos interessantes do filme. A maioria, ligada à denúncia do racismo. Em primeiro lugar, nada mais apropriado do que situar o drama na maior cidade de um país que viveu a vergonha do racismo institucionalizado. O diretor é branco e jovem, mas chegou a ver o Apartheid em pleno funcionamento. Afinal, o odioso regime racista só acabou há 15 anos.
O processo de favelização da colônia extraterrestre mostrado no filme também é parecido com o que ocorre nas grandes cidades do planeta. Populações recém-chegadas são isoladas em bairros distantes, sem estrutura e acesso a direitos básicos. Mas, a inevitável deterioração de suas condições de vida não é vista como conseqüência desse isolamento. Passa a ser entendida como característica natural de sua gente.
Quando uma socióloga considera preconceituoso chamar os alienígenas de camarões, um chefe de polícia diz que não vê preconceito. “Eles realmente se parecem com camarões”, diz ele. Isso é bem típico dos mecanismos que alimentam a discriminação e o racismo. Faz lembrar um trecho do romance “O sorriso do lagarto”, de João Ubaldo Ribeiro. Nele, um personagem diz que a maioria dos macacos tem traços e características que os faz mais parecidos com homens brancos do que com negros. No entanto, o racismo afirma o contrário.
O mesmo acontece quando comportamentos verificados entre populações pobres são considerados próprios de animais. É a tentativa de lhes tirar a condição de seres humanos. São o mesmo que ratos, baratas, camarões, macacos. Se for preciso, se fugirem ao controle e tornarem-se pragas, devem ser contidos ou exterminados. Basta prestar atenção no discurso da classe dominante. Ouvir o que dizem a grande mídia, governantes, parlamentares, empresários. Essa lógica está lá. Às vezes, bem aparente.
Como as idéias da classe dominante dominam a sociedade, o racismo e a discriminação também surgem entre suas próprias vítimas. Por isso, “Distrito 9” mostra negros sul-africanos a favor da perseguição aos alienígenas. Não notam que reproduzem a opressão de que também são vítimas. Afinal, nem da espécie humana eles são, diz um deles. Mas, para o racismo este é só um detalhe. Para transformar um setor da população em seu alvo, não é preciso que seus membros tenham antenas e garras. Basta escolher certas características estranhas ao senso comum e generalizar para aquele setor da população. Aí, é só excluí-lo das pessoas consideradas “corretas” e “civilizadas”.
Uma crítica que poderia ser feita ao filme é o modo como mostra uma gangue de nigerianos. Um bando criminoso cruel, ignorante, supersticioso. Mas, o filme acaba retratando a realidade sul-africana hoje. Há um grande movimento migratório da Nigéria para a África do Sul, país mais desenvolvido do continente e um dos mais injustos do mundo, também. Os nigerianos acabam formando grande parte da população pobre e moradora de favelas. São os mais recentes discriminados em uma sociedade já tão marcada pela injustiça social.
Por fim, é interessante notar como à medida que o filme se aproxima do final, começamos a enxergar os recém-chegados como vítimas. Os estranhos seres se mostram capazes de sentimentos e reações muito parecidas com as nossas. Revelam dominar uma tecnologia avançada e serem capazes de manifestar solidariedade e lealdade.
Isso acontece porque já somos capazes de contextualizar a situação dos alienígenas. Diferente do que acontecia antes, no início do filme, quando a sucessão de imagens era frenética. Imperava o ritmo típico dos diversos telejornais apelativos que mostram situações violentas sem qualquer preocupação em situar histórica e socialmente os conflitos, guerras e dificuldades vividos por explorados e oprimidos no mundo todo. O resultado é mais preconceito e visões distorcidas em relação a povos, etnias ou ao vizinho da favela ou periferia mais próxima. Mais lenha na fogueira do racismo, do ódio aos estrangeiros, da intolerância com o diferente.
O filme vale porque alia diversão e denúncia. Pena que suas cenas chocantes sejam suaves perto dos verdadeiros efeitos do racismo e da exploração capitalista pelo mundo afora. Basta assistir a um documentário como “O pesadelo de Darwin”, de Hubert Sauper, ou ler os relatos de “Planeta favela”, de Mike Davis. Deixam qualquer roteirista de terror apavorado.
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7 de out. de 2009
O trator da grande mídia a serviço do agronegócio
Um trator derrubando pés de laranja pode pouco perto da aliança entre os controladores das ondas eletromagnéticas e os modernos latifundiários. É o monopólio do ar apoiando o monopólio da terra.
A imagem de um trator derrubando pés de laranja está em todos os telejornais. A máquina é dirigida por um militante do MST. O local é uma fazenda da Cutrale, empresa gigante do ramo de sucos. Depois de afirmar que a propriedade é produtiva, a reportagem ouve uma representante do Movimento. Ela afirma que os laranjais foram derrubados para que seja plantado feijão: “Ninguém pode viver só de laranja”.
Há uma comoção geral. Um sentimento de escândalo. Por que? Porque a cena toda apareceu fora de contexto. Trata-se de 2,7 mil hectares pertencentes à União e tomadas pela empresa ilegalmente. O plantio de laranja pode ser produtivo do ponto de vista dos lucros que vai gerar para a empresa. Mas não do ponto de vista social. No caso, trata-se de mais um exemplo de atividade típica do agronegócio. Geradora de bilhões em lucros e pouquíssimos empregos. E ainda por cima, fora da lei.
Mas, os grandes meios de comunicação não explicam nada disso. Exibem a imagem do trator derrubando árvores na Cutrale. Não mostram o exército de tratores do agronegócio que derrubam centenas de milhares de hectares de floresta amazônica e cerrado todos os anos. Não questionam o moderno latifúndio, que arrasa matas e animais, destrói comunidades, desvia rios, remove montanhas, abre crateras. Tudo em nome de uma produção para exportação, que gera poucos empregos, quase nenhum alimento e super-lucros para os de sempre.
Tudo isso poucos dias depois da divulgação dos dados do Censo Agropecuário do IBGE. Números que revelam o que já se sabe há muito tempo. O Brasil tem a maior concentração fundiária do mundo. Enquanto propriedades com até 10 hectares representam menos de 3% da área total, a parte ocupada por propriedades com mais de mil hectares concentram mais de 43%. Ao mesmo tempo, a agricultura familiar emprega 75% da força de trabalho no campo e produz 87% da mandioca, 70% do feijão, 58% do leite etc. Tudo com muito pouco apoio oficial.
Mas, nada vale tanto quanto a imagem de um trator derrubando pés de laranja. Comoção parecida ocorreu em março de 2006, quando mulheres da Via Campesina destruíram mudas de um viveiro da Aracruz. Naquela época, como agora, muita gente de esquerda, que apóia a luta dos Sem-Terra e da Via Campesina, condenou a ação. Considerou pouco tática.
Os que mais usam essa argumentação são “nossos aliados” no parlamento e no governo. Sempre tão cautelosos em relação à imagem dos movimentos sociais, não ajudaram a mostrar que as instalações da Aracruz nada tinham de cientificas. Que o plantio de eucaliptos é um dos maiores crimes ambientais e que a grilagem de terra é uma das especialidades dessa gigante do celulose.
O fato é que há questões e momentos em que os poderosos deixam pouco espaço para que a luta adote táticas sutis. Qual é a alternativa do MST à derrubada do laranjal? Distribuir panfletos nas grandes cidades denunciando as práticas de grilagem da Cutrale? Ou esperar que o Incra desaproprie a área tanto quanto espera há 29 anos que os índices de produtividade rural sejam revistos?
Os panfletos poderiam ser distribuídos aos milhões. Teriam pouco efeito frente ao apoio que uma Cutrale tem da grande mídia. Aquela que fala com milhões de pessoas a cada segundo. O caso dos índices de produtividade é um escândalo. Mas, 99,5% da população não sabem o que eles significam. Claro, a grande mídia não pautou a questão. Mal dedica meia dúzia de minutos por semana a ela. Não faz debates. E quando os faz, eles acontecem em horários inacessíveis, em canais fechados, com especialistas entendidos apenas por seus pares acadêmicos.
Enquanto poucos grupos poderosos continuarem a controlar a transmissão de informação pelas ondas eletromagnéticas a situação será esta. O monopólio do ar apóia o monopólio da terra. O monopólio da terra anda de braços dados com o grande capital. E este conta com total apoio dos vários níveis de governo. Todos unidos para manter os níveis extremos de desigualdade social no Brasil. Esta sim uma característica que dá ao Brasil um lugar no olimpo da exploração capitalista.
A imagem de um trator derrubando pés de laranja está em todos os telejornais. A máquina é dirigida por um militante do MST. O local é uma fazenda da Cutrale, empresa gigante do ramo de sucos. Depois de afirmar que a propriedade é produtiva, a reportagem ouve uma representante do Movimento. Ela afirma que os laranjais foram derrubados para que seja plantado feijão: “Ninguém pode viver só de laranja”.
Há uma comoção geral. Um sentimento de escândalo. Por que? Porque a cena toda apareceu fora de contexto. Trata-se de 2,7 mil hectares pertencentes à União e tomadas pela empresa ilegalmente. O plantio de laranja pode ser produtivo do ponto de vista dos lucros que vai gerar para a empresa. Mas não do ponto de vista social. No caso, trata-se de mais um exemplo de atividade típica do agronegócio. Geradora de bilhões em lucros e pouquíssimos empregos. E ainda por cima, fora da lei.
Mas, os grandes meios de comunicação não explicam nada disso. Exibem a imagem do trator derrubando árvores na Cutrale. Não mostram o exército de tratores do agronegócio que derrubam centenas de milhares de hectares de floresta amazônica e cerrado todos os anos. Não questionam o moderno latifúndio, que arrasa matas e animais, destrói comunidades, desvia rios, remove montanhas, abre crateras. Tudo em nome de uma produção para exportação, que gera poucos empregos, quase nenhum alimento e super-lucros para os de sempre.
Tudo isso poucos dias depois da divulgação dos dados do Censo Agropecuário do IBGE. Números que revelam o que já se sabe há muito tempo. O Brasil tem a maior concentração fundiária do mundo. Enquanto propriedades com até 10 hectares representam menos de 3% da área total, a parte ocupada por propriedades com mais de mil hectares concentram mais de 43%. Ao mesmo tempo, a agricultura familiar emprega 75% da força de trabalho no campo e produz 87% da mandioca, 70% do feijão, 58% do leite etc. Tudo com muito pouco apoio oficial.
Mas, nada vale tanto quanto a imagem de um trator derrubando pés de laranja. Comoção parecida ocorreu em março de 2006, quando mulheres da Via Campesina destruíram mudas de um viveiro da Aracruz. Naquela época, como agora, muita gente de esquerda, que apóia a luta dos Sem-Terra e da Via Campesina, condenou a ação. Considerou pouco tática.
Os que mais usam essa argumentação são “nossos aliados” no parlamento e no governo. Sempre tão cautelosos em relação à imagem dos movimentos sociais, não ajudaram a mostrar que as instalações da Aracruz nada tinham de cientificas. Que o plantio de eucaliptos é um dos maiores crimes ambientais e que a grilagem de terra é uma das especialidades dessa gigante do celulose.
O fato é que há questões e momentos em que os poderosos deixam pouco espaço para que a luta adote táticas sutis. Qual é a alternativa do MST à derrubada do laranjal? Distribuir panfletos nas grandes cidades denunciando as práticas de grilagem da Cutrale? Ou esperar que o Incra desaproprie a área tanto quanto espera há 29 anos que os índices de produtividade rural sejam revistos?
Os panfletos poderiam ser distribuídos aos milhões. Teriam pouco efeito frente ao apoio que uma Cutrale tem da grande mídia. Aquela que fala com milhões de pessoas a cada segundo. O caso dos índices de produtividade é um escândalo. Mas, 99,5% da população não sabem o que eles significam. Claro, a grande mídia não pautou a questão. Mal dedica meia dúzia de minutos por semana a ela. Não faz debates. E quando os faz, eles acontecem em horários inacessíveis, em canais fechados, com especialistas entendidos apenas por seus pares acadêmicos.
Enquanto poucos grupos poderosos continuarem a controlar a transmissão de informação pelas ondas eletromagnéticas a situação será esta. O monopólio do ar apóia o monopólio da terra. O monopólio da terra anda de braços dados com o grande capital. E este conta com total apoio dos vários níveis de governo. Todos unidos para manter os níveis extremos de desigualdade social no Brasil. Esta sim uma característica que dá ao Brasil um lugar no olimpo da exploração capitalista.
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29 de set. de 2009
Rock bom é rock pirata!
O filme “Os Piratas do Rock” mostra as origens das rádios piratas. E lembra como o rock´n roll foi subversivo. Hoje, virou mercadoria, mas ainda há muitos fazendo música contra as injustiças.
O ano é de 1966. O rock era considerado música perigosa. Afinal, o verbo rock, em inglês, quer dizer balançar. Rock and roll é algo como balançar e girar. Ou melhor, rebolar mesmo. É exatamente esse o movimento que quem dança rock faz. E como sabemos, movimentos com os quadris lembram o ato sexual. E sexo mais música é igual a prazer, não a reprodução da espécie. Um crime para os conservadores. Principalmente quando os maiores fãs da nova música eram jovens.
Por isso o rock foi tratado como algo extremamente subversivo quando nasceu. O novo ritmo só tocava duas horas por dia na maior rádio da Inglaterra, a BBC. Diante dessa censura não declarada, rádios que só tocavam rock começaram a surgir. A perseguição do governo britânico as jogou na ilegalidade. Para escapar à repressão, uma delas se instalou num barco. Como os piratas, ela atacava em alto mar. Longe das leis. Era a Rádio Rock.
Baseado em fatos reais, o filme de Richard Curtis conta a história dessa experiência. A produção passou despercebida por aqui, mas está nas locadoras. O elenco é ótimo: Philip Seymour Hoffman, Kenneth Branagh, Bill Nighy, January Jones, Gemma Arterton, Emma Thompson, Kenneth Branagh, Nick Frost. A história é boa e a trilha, melhor ainda. A caracterização da época também é interessante. Metade da Inglaterra, principalmente jovens e mulheres, ouvia as rádios piratas. Muitas vezes, a audição era feita escondida dos pais, maridos e patrões.
A produção surpreende ao retratar uma sociedade tão conservadora menos de 50 anos atrás. Como mostra o filme, a pílula já era bastante popular. Para o ódio da cúpula católica e conservadores em geral, libertava as mulheres de sua função reprodutiva. Dava a elas o direito de fazer sexo por prazer. O rock era só mais um elemento dessa liberdade. O problema é que o novo ritmo berrava isso aos quatro ventos nos sete mares.
Kenneth Branagh faz um ministro encarregado de acabar com as rádios piratas. Para isso, procura brechas na lei. Tenta usar força bruta. Mas, o que o personagem de Branagh não sabe é que a melhor maneira de acabar com alguns tipos de subversão anti-capitalista é torná-los objetos de consumo. Vivemos numa sociedade que gira em torno da mercadoria. Em que a maioria das coisas deixa de ter valor-de-uso para tornar-se valor-de-troca. Valor-de-uso tem a ver com qualidades. Valor-de-troca, com quantidade.
Manifestações culturais, como o rock, começam a perder suas qualidades subversivas ao se tornarem moda. Ao servirem para ajudar a fazer girar o mercado capitalista do entretenimento. Ao deixar sua dimensão qualitativa ser dominada pela lógica quantitativa. O que era criatividade desafiadora fica estéril e conformista. O mesmo vale para muitas outras coisas.
Che Guevara virou garoto-propaganda há muito tempo. A arte dos primeiros anos da Revolução Russa pode ser achada em comerciais de automóvel. Muita gente acha que Cuba já teria sido derrotada pelos Estados Unidos, se o boicote econômico fosse trocado pela venda de jeans e computadores para a Ilha de Fidel. A fé já tinha sua tabela de preços fixada nas igrejas muito antes dos neopentecostais existirem. E o sexo, tão temido nos anos 1960, hoje movimenta uma indústria de bilhões de dólares no mundo todo. Um ramo econômico que aprisionou em forma de mercadoria o corpo feminino que a pílula havia libertado.
No entanto, como diz o personagem Count (Philip Seymour Hoffman), enquanto houver gente fazendo música, político nenhum vai impedir. Sempre haverá a possibilidade de continuar fabricando subversão. E o próprio rock prova isso. Não são poucas as bandas surgidas para desafiar o capitalismo nos últimos 40 anos. Do “The Clash” ao “Rage Against Machine”. Da luta contra o racismo e o fascismo ao movimento contra a invasão do Iraque. É possível continuar fazendo música contra a injustiça social, a opressão e a exploração.
O grande problema do capitalismo é que ele não pode abrir mão totalmente dos seres humanos porque depende da exploração de sua força de trabalho. E a espécie humana tem a eterna mania de desobedecer leis naturais e sociais. Para o bem e para o mal. E quando se trata de rock contra o capitalismo, é para o bem!
O ano é de 1966. O rock era considerado música perigosa. Afinal, o verbo rock, em inglês, quer dizer balançar. Rock and roll é algo como balançar e girar. Ou melhor, rebolar mesmo. É exatamente esse o movimento que quem dança rock faz. E como sabemos, movimentos com os quadris lembram o ato sexual. E sexo mais música é igual a prazer, não a reprodução da espécie. Um crime para os conservadores. Principalmente quando os maiores fãs da nova música eram jovens.
Por isso o rock foi tratado como algo extremamente subversivo quando nasceu. O novo ritmo só tocava duas horas por dia na maior rádio da Inglaterra, a BBC. Diante dessa censura não declarada, rádios que só tocavam rock começaram a surgir. A perseguição do governo britânico as jogou na ilegalidade. Para escapar à repressão, uma delas se instalou num barco. Como os piratas, ela atacava em alto mar. Longe das leis. Era a Rádio Rock.
Baseado em fatos reais, o filme de Richard Curtis conta a história dessa experiência. A produção passou despercebida por aqui, mas está nas locadoras. O elenco é ótimo: Philip Seymour Hoffman, Kenneth Branagh, Bill Nighy, January Jones, Gemma Arterton, Emma Thompson, Kenneth Branagh, Nick Frost. A história é boa e a trilha, melhor ainda. A caracterização da época também é interessante. Metade da Inglaterra, principalmente jovens e mulheres, ouvia as rádios piratas. Muitas vezes, a audição era feita escondida dos pais, maridos e patrões.
A produção surpreende ao retratar uma sociedade tão conservadora menos de 50 anos atrás. Como mostra o filme, a pílula já era bastante popular. Para o ódio da cúpula católica e conservadores em geral, libertava as mulheres de sua função reprodutiva. Dava a elas o direito de fazer sexo por prazer. O rock era só mais um elemento dessa liberdade. O problema é que o novo ritmo berrava isso aos quatro ventos nos sete mares.
Kenneth Branagh faz um ministro encarregado de acabar com as rádios piratas. Para isso, procura brechas na lei. Tenta usar força bruta. Mas, o que o personagem de Branagh não sabe é que a melhor maneira de acabar com alguns tipos de subversão anti-capitalista é torná-los objetos de consumo. Vivemos numa sociedade que gira em torno da mercadoria. Em que a maioria das coisas deixa de ter valor-de-uso para tornar-se valor-de-troca. Valor-de-uso tem a ver com qualidades. Valor-de-troca, com quantidade.
Manifestações culturais, como o rock, começam a perder suas qualidades subversivas ao se tornarem moda. Ao servirem para ajudar a fazer girar o mercado capitalista do entretenimento. Ao deixar sua dimensão qualitativa ser dominada pela lógica quantitativa. O que era criatividade desafiadora fica estéril e conformista. O mesmo vale para muitas outras coisas.
Che Guevara virou garoto-propaganda há muito tempo. A arte dos primeiros anos da Revolução Russa pode ser achada em comerciais de automóvel. Muita gente acha que Cuba já teria sido derrotada pelos Estados Unidos, se o boicote econômico fosse trocado pela venda de jeans e computadores para a Ilha de Fidel. A fé já tinha sua tabela de preços fixada nas igrejas muito antes dos neopentecostais existirem. E o sexo, tão temido nos anos 1960, hoje movimenta uma indústria de bilhões de dólares no mundo todo. Um ramo econômico que aprisionou em forma de mercadoria o corpo feminino que a pílula havia libertado.
No entanto, como diz o personagem Count (Philip Seymour Hoffman), enquanto houver gente fazendo música, político nenhum vai impedir. Sempre haverá a possibilidade de continuar fabricando subversão. E o próprio rock prova isso. Não são poucas as bandas surgidas para desafiar o capitalismo nos últimos 40 anos. Do “The Clash” ao “Rage Against Machine”. Da luta contra o racismo e o fascismo ao movimento contra a invasão do Iraque. É possível continuar fazendo música contra a injustiça social, a opressão e a exploração.
O grande problema do capitalismo é que ele não pode abrir mão totalmente dos seres humanos porque depende da exploração de sua força de trabalho. E a espécie humana tem a eterna mania de desobedecer leis naturais e sociais. Para o bem e para o mal. E quando se trata de rock contra o capitalismo, é para o bem!
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24 de ago. de 2009
Tempos de paz no paraíso da tortura
O judeu Clausewitz foge do nazismo e encontra no Brasil outro inferno. Seria uma chance de denunciar o nosso secular terrorismo de Estado. Mas, Daniel Filho desperdiça a oportunidade.
"Tempos de paz" é baseado na peça de teatro “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, de Bosco Brasil. Sua transformação em filme oferecia muitas possibilidades boas. O máximo a que Daniel Filho chegou foi mostrar dois talentosos atores e uma denúncia tímida da ditadura getulista.
A história se passa em 1945, no dia em que a ditadura Vargas liberta seus presos políticos. Fugindo da guerra na Europa, milhares de pessoas chegam ao Rio de Janeiro. Entre elas, está o polonês Clausewitz (Dan Stulbach). Logo que avista a bela paisagem carioca, ele repete a famosa frase do poeta russo Maiakovski: “Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”. Depois, durante o interrogatório a que é submetido pelo funcionário Sigismundo (Tony Ramos), o polonês diz que aprendeu o português porque lhe parecia uma língua falada por bebês. Por gente ainda sem dentes.
Essa imagem do Brasil como paraíso, lugar de inocência e felicidade, parece ser uma constante na mente dos habitantes do Velho Mundo. Remete à famosa carta de Pero Vaz Caminha, que descreve as novas terras como um éden em que “se plantando, tudo dá”. É certo que foi escrita pouco antes da pilhagem que começou e não parou mais. Incluindo o constante estupro das nativas, transformado recentemente em turismo sexual.
Para Clausewitz, artista de teatro, o Brasil era uma promessa de doçura eterna. Onde ele lavraria a terra com suas mãos finas com a mesma facilidade com que declamava textos nos palcos da Europa. O funcionário vivido por Tony Ramos logo quebra suas ilusões. Sem bagagens e bens com que subornar os funcionários, Sigismundo está pronto a fazê-lo voltar ao velho continente. Não o fará se o recém-chegado aceitar um desafio. Fazê-lo chorar contando suas dolorosas lembranças de judeu perseguido.
Clausewitz logo descobre que arrancar lágrimas de Sigismundo é missão quase impossível. O funcionário prestou dedicados e cruéis serviços de torturador para o Estado Novo. No cumprimento do dever, chegou a aleijar as mãos do médico (Daniel Filho) que salvou a vida de sua irmã. Antes disso, foi capanga no interior gaúcho, onde cometia barbaridades ordenadas por seu padrinho.
Desse modo fica claro para o judeu que o mito do paraíso tropical brasileiro foi construído sobre uma história sangrenta. Um genocídio continuado contra índios e negros e estendido aos que ousam desafiar o poder, como os comunistas e lutadores populares em geral. Um jardim sem campos de concentração, mas com os porões lotados de vítimas do terror do Estado. Um território distante da guerra, mas entregando milhares de inocentes à paz dos cemitérios.
Se o filme traz algo de positivo é uma tímida denúncia da sangrenta ditadura de Getúlio Vargas. Foram milhares de presos e torturados pelo homem que costuma ser glorificado até por muitos setores de esquerda. Na verdade um gênio político a serviço dos poderosos. Alguém que aperfeiçoou uma máquina de morte utilizada depois pela ditadura militar e que até hoje funciona em muitas delegacias de polícia, contra pobres e negros. Um dos poucos setores do Estado brasileiro que vem mantendo elevado nível de eficiência. E pronto para ser utilizado novamente contra quem ameaçar os interesses dos que mandam.
O judeu, afinal, arranca lágrimas ao torturador. Não contando suas lembranças, mas encenando o trecho de uma peça. Poderia ser a simbolização de que a arte é tão poderosa que consegue tocar o humano escondido numa besta cruel. Mas, o filme não chega a tanto. E a presença do médico na última cena, tentando intimidar seu carrasco com o olhar, acaba de estragar tudo. Um olhar de reprovação é a punição máxima que as autoridades democráticas de plantão têm coragem de adotar contra os covardes que estiveram a serviço das ditaduras de nossa história.
O inferno tupiniquim continua queimando e sob as ordens da mesma dinastia demoníaca. Às vezes, mudam seus auxiliares. Alguns cumprem suas tarefas de bom grado. Outros, sob a sombra vergonhosa da traição. O jeito é criar condições para que um dia o conflito seja assumido abertamente pelos debaixo. E as diretrizes que passem a valer sejam as da guerra da resistência popular.
"Tempos de paz" é baseado na peça de teatro “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, de Bosco Brasil. Sua transformação em filme oferecia muitas possibilidades boas. O máximo a que Daniel Filho chegou foi mostrar dois talentosos atores e uma denúncia tímida da ditadura getulista.
A história se passa em 1945, no dia em que a ditadura Vargas liberta seus presos políticos. Fugindo da guerra na Europa, milhares de pessoas chegam ao Rio de Janeiro. Entre elas, está o polonês Clausewitz (Dan Stulbach). Logo que avista a bela paisagem carioca, ele repete a famosa frase do poeta russo Maiakovski: “Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”. Depois, durante o interrogatório a que é submetido pelo funcionário Sigismundo (Tony Ramos), o polonês diz que aprendeu o português porque lhe parecia uma língua falada por bebês. Por gente ainda sem dentes.
Essa imagem do Brasil como paraíso, lugar de inocência e felicidade, parece ser uma constante na mente dos habitantes do Velho Mundo. Remete à famosa carta de Pero Vaz Caminha, que descreve as novas terras como um éden em que “se plantando, tudo dá”. É certo que foi escrita pouco antes da pilhagem que começou e não parou mais. Incluindo o constante estupro das nativas, transformado recentemente em turismo sexual.
Para Clausewitz, artista de teatro, o Brasil era uma promessa de doçura eterna. Onde ele lavraria a terra com suas mãos finas com a mesma facilidade com que declamava textos nos palcos da Europa. O funcionário vivido por Tony Ramos logo quebra suas ilusões. Sem bagagens e bens com que subornar os funcionários, Sigismundo está pronto a fazê-lo voltar ao velho continente. Não o fará se o recém-chegado aceitar um desafio. Fazê-lo chorar contando suas dolorosas lembranças de judeu perseguido.
Clausewitz logo descobre que arrancar lágrimas de Sigismundo é missão quase impossível. O funcionário prestou dedicados e cruéis serviços de torturador para o Estado Novo. No cumprimento do dever, chegou a aleijar as mãos do médico (Daniel Filho) que salvou a vida de sua irmã. Antes disso, foi capanga no interior gaúcho, onde cometia barbaridades ordenadas por seu padrinho.
Desse modo fica claro para o judeu que o mito do paraíso tropical brasileiro foi construído sobre uma história sangrenta. Um genocídio continuado contra índios e negros e estendido aos que ousam desafiar o poder, como os comunistas e lutadores populares em geral. Um jardim sem campos de concentração, mas com os porões lotados de vítimas do terror do Estado. Um território distante da guerra, mas entregando milhares de inocentes à paz dos cemitérios.
Se o filme traz algo de positivo é uma tímida denúncia da sangrenta ditadura de Getúlio Vargas. Foram milhares de presos e torturados pelo homem que costuma ser glorificado até por muitos setores de esquerda. Na verdade um gênio político a serviço dos poderosos. Alguém que aperfeiçoou uma máquina de morte utilizada depois pela ditadura militar e que até hoje funciona em muitas delegacias de polícia, contra pobres e negros. Um dos poucos setores do Estado brasileiro que vem mantendo elevado nível de eficiência. E pronto para ser utilizado novamente contra quem ameaçar os interesses dos que mandam.
O judeu, afinal, arranca lágrimas ao torturador. Não contando suas lembranças, mas encenando o trecho de uma peça. Poderia ser a simbolização de que a arte é tão poderosa que consegue tocar o humano escondido numa besta cruel. Mas, o filme não chega a tanto. E a presença do médico na última cena, tentando intimidar seu carrasco com o olhar, acaba de estragar tudo. Um olhar de reprovação é a punição máxima que as autoridades democráticas de plantão têm coragem de adotar contra os covardes que estiveram a serviço das ditaduras de nossa história.
O inferno tupiniquim continua queimando e sob as ordens da mesma dinastia demoníaca. Às vezes, mudam seus auxiliares. Alguns cumprem suas tarefas de bom grado. Outros, sob a sombra vergonhosa da traição. O jeito é criar condições para que um dia o conflito seja assumido abertamente pelos debaixo. E as diretrizes que passem a valer sejam as da guerra da resistência popular.
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15 de ago. de 2009
A TV na cesta básica brasileira
Há algum tempo, sabemos que existem mais aparelhos de TV nas residências brasileiras do que geladeiras. Agora, começam a chegar outros meios eletrônicos, como internete e celulares. Aumenta o cerco da vida cotidiana pelos valores capitalistas.
As pesquisas do IBGE vêm demonstrando ano após ano que há residências brasileiras que possuem aparelho de TV, mas nenhuma geladeira. Agora, outras bugigangas eletrônicas também começam a chegar. Em 01 de agosto de 2009, reportagem de O Globo, dizia que o peso dos itens de tecnologia no orçamento das famílias brasileiras vem subindo. São principalmente computadores, celulares e aparelhos de DVD.
Segundo, a reportagem de Bruno Rosa, o maior crescimento aconteceu entre as famílias de classes A e B, com ganho superior a R$ 4.807,00 mensais. Claro que as famílias das chamadas classes A e B são minoria. Mas, reportagem da revista Época de 10 de agosto destaca maior acesso dos segmentos C e D a tecnologias como celulares e computadores pessoais.
Tudo isso seria muito bom. Poderia significar uma democratização no acesso aos meios de comunicação. Não fosse por um enorme detalhe: o monopólio dos meios de comunicação e dos meios de criação de conteúdo em geral. Um setor cujo tamanho explodiu na economia e na vida social. E foi a televisão que abriu caminho. No mundo e aqui, tudo começou com ela.
Aparentemente houve duas grandes explosões de venda de televisores no Brasil. Uma, nos anos 1970. Outra, pouco depois do lançamento do Plano Real. O crédito fácil parece estar na origem dos dois momentos. Porém, da Copa Mundial de Futebol de 94 para cá a TV invadiu também os espaços públicos. Já não há restaurante ou boteco que não tenha sua tela pendurada na parede. O que pode mudar é a programação, mas sempre a cargo de alguma das grandes redes do setor, seja em sinal aberto, seja por assinatura.
Não é preciso fazer um estudo sério, para concluir que tal presença na vida cotidiana da população alterou significativamente sua visão de mundo. É muito difícil que um fato seja conhecido e discutido sem ter passado antes pelas emissoras de TV e seus programas. Quem não assiste TV tem sérias dificuldades para manter algum tipo de conversação com a maioria das pessoas. Daqui a pouco, o mesmo vai acontecer com quem não tem celular e internete.
A internete, o celular e os aparelhos de DVD são bem menos presentes na vida dos brasileiros. Apesar disso, cada um a seu modo complementa o trabalho ideológico da TV.
As promessas de ampla democracia da internete esbarram em seu pouco alcance, mas principalmente em seu domínio por grandes provedores. Sem falar, na pura e simples transposição do material dos grandes produtores de notícias e entretenimentos para a rede mundial de computadores.
Os aparelhos de DVD, por sua vez, são maciçamente utilizados para reproduzir material das mesmas grandes produtoras de filmes. Os celulares nos tornaram trabalhadores em tempo integral. Através deles, ficamos presos ao trabalho quase 24 horas por dia. Mesmo os desempregados precisam de um celular para organizar seus “bicos”.
Marx chamava a predominância da mercadoria no cotidiano capitalista de fetichismo da mercadoria. As coisas ganham vida e controlam os seres humanos. Nossa incapacidade atual de falar uns com os outros sem passar por objetos intermediários, como a TV, o celular e a internete é uma demonstração desse fenômeno.
Pessoas mais idosas devem se lembrar o que era viver sem tudo isso. O espaço do dia que sobrava depois do trabalho não estava necessariamente pautado pelos grandes meios de comunicação. Assistir ao Jornal Nacional e à novela não era um ritual obrigatório. No máximo, já havia o rádio. Mas, sem o apelo arrasador da imagem em movimento.
Claro que também eram raras as reuniões de partido ou assembléias do sindicato. No entanto, relações que envolviam solidariedade e convivência eram mais fortes. Pelo menos, criavam um ambiente de resistência à intensa competição capitalista.
Hoje a TV faz parte da cesta básica. É o que mostram as milhares de antenas de TV espetadas mesmo nos bairros mais pobres. As outras bugigangas eletrônicas ainda estão longe ganhar tanto terreno. Mas, o cerco da vida cotidiana pelos limites impostos pela visão de mundo da classe dominante é cada vez maior.
Nossa sorte é que essa visão de mundo está cheia de furos e contradições. De um lado, os meios de comunicação são obrigados a defender valores como igualdade, justiça, solidariedade, liberdade. Dizer que a organização social que temos é a melhor maneira de conquistar tais valores. Por outro lado, todos os dias acontecem fatos aos montes que desmentem tudo isso. Os próprios meios de comunicação acabam sendo obrigados a mostrar que ter dinheiro, patrimônio e boas relações com o poder está acima da liberdade e da justiça que as novelas e filmes nos ensinam a perseguir.
Cabe à luta contra-hegemônica saber explorar essas contradições. E usar os avançados meios tecnológicos em seu favor. Mas, nessa luta, acabar com o monopólio dos meios de comunicação é fundamental. A mídia empresarial é grande responsável por manter a cesta básica da maioria da população pobre em quantidade e qualidade.
As pesquisas do IBGE vêm demonstrando ano após ano que há residências brasileiras que possuem aparelho de TV, mas nenhuma geladeira. Agora, outras bugigangas eletrônicas também começam a chegar. Em 01 de agosto de 2009, reportagem de O Globo, dizia que o peso dos itens de tecnologia no orçamento das famílias brasileiras vem subindo. São principalmente computadores, celulares e aparelhos de DVD.
Segundo, a reportagem de Bruno Rosa, o maior crescimento aconteceu entre as famílias de classes A e B, com ganho superior a R$ 4.807,00 mensais. Claro que as famílias das chamadas classes A e B são minoria. Mas, reportagem da revista Época de 10 de agosto destaca maior acesso dos segmentos C e D a tecnologias como celulares e computadores pessoais.
Tudo isso seria muito bom. Poderia significar uma democratização no acesso aos meios de comunicação. Não fosse por um enorme detalhe: o monopólio dos meios de comunicação e dos meios de criação de conteúdo em geral. Um setor cujo tamanho explodiu na economia e na vida social. E foi a televisão que abriu caminho. No mundo e aqui, tudo começou com ela.
Aparentemente houve duas grandes explosões de venda de televisores no Brasil. Uma, nos anos 1970. Outra, pouco depois do lançamento do Plano Real. O crédito fácil parece estar na origem dos dois momentos. Porém, da Copa Mundial de Futebol de 94 para cá a TV invadiu também os espaços públicos. Já não há restaurante ou boteco que não tenha sua tela pendurada na parede. O que pode mudar é a programação, mas sempre a cargo de alguma das grandes redes do setor, seja em sinal aberto, seja por assinatura.
Não é preciso fazer um estudo sério, para concluir que tal presença na vida cotidiana da população alterou significativamente sua visão de mundo. É muito difícil que um fato seja conhecido e discutido sem ter passado antes pelas emissoras de TV e seus programas. Quem não assiste TV tem sérias dificuldades para manter algum tipo de conversação com a maioria das pessoas. Daqui a pouco, o mesmo vai acontecer com quem não tem celular e internete.
A internete, o celular e os aparelhos de DVD são bem menos presentes na vida dos brasileiros. Apesar disso, cada um a seu modo complementa o trabalho ideológico da TV.
As promessas de ampla democracia da internete esbarram em seu pouco alcance, mas principalmente em seu domínio por grandes provedores. Sem falar, na pura e simples transposição do material dos grandes produtores de notícias e entretenimentos para a rede mundial de computadores.
Os aparelhos de DVD, por sua vez, são maciçamente utilizados para reproduzir material das mesmas grandes produtoras de filmes. Os celulares nos tornaram trabalhadores em tempo integral. Através deles, ficamos presos ao trabalho quase 24 horas por dia. Mesmo os desempregados precisam de um celular para organizar seus “bicos”.
Marx chamava a predominância da mercadoria no cotidiano capitalista de fetichismo da mercadoria. As coisas ganham vida e controlam os seres humanos. Nossa incapacidade atual de falar uns com os outros sem passar por objetos intermediários, como a TV, o celular e a internete é uma demonstração desse fenômeno.
Pessoas mais idosas devem se lembrar o que era viver sem tudo isso. O espaço do dia que sobrava depois do trabalho não estava necessariamente pautado pelos grandes meios de comunicação. Assistir ao Jornal Nacional e à novela não era um ritual obrigatório. No máximo, já havia o rádio. Mas, sem o apelo arrasador da imagem em movimento.
Claro que também eram raras as reuniões de partido ou assembléias do sindicato. No entanto, relações que envolviam solidariedade e convivência eram mais fortes. Pelo menos, criavam um ambiente de resistência à intensa competição capitalista.
Hoje a TV faz parte da cesta básica. É o que mostram as milhares de antenas de TV espetadas mesmo nos bairros mais pobres. As outras bugigangas eletrônicas ainda estão longe ganhar tanto terreno. Mas, o cerco da vida cotidiana pelos limites impostos pela visão de mundo da classe dominante é cada vez maior.
Nossa sorte é que essa visão de mundo está cheia de furos e contradições. De um lado, os meios de comunicação são obrigados a defender valores como igualdade, justiça, solidariedade, liberdade. Dizer que a organização social que temos é a melhor maneira de conquistar tais valores. Por outro lado, todos os dias acontecem fatos aos montes que desmentem tudo isso. Os próprios meios de comunicação acabam sendo obrigados a mostrar que ter dinheiro, patrimônio e boas relações com o poder está acima da liberdade e da justiça que as novelas e filmes nos ensinam a perseguir.
Cabe à luta contra-hegemônica saber explorar essas contradições. E usar os avançados meios tecnológicos em seu favor. Mas, nessa luta, acabar com o monopólio dos meios de comunicação é fundamental. A mídia empresarial é grande responsável por manter a cesta básica da maioria da população pobre em quantidade e qualidade.
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3 de ago. de 2009
Trama Internacional poupa o verdadeiro vilão
Um filme que tem como vilão um banco poderia ter mostrado os crimes do capitalismo contra a humanidade. Ficou apenas na denúncia de alguns banqueiros maus.
Tom Twyker diz que não fez Trama Internacional pensando na atual crise capitalista. Segundo ele, as filmagens começaram bem antes do estouro da “bolha das hipotecas” nos Estados Unidos. A própria trama mostra que ele diz a verdade. Está longe de ter algo a ver com a crise.
O vilão da história é um banco internacional que financia organizações de espionagem, traficantes, mafiosos e ditadores de países pobres. Clive Owen é o agente da Interpol, Louis Salinger. Ele está em busca de provas contra o poderoso banco junto com a assistente da promotoria de Manhattan, Eleanor Whitman (Naomi Watts).
Seguindo o rastro de operações ilegais, Salinger e Whitman vão dos Estados Unidos à Turquia, passando por Alemanha e Itália. A cena mais marcante é a do tiroteio no famoso Museu Guggenheim, em Manhattan. São 15 minutos de tiros que transformam o lugar num queijo suíço. Correrias e tiros. O filme quase se reduz a esse tipo de ação.
Há um momento no filme em que um executivo do banco negocia com um militar da Libéria, país africano. O banqueiro oferece ao liberiano armas para a tomada do poder e a instalação de uma ditadura no país. O general africano pergunta quanto o banco cobraria por isso. O executivo diz que não cobraria nada porque dinheiro não é a única moeda de troca de seu banco.
Deveria ter dito que nenhum banco trabalha só com dinheiro. Aliás, nem o capitalismo funciona só com dinheiro. Funciona com capital. Que é dinheiro que se transforma em mais dinheiro. Melhor dizendo, valor-de-troca que se transforma em mais valor-de-troca. E valores-de-troca se diferenciam dos valores-de-uso exatamente por não terem uma finalidade determinada. Só existem para serem trocados.
É assim desde os tempos das primeiras atividades comerciais. Só que no capitalismo, a produção de valor-de-troca passa a dominar a vida social. É por isso que as crises capitalistas são causadas por abundância e não por escassez. Não faltam valores-de-uso. Os estoque estão cheios. Falta gente com valor-de-troca suficiente para comprar os valores-de-uso. Os bolsos estão vazios.
Esse processo de circulação tem invadido a vida humana de forma intensa nos últimos 150 anos. Quase tudo ganhou um preço. Da fé religiosa aos créditos de carbono. Ou seja, o acesso à espiritualidade e ao ar que respiramos torna-se cada vez mais uma questão de possuir valor-de-troca. Pode ser dinheiro, mas aceitam-se cartões, cheques pré-datados e ações na bolsa.
Os bancos são só parte mais aparente desse sistema todo. Afinal, são eles que cuidam da compra e da venda de dinheiro em suas mais variadas formas. No entanto, já não é possível separar bancos de empresas. Capital bancário e capital industrial estão juntos há mais de um século. Bancos têm representantes nas direções das grandes empresas para as quais emprestam dinheiro. Empresas têm seus próprios bancos e financeiras. Não há mais separação entre capital produtivo e "capital parasitário". À medida que o valor-de-troca invadiu a vida humana, espalhou seu "parasitismo".
A verdade é que para a circulação do capital pouco importa se o comércio de drogas é ilegal ou não. Ou se o fornecimento de armas é para governos de ditadores ou não. Tabaco e álcool matam mais do que cocaína e maconha, sem disparar um só tiro. Os governos dos Estados Unidos, Inglaterra e Israel são responsáveis por mais mortes violentas no planeta do que todas as ditaduras estúpidas do mundo pobre. E a produção capitalista de alimentos, plástico, automóveis está ameaçando a vida humana sem praticamente desobedecer nenhuma lei.
Transformar os bancos nos únicos vilões é um bom negócio para o capitalismo. Com isso, parece que um dia o sistema pode funcionar bem. O problema é que o filme de Twyker nem isso faz. Os bandidos são apenas alguns banqueiros maus. O que poderia ser uma denúncia do próprio funcionamento do capitalismo vira só uma história sobre homens maus usando um banco para fins criminosos. O verdadeiro vilão, o sistema, escapa sem arranhões. Talvez, porque seu funcionamento torne possível obras como Trama Internacional. E vice-versa...
Tom Twyker diz que não fez Trama Internacional pensando na atual crise capitalista. Segundo ele, as filmagens começaram bem antes do estouro da “bolha das hipotecas” nos Estados Unidos. A própria trama mostra que ele diz a verdade. Está longe de ter algo a ver com a crise.
O vilão da história é um banco internacional que financia organizações de espionagem, traficantes, mafiosos e ditadores de países pobres. Clive Owen é o agente da Interpol, Louis Salinger. Ele está em busca de provas contra o poderoso banco junto com a assistente da promotoria de Manhattan, Eleanor Whitman (Naomi Watts).
Seguindo o rastro de operações ilegais, Salinger e Whitman vão dos Estados Unidos à Turquia, passando por Alemanha e Itália. A cena mais marcante é a do tiroteio no famoso Museu Guggenheim, em Manhattan. São 15 minutos de tiros que transformam o lugar num queijo suíço. Correrias e tiros. O filme quase se reduz a esse tipo de ação.
Há um momento no filme em que um executivo do banco negocia com um militar da Libéria, país africano. O banqueiro oferece ao liberiano armas para a tomada do poder e a instalação de uma ditadura no país. O general africano pergunta quanto o banco cobraria por isso. O executivo diz que não cobraria nada porque dinheiro não é a única moeda de troca de seu banco.
Deveria ter dito que nenhum banco trabalha só com dinheiro. Aliás, nem o capitalismo funciona só com dinheiro. Funciona com capital. Que é dinheiro que se transforma em mais dinheiro. Melhor dizendo, valor-de-troca que se transforma em mais valor-de-troca. E valores-de-troca se diferenciam dos valores-de-uso exatamente por não terem uma finalidade determinada. Só existem para serem trocados.
É assim desde os tempos das primeiras atividades comerciais. Só que no capitalismo, a produção de valor-de-troca passa a dominar a vida social. É por isso que as crises capitalistas são causadas por abundância e não por escassez. Não faltam valores-de-uso. Os estoque estão cheios. Falta gente com valor-de-troca suficiente para comprar os valores-de-uso. Os bolsos estão vazios.
Esse processo de circulação tem invadido a vida humana de forma intensa nos últimos 150 anos. Quase tudo ganhou um preço. Da fé religiosa aos créditos de carbono. Ou seja, o acesso à espiritualidade e ao ar que respiramos torna-se cada vez mais uma questão de possuir valor-de-troca. Pode ser dinheiro, mas aceitam-se cartões, cheques pré-datados e ações na bolsa.
Os bancos são só parte mais aparente desse sistema todo. Afinal, são eles que cuidam da compra e da venda de dinheiro em suas mais variadas formas. No entanto, já não é possível separar bancos de empresas. Capital bancário e capital industrial estão juntos há mais de um século. Bancos têm representantes nas direções das grandes empresas para as quais emprestam dinheiro. Empresas têm seus próprios bancos e financeiras. Não há mais separação entre capital produtivo e "capital parasitário". À medida que o valor-de-troca invadiu a vida humana, espalhou seu "parasitismo".
A verdade é que para a circulação do capital pouco importa se o comércio de drogas é ilegal ou não. Ou se o fornecimento de armas é para governos de ditadores ou não. Tabaco e álcool matam mais do que cocaína e maconha, sem disparar um só tiro. Os governos dos Estados Unidos, Inglaterra e Israel são responsáveis por mais mortes violentas no planeta do que todas as ditaduras estúpidas do mundo pobre. E a produção capitalista de alimentos, plástico, automóveis está ameaçando a vida humana sem praticamente desobedecer nenhuma lei.
Transformar os bancos nos únicos vilões é um bom negócio para o capitalismo. Com isso, parece que um dia o sistema pode funcionar bem. O problema é que o filme de Twyker nem isso faz. Os bandidos são apenas alguns banqueiros maus. O que poderia ser uma denúncia do próprio funcionamento do capitalismo vira só uma história sobre homens maus usando um banco para fins criminosos. O verdadeiro vilão, o sistema, escapa sem arranhões. Talvez, porque seu funcionamento torne possível obras como Trama Internacional. E vice-versa...
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