23 de jul. de 2009

Turma da Mônica, jovem e consumista

Mônica e sua turma ficaram adolescentes e agradaram. É grande sucesso de vendas. Mas, continua mostrando uma sociedade que existe para poucos.

Em outubro de 2008, Mauricio de Souza completou 50 anos de carreira. Mostrou que continua talentoso e com ótimo faro para negócios. Lançou a Turma da Mônica Jovem. Renovou seu grande sucesso nacional e internacional. A primeira edição vendeu 200 mil exemplares. Os outros dois números venderam, juntos, 500 mil. A publicação ficou várias semanas entre as mais vendidas.

As razões são muitas. O estilo mangá, inspirado nos quadrinhos japoneses é uma delas. Trata-se de uma linguagem que caiu no gosto das crianças e adolescentes no mundo todo. A excelente equipe de roteiristas é outro trunfo há muitos anos. As histórias são dinâmicas, engraçadas, ligadas aos modismos do momento e em linguagem idêntica àquela falada pela maioria dos jovens.

As devidas adaptações foram feitas. E elas revelam muita coisa. Cascão agora toma banho. Sua atração pela sujeira transferiu-se para um jeitão bagunceiro e simpático. Cebolinha só troca letras quando fica nervoso. O que dá um certo charme ao homem em que ele vai se tornando. Magali continua faminta, mas segura a gula para cuidar do corpo. Mônica ainda é forte e mandona, só que sua personalidade a transformou numa líder.

Ou seja, as manias e características da turma mirim não a tornaram um bando de jovens problemáticos. Magali teria tudo para sofrer de obesidade mórbida. Cascão poderia ser o cara que não vai bem na escola e anda em más companhias. Cebolinha poderia transformar-se num jovem tímido e solitário. Mônica, uma pessoa autoritária e insuportável.

As preocupações com consumo também estão mais presentes. Nem tanto nas tramas. Passeios a lojas e shoppings até aparecem. Mas é mais sutil que isso. Continuam os episódios que mostram a luta do bem contra o mal e as confusões envolvendo situações cotidianas. A turma infantil usava sempre as mesmas roupas simples.

Já, a tribo adolescente veste roupas diferentes e bonitas em suas aventuras. Não é preciso convidar diretamente ao consumo. Basta mostrar que o padrão de beleza e dignidade que vale depende mais daquilo que se tem e não daquilo se é ou faz. Combater o mal e resolver os problemas do dia-a-dia, tudo bem. Mas com roupas de grife.

Claro que Mauricio e sua equipe não iriam retratar Mônica e seus amigos como jovens problemáticos. Não seria uma aposta feliz em termos de mercado. E o apelo ao consumo tem tudo a ver com um empreendimento que sempre soube vender sua marca. Em termos de qualidade de produção e capacidade de vendas, Maurício de Souza é o Walt Disney brasileiro.

Desde seus primeiros trabalhos em revista em quadrinhos, Mauricio soube se adequar ao mercado que nascia. Crescendo junto com a urbanização da sociedade brasileira. Acompanhando a ampliação da dimensão do consumo na sociedade. Beneficiando-se de uma expansão da indústria editorial que praticamente o tornou o único grande produtor nacional de quadrinhos. Um gênio criativo e comercial, sem dúvida.

Mas para chegar tão longe, sua obra só podia vender uma visão conformista da sociedade. O fato é que a Turma da Mônica sempre retratou uma realidade que nunca foi a da maioria das crianças e adolescentes. O bairro do Limoeiro não é rico, mas não é favela, nem periferia pobre. Quase toda a turma é formada por crianças brancas. Elas estudam em escolas bem arrumadas e contam com lazer e diversão. Vão a médicos e dentistas sem maiores dificuldades. Pra completar, Cascão, o garoto bom de bola e que não gosta de tomar banho, tem todo jeito de ser negro.

Não se trata de considerar Maurício um racista e sua equipe um bando de conservadores. No entanto, o mercado impõe condições duras para o sucesso. Não é preciso mais do que ficar no nível do senso comum para fazer o jogo dos poderosos. Muitas vezes uma certa crítica social aparece nas histórias. O problema é que isso é muito pouco em uma das sociedades mais injustas do planeta. É muito mais caridade que denúncia.

A verdade é que a turminha da Mônica tem sua parte de responsabilidade na manutenção da sociedade brasileira. Agora, ela se atualizou e o sucesso continua. Até porque as crianças e adolescentes têm cada vez mais poder nas decisões sobre o que a família consome. Infelizmente, é isso que acaba restando. Ensinar jovens e crianças a consumir, mesmo que isso lhes custe ficar cada vez mais cegos aos problemas sociais que as cercam.

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10 de jul. de 2009

Jean Charles é correto, mas sua denúncia é limitada

Henrique Goldman fez um bom filme sobre a morte do jovem brasileiro, em Londres. Serve como denúncia. Mas, poderia ter deixado mais claro o papel do terrorismo de Estado e da intolerância racial.

Jean Charles é um filme bem feito. Realista, com o ritmo certo, roteiro redondo e bons atores. No elenco, destacam-se o sempre talentoso Selton Mello no papel-título e Luis Miranda, como Alex. O final do filme deixa claro quanta injustiça e covardia envolveram o caso. O que não fica tão evidente é o papel do Estado e do conservadorismo da sociedade inglesa em toda a tragédia.

O diretor optou corretamente por retratar Jean Charles tal como ele devia ser. Um jovem vindo de um país periférico, de família pobre, se virando para sobreviver em uma sociedade muito diferente da sua e pouco amigável em relação a estrangeiros. Nesse meio, Jean Charles usa todas as suas habilidades para se dar bem. É o caso da cena inicial em que ele mente descaradamente para conseguir o visto de entrada para sua prima. É o caso da traição que comete contra seu empregador e amigo. Para não falar da confusão que criou com os passaportes dos colegas de trabalho.

A seu jeito, o próprio Jean Charles explica a razão maior para isso tudo: “o sistema é bruto”. As dificuldades para chegar e se instalar em um país europeu considerado rico são enormes. Os recém-chegados são praticamente empurrados para a ilegalidade e para a utilização de expedientes pouco éticos. Ao mesmo tempo, há tolerância suficiente para que os patrões locais se aproveitem da situação e explorem a força-de-trabalho barata de pessoas com medo de ter sua condição irregular descoberta.

É a cara da globalização capitalista. A circulação de mercadorias é muito mais livre que a de seres humanos. E só fica menos complicada se as pessoas forem reduzidas a algo que deveria ser apenas parte delas: a força-de-trabalho.

E isso tudo se agravou depois dos ataques às Torres Gêmeas. Mais do que nunca, os que têm o cabelo crespo, usam turbante ou um véu, tornaram-se alvo fácil para todo tipo de ofensas. É o que mostra o filme, quando o cozinheiro italiano cospe nos sanduíches antes de servi-los a uma família com roupas muçulmanas.

Em alguns momentos, a obra de Goldman mostra toda essa brutalidade. Mas, não aborda, por exemplo, a dura escolha que, freqüentemente, se impõe a muitos imigrantes pobres que moram no chamado “Primeiro Mundo”.

Por um lado, há imigrantes que optam por permanecer entre seus semelhantes. Às vezes, há bairros inteiros em que vivem pessoas da mesma origem nacional. Formam comunidades em torno dos valores e hábitos que compartilham. Algo que aparece claramente quando os personagens do filme assistem a um programa de Raul Gil e vão a um show de Sidney Magal. Tudo isso lhes dá uma sensação de segurança e conforto. Mas, os afasta ainda mais dos nativos, de sua língua e costumes.

Por outro lado, há os que conseguem se integrar à vida social local. Começam a dominar a língua, a cultura e os hábitos do país anfitrião. Fazem amigos, conseguem empregos formais, casam, têm filhos. Mas, o preço é alto. As chances de receber ataques preconceituosos e racistas quando menos esperam são grandes. E eles podem vir de sogros, cunhados, colegas de trabalho, colegas de escola dos filhos etc. Ao mesmo tempo, também podem ser tratados como traidores pela comunidade de seus conterrâneos.

A encruzilhada entre esses dois caminhos parece estar simbolizada no nome que o personagem principal recebeu de seus pais. Menezes de família, mas Jean Charles para fazer fortuna no estrangeiro. Este aspecto o filme não abordou, apesar de dar sinais de que o personagem de Selton Mello pretendia entrar num mundo em que seu nome de batismo tivesse mais importância que seu sobrenome. O assassinato covarde no vagão do metrô acabou sendo uma demonstração bem exagerada de que conquistar algo assim é muito difícil.

Outra dimensão que mal aparece no filme é a natureza abertamente racista das operações do aparelho repressivo britânico. Somente no final, um manifestante faz essa afirmação. Mas é pouco diante da brutalidade da morte de Jean Charles.

A ausência elementos mais esclarecedores pode dar margem a interpretações que justifiquem o que aconteceu. Não em relação ao personagem principal, diretamente, mas ao que ele representa. Jean Charles era estrangeiro, nascido no “Terceiro Mundo”, malandro e ambicioso. Não era um terrorista. Dificilmente alguém diria que merecia a morte que teve. Mas, pertencia a uma parte da população cuja conduta é desaprovada por puro preconceito. E isso é o bastante para torná-la alvo fácil da violência policial. A conclusão conservadora diria que é essa parte da população que deve mudar sua forma de agir e não a polícia.

A possibilidade de que seja esta a moral da história deduzida pelo público é grande. E é alimentada pelos racismos espalhados pelo planeta. Não apenas contra estrangeiros e não brancos. Há também os preconceitos regionais, como é o caso de nordestinos no Brasil. Uma parcela da população brasileira que muitas vezes é tratada como estrangeira dentro de seu país. Somente levando em conta o clima de enorme intolerância em que vivemos, é possível apontar os limites de Jean Charles, o filme.

16 de jun. de 2009

Escondendo os demônios da religião e da ciência

Anjos e demônios, de Dan Brown, destaca os conflitos entre religião e ciência. Seria muito melhor se mostrasse como as instituições que controlam essas duas áreas sabem se unir quando se trata de defender os interesses dos poderosos.

Em 2006, Ron Howard já havia feito a adaptação de outro livro de Brown, O Código da Vinci. A trama defendia a teoria de que Maria Madalena foi mulher de Jesus e com ele teve filhos. O Vaticano tentou boicotar a produção, mas só conseguiu chamar mais atenção para o filme. A arrecadação das bilheterias chegou a 760 milhões de dólares.

A cúpula católica não se manifestou sobre Anjos e Demônios. Mas, o silêncio talvez não tenha ocorrido apenas devido ao fracasso anterior. O fato é que a imagem da instituição papal sai sem maiores manchas dessa nova história contada pela produção de Howard.

O filme começa com a morte de João Paulo 2º e a eleição do papa que vai sucedê-lo. Quatro cardeais são seqüestrados pelos Illuminati (Iluminados). Trata-se de uma organização secreta fundada ainda nos tempos da Idade Média. Seus integrantes seriam cientistas em busca de vingança. Uma resposta às perseguições que a Igreja Católica faz contra as atividades científicas há séculos.

O objetivo era matar quatro cardeais e explodir uma bomba que arrasaria boa parte do Vaticano. A tal bomba não passa de algumas partículas de antimatéria obtidas num super-acelerador atômico. Se elas entrarem em contato com a matéria comum, provocariam uma explosão equivalente à de uma bomba atômica..

A missão do herói, Robert Langdon (Tom Hanks) é ajudar a salvar os cardeais e desarmar a bomba. Sua presença não é bem-vinda pelos poderosos cardeais. Afinal, ele é responsável pela ampla divulgação da teoria sobre Maria Madalena. Por outro lado, como é um gênio da simbologia, Langdon saberá decifrar as pistas deixadas pelos Illuminati.

Como se vê, o enredo mostra a forte oposição entre ciência e religião. Realmente, o Vaticano sempre questionou avanços científicos que pudessem colocar em dúvida a fé católica. Um exemplo famoso é a recusa da teoria da evolução das espécies. Somente em setembro de 2008, quase 150 anos depois da divulgação do trabalho de Darwin, a cúpula do catolicismo romano admitiu a correção de sua teoria.

Mas, há posturas da Igreja que têm conseqüências mais graves e imediatas. É o caso dos ataques do papa ao uso de preservativos para combater doenças sexualmente transmissíveis. Algo que pode causar sérios prejuízos à saúde de milhões de católicos que acreditam no mito do papa infalível.

Por outro lado, nada disso autoriza a ciência a se enfiar confortavelmente no papel de anjo. A neutralidade do trabalho científico é um mito que só não é tão velho quanto as idéias da cúpula católica. Pra começar, é só dar uma olhada em volta. A vida humana está seriamente ameaçada de extinção. E os chamados “avanços científicos” têm grande responsabilidade nisso. Toda a agressão ambiental cometida pelas grandes empresas só é possível graças a pesados investimentos em pesquisas feitas nas universidades e nos laboratórios industriais.

Além disso, há casos em que a atividade científica está descaradamente voltada para o lucro. A indústria farmacêutica é um exemplo. Milhões de pessoas pobres morrem todos os anos no mundo porque não podem pagar os altos preços dos remédios vendidos pelos grandes laboratórios. O principal objetivo da indústria farmacêutica não é produzir remédios para curar ou evitar doenças. Seu objetivo maior é ganhar dinheiro fazendo isso. O resto é detalhe.

Ciência e religião são duas formas com que o ser humano tenta explicar o universo e seu lugar nele. É natural que haja divergências entre elas, pois partem de pontos de vista diferentes. Mas, trata-se de um debate legítimo e importante. Os problemas começam quando ciência e religião passam a ser usadas para justificar a dominação e a exploração de uma parte da sociedade pela outra. Geralmente, isso acontece quando são dominadas por grandes instituições.

Desde que a sociedade de classes passou a existir, as instituições sociais tendem a se aliar à classe dominante. Grande parte de seus dirigentes tem como objetivo maior fazer parte do grupo socialmente privilegiado.

As disputas envolvendo as igrejas entre si ou com outras áreas, como a academia, são reais e muito duras. Porém, elas têm pouco a ver com a busca pela revelação divina ou pela certeza científica absoluta. É muito mais uma briga para conquistar influência social e poder político e econômico.

Claro que nem Howard nem Brown pretendiam fazer esse debate. Mas, o final do filme dá a entender que o problema do Vaticano não é sua estrutura autoritária, conservadora, repressora. O problema são só alguns sacerdotes mal-intencionados no meio de bondosos cardeais e bispos. A moral do filme é a de que as diferenças entre ciência e religião podem ser superadas em nome da defesa do bem comum.

O fato é que o cinema comercial também tem seu papel institucional: ajudar a manter a ordem atual. Faz parte disso mostrar anjos e demônios se entendendo e esconder aquilo que realmente os une. E o que é capaz de unir as cúpulas da academia e das igrejas é a manutenção da atual sociedade, injusta e destruidora da vida.

26 de mai. de 2009

Star Trek: a jornada parou no meio do caminho

A série Jornada nas Estrelas denunciava injustiças e preconceitos. Mas, jamais a ordem social que os produz. Por isso, sempre ficou no meio do caminho. O novo filme de J.J. Abrams quase dá meia-volta.

Jornada nas Estrelas é uma marca de grande sucesso na ficção científica do cinema e da TV. O seriado chegou à TV em 1966. O cenário americano da época incluía a Guerra do Vietnam, a Guerra Fria, a luta contra o racismo, um movimento feminista cada vez mais forte, uma juventude contestadora e, claro, a corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética.

Gene Roddenberry criou a série de olho em tudo isso. A espaçonave de Kirk voava pelo futuro, mas seus episódios falavam de temas muito presentes. O nome Enterprise batizou vários navios de guerra americanos. A nave tinha como missão “buscar novas formas de vida, novas civilizações”. Sempre com objetivos pacíficos. Em plena Guerra Fria, o aspecto militar só aparecia em segundo plano.

Era o auge da luta pelos direitos civis para os negros. A tripulação comandada por Kirk incluía uma oficial negra eficiente e com personalidade. Era a tenente Uhura, cujo nome, em Suahili, quer dizer “Liberdade”. Um agrado para a causa dos negros e para a luta feminista.

Em um dos episódios, os habitantes de um planeta estão em guerra. Todos eles têm metade do corpo negra e a outra branca. Mas, os que são negros no lado esquerdo desprezam os que são brancos do mesmo lado. Este é o motivo da guerra. Kirk e sua tripulação não conseguem convencê-los do absurdo dessa situação. Eles acabam se destruindo, transformando o episódio numa condenação à intolerância racial.

A Enterprise está a serviço da Federação dos Planetas Unidos, “uma organização política econômica, social e cultural fundamentada no conceito da diversidade”. Por isso, a série deve ter sido a primeira a mostrar a convivência pacífica e tolerante entre seres de espécies e planetas totalmente diferentes. Entre suas rígidas regras está a primeira diretriz. Ela proíbe a interferência em outras civilizações, seja política e ideológica, seja como mera presença física. Uma espécie de respeito às culturas jamais observado pelos impérios em geral.

Por outro lado, toda essa boa vontade era mal engolida pelos executivos da NBC, rede que lançou o seriado. Muitos episódios com temas radicais ficaram moderados antes de ir ao ar. Essas dificuldades e o medo de perder audiência mais conservadora, limitaram as possibilidades de denúncia social da série.

Todas as mulheres da tripulação vestiam mini-saias. A maioria fazia o gênero “loira burra” e dificilmente ocupava postos de comando. Reinava a ordem masculina, mesmo entre os alienígenas. Ao mesmo tempo, os vilões mais tradicionais eram os Klingons. Tinham a pele escura e, podiam ser facilmente confundidos com povos considerados selvagens pela visão imperialista. Ou seja, os africanos e não brancos em geral.

Portanto, é verdade que o seriado denunciava o racismo, o machismo, a violência militar etc. O problema é que isso só ia até certo ponto. Defesa da diversidade cultural, da igualdade entre sexos e do respeito às etnias, tudo bem. Mas, a ordem tem que ser mantida. Mesmo que seja a mesma ordem que alimenta o racismo, o machismo, o desprezo a culturas diferentes etc. Parece a organização em guetos da sociedade americana. Respeita os diferentes desde que eles fiquem nos lugares que lhes são destinados.

As grandes produções cinematográficas que vieram depois também andaram nessa direção. Sempre fazendo o discurso politicamente correto, mas justificando a ordem geral. De um lado, salvamentos de baleias e dispositivos que recriam a vida natural destruída pela estupidez humana. De outro, seres estranhos que ameaçam a paz, a ordem e o progresso da Federação. Frota Estelar neles!

O mais recente filme da série foi dirigido por J.J Abrams. Seu desafio é conquistar novas gerações para uma criação quarentona. O resultado é bem sintomático. Kirk (Chris Pine), Spock (Zachary Quinto), McCoy (Karl Urban), Uhura (Zoe Saldana), Sulu (John Cho), Scott (Simon Pegg) e Chekov (Anton Yelchin) estão saindo da adolescência. Apesar de sua juventude, todos eles acabam assumindo o comando da Enterprise meio no susto. Mas, não há problema. Saem-se muito bem na missão.

Por outro lado, o talento de Kirk está no sangue da família. Seu pai morreu como herói de guerra ainda jovem. Por isso, o capitão Pike (Bruce Greenwood) não tem dúvidas de que Kirk também será um sucesso. E estava correto. No mundo esclarecido e avançado de Jornada nas Estrelas, a coragem e talentos hereditários continuam valendo.

O vilão da vez veio do passado. O romulano Nero (Eric Bana) é o próprio bárbaro ignorante e estúpido. É o bastante para que o trapaceiro Kirk e o correto Spock deixem suas diferenças de lado e se unam. Tudo em nome do combate ao desordeiro da vez.

Tudo isso parece realmente voltado para os jovens atuais. É como boa parte deles se acostumou a ver as coisas. Não é preciso se preparar para nada. É só chegar e assumir o comando. Muitos jovens pensam que é possível saltar das telas dos videogames para a vida real sem fases intermediárias. Não à toa, Kirk utiliza seu talento de hacker para trapacear na simulação por computador do treinamento da Academia da Frota.

Esse tipo de atitude é diariamente reforçado pelo consumismo reinante. Principalmente, pelo consumo do prazer. E este cada vez mais só é atingido pelo ato de consumir. Um círculo viciado que não leva a lugar algum. Sensações sem reflexão. Só sensações. Como os mais novos e belos efeitos do filme de Abrams.

A série Jornada nas Estrelas trouxe idéias belas e interessantes. Olhou para a raça humana com esperança. Imaginou avançados recursos tecnológicos combinados com relações sociais justas e solidárias. Mas, nunca deixou de ser um produto comercial. Como tal, ficou presa ao circuito do capital, que para se reproduzir precisa de relações desiguais e egoístas.

“Audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve”, diz o lema de Jornada nas Estrelas. Uma frase que já foi interpretada positivamente. Mas, em tempos neoliberais, tornados ainda mais feios pela desgraça militarista de George Bush, o último dos filmões parece muito mais pragmático do que otimista. Star Trek não apenas parou no meio do caminho. Trocou a audácia pela covardia de permanecer no lugar em que a raça humana estancou paralisada: os tempos atuais.

13 de mai. de 2009

Piratas e fantasmas contra o capitalismo

A pirataria vai continuar crescendo e assustando os donos da indústria de diversão. Ela é produto do próprio desenvolvimento capitalista, que depende cada vez mais do trabalho morto e seus fantasmas.

Em abril passado, a justiça sueca condenou os responsáveis pelo site The Pirate Bay a um ano de prisão por pirataria. Internautas utilizam o site para enviar e receber arquivos de todo tipo, principalmente de músicas e filmes de graça.

Mais ou menos na mesma época, uma cópia de X-Men Origins: Wolverine foi parar na internete. Milhões de pessoas tiveram acesso gratuito ao filme antes de ele ir para os cinemas.

Tanto num caso, como no outro, os empresários da cultura e diversão arrancam os cabelos. Querem repressão, multas, cadeia. Porém, a pirataria é produto da própria lógica de produção da indústria cultural. É sua veloz modernização tecnológica que facilita cada vez mais os casos de pirataria.

É só pensar na possibilidade de piratear um filme como “E o vento levou” na época de seu lançamento. Em 1939, daria algum trabalho roubar uma cópia do filme. Seria preciso surrupiar do laboratório do estúdio duas ou três latas do tamanho de caixas de pizza. Depois disso, sair por aí com várias pilhas de “caixas de pizza” de lata anunciando “assista E o vento levou antes do lançamento”. Impossível.

A pirataria foi bastante facilitada pelo fato de que grandes quantidades de informação vêm em embalagens pequenas, leves e baratas. Fitas de vídeo eram bem mais práticas do que latões de filmes. Mas, as cópias perdiam qualidade e podiam causar danos nos aparelhos de reprodução.

Hoje, um filme digital pode ser copiado várias vezes com a mesma qualidade. O material já quase não apresenta problemas de reprodução e não danifica equipamentos. As mídias são cada vez mais baratas, assim como os aparelhos utilizados para reproduzi-las.

E à medida que o tempo passa, fica menos complicado gravar, copiar, comercializar ou apenas trocar esse tipo de material. Praticamente tudo nessa área já pode circular pelos cabos utilizados pela internete.

Nada disso seria possível sem o avanço tecnológico da indústria cultural. Como explicar isso? Como entender que a própria indústria cultural tenha facilitado tanto a pirataria de seus produtos? E por que continua fazendo isso?

Pistas para responder a estas questões podem ser encontradas no próprio modo de funcionamento da economia capitalista, segundo a teoria marxista.

Em primeiro lugar, é preciso entender que os lucros capitalistas vêm da exploração do trabalho vivo. Trabalho vivo é a força-de-trabalho humana, principalmente. Trabalho morto é aquilo que o trabalho vivo já criou. São as máquinas, ferramentas, instalações e mercadorias em geral.

Trabalho vivo gera mais valor (mercadorias) do que o necessário para comprá-lo (salários). Ele gera valor novo. Trabalho morto não gera valor novo. As mercadorias que o trabalho morto cria representam apenas o valor de seu desgaste.

O problema é que a busca capitalista por corte de custos leva ao corte de trabalho vivo no processo produtivo. É só comparar uma linha de montagem de automóveis de 60 anos atrás com sua correspondente atual. Na primeira, havia muitos homens trabalhando. Na segunda, quase só aparecem robôs. Na primeira, muito trabalho vivo. Na segunda, muito trabalho morto. A força física e intelectual dos antigos operários transformou-se em aço, fluidos, molas e programas de computador. O trabalho vivo da primeira foi transformado no trabalho morto da segunda.

O mesmo vale para uma categoria como os bancários, por exemplo. Desde os anos 1990, eles vêm sendo substituídos pelos caixas-eletrônicos. Quase 200 mil empregos desapareceram no setor.

Essa troca de trabalho vivo por trabalho morto barateia o valor das mercadorias e serviços. Mas, como o lucro sai do trabalho vivo, seu volume geral cai. Os lucros podem ser bilionários, mas a taxa de retorno em relação ao investimento tende a diminuir. É preciso muito mais investimento para obter o mesmo retorno em lucros. É o que Marx chamou de queda tendencial da taxa-de-lucro. Um limite que o capitalismo não consegue superar.

Pra piorar, a feroz competição capitalista aumenta a velocidade das inovações tecnológicas. Com isso, muito trabalho morto é descartado antes de repassar todo o seu valor às mercadorias. Como um espírito desencarnado antes da hora, o trabalho morto fica vagando por aí. Pesando na economia.

Uma das maneiras de compensar essa queda na taxa dos lucros é vender muito mais mercadorias. Tentar compensar a queda do lucro através do aumento de unidades vendidas. Mas, como fazer isso num processo produtivo que utiliza cada vez menos força-de-trabalho humana? Baixando ao máximo o preço das mercadorias.

É por isso que coisas que eram tão caras antes, já não são mais. Entre elas, aparelhos-de-som, tocadores de DVDs e as próprias mídias que tocam neles. São acessíveis até para quem não tem emprego fixo. O problema é que baixar os preços significa cortar custos com... trabalho vivo. E o ciclo recomeça e se mantém.

Na verdade, este é um caso típico do que Marx chamou de contradição entre forças produtivas e relações de produção. As forças produtivas se desenvolvem, mas as relações de produção continuam as mesmas. Chega um momento em que elas entram em choque.

Hoje em dia, a produção de material audiovisual em larga escala para o mercado é uma importante força produtiva. Milhões de pessoas são responsáveis por seu desenvolvimento. São cientistas dos laboratórios das empresas, pesquisadores das universidades, jovens gênios da computação etc. Mas também são os trabalhadores que tiveram seu saber vivo e criador transformado na ciência morta e enterrada em chips eletrônicos.

Além disso, a computação gráfica (trabalho morto) vem substituindo o trabalho (vivo) de quem antes fazia cenários, efeitos especiais, maquiagem, criaturas monstruosas, filmagens externas, cenas perigosas etc. E personagens animados por computador tomam o lugar de atores humanos. Tudo isso tem altos custos. Só ficam no mercado as poucas empresas que são capazes de arcar com eles. Então, cada vez menos gente encontra emprego. E os que encontram, trabalham para algumas poucas corporações gigantes.

Ou seja, de um lado, temos as relações de produção baseadas numa propriedade privada dos meios-de-produção que se concentra fortemente. Do outro, forças produtivas representadas pelo desenvolvimento tecnológico que é resultado de um trabalho social de milhares de pessoas por décadas. Os conflitos em torno da pirataria representam um momento em que umas e outras entram em choque.

A atual tecnologia de produção e troca de produtos audiovisuais é muito mais adequada a uma sociedade sem a propriedade privada dos meios-de-produção. Não à toa, alguns dos movimentos culturais e políticos que mais crescem ultimamente são aqueles que questionam o direito de propriedade sobre programas de computador e produção audiovisual.

A decisão judicial contra os donos da Pirate Bay fez dobrar o número de filiados ao Partido Pirata. Esta organização sueca defende uma reforma radical na legislação de direitos autorais, fim do sistema de patentes e garantia dos direitos à privacidade de internautas que baixam arquivos. Só que isso implica questionar um princípio sagrado do capitalismo: o controle privado dos meios-de-produção. Significa questionar o próprio capitalismo.

No famoso trecho em que Marx trata dessas contradições, ele diz que quando as forças produtivas entram em choque com as relações de produção, abre-se uma era de revoluções. Se elas virão ou não, é outra história. São muitas as contradições. Entre elas, o fato de que a disputa de que estamos falando envolve produtos ideológicos que justamente ajudam a manter a dominação capitalista. A maioria das pessoas está lutando para ter direito de ver ou ouvir coisas que justificam a sociedade injusta em que vivemos. Ou alguém já viu camelôs vendendo cópias piratas de filmes e documentários de esquerda?

De qualquer maneira, os fantasmas do trabalho morto começam a incomodar. Vêm sendo usados como armas pelos piratas do mundo virtual na luta contra as grandes organizações capitalistas. É como aquela cena de Piratas do Caribe. Centenas de mortos-vivos avançam marchando por baixo d´água. Que esse pesadelo se torne real para os donos da indústria de diversão!

25 de abr. de 2009

Uma dança solitária denuncia as guerras imperialistas

“Valsa com Bashir” utiliza o simbolismo do desenho animado para mostrar que loucura mesmo é acreditar nas justificativas para o massacre do povo palestino.

Ari Folman fez “Valsa com Bashir” para acertar contas com seu passado. Ele foi soldado das tropas israelenses que invadiram o Líbano em 1982, quando aconteceu o massacre de Sabra e Chatila. Trata-se de dois campos de refugiados palestinos que foram invadidos por milícias cristãs. Milhares de homens, mulheres e crianças foram mortos covardemente. As tropas israelenses receberam ordens de não intervir.

No filme, Folman afirma não conseguir lembrar de detalhes desses acontecimentos. Sua mente parece ter bloqueado as lembranças daqueles momentos. Ele se sente incomodado com isso. Começa, então, a tentar recolher elementos para recuperar a memória daqueles dias. Para isso, recorre a um amigo psicólogo e a entrevistas com ex-combatentes que faziam parte de seu batalhão.

A combinação de dois elementos chama a atenção na produção. Em primeiro lugar, o documentário reconstrói fatos a partir de lembranças do personagem principal e dos entrevistados. Apenas isso já daria ao filme um caráter de recorte da realidade muito específico. Os depoentes e o protagonista vão fixando a narrativa aos poucos. Sem pretensões de retratar a realidade tal como ela é ou foi. Isso acaba obrigando os ex-combatentes a expressar opiniões. E não escondem sua incerteza quanto à justiça do que o Estado de Israel os obrigou a fazer.

Em segundo lugar, o diretor utilizou desenho animado para contar sua história. Segundo ele, porque faltavam muitas cenas de arquivo. Uma opção arriscada, pois poderia colocar sob suspeita a seriedade do filme. Mas, o resultado final é o contrário disso.

A animação prende a atenção e possibilita a interpretação simbólica de muitos momentos, sem que elas percam a verdade do que pretendem significar. É o caso da cena que dá nome ao filme. Não seria possível na realidade. Mas, faz todo sentido no documentário. Um soldado dança sozinho em meio aos tiros. É como se perguntasse que sentido fazem guerras em que a enorme maioria dos envolvidos ignora suas causas reais. Lutam em nome do patriotismo quando o verdadeiro objetivo é o domínio imperialista dos povos do mundo.

Como esta, há outras seqüências. A mulher nua gigante que sai do mar, um soldado tocando guitarra com sua metralhadora. São momentos que mostram que delírio mesmo é a guerra declarada pelo Estado de Israel a um povo inteiro. Ao mesmo tempo, tornam claro o fato de que nenhum documentário retrata a verdade tal como ela é. Utilizar animação acaba servindo para denunciar que acreditar nisso é cair na conversa fiada da objetividade do jornalismo empresarial. Algo bastante útil na justificação do uso do poder militar e repressivo.

A opção arriscada pelo desenho animado transforma-se na maior força da produção. E o final em imagens filmadas deixa para trás qualquer dúvida quanto à tragédia que representou Sabra e Chatila. “Valsa com Bashir” é mais um passo importante na produção de documentários que não escondem que têm lado. O da denúncia da exploração e da dominação.

13 de abr. de 2009

“Rebobine” parece besteira, mas é denúncia

Michel Gondry fez um filme com cara de besteirol. Mas é só prestar atenção, para ver que é uma denúncia contra a indústria do cinema. E um chamado à resistência cultural popular.

“Rebobine, por favor” acaba de sair em DVD. Foi mal de bilheteria nos cinemas. O filme parece uma comédia sem pretensões, mas pode ser entendido como denúncia da indústria do cinema. De um modo ou de outro, a tendência é ficar esquecido nas prateleiras das locadoras. É uma pena.

O cenário do filme é Passaic, uma pequena cidade perto de Nova Iorque. É lá que lroy Fletcher (Danny Glover) tem sua locadora de fitas de vídeo. Num prédio em que nasceu o cantor de jazz Fats Waller. Pelo menos é o que ele diz. O problema é que Fletcher deve uma fortuna em impostos e o local está para ser desapropriado pela prefeitura. Será demolido se a dívida não for paga. Além disso, a locadora está às moscas. A clientela procura cada vez mais os DVDs das grandes lojas.

Fletcher resolve passar uma temporada em Nova Iorque para pensar em soluções para o problema. Deixa a loja aos cuidados de Mike (Mos Def), seu dedicado empregado. Mas, as coisas complicam quando o melhor amigo de Mike entra em cena. Trata-se de um maluco chamado Jerry (Jack Black).

Jerry acha que uma estação de energia próxima de sua casa está cozinhando seu cérebro. Ao tentar sabotá-la, leva uma tremenda descarga elétrica. O acidente magnetiza seu corpo. Ainda tonto, ele entra na locadora e o magnetismo acaba apagando todas as fitas. Desesperado, Mike resolve filmar novamente as produções mais procuradas pela clientela.

Seguem-se cenas de reproduções caseiras de filmes como “Caça-Fantasmas”, “Robocop”, “Conduzindo Miss Daisy”. Tudo com uma velha câmera de vídeo, péssimos efeitos especiais, maquiagem e figurino de dar dó. Mas, as adaptações começam a fazer sucesso. Quando Fletcher retorna encontra uma enorme fila na porta de sua locadora.

Quando tudo parece estar melhorando, Fletcher é processado e condenado. As grandes produtoras de filmes consideram que as adaptações caracterizam crime de pirataria. Exigem o pagamento de milhões de dólares em direitos autorais. As fitas são destruídas. É marcada a data para a demolição do prédio. O desânimo é geral.

Mas Jerry tem uma idéia. Por que eles não produzem seu próprio filme? Por que não filmam a vida de Fats Waller, famoso morador do prédio que está para ser demolido? Ele e Mike fazem a proposta ao dono da locadora. Mas ele confessa que Waller nunca havia morado no local. Nesse momento, uma amiga e cliente interpretada por Mia Farrow responde: “E daí? O passado é nosso. Podemos modificá-lo”. É como se dissesse: os empresários da indústria cultural contam a história segundo o ponto de vista de seus interesses. Por que não podemos fazer o mesmo?

As filmagens começam. Muita gente da cidade se envolve. Quase sem dinheiro, a produção utiliza recursos pobres, mas criativos. A estréia é um sucesso e um acaso leva a um final feliz típico de Hollywood.

O recado do filme de Gondry parece claro. Por que a criatividade das pessoas tem que se limitar ao que a indústria da diversão oferece? Quando Mike e Jerry refilmam os clássicos, o resultado é ridículo. Mas colocam nele seu toque pessoal. É isso que atrai os clientes. Além disso, a própria vizinhança começa a participar das adaptações, fazendo pontas e colaborando para os “efeitos especiais”. Sentem a enorme diferença entre olhar e fazer. Os espectadores tornam-se produtores. É tosco, grosseiro, ridículo, mas é feito por eles.

Isso fica mais claro na produção do filme sobre Waller. Já não se trata de refazer uma grande produção. Agora, contam sua própria história. Escolheram seu próprio herói para homenagear. Um artista do jazz, arte de resistência popular. Tornaram o ato de filmar um trabalho coletivo. Deixaram de ter vergonha do que são capazes de fazer.

Ainda tentam imitar o “cinemão”, seus truques, ritmo e efeitos? Sim, é inevitável. Mas já deram um passo em direção a um caminho diferente. Isso acontece com mais freqüência do que parece. São manifestações que vão do grafite nos muros a filmes caseiros colocados na internete.

Para tornar esses produtos elementos de resistência, é preciso fazer como no filme. Seus personagens finalmente reconheceram que têm o direito de contar seu próprio passado. Por que não pensar mudar o futuro, também?

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4 de abr. de 2009

Che: entre a revolução e a auto-ajuda

O maior problema do filme de Soderbergh não é o que ele mostra. É o que a maioria do público tende a ver. A revolução pode parecer mais questão de empenho individual do que resultado da ação coletiva.

Os admiradores de Che Guevara e socialistas em geral não têm o que reclamar de “Che: uma vida revolucionária”. Trata-se da primeira parte de uma produção do ator porto-riquenho Benicio del Toro, sob direção do norte-americano Steven Soderbergh. Essa primeira metade das quatro horas totais mostra a luta que levaria Guevara, Fidel e seus companheiros ao poder em Cuba.

Para começar, é preciso coragem para fazer um filme simpático a Guevara nos Estados Unidos. O país acaba de eleger para presidente um negro de nome muçulmano. Mas, a grande maioria de sua população continua considerando Che e Fidel nada mais que terroristas. Seguem o que diz a o governo e a mídia empresarial do país.

A produção também é bastante fiel aos relatos que o próprio Che fez da guerrilha na Sierra Maestra. Assim como de suas relações com Fidel. Guevara é retratado como homem justo, coerente com os valores que defendia e muito duro quando necessário. A cena do fuzilamento de dois traidores e a do episódio do automóvel conversível são exemplos de sua moral revolucionária.

Como explicar, então, que um filme simpático à luta do Che chegue ao grande público? Talvez, a resposta esteja no tom heróico que a produção acaba ganhando. São as cenas que mostram as terríveis condições da luta nas matas. As dificuldades de Guevara com a asma. Sua enorme força de vontade e certeza quanto à justiça da luta em que se envolveu. Os conflitos armados contra as forças militares muito superiores do governo.

Claro que os líderes da Revolução Cubana foram responsáveis por atos de coragem e grandeza. Mas, processos revolucionários não são feitos só de momentos gloriosos. Ao contrário, grande parte da atividade de quem quer transformar a sociedade é feita de trabalho cotidiano. De atividade paciente, cheia de contratempos, grandes derrotas contra pequenas vitórias. Junto aos setores sociais mais explorados, desorganizados e com pouca formação política e teórica.

Por outro lado, não é o poder militar que decide um processo revolucionário. Se fosse assim, as revoluções estariam todas condenadas a morrer antes de nascer. O arsenal e as tropas à disposição dos poderosos são muito superiores a qualquer capacidade militar popular. Quanto a conquistar o apoio de generais para a causa socialista, basta lembrar a experiência desastrosa de Allende, em 73. Seu homem de confiança nas Forças Armadas chamava-se Pinochet.

Não há dúvida de que a dimensão militar foi fundamental no processo cubano. No entanto, uma cena do próprio filme mostra que muito mais importante foi a autoridade moral da causa. Trata-se do momento em que um revolucionário entra num quartel das forças do governo, em Santa Clara. Com algumas poucas palavras enérgicas, ele convence os soldados a abandonarem suas armas e apoiarem a rebelião. Eles sabiam que estavam lutando do lado errado.

A necessidade de conquistar o apoio dos camponeses e ganhá-los para a luta. As costuras com forças políticas das cidades feitas pelo habilidoso Fidel. A capacidade de tornar-se alternativa real para todo o descontentamento popular com um governo corrupto e violento. Tudo isso também recebeu atenção no filme.

Mas, o que se destaca mesmo é a determinação de Che, o herói. São os guerrilheiros armados com sua coragem. Tem-se a impressão de que à gente comum, resta assistir e apoiar, admirada e agradecida. Isso tudo acaba servindo à lógica do típico heroísmo burguês. Quem vai mudar o mundo? Algumas pessoas dedicadas, com fortes convicções, grande inteligência e muitas habilidades. Ao restante, sobra o papel de platéia. E a existência de uma platéia em política faz parte da lógica que mantém todas as dominações.

Além disso, para o capitalismo não há terreno sagrado. Há muito tempo, Guevara transformou-se em marca publicitária. Recentemente, começou a ser veiculada na TV uma propaganda da lanchonete Habib’s. O anúncio mostra atores imitando Fidel e seus companheiros anunciando promoções. Nas lojas da rede, estão expostos folhetos com esfihas e quibes usando a boina do Che e o boné de Castro.

Na final de março, o Jornal do Brasil anunciou na capa de sua revista o que seria a nova moda carioca. Ouvir músicas, consumir bebidas e fumar charutos de origem cubana. Tudo embalado pelo lançamento do filme. Só falta aparecer gente que dá palestra sobre motivação profissional usando a Revolução Cubana como exemplo.

Em tal contexto, o filme de Soderbegh, faz pouco efeito do ponto de vista da propaganda do socialismo. Claro que é possível utilizá-lo como elemento provocador de debates. Até porque são raras as boas produções que abordem de maneira positiva a Revolução Cubana. No entanto, o movimento anticapitalista precisa produzir seus próprios materiais de divulgação e formação política. Produtos de mídia que mostrem que é a ação coletiva dos explorados que orienta suas lideranças revolucionárias e não o contrário.

Sérgio Domingues – abril de 2009

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15 de mar. de 2009

Quando os quadrinhos são superiores ao cinema

Zack Snyder não conseguiu adaptar "Watchmen" para as telas mantendo toda a riqueza da versão original. Pelo menos, chamou a atenção para uma obra-prima dos quadrinhos.

Adaptar Watchmen para as telas era um fracasso anunciado. O escritor Alan Moore e o desenhista Dave Gibbons exploraram possibilidades que só os quadrinhos permitem. A obra é dividida em doze partes. Cada uma tem um motivo dominante que se repete da primeira à ultima página. As capas, a disposição dos quadrinhos, estórias paralelas, elementos gráficos. Tudo contribui para criar um quebra-cabeças que se revela aos poucos. Características que muito dificilmente seriam traduzidas para a linguagem cinematográfica.

Mas, quem quiser saber mais sobre esse aspecto da obra, clique aqui. Vamos ao filme.

Os Watchmen (Vigilantes) são justiceiros mascarados que surgiram nos anos 1930. Na verdade, são um bando de pessoas fortes e ágeis com todos os problemas de gente normal. Desde alcoolismo até violências sexuais. E são conservadoras, também. Durante uma greve de policiais, por exemplo, os mascarados assumem a manutenção da ordem, incluindo repressão a uma passeata.

Mas, como não fazem parte do aparelho de Estado, também não contam com a confiança do poder institucional. Por isso, são colocados na ilegalidade. Todos menos o Dr. Manhatann, um cientista que por acidente tornou-se uma criatura azul e poderosa. Tanto que ganhou a Guerra do Vietnã para os Estados Unidos e, com isso, garantiu várias reeleições para Nixon.

Moore escreveu a obra em 1986. Reagan estava no poder. Os pesadelos que pareciam ter sido enterrados com o governo Nixon estavam de volta: conservadorismo, menos serviços públicos e impostos menores para os ricos, repressão aos movimentos populares, ameaça de guerra mundial e financiamento de guerrilhas de direita, incluindo a de Bin-Laden.

Já o filme de Snyder foi produzido durante mais uma edição do pesadelo americano: o governo Bush. Aquele que foi eleito dizendo que os Estados Unidos são os vigilantes do mundo. Na versão em quadrinhos uma pichação aparece nas paredes várias vezes. Ela pergunta: “Quem vigia os vigilantes?” Uma questão que deveria receber mais atenção na versão filmada.

Manhatann é quase um deus e se afasta cada vez mais das paixões humanas. Mas, não vacila na hora de matar por sua pátria. A cena em que o gigante azul pulveriza vietnamitas disparando raios de seus dedos é assustadora. Parece simbolizar uma ciência que se pretende neutra e superior, mas está a serviço de um poder imperial. Não à toa, Manhatann ganhou o nome do projeto que criou a bomba atômica.

Outra figura marcante é Rorschach. O sombrio personagem tem um forte código de moral. Não tem dúvidas sobre o que é certo e errado. Por isso, também não vacila na hora de quebrar alguns ossos e rachar cabeças. Acaba lutando pela justiça em nome dela mesma. Não em nome das pessoas a quem ela deveria servir. Um pouco como a extrema-direita americana. Não gosta de governo, menos ainda do povo.

Os dois parecem representar a classe dominante americana. Um e outro usam papéis de cores diferentes para embrulhar a mesma intolerância. O democrata Truman atacou Hiroshima. Kennedy, seu colega de partido, começou a guerra do Vietnã. A política de terror dos republicanos dispensa maiores comentários.

A trama de Moore retrata um momento tenso da Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética estão cada vez mais próximos da terceira guerra mundial. Para evitar o apocalipse um plano está em andamento. Um susto para impedir o pior. O truque inclui a morte de milhões de pessoas. Mas o que são alguns milhões de vidas a menos quando se trata de salvar toda a população mundial, pergunta o idealizador de tudo.

Diante disso, o que restou dos Watchmen resolvem colaborar. Menos Rorschach. Com toda seu desprezo pelas pessoas, prefere os velhos métodos. Se a humanidade é podre, a única saída é afogá-la na própria podridão. Nada de jogos de ilusão. Um republicano legítimo.

O plano funciona. Mas, o sucesso é provisório. Logo tudo deve recomeçar. Daí, a grandeza da obra de Moore e Gibbons. Eles usam os quadrinhos, seus super-heróis e estórias fantásticas para denunciar a própria indústria de diversão. Mostrar como uma linguagem cheia de possibilidades transforma-se em mais um elemento de reprodução de uma lógica destruidora.

O mal, o crime, a crueldade parecem cada vez mais assustadores. Mas, não serão justiceiros, mascarados ou não, que vão eliminá-los. Ao contrário, é a crença nesse tipo de solução que os tornam cada vez mais presentes. O final do filme não é tão explícito em relação a isso. A mensagem perde força. Mas, se ajudar a redescobrir essa obra-prima em quadrinhos, valeu a intenção.

5 de mar. de 2009

Quem quer ser selvagem

“Quem quer ser milionário” não ganhou o Oscar à toa. Foi feito para agradar o público formado pela indústria cinematográfica. Sem querer, também acabou mostrando como o capitalismo rasga uma sociedade.

O filme de David Boyle tem vários elementos diferentes, mas bem combinados. A curiosidade em torno da cultura indiana. Ritmo veloz, ótimos atores, música bem escolhida. Muita miséria, crueldade e um final feliz graças ao amor. Aquele sentimento que pode tudo na indústria cultural e quase nada na vida real.

Mas, alguns momentos da produção são reveladores. Mostram bem os estragos que faz o capitalismo em um país milenar. A favela em que foram filmadas muitas cenas do filme é Dharavi, a maior da Ásia. Seus moradores fazem parte dos 8 milhões de favelados de Mumbai. Metade da população da cidade vive em bairros desse tipo. O filme não fala nada disso, mas as imagens de miséria mostram o resultado de alguns séculos de desenvolvimento capitalista. Um progresso que quase sempre beneficia uma minoria e marginaliza o restante.

A obra de Boyle também não fala diretamente dos conflitos religiosos. No entanto, a mãe dos garotos Jamal e Salim é morta a pauladas por ser muçulmana. É nas favelas que moram trabalhadores que ganham pouco, não contam com serviços públicos e convivem com o crime organizado. Tudo isso explode através de intolerâncias diversas.

A competição capitalista é outro elemento desorganizador na sociedade indiana. Até o século 19, a estrutura social indiana era dividida em castas. Os membros de uma casta nasciam e morriam dentro dela. Não podiam se misturar. Até as profissões eram definidas pelo nascimento. Os ingleses chegaram para mudar tudo isso.

Com eles, veio o capitalismo e sua feroz competição de mercado. Algo que não combina com o sistema de castas. Sem disputa por empregos, por exemplo, fica mais difícil diminuir o valor dos salários. Ao mesmo tempo, não interessa à nova ordem acabar totalmente com as tradições. A discriminação por origem de casta tornou-se ilegal. Mas, é amplamente tolerada. Afinal, sempre serviu para dividir os dominados. Atualmente, ajuda o sistema de exploração econômica a funcionar em paz. O antigo encontra-se com o moderno e ambos mantêm a dominação da maioria pela minoria.

Em meio a tudo isso, Jamal e Salim procuram sair da miséria. Órfãos e abandonados, eles vivem de esmolas e pequenas trapaças. Mas, Salim quer subir na vida. Criado pelas ruas, sem família e com pouca instrução, toma o caminho do crime. A grande ambição de Jamal é reencontrar Latika, seu amor de infância. Enquanto isso, sobrevive trabalhando em uma central telefônica. Um ramo econômico enorme e em expansão no país. O grande trunfo dos profissionais indianos é sua pronúncia impecável do inglês. Desse modo, podem atender clientes dos Estados Unidos e Inglaterra sem denunciar sua condição de moradores de uma ex-colônia. É a continuidade da colonização através do idioma.

Outro traço forte mostrado pelo filme é a presença da grande mídia na vida dos indianos do século 21. O pequeno Jamal mergulha literalmente na merda para conseguir o autógrafo de um ídolo do cinema. Tanto sacrifício mostra o peso do cinema na vida dos indianos. A indústria cinematográfica do país é tão poderosa que recebe o nome de “Bollywood”. Uma fusão de Bombaim (antigo nome de Mumbai) com Hollywood. A ironia é que essa mesma indústria nada teve a ver com a produção de um filme sobre a Índia que faz sucesso e é premiado no mundo todo.

Mas, a TV também está presente em todas os cantos. Tanto é que Jamal resolve participar do programa que o torna milionário apenas para reencontrar seu amor de infância. Na trama romântica do filme, ganhar o prêmio é apenas um detalhe. Jamal só quer aparecer na TV para ser encontrado por sua amada. Mas, é exatamente esse desinteresse que faz o jovem avançar no jogo. Incomodado com isso, o apresentador do programa chega a entregar o jovem à polícia sob acusação de fraude, com direito a tortura.

No final, Salim interrompe sua escalada rumo aos altos postos do crime organizado. Em nome da felicidade do irmão abandona tudo. Deixa-se matar mergulhado no dinheiro que seu irmão despreza. Jamal não precisou apelar à selvageria para vencer. Escapou de forma limpa das armadilhas do apresentador do programa. Em sua santa inocência tornou-se milionário, ídolo nacional e foi viver feliz para sempre com sua amada Latika.

É o final feliz que Hollywood queria. Só muita fantasia para abafar as contradições. E a recompensa veio tão certa como o prêmio de Jamal. O Oscar de melhor filme colocou a Índia em festa e calou os poucos críticos do filme. Mas na vida real, para vencer é preciso render-se às leis da selva capitalista. Aceitar ser parte das engrenagens que tornam selvagem a vida de centenas de milhões de pessoas. Na Índia e em quase todo o planeta.

20 de fev. de 2009

O nazismo, de farda e à paisana

Vários filmes denunciando o nazismo foram lançados nos últimos meses. Mostram pessoas comuns colaborando com o regime de Hitler. Também podem servir para mostrar que o fascismo não anda apenas vestido de farda.

“O menino do pijama listrado”, “Um homem bom”, “Operação Valquíria”, “O leitor”. Todos estes filmes lançados recentemente têm relação com a Alemanha nazista. Todos mostram os dramas de pessoas que de um jeito ou outro colaboraram com o regime de Hitler.

Um pai tenta manter sua família longe da crueldade do regime em relação aos judeus. Mas, vê seu próprio filho tornar-se vítima da máquina de morte para a qual trabalha. Um escritor tenta subir na vida fingindo concordar com os ideais nazistas. Acaba cúmplice da morte de seu melhor amigo. Oficiais do alto-comando alemão tramam o assassinato de Hitler para antecipar uma rendição menos vergonhosa frente aos aliados. Acabam fuzilados. No Pós-Guerra, um adolescente tem um belo caso amoroso com uma mulher mais velha. Depois de alguns anos, descobre que ela trabalhou em um campo-de-concentração, auxiliando na matança de centenas de pessoas.

Essas produções mostram uma aparente contradição. Pessoas honradas, amorosas, sensíveis, leais, bons cidadãos e pais de família colaboraram com um dos maiores exemplos de crueldade da história da humanidade. Como diz um personagem de “O leitor”, no campo de Auschwitz trabalhavam 8 mil pessoas. Somente 19 delas foram processadas. Afinal, condenar todas as outras implicaria condenar a grande maioria do próprio povo alemão.

Na verdade, honra, lealdade, amor familiar não são valores que estão acima das sujeiras do mundo. Ao contrário, podem estar a serviço do que há de mais conservador e autoritário. Para se manter no poder toda classe dominante reproduz e mantém antigos e novos preconceitos. Faz isso para manter acesos os ódios e intolerâncias entre os dominados. É o antigo truque de dividir para governar.

Os regimes nazistas e fascistas revelam esse tipo de mecanismo à luz do dia. Eles incentivam as piores taras sociais. Permitem que elas se espalhem entre amplos setores da população. Estimulam a ocorrência de ações violentas entre os próprios setores populares. Procuram desviar a revolta popular para longe do sistema de dominação e exploração da burguesia. Culpam conspiradores quase satânicos pelas misérias em que a maioria das pessoas vive sob o capitalismo. Principalmente, judeus, negros, homossexuais, ciganos, contestadores em geral.

Não é pouca a diferença entre um governo ditatorial e governos com liberdades políticas. Mas, os valores dominantes são praticamente os mesmos. Um cidadão pacato pode tratar cordialmente pessoas que despreza em um momento. Sob um governo de extrema direita, esse mesmo cidadão torna-se o feroz defensor da eliminação desses “seres inferiores”.

Além disso, aprendemos desde cedo a cumprir ordens. Se elas partem de governos democráticos ou de ditaduras é coisa que pode ficar confusa em determinadas épocas e lugares. E na confusão, somos treinados a escolher a obediência quase cega.

Estamos vivendo uma das maiores crises econômicas de todos os tempos. Muito desemprego, salários baixos, desesperança e revolta. Uma situação bastante favorável ao fascismo. É o ovo da cobra sendo chocado.

O problema é que a intolerância fascista não anda por aí fardada e usando bigodes ridículos. Pode assumir várias formas. Também não precisa aprovar leis contra pessoas que se “desviam do padrão”, como fizeram os nazistas em relação a judeus, comunistas e ciganos. Basta que consigam tornar suas perseguições e agressões aceitáveis para a maioria da sociedade.

Contra isso não adianta confiar só nas leis, nos governos e nas autoridades. Hitler e Mussolini tomaram o poder sem quebrar a lei. E o Estado já se mostrou preguiçoso e incompetente várias vezes quando se tratou de reprimir a extrema-direita.

Somente a resistência popular organizada e baseada na luta dos explorados pode matar essa serpente. Convencer as pessoas comuns a desobedecer aos senhores de sempre para defender a dignidade e a liberdade da vida humana. Impedir que milhares de pequenos ditadores sejam usados por alguns poucos e poderosos tiranos de farda.

23 de jan. de 2009

Se eu fosse de classe média

A comédia “Se Eu Fosse Você 2” é um sucesso. Assim como faz sucesso a idéia de conseguir sair da pobreza mesmo ficando longe da riqueza. Enquanto isso, o andar de cima fica tranqüilo.

Nas três primeiras semanas de exibição a comédia "Se Eu Fosse Você 2" já havia ultrapassado 1,5 milhão de espectadores. À frente de filmes nacionais de sucesso como "Tropa de Elite" e "Meu Nome Não é Johnny".

Boa parte desse sucesso se deve ao talento dos dois atores principais. A idéia de fazer um casal trocar de corpos é muito bem aproveitada por Tony Ramos e Glória Pires. A direção de Daniel Filho também é competente.

Mas ajuda muito o tipo de vida levado pelo casal principal da estória. Helena e Cláudio são de classe média. De classe média, mesmo. Com direito a um belo casarão, piano de cauda na sala e piscina. É daqueles que curam depressões e tristezas consumindo num shopping luxuoso.

Os apartamentos são decorados segundo “o melhor bom gosto” urbano brasileiro. As cenas de rua têm as praias do Rio como cenário. Ninguém usa a mesma roupa mais de uma vez. O casamento da filha do casal custou algumas centenas de milhares de reais.

Na verdade, nada disso fica muito distante da realidade mostrada pelas novelas da Globo. A diferença é que o único personagem pobre é a empregada (Maria Gladys). Sempre a postos para fazer tudo o que os patrões querem.

É antiga a tese de que a chamada “classe média” serve como elemento amortecedor entre a pobreza e a riqueza. Queiram ou não seus realizadores, o filme defende aquilo que as classes dominantes acham que deve ser o ideal de vida para todos. É impossível que a maioria venha a se tornar parte do clube dos milionários. Porém, não é tão difícil que muitos cheguem à metade do caminho. Do ponto de vista ideológico, isso sempre acalma os mais pobres e faz com que os nem tão pobres tentem se aproximar dos mais ricos. Estes últimos agradecem. Enquanto uns e outros brigam para subir, tudo fica bem no andar de cima.

O interessante é que ultimamente fala-se muito sobre o crescimento da classe média brasileira. Em setembro passado, por exemplo, um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) dizia que de 2001 para 2007, cerca de 10 milhões de pessoas teriam saltado “da camada de baixa renda para a de renda média”.

O detalhe é que essa “subida” significou superar a faixa de renda familiar que fica entre R$ 545,66 e R$ 1.350,92. E o problema é que passar a ganhar pouco mais que R$ 1.350,00 não permite a ninguém ter um estilo de vida parecido com o de Helena e Cláudio. Por outro lado, se não é fácil ser de classe média, hoje em dia ficou mais fácil recorrer à imitação. Afinal, o que não faltam são vendedores ambulantes oferecendo bolsas, óculos escuros, relógios, roupas em geral, de marcas famosas. Todos falsos, mas a preços bem melhores que as altas quantias pagas pelos originais.

Ou seja, longe de ser definida pela renda, a idéia de pertencer à classe média tem a ver com muitas outras coisas. Os hábitos de consumo, a cor da pele, o vocabulário. E principalmente, as idéias. Diferente do que pode parecer, a sociedade ideal não seria composta só de pessoas de classe média.

É muito bom ter uma casa própria, com piscina, poder jantar fora todas as semanas e viajar todos os anos. Melhor do que morar de aluguel e ter um orçamento que não cabe no salário. Mas, basta olhar para as neuroses que Cláudio e Helena deixam transparecer. Cláudio é machista, egoísta e autoritário. Helena é consumista, fútil e vive às custas do marido. Só se agüentam porque de vez em quando um vai passear com o corpo do outro. Pertencem ao pedaço do meio de uma sociedade que é inteiramente doente.

Como no filme, não adianta trocar de corpo se a cabeça continua a mesma. Pouco muda se permanecemos escravos do horizonte ideológico que a classe dominante nos impõe.

7 de nov. de 2008

Dois filmes diferentes e iguais sobre a cegueira

"Ensaio sobre a cegueira" e "Nevoeiro" falam sobre a cegueira que ataca as pessoas na ausência de regras sociais. O primeiro é otimista, o segundo, não. Mas, sob a lógica do cinema para multidões, ambos acabam fazendo o jogo pessimista que interessa a quem manda.

São dois filmes diferentes. Mas também parecidos. "Ensaio sobre a cegueira", de Fernando Meirelles, adapta a obra de José Saramago. É filme para o Oscar e agrada aos mais exigentes amantes do cinema. O outro é "Nevoeiro", de Frank Darabont, baseado em livro de Stephen King. É quase um filme B, não deve receber indicação para o Oscar e ficará longe dos cinemas de arte.

Ambos mostram a convivência humana em situações-limite. No filme baseado em Saramago, uma epidemia de cegueira ataca a sociedade. A confusão se instala. Não há mais regras, leis, moral, governo. Os primeiros atingidos pela epidemia são isolados em uma espécie de asilo. Lá são deixados por sua conta e risco. O caos se instala. Preconceitos e neuroses explodem. Alguns usam de força física para se beneficiar. Comportam-se como criminosos. As mulheres chegam a ser usadas como moeda em troca de comida.

O mesmo pode ser dito da produção de Darabont. No filme, um denso nevoeiro se espalha por uma pequena cidade americana. Em meio à névoa estão criaturas terríveis, que devoram pessoas em poucos segundos. Um grupo fica preso em supermercado. Porém, há tanto perigo dentro como fora do lugar. As pessoas se desentendem. Suas vaidades e discordâncias vêm à tona. Uma religiosa fanática diz que se trata do apocalipse. Exige que alguns dentre eles sejam sacrificados, pois fazem parte dos pecadores que provocaram a maldição.

Claro que os dois filmes trazem "mensagens" diferentes. Saramago diz que seu livro queria mostrar que o ser humano é um animal doente. Mas sua obra e seus posicionamentos políticos mostram que ele acredita numa cura, ainda que não seja garantida. Já o terror de King parece dizer que a doença é incurável. O modo como os dois filmes terminam deixa transparecer essa diferença de pontos de vista. O final do filme de Meirelles é otimista, o desfecho do outro, não.

No entanto, essa interpretação diferenciada pode não ser consenso. Ao contrário, a leitura pessimista do filme de Meirelles pode tornar-se majoritária.

Quem conhece os livros de King, sabe que ele não tem preocupações de caráter político e social. Por isso mesmo, quem assistir a "Nevoeiro" tenderá a interpretá-lo de maneira mais fiel em relação à obra do escritor. Tudo indica que filme e livro apontam para as mesmas conclusões.

No caso da obra de Meirelles, a adaptação cinematográfica também é coerente com o livro. O próprio autor aprovou. Mas, para que tal interpretação se confirme seria preciso que os espectadores tivessem lido o romance. A obra de Saramago traz inúmeras reflexões, ironias, pistas sobre o que ele pensa do mundo. Seu alvo é a forma de vida social atual, sob o império do capital e do poder burguês, mesmo que não o diga explicitamente.

O problema é que a grande maioria do público do filme de Meirelles não teve e não terá contato com o livro. O próprio ritmo cinematográfico pode fazer as pessoas pensarem que o ser humano não tem jeito, mesmo. É cruel e egoísta por natureza. Basta uma situação anormal para mostrar isso.

Infelizmente, esse tipo de conclusão faz o jogo daqueles que estão nas posições de comando. Afinal, se os seres humanos deixados à sua própria sorte só sabem guerrear entre si como bestas-feras, melhor manter tudo como está. Com sua ordem, regras e leis injustas. E quanto mais rígidas, melhor.

O fato é que a doença dos seres humanos é o modo como ele se organiza socialmente. Hoje, sob a concorrência selvagem do capitalismo, o que os dois filmes mostram é o mais provável. Treinados para nos tratar como competidores e inimigos em potencial, as situações extremas realmente nos empurram para a crueldade, o egoísmo, a exploração, a violência sobre os mais fracos.

Só que, na verdade, situações extremas já são parte de nosso dia-a-dia. Se quisermos superar a cegueira que reina no mundo, precisaremos quebrar as regras atuais. Negar a lógica egoísta e de competição selvagem do capitalismo. Os valores que realmente importam não nos são ensinados pela ordem que hoje impera. Ao contrário, eles foram sendo fortalecidos na luta contra o capitalismo. São a solidariedade, a justiça, o respeito pela vida e a obrigação de agir contra as injustiças.

Em geral, filmes como "Nevoeiro" querem nos fazer crer que se o mundo é ruim como está, ficaria pior se deixasse de ser como é. Este não seria o caso do filme de Meirelles, se toda a lógica do cinema para grandes públicos não o empurrasse nessa direção. O diretor está de parabéns pela adaptação, mas a mensagem presente no livro não deve sobreviver a sua exibição para milhões de pessoas nas telas. Deve ser por isso que está lá.

Sérgio Domingues

3 de out. de 2008

“Linha de passe” fica longe de quem interessa

O filme pode ajudar na denúncia da triste realidade da vida na periferia das grandes cidades. Mas é uma obra que não vai chegar à maioria dos pobres urbanos. Superar esta distância não é uma tarefa do cinema comercial. É dos próprios explorados e oprimidos.

O título da obra de Walter Salles e Daniela Thomas refere-se à brincadeira em que vários jogadores controlam uma bola com os pés entre si sem deixá-la cair no chão. Simboliza bem a situação que o filme mostra. São quatro jovens da periferia paulistana, cuja mãe é solteira, trabalha como empregada doméstica e está grávida do quinto filho. Em meio aos problemas típicos da juventude pobre, os quatro tentam manter a bola no alto. Ou seja, ficar longe do crime, das drogas, da miséria e da apatia.

As dificuldades para arranjar emprego, melhorar o salário ou apenas consumir são enormes. Um deles é motoboy e fazer isso em São Paulo significa ganhar a vida com uma das ocupações mais violentas, cansativas e mal pagas do mundo. O outro é aspirante a jogador de futebol. Tem talento, mas não consegue entrar nos grandes clubes porque não tem dinheiro para pagar o “jabá”. O terceiro é evangélico e trabalha num posto de gasolina, agüentando todo tipo de humilhação por parte do patrão. O caçula, ainda criança, vive atormentado por não saber quem é seu pai.

“Linha de passe” é muito bem feito. Com ótimo elenco e direção. Mas, se o filme tem uma grande qualidade é a denúncia da realidade cruel da vida na periferia das grandes cidades brasileiras. Principalmente, para jovens e mulheres. Para quem cobra um cinema mais ligado à realidade e à necessidade de sua transformação, é um bom filme. Poderia até ser útil na luta contra a hegemonia dominante.

Mas, não é bem assim. Em primeiro lugar, ele deve ficar restrito a um público pequeno. Mais da metade da população brasileira nunca foi ao cinema. E a maioria dos que vão ao cinema, gastam seus trocados em filmões americanos e assemelhados. O público de estréia da obra de Salles e Thomas foi de 33 mil espectadores. Na mesma época, a estréia do americano “Hellboy” atraiu quase 150 mil. Por outro lado, 98% das casas brasileiras possuem pelo menos um aparelho de TV. Ou seja, é possível dizer que o cinema não atinge as multidões brasileiras.

Em segundo lugar, está a própria reação do público que seria o mais interessado. Estamos falando dos pobres das periferias urbanas. A Folha de São Paulo e a Unicef organizaram uma sessão do filme para 250 pessoas moradores da periferia pobre de São Paulo. Segundo o jornal, as reações não foram muito positivas. Os convidados disseram não ter gostado do clima triste. Reclamaram da imagem sempre negativa da periferia. Argumentaram que comunidades pobres têm muitos momentos de alegria, de solidariedade e é rica em iniciativas culturais e festivas. E nada disso apareceu em “Linha de passe”.

É impossível saber se essas opiniões correspondem ao que pensaria a maioria da população pobre de uma cidade, caso assistisse ao filme. Mas, é muito provável que a produção realmente não agradasse esse tipo de público. É bem possível que as pessoas que não gostaram de “Linha de Passe” na sessão especial estejam acostumadas a assistir filmes, seriados e novelas com o padrão Globo “de realidade”.

Estamos falando de obras de ficção que podem até apresentar algum tipo de problema social. Denunciar os preconceitos, a violência e outras questões que fazem parte da realidade da maioria. Mas, tais iniciativas acabam neutralizadas pelos esquemas do final feliz. Pela sensação de que a vida é assim mesmo. Pela idéia de que de um modo ou de outro, tudo vai se encaixar. Enfim, de que basta sermos perseverantes, pacíficos e, principalmente, respeitadores da ordem e dos poderes constituídos para tudo dar certo.

É possível afirmar que a grande maioria dos espectadores de “Linha de passe” é formada por pessoas com escolaridade alta, bom nível de informação e cultura e senso crítico em relação à realidade social. Trocando em miúdos, gente que já está ganha para uma certa sensibilidade em relação aos problemas da realidade social. A questão é que este tipo de público ou é muito pequeno para tentar mudar essa realidade, ou nem tem interesse em fazê-lo.

Claro que “Linha de passe” vai chegar à TV, um dia. Mas, será mostrado em meio a novelas, séries, filmes e outros programas que incentivam o conformismo. Além disso, deverá ser exibido tarde da noite, para um público parecido ao que já o teria visto no cinema.

Em outras palavras, “Linha de passe” não é um elemento típico da grande mídia. Não atinge multidões e não defende idéias que procuram levar à comodidade social. Mas também não tem os elementos necessários para ser utilizado na luta contra a hegemonia dominante por si só.

Como ele, há centenas de filmes, talvez. Mas, são exibidos em pequenas salas, freqüentadas por gente de classe média das metrópoles. Nesse circuito ficam inofensivos e servem mais para aliviar a consciência dos mais preocupados socialmente.

O fato é que à medida que os grandes monopólios da mídia invadem a vida cotidiana, mais isola as pessoas em suas salas e quartos. Mais afasta de contatos comunitários e associativos. De tal modo que até a TV pode se dar ao luxo de falar de problemas sociais em alguns de seus programas. Seus controladores sabem que a maior parte dos telespectadores permanecerá apática. A grande mídia não determina apenas aquilo que se vê, mas também o modo como se vê.

Apesar disso tudo, não se trata de fazermos filmes no estilo da Globo ou de Hollywood para chegar às multidões. O ideal mesmo é que os próprios setores explorados e abandonados das grandes cidades produzam seus próprios bens culturais. Não adianta cobrar dos filmes comerciais que mostrem a resistência, a solidariedade e a riqueza cultural das periferias. Eles não são feitos para isso. Quem deve começar a fazer cinema e outros produtos audiovisuais são os setores organizados das próprias comunidades pobres.

Infelizmente, não adianta esperar financiamentos governamentais para esse tipo de atividade. Isso seria entrar num terreno que já pertence aos grandes meios de comunicação e de produção cultural. E é mais fácil fazer uma revolução social no Brasil do que desmontar esses monopólios. Uma produção desse tipo só poderá surgir da iniciativa das organizações populares. De preferência, unidas em redes.

Por outro lado, a tecnologia atual barateou a produção áudio-visual. Continua difícil, mas já não é impossível produzir material que seja atraente, inteligente e contra-hegemônico. Que combine denúncia, diversão, poesia, beleza e qualidade técnica. E o uso da internete permite alcançar públicos maiores.

As organizações e entidades populares de esquerda devem se manter na luta pela democratização dos meios de comunicação. Devem exigir políticas públicas de apoio à cultura popular. Mas, faz parte dessa luta a produção de seus próprios bens e armas culturais. Seu próprio arsenal de comunicação, educação e formação. A partir das lutas e da vida dos explorados. E isso inclui aproveitar algumas lições do trabalho de bons diretores, como Walter Salles, Daniela Thomaz e outros profissionais do cinema comercial.

Sérgio Domingues

18 de ago. de 2008

Nem Batman, nem Coringa

"Batman, o cavaleiro das trevas" mostra que o Homem-Morcego e o Coringa sofrem da mesma doença. São criaturas violentas que se relacionam com a violência das grandes cidades. Mas, na vida real, tanto mocinhos como bandidos acabam servindo aos interesses dos poderosos.

Desde sua criação, Batman teve várias fases. Bob Kane e Bill Finger criaram o personagem em 1939. Eram tempos de guerra, crise econômica e desespero social. Em Gotham City, a criminalidade estava à solta e a corrupção era generalizada. O Homem-Morcego era violento e cruel. Quase um marginal.

Mais tarde, o clima de otimismo do pós-Guerra parece ter deixado o super-herói menos implacável. Surgiu Robin, um parceiro mais jovem que dava um toque paternal ao personagem. Nos alegres anos 60, Batman virou comédia de TV. Muitas cores no lugar das sombras. Batman virou o cidadão que respeitava o sinal vermelho até quando perseguia bandidos.

Nos final dos anos 80, imperavam as sombras do neoliberalismo vitorioso. Frank Miller lança a HQ "O cavaleiro das trevas". Resgata a origem escura de Batman. O cinema tentou aproveitar o sucesso. Tim Burton fez a primeira adaptação. Vieram mais três seqüências. O problema é que em todas elas ainda havia uma mistura mal resolvida entre a versão do Batman dos anos 30 e a colorida, dos anos 60.

Só em 2005, "Batman Begins" acerta no ponto. O diretor Chris Nolan baseou seu filme em "Batman: Ano Um" (1988), outra obra-prima de Frank Miller, com desenhos de David Mazzuchelli. Dessa vez, a adaptação foi fiel ao jeito noturno do Homem-Morcego. Talvez, porque já vivíamos a era Bush, com sua violência e intolerância.

Em 2008, Nolan repete a dose com "Batman, o cavaleiro das trevas". O filme tem vida própria, mas inspira-se em "A Piada Mortal" (1988), escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons. A obra procura mostrar que não há grandes diferenças entre o Coringa e o homem fantasiado de morcego. Ambos são doentios.

É este o clima do filme de Nolan. Parece que há algo de muito errado em uma sociedade que precisa dos serviços de um vingador fantasiado. Uma prova disso é o surgimento de imitadores de Batman, que tentam ajudá-lo no combate ao crime, mas só tornam as coisas mais complicadas.

Um diálogo entre Bruce Wayne (Christian Bale) e o promotor público, Harvey Dent (Aaron Eckhart), é revelador. Wayne questiona as ações de Batman. Ao invés de um vingador vestido de negro, ele gostaria de ver em ação um cavaleiro branco da Justiça. E este seria o próprio Dent, conhecido por ser incorruptível e funcionário exemplar. Mas, o promotor defende o Homem-Morcego. Diz que situações de emergência pedem medidas de emergência.

Já o Coringa, interpretado com talento por Heath Ledger, nega que seja um criminoso comum. Ele não está atrás de dinheiro. Só quer se divertir com suas bombas. Não está na vida criminosa porque precisa, nem porque quer. Ele parece ter passado por um trauma que o prendeu naquele papel. "Sou como aqueles cachorros que correm atrás de um carro. Se ele parar, não sei o que fazer", diz o vilão.

Ora, Wayne também passou por um trauma. Quando criança, viu seus pais serem mortos por um ladrão. Daí, resolveu virar um combatente do crime. Uma escolha aparentemente mais saudável do que a de Coringa. No entanto, está sempre a um passo de se tornar violento e arbitrário no mesmo grau. Como Coringa, Wayne também está preso em seu papel.

Em Gotham City, tanto Batman quanto Harvey Dent querem derrotar o crime. Mas, se as leis não forem suficientes para isso, não vacilam em tentar fazê-lo à margem delas. Na vida real, as grandes cidades também têm seus Coringas. São os traficantes de drogas ou bandos organizados, como o PCC. De outro lado, uma polícia violenta, que muitas vezes age ilegalmente em defesa da lei. Por fim, há os grupos de extermínio. As famosas milícias. Grupos violentos que dizem proteger a população das favelas, enquanto arrancam dinheiro dela. No Rio de Janeiro, um deles adotou o nome de "Liga da Justiça". Uma referência a um grupo de super-heróis integrado por Batman e Robin.

No final do filme, o comissário Gordon (Gary Oldman) diz que Batman não é bandido, nem mocinho: “é apenas o Cavaleiro das Trevas”. A escuridão da vida social justificaria os métodos ilegais e violentos do mascarado. No cinema, isso é promessa de mais diversão. Na vida real, é sinal de perigo.

Milícias, crime organizado, polícia violenta, tudo isso é parte da mesma lógica de dominação. A criminalidade toma conta. Mas o combate a ela é pretexto para atingir vítimas bem definidas: pobres, negros, lutadores sociais e cidadãos sem direitos.

Não estamos em Gotham City. Entre Batman, Dent e Coringa, não ficamos com nenhum. Nossas alternativas somente surgirão da consciência de que a violência social é resultado de um conflito de classes. E que se houver alguma saída, ela virá da luta dos de baixo contra os de cima.

Sérgio Domingues

30 de jul. de 2008

Era uma vez ... o apartheid brasileiro

O filme de Breno Silveira tem muito de novela ou minissérie da Globo. Desse ponto de vista, não vale grande coisa. Por outro lado, é possível enxergar nele uma denúncia da forte divisão entre ricos e pobres no Brasil.

A estória de "Era uma vez..." é convencional. Dé (Thiago Martins) é um jovem criado na favela de Cantagalo. Nina (Vitória Frate) é a garota de classe média alta, branca e de olhos claros. Ambos moram em Ipanema.

Tudo começou porque Dé trabalha num quiosque em frente ao apartamento luxuoso de Nina. Mas, eles só se conhecem quando ela atravessa a avenida em direção à praia e senta num banco. Já é tarde da noite. Um grupo de crianças negras e pobres se aproxima ameaçadoramente. Dé salva a garota de um possível assalto. E leva a "princesa" de volta a seu "castelo". Nina entrou sem querer no mundo dele. Dé aproveitou a chance.

Dé não é negro. Agora que se aproximou de Nina, tenta se passar por rico. Em uma festa na praia avista a garota. Mal se aproxima, é expulso por um segurança. A famosa democracia que reina na praia, não reina para todos. Quando finalmente consegue entrar na festa, é porque se fez passar por vendedor de bebidas.

Mas, Dé reconhece um surfista com quem fez amizade em seu trabalho no quiosque. Através dele, consegue permanecer na festa sem precisar fingir que é vendedor. Agora, é ele que está no mundo dela. Vai tudo bem até que Dé beija Nina. Aí, o surfista coloca o favelado em seu lugar. Avisa a garota que ele é apenas o vendedor de cachorro-quente. Conversa, gentileza, dividir um baseado, é uma coisa. Namorar uma garota da turma é outra bem diferente.

O porteiro do prédio em que mora Nina avisa ao "doutor" que a filha está namorando um garoto do morro. Primeiro, tranqüiliza. Diz que o rapaz é honesto e trabalhador. Depois, assusta. É preciso cuidado para que não venha uma gravidez indesejada: "sabe como são esses jovens", diz ele. Afinal, ele é porteiro. Há muito tempo, aprendeu a ficar no lugar que lhe cabe na sociedade.

O pai se assusta. Ser pobre não é problema. Vender cachorro-quente é honesto. Mas, atravessar a avenida para namorar sua filha, já é muito abuso.

Quando Nina vai visitar o morro, Dé mostra o prédio em que ela mora. É possível ver a área de serviço dali. Ele diz que sempre esperou que ela aparecesse para poder vê-la. Mas, ela nunca foi à área de serviço. Claro. Não é um lugar da casa que ela freqüente. É onde fica a criadagem.

Dé quer estudar para melhorar de vida. Quer sair do morro e merecer a princesa loira. Quer vir pro lado de cá. Quem está do lado de lá, mesmo, é seu irmão de adoção. É Carlão (Rocco Pitanga), que foi preso sem cometer crime algum. Mas, é negro. Foi para a cadeia e ficou por lá. Se entrou inocente, saiu criminoso. Aderiu ao tráfico. Era o jeito de ficar vivo, disse ele ao irmão.

Carlão não tem dúvidas sobre seu destino. Se quiser melhorar de vida, será do jeito que lhe sobrou. Tomando o morro e controlando o tráfico. Quando se endivida com outros traficantes e policiais corruptos, Carlão apela. Ele não tinha ilusões sobre a possibilidade de entrar no mundo dos brancos e ricos. Por isso, não vacilou. Seqüestrou a namorada rica de seu próprio irmão. Na confusão, acaba morrendo. Carlão nasceu do lado de lá e por lá ficou.

Apesar de tudo isso, o casal continua firme. Acham que o amor vencerá todas as barreiras. Tentam fugir para viver juntos e felizes. O apartheid não permite e o final é trágico.

Apartheid é uma palavra que veio da África do Sul e quer dizer separação. No Brasil, não existe apartheid oficial. Nunca houve leis proibindo a convivência de brancos e negros. Mas, não é preciso. No Brasil, os pobres são quase todos negros. Só isso já é suficiente para lhes mostrar onde é seu lugar. Mas, se houver dúvidas, a polícia e o Estado em geral se encarregam de deixar bem claro. Os pobres que não são negros sofrem menos discriminação. Mas, sofrem. É assim que funciona o apartheid brasileiro.

Cumprimentar e ser gentil com porteiros, empregadas, motoristas, garçons e balconistas é uma coisa. Dividir a mesma mesa, acolher em casa, ver a irmã ou a filha casar com um deles? Ah, isso já é uma coisa bem diferente.

A grande diferença é que estamos no Rio de Janeiro. A pobreza fica logo ali, no alto e em volta. Em seus morros, ela se debruça sobre a riqueza e o luxo. A vista do mar e das montanhas lá de cima é linda. Mas, das lajes e quintais das favelas também é possível ver as piscinas das coberturas luxuosas. Onde trabalham os que vivem nos morros.

O final do filme é decepcionante. Só se explica por uma razão. O que interessa ao diretor não é o conto de fadas que o título sugere. Mas, mostrar uma sociedade dividida. O apartheid de um jeito muito brasileiro. Se o filme de Breno Silveira vale alguma coisa, é por isso.

Sérgio Domingues

1 de jul. de 2008

Disputando nossos símbolos com a direita

“Personal Che” mostra como Guevara virou santo, garoto-propaganda e até ídolo de neonazistas. Mas, os símbolos dos socialistas estão em disputa. Cabe a nós não perdê-los para os inimigos.

Para fazer seu documentário, Douglas Duarte e Adriana Marino viajaram por vários países do mundo. Seu objetivo era ver o que Che Guevara representava para as pessoas, mais de 40 anos depois de sua morte. Estiveram na Bolívia, China, Alemanha, Estados Unidos, Líbano e Cuba.

Na pequena vila boliviana de La Higuera, Guevara foi covardemente assassinado pelo exército daquele país com ajuda da CIA. A maioria de seus habitantes passou a considerá-lo um santo, com direito a velas e oratório. Em Cuba, o filme dá destaque a um admirador bem mais informado. Conhece muitos detalhes da vida e da morte do Che. Só não conhecia as famosas fotos de Guevara morto. Aparentemente proibidas ou de circulação restrita em Cuba.

No Líbano, a vida de Guevara é tema de um musical. O ator que o interpreta também mostra conhecer bem o personagem. Mas, coloca-o no mesmo nível de seus ídolos religiosos islâmicos. Em Hong Kong, um deputado é voz isolada no parlamento local. Inspirado no revolucionário argentino, ele se reivindica marxista e denuncia a repressão e exploração do regime de seu país.

Um porto-riquenho que mora nos Estados Unidos tem enorme coleção de camisetas, pôsteres, quadros de seu ídolo. É mais um fã do que um seguidor político de Guevara. O filme também mostra o Che adotado pelo mundo da moda. A famosa foto de Alberto Korda virou estampa em roupas usadas por pessoas de todas as classes sociais. Mas, a maioria mal sabe dizer quem foi ele.

Da Alemanha vem o exemplo mais chocante. Um grupo neonazista adotou Guevara e Hitler como seus ídolos. Ambos teriam sido “revolucionários que lutaram pela liberdade de suas pátrias”.

Tudo isso mostra que Che Guevara tornou-se uma grande figura simbólica. Alguns elementos foram determinantes para isso. Um deles foi ter vivido em uma época que começava a ser marcada pela expansão mundial dos meios-de-comunicação. Sua figura correu o mundo facilmente. E sua opção pela luta armada também ajudou a torná-lo popular junto a um público acostumado pela própria indústria cultural a admirar ações heróicas a cargo de indivíduos corajosos.

O problema é que os mesmos meios que o tornaram popular se encarregaram de apagar e embaralhar muitos detalhes sobre sua vida. Com isso, muitos de seus admiradores encaixam sua figura no que lhes parecem ser causa dignas por que lutar. Mesmo que algumas acabem pertencendo à vergonhosa sujeira fascista. Este é o grande risco que envolve as figuras simbólicas.

Não há como nos livrarmos dos símbolos. Os seres humanos tornaram-se simbólicos desde que aprenderam a dar nome às coisas. Por outro lado, os símbolos não são neutros, nem são fixos. Menos ainda em uma sociedade de classes. A classe dominante transforma tudo em mercadoria e utiliza valores a seu favor. É só ver o uso que a propaganda voltada para os jovens faz do Maio de 68, por exemplo. Ou a transformação de lutas populares em episódios românticos de novelas, filmes e minisséries.

Claro que transformar a vida e a obra de revolucionários socialistas em símbolos de luta é importante. No entanto, cada vez que tornamos um deles um herói quase santo, abrimos brechas para que nossos inimigos se aproveitem.

Marx, Engels e Lênin também se tornaram alvo de um culto quase religioso. Stalin foi o maior dos coveiros da revolução de 1917. Mas para melhor enterrá-la inventou uma mitologia revolucionária. Transformou o pensamento marxista em um evangelho. Alguns de seus formuladores em apóstolos. Outros, em Judas a serem perseguidos, como fez com Trotski e quase todos os líderes da Revolução Russa. E para si mesmo, Stalin reservou a função de grande sacerdote. Algo muito parecido ocorreu em Cuba, onde Che também virou um santo oficial.

Quando escolhemos fazer tal uso dos símbolos, adotamos o campo de batalha do inimigo. As religiões não são necessariamente conservadoras. Apenas quando são usadas para justificar a dominação e a exploração. Os camponeses de La Higuera cultuam Guevara como a um santo. Mas, pelo menos, é positivo que vejam nele alguém que lutou por justiça.

Já os santos inventados por Stálin, foram utilizados para reforçar o poder da classe que dominava o Estado soviético. Sua função era conservadora. A construção do socialismo passa a ser coisa de uns poucos iluminados. As ações e escritos de grandes lutadores viram fórmulas que são repetidas automaticamente. Partidos e organizações tornam-se seitas dominadas por cardeais. Nossos símbolos e idéias somem na circulação geral das mercadorias e valores da burguesia.

O documentário dá a entender que o verdadeiro Che já se perdeu. Não é o caso. De Guevara, temos a obra escrita, as ações políticas, biografias e estudos sobre sua atuação. Elementos que permitem entender como pensava e o que defendeu. Possibilitam tirar lições, seguir exemplos e evitar erros. O Che é uma importante referência para quem luta pelo socialismo. Aceitá-lo como santo ou infalível é entregá-lo ao inimigo.

Sérgio Domingues – Julho de 2008

Mídia Vigiada em novo endereço

Depois de que minha página sumiu do Kit.net, cá estamos num blog do Google. Antes era o monopólio da Globo. Agora, é o da Google. É assim que ficamos sempre muito perto da grande mídia.
Aparentemente, um vírus atacou o site da Globo.

16 de abr. de 2006

Os inteligentes quadrinhos italianos

Que tal um gibi de estórias policiais cuja personagem principal cita Durkheim para afirmar que o crime é um fato social? Ou um gibi de aventuras do velho oeste que mostra como os “heróis” americanos massacraram os indígenas. São os sofisticados e inteligentes quadrinhos italianos.


Os gibis mais vendidos são geralmente feitos em formato grande, coloridos, com heróis cheios de super-poderes, vilões monstruosos e estórias em que bem e mal são resultado de opções morais. Não é caso dos gibis que vamos comentar abaixo. Eles são publicados em formato pequeno, em branco e preto, e procuram explicar a maldade do ponto de vista histórico e social.


Pra começar, que tal um gibi de estórias policiais cuja personagem principal cita Durkheim para afirmar que o crime é um fato social? E se em outra aventura houver uma citação de Paulo Freire, que consta em um documento dos índios iroqueses apresentada em uma conferência da ONU, em 1977? Estamos falando de “Aventuras de uma criminóloga”, história em quadrinhos que tem como heroína Julia Kendall. Ela é criação do talentoso roteirista italiano Giancarlo Berardi.


Junto com o desenhista Ivo Milazzo, Berardi ficou famoso pela criação do caubói politicamente correto, Ken Parker (clique aqui para saber mais sobre Parker). E tal como nas tramas que inventou para Parker, Berardi procura dar à Julia um perfil  progressista. Alguém que não se dobra a idéias conservadoras sobre as razões que levam alguém a cometer crimes. E diante do pior assassino em série, tenta compreender as razões psicológicas e sociais que o levaram a cometer seus atos terríveis.


Agora, imagine um gibi de aventuras do velho oeste que denuncia a corrupção envolvendo agentes governamentais atuando em reservas indígenas, por exemplo. Mostrando toda a sujeira dos “heróis” brancos norte-americanos. Uma trama em que democratas e republicanos, nortistas e sulistas tem lá suas brigas, mas se entendiam muito bem na hora de garantir lucros pela exploração e massacre de indígenas. Trata-se de “Mágico Vento”. Uma revista de HQ criada pelo também italiano Gianfranco Manfredi. O personagem principal do gibi é Ned Ellis. Um soldado que foi o único a sobreviver a um massacre que o deixou desmemoriado e com poderes místicos. Por isso, recebeu dos índios Sioux que o resgataram o nome que dá título ao gibi.


Mas ao contrário do que muitos podem pensar, as aventuras de Júlia e Ned não são chatas. Tanto Berardi como Manfredi conseguem dar às estórias que escrevem um ritmo digno dos melhores filmes de ação e suspense.


As duas publicações são editadas na Itália pela Bonelli e, no Brasil, pela Mythos. As duas editoras também são responsáveis por outros títulos de boa qualidade. É o caso de Dylan Dog, um detetive muito peculiar. Ele se dedica a investigar casos ligados ao sobrenatural. Presta seus serviços no combate a vampiros, lobisomens, fantasmas e alienígenas. Mas é outro herói cujas estórias também abordam a violência doméstica, racismo, autoritarismo etc. Outra característica que o iguala à criminóloga e ao soldado místico é seu auxiliar. Dylan Dog tem como parceiro de aventuras nada menos do que Groucho Marx, sempre pronto a soltar as piadas mais infames. A parceira de Júlia, por sua vez, é uma empregada chamada Emily, cujo tipo físico lembra o da atriz Woopi Goldberg. Emily protege a patroa como se fosse sua filha mas nunca deixa de fazer seus discursos furiosos e engraçados contra o racismo dos brancos e o machismo dos homens. Já Ned Ellis tem como aliado fiel ninguém mais do que Edgar Allan Poe, cujo o amor pela bebida só é superado pela revolta contra as injustiças.


Um problema que poderia ser levantado contra nossos heróis é o fato de nenhum deles viver suas aventuras na Itália. As estórias de Julia e Ellis se ambientam nos Estados Unidos. Dylan atua na Inglaterra. Pode ser fruto de colonialismo. Mas, também é uma forma de falar mais universalmente. Quer coisa mais universal do que bangue-bangue e tramas policiais e de terror? E tudo isso em quadrinhos?


Em seu auge, os limites do Império Romano eram os mesmos do mundo conhecido pelos europeus. No mundo do século 20, os limites geográficos dos novos e antigos impérios capitalistas ficaram bem definidos. Mas a dominação cultural da língua e dos usos anglo-saxões ultrapassaram as fronteiras e atingem o planeta inteiro. Os artistas italianos podem estar seguindo a velha máxima imposta por seus ancestrais: “Quando em Roma, faça como os romanos”. É uma forma de resistir. Usar os bonitos cenários deles para deixar ver os pilares podres que os sustentam: uma sociedade doente que leva seus integrantes a cometer crimes bárbaros. Heróis que não passaram de assassinos dos povos e dos animais originais das terras americanas.